Você quer aplicar uma boa aula de Pilates para crianças? Então é necessário conhecer o raciocínio lógico infantil. Entenda como a criança pensa e elabora suas construções mentais, seu pensamento e todo o seu universo infantil. Só assim você conseguirá despertar seu interesse.

Esse mundo ao qual me refiro foi muito bem decifrado e elucidado por Jean William Fritz Piaget. Para trabalharmos com o Pilates Kids não basta o conhecimento técnico do método Pilates. Esse nem preciso citar ser imprescindível.

Também se torna obrigatório ao instrutor o conhecimento profundo de como a criança funciona, pensa e administra seus problemas cotidianos.

Quem é Jean Piaget?

Jean Piaget é considerado até hoje um dos mais importantes escritores do século XX. Ele nasceu em Neuchatel (Suíça) em 09 de agosto de 1896, se formando em psicologia, biologia e epistemologia.

Na Universidade de Genebra foi professor de 1929 a 1954. Ele desenvolveu a Epistemologia Genética, teoria do conhecimento baseado no estudo observatório da gênese psicológica do pensamento humano. Tornou-se mundialmente reconhecido por causar reboliço com o desenvolvimento de sua teoria epistemológica.

Piaget é autor de aproximadamente cinquenta livros e diversos artigos científicos.

Em 1919, mudou-se para Paris para começar seu trabalho no Instituto Jean-Jacques Rousseau. Nessa época iniciou seus estudos sobre o universo infantil e começou a publicar artigos voltados para o desenvolvimento neuro-psico-motor infantil.

A partir de 1925 Piaget começou a conviver diariamente com crianças e aguçar sua visão sobre seu desenvolvimento. O motivo dessa inspiração foi o nascimento de seus filhos.

Piaget iniciou de suas observações diárias, as quais deram origem a novas hipóteses sobre as origens da cognição humana. Durante esse período em Paris conheceu Theodore Simon que o convidou a padronizar os “testes de raciocínio de Cyril Burt. Assim, Jean Piaget começou a entender o pensamento infantil e seu raciocínio lógico.

Epistemologia Genética

Epistemologia Genética é o nome que se dá a teoria de Jean Piaget. É o estudo científico que trata dos problemas relacionados com a crença e o conhecimento, sua natureza e limitações.

Piaget queria compreender como um indivíduo evoluiria de um conhecimento primário (menor) para um nível de conhecimento maior (superior) baseado em suas crenças. Tudo isso a partir do conhecimento biológico.

A biologia também influenciou a teoria piagetiana concebendo que a inteligência se desenvolve a partir do meio que o indivíduo convive. O modelo explica como se processa a construção da inteligência humana a partir da:

  • Ação (man

O modelo explica como se processa a construção da inteligência humana. O sujeito interage com os objetos de que dispõe e constrói a partir dessas ações estruturas de inteligência. Com as novas estruturas ele constrói modelos mais elaborados de adaptação e, portanto, inteligência.

Para Jean Piaget, o recém-nascido traz consigo condições genéticas e da espécie para se tornar inteligente. Conforme interage com o meio (ambiente em que vive), torna-se capaz de construir estruturas para se adaptar a novas situações. Ele constrói assim, estágios sucessivos de desenvolvimentos de pensamentos mais elaborados.

Os Estágios Cognitivos Segundo Piaget

Piaget utilizou um enfoque diferente para descrever a aprendizagem. Ele separa o processo cognitivo inteligente em duas palavras:

  • Aprendizagem;
  • Desenvolvimento.

Para o autor, a aprendizagem atribui-se à aquisição de uma resposta pessoal, adquirida através da experiencia individual. Já o desenvolvimento é o responsável pela construção do conhecimento em si, que seria a aprendizagem de fato.

Piaget divide o desenvolvimento neuro-psico-motor da criança em 4 estados, que chama de fases de transição. Essas 4 fases são:

  • Sensório-motor (0 – 2 anos);
  • Pré-operatório (2 – 7,8 anos);
  • Operatório-concreto (8 – 11 anos);
  • Operatório-formal (8 – 14 anos);

Estágios de Jean Piaget:

Período Sensório-motor (0 – 2 anos)

pilates para crianças no período sensório motor

Período de experimentação em que o bebê reage e explora o meio através de seus reflexos inatos. Ele busca desenvolver sua motricidade.

A inteligência nesse período é eminentemente prática, baseada essencialmente na experiência imediata através dos sentidos e do movimento. Ele utiliza as sensações de prazer e desprazer para aprender.

