Você com certeza conhece alguém com patologias, lesões ou dores no ombro, mesmo que não seja seu paciente. Esses problemas são muito comuns e, como quero mostrar nesse artigo, muitas vezes estão relacionados a desequilíbrios nas escápulas.

Precisamos entender que os membros superiores só terão bons movimentos fisiológicos se as escápulas funcionarem de maneira adequada. Essas estruturas estão presentes durante todo o movimento do complexo articular do ombro.

Também são importantes para que a articulação glenoumeral funcione corretamente (nem preciso te lembrar que muitas vezes temos patologias e lesões relacionados a essa articulação). As escápulas atuam em todo o movimento dos membros superiores, mas são especialmente importantes na elevação do ombro acima de 90º.

Elas se movimentam em 3 eixos de rotação, sendo seus planos de movimento no:

  1. Plano Frontal – ocorre rotação da escápula para cima e para baixo (de acordo com a orientação da fossa glenóide para cima e para baixo, respectivamente);
  2. Plano Transverso – rotação interna e externa (fossa glenóide orientada para anterior e para posterior, respectivamente) e,
  3. Plano Sagital – inclinação anterior e posterior (quando o acrômio desloca-se anterior ou posteriormente, respectivamente). As alterações biomecânicas de seu movimento são conhecidas como discinesia escapular.

O que acontece quando existe Desequilíbrio das Escápulas?

Como sempre acontece com estruturas articulares e musculares, muitos alunos apresentam escápulas em desequilíbrio. Seu movimento nos três planos que descrevi acima são essenciais para um bom deslocamento do úmero.

A escápula melhora também a coaptação da articulação glenoumeral. Isso acontece porque ela serve como uma plataforma estável que auxilia na ativação dos músculos proximais.

Nem sempre essa sua atuação acontece de maneira eficiente. Nesse caso teremos desequilíbrios dos movimentos das escápulas chamados de discinesia escapular. Trabalhando com patologias e lesões do ombro você verá casos de discinesia escapular com frequência. Ela é relacionada a diversos problemas no complexo articular do ombro.

Entre esses problemas podemos incluir a síndrome do impacto. Pacientes com o problema costumam ter problemas no próprio posicionamento da escápula, como:

  • Menor Inclinação Posterior
  • Rotação Superior
  • Rotação Externa

Essas alterações são responsáveis por aumentar a compressão no espaço subacromial. Como resultado, o paciente eventualmente desenvolverá os sintomas e dores que caracterizam a síndrome.

Relacionamos o surgimento da discinesia escapular a uma falta de controle neuromuscular das escápulas. Portanto, quando encontrar esses tipos de alterações nos seus alunos será preciso ter um profundo conhecimento biomecânico da condição. Assim conseguimos melhorar nossa