O bebê nesse período é indissociável da mãe. Eles, para o bebê, são um único ser.

A criança parte de reflexos inatos para a resolução de seus problemas, exemplificando: o bebê tem um problema a ser resolvido, a fome, que se resolve a princípio através do seu reflexo de sucção.

A partir da maturação neural desse reflexo a nível central, esse reflexo vai desaparecendo, sendo sobrepujado pelo controle dos músculos da face responsáveis pela sucção.

Nesta fase não existe ainda a linguagem. Como nessa fase o bebê e a mãe são um único ser não faz sentido separa-los para atividades físicas.

Período Pré-operatório (2-7 anos)

pilates para crianças no período pré-operatório

A criança pré-operatória possui pré-conceitos, portanto intui conceitos, por ainda não os possuir verdadeiramente.

Nesta fase os reflexos já desapareceram e a criança não está mais presa ao seu meio sensorial. Ela consegue conduzir dentro de seu meio simbólico seus pensamentos.

A linguagem começa a aparecer nessa fase, sendo o período mais relevante de sua capacidade de aprendizagem e de desenvolvimento. Esse período encontra-se dividido em simbólico e intuitivo:

– Período Simbólico (2 – 4 anos): aparece de fato a linguagem, surgem também o desenho e a imitação, aparecimento do animismo. A criança acredita que qualquer ferramenta ou objeto possui uma vida como a sua. Por isso o peixe fala ou o cachorro tem roupas.

– Período Intuitivo (4 – 7 anos): momento em que as crianças podem começar a praticar o Pilates Kids já que ocorreu a maturação completa. Portanto já têm controle dos seus músculos abdominais, que até então não possuía, a criança até perto dos 4 anos, observem, levantam-se do chão com o apoio das mãos ou viram-se de lado para tal ato motor.

Nesse momento elas entram na fase dos jogos simbólicos e aparecem com seus significados únicos e ilógicos. A criança encontra-se apta para distinguir a realidade da fantasia, é a conhecida fase dos porquês.

Fase caracterizada pelo egocentrismo, não tem capacidade de modificar as regras de um jogo, por exemplo.

Período Operatório-Concreto (7 – 11 anos)

pilates para crianças no período operatório-concreto

Neste momento a criança inicia seu desenvolvimento do raciocínio lógico. A criança gosta de se socializar e de participar de grupos maiores. Ela compreende muito bem as regras, e se permite liderar e ser liderada, desde que concordem com as regras.

Conforme abandonam o pensamento mágico e as fantasias tornam-se exageradamente concretas. A capacidade de compreensão do mundo é neste período tão lógica quanto antes era ilógica.

A criança adora desafios e já tem condições de elaborar experiências concretas como:

  • Tabelas;
  • Esquemas;
  • Objetos.

Porém seu senso de justiça ainda não está muito bem desenvolvido. Se durante algum jogo uma das crianças não possuir condições de competir de igual para igual, as crianças ainda não conseguem ter um entendimento desta diferença. Logo não é capaz de enxergar desigualdades em seu grupo.

Período Operatório-formal(8-14 anos)

Nessa fase o pré-adolescente já é capaz de raciocinar sobre possíveis hipóteses. Ele começa a entender a interpretação das palavras se e então.

Aumentam seu raciocínio lógico, aprendem a coordenar ideias abstratas, caracterizando esta fase pelo auge do desenvolvimento de sua inteligência. O erro deve ser discutido nessa fase com o pré-adolescente.

Como usar a teoria de Piaget em nossas aulas de Pilates para crianças

Montar uma aula de Pilates para crianças tornou-se um desafio. À medida que os pais começam a experimentar os benefícios do Pilates, é natural que queiram estender esses benefícios aos filhos.

Sabemos que Joseph Pilates tinha dois sonhos:

  1. Que seu método se espalhasse pelo mundo para ajudar muitas pessoas.
  2. Que o método pudesse ser praticado pelas crianças para que não perdessem seus movimentos naturais.

Porém, não é tão fácil realizar esse seu segundo sonho. Os fisioterapeutas têm dificuldade em especial por não terem graduação voltada a esportes e jogos infantis. Portanto, antes de montar uma aula de Pilates Kids, devemos entender o universo infantil. É extremamente importante saber identificar em qual fase de desenvolvimento neuro-psico-motor nosso aluno se encontra.

Aulas de Pilates para crianças do período sensório-motor

período operatório motor

Segundo Piaget uma criança no período sensório-motor não está preparada neurologicamente, psicologicamente ou com seu sistema motor para praticar Pilates. Durante esse período a criança se desenvolve baseando-se em sensações de prazer e desprazer.

Ela explora o mundo a partir de reflexos inatos, sem conseguir compreender que seu corpo é uno. Pelo contrário, uma criança nesse período ainda se considera como parte do corpo da mãe.

A sugestão para essa fase são as aulas oferecidas para mães com seus bebês. Aproveite o momento para gerar prazer para a criança em momentos divididos com sua mãe.

A mãe também aproveitará o momento para recuperar sua forma física ao praticar Pilates com maior carga. Como o Pilates com bebês é realizado com a criança no colo (canguru), o instrutor pode otimizar os exercícios. Dá até para realizar um trabalho de fortalecimento dos membros superiores com o bebê nas mãos da mãe.

Aulas de Pilates para crianças no período pré-operatório

aulas para crianças no período pré-operatório

A partir dos 4 anos o corpo está pronto para a prática do Pilates para crianças. Nessa idade eles já conseguem ativar a musculatura do abdômen para realizar rolamentos e outros exercícios exigidos no Pilates.

Qualquer instrutor que dê Pilates para crianças dessa fase precisa de uma grande imaginação. Aulas com exercícios repetidos fazem com que o aluno perca a atenção rapidamente. Esse é o período mais importante para sua aquisição de experimentação motora e cognitiva.

Para que a aula seja um sucesso, o Pilates Kids deve ser um grande jogo. O instrutor faz parte desse mecanismo, utilizando o jogo simbólico descrito por Piaget.

Durante a aula o instrutor deve aproveitar dos jogos para manter a motricidade da criança, com seus agachamentos naturais perfeitos. Também é importante aprimorar seu equilíbrio e propriocepção sem se preocupar com a força do Power House.

O fator mais importante nessa fase é a priorização dos rolamentos para manter esse corpo móvel pelo maior tempo possível. Isso é importante porque na fase seguinte a criança já está interessada na tecnologia, gerando uma fase mais inativa.

Apesar de ser extremamente egocêntrica, a criança já entende que seu corpo não é o mesmo da mãe. Podemos caracterizar essa como a fase do egocentrismo, portanto seria o ideal aplicar aulas individuais. A criança não consegue entender o desejo e a vontade alheia, tornando-se muito difícil adiciona-la a um grupo.

Como deve ser a aula

Cada aula deve ser um novo jogo, fazendo com que a comunicação entre o instrutor e a criança seja baseada no simbolismo e animismo. As regras sempre devem ser bem explicadas para a criança. Lembre-se que durante o jogo elas são inegociáveis. Quando a criança descumpre alguma regra ela deve saber que será sancionada do jogo e ficará no cantinho do silêncio.

De acordo com várias teorias psicológicas, a sanção deve corresponder a um minuto por ano da idade da criança. Quando as regras do jogo do dia forem estabelecidas, a criança deve ser incentivada a contar uma história ou sonho ou o que quiser dividir.

O jogo se baseará nessa história, que será a narrativa da aula. Nesse momento, o animismo deve prevalecer, transformando o instrutor num super-herói, bandido, animal, etc.

O Reformer pode falar e virar uma charrete para o príncipe com a princesa, por exemplo.

Devemos aproveitar esse jogo simbólico para que a criança experimente novas situações e adquira a capacidade de resolver seus problemas. Para Piaget é assim que se construirá a sua aprendizagem.

Papel do instrutor

O instrutor se utiliza de imitações, danças e teatro para construir suas aulas. Essa é uma época em que a criança faz Pilates porque alguém mandou, não por convicções pessoais. O trabalho durante a aula deve ser feito com limites, regras e normas, mas solicitando a participação do aluno a partir de suas representações de realidade.

O instrutor é o líder e a criança a liderada. Em momento algum a criança pode interpretar o instrutor como amigo. Ela tentará, porque essa também é a fase da graça. É importante resistir à criança, sendo sempre o líder.

O trabalho com a criança perde o sentido quando o instrutor perde o controle do jogo. Por isso não podemos esquecer que antes de tudo o aluno veio para praticar Pilates, não para brincar.

Aulas de Pilates para crianças do período operatório-concreto

Chegando nessa idade a criança já está desinteressada em histórias infantis. Ela também já possui pensamento racional, acessando seu conhecimento, classificando e organizando informações.

No Pilates para crianças, o aluno não pode mais imitar, mas sim operar com seus conhecimentos para resolver os problemas. Nesse caso, seria realizar os exercícios.

O objetivo da aula de Pilates já é identificar encurtamentos, fraquezas e desequilíbrios posturais. A vida cada vez mais sedentária do nosso aluno leva ao aparecimento desses problemas mais cedo. É de nossa responsabilidade corrigi-los a partir de nossos conhecimentos biomecânicos.

Na fase anterior queríamos manter seus movimentos naturais. Porém agora temos um aumento na responsabilidade já que precisamos começar a corrigir esses movimentos ou recuperá-los.

Estamos trabalhando com uma idade que a criança é demasiadamente competitiva. Os instrutores podem usar essa competitividade no planejamento das aulas. Também ficara mais interessantes aulas em grupo para que os alunos possam competir entre si.

As regras da competição devem ser muito bem definidas antes da competição começar. Aqui as crianças precisam concordar ou até sugerir novas regras. O importante é que o instrutor fique atento porque o senso de justiça ainda não está bem desenvolvido.

É muito provável que a criança seja incapaz de identificar que outros alunos estão em desvantagem na competição. Portanto, o instrutor deve incluir regras que garantam a inclusão  de todos os alunos.

Uma vez que as regras forem estabelecidas e os alunos concordarem elas não podem ser mudadas.

Nessa fase é importante que a criança entenda que nem sempre se ganha. Às vezes ela pode ficar descontente com esse fato.

Durante essa fase é interessante trabalhar experiências concretas como esquemas, tabelas e objetivos.

A aula deve tornar-se cada vez mais desafiadora porque a aprendizagem se dará pela observação de como a criança e o oponente agiram para solucionar o problema. É importante sabermos lidar com a autonomia dessa criança, que parte dos 7 anos e vai até os 11.

As molas podem ser para ganho de força já que o Pilates não impede o crescimento da musculatura com a fluidez do seu trabalho. Devemos, no entanto, ficar atentos para não gerar rigidez. O corpo infantil está disponível para nossa moldagem e deve ser bem trabalhado.

A partir dos 9 anos podemos trabalhar a força do Power House, porém com muita mobilidade nas aulas de Pilates para crianças.

Aulas de Pilates para crianças do período operatório-formal

período operatório motor

Montar uma aula de Pilates para um pré-adolescente é extremamente difícil, ao menos para mim. Nessa fase através da linguagem bem aprimorada ele consegue elaborar suas próprias teorias de explicação. Elas servem para não cumprir o exercício proposto.

Nesse momento da vida também estamos diante das formações das terríveis escolioses idiopáticas. O pré-adolescente também é pura ebulição de hormônios, que inicia aproximadamente aos 12 anos e vai até mais ou menos 20 anos. Aos 20 anos a formação e aquisição do conhecimento devem estar completadas segundo Piaget.

Para trabalhar com um pré-adolescente o instrutor deve tentar virar seu amigo. É necessário contar suas experiências vividas nessa fase para conquistar a confiança do aluno. Ou seja, o instrutor também deve se tornar um adolescente.

A única maneira de convencer esse tipo de aluno a fazer os exercícios e praticar é mostrando as consequências caso ele não faça tudo corretamente. Ele já é capaz dessa compreensão abstrata. Use frases como:

Caso você não faça esse exercício sua escoliose não vai melhorar.

Podemos lidar também com a vaidade adquirida nessa faça e usarmos como nossa aliada. Frases como essa se tornam bons motivadores:

Caso você faça os exercícios propostos vai ficar com melhor postura e mais atraente.

Erros são bem frequentes nessa fase. Eles não devem ser ignorados, sendo discutidos e apontados para o aluno.

Nossa aula deve ter como objetivo tratar o que encontrarmos. Se estivermos diante de uma coluna do tipo funcional estática, bastante mobilidade. Ao contrário, caso estejamos diante de uma coluna do tipo funcional dinâmica priorizaremos a forca de núcleo.

Conclusão

Como vimos não é fácil trabalhar com o Pilates para crianças. A não ser que esta seja a escolha direta do instrutor, para mim, deve-se gostar demais do universo infantil para se dedicar somente a ele.

Trata-se de uma escolha pessoal que deve ser feita com consciência e dom. Espero ter deixado algumas, dicas, de aprendizagem, pedagogia e de psicologia, seguindo a teoria de Jean Piaget que possa acrescentar ao trabalho de cada um, tentei explicitar e deixar algumas dicas comportamentais seguindo os estudos do principal autor desse universo infantil para vocês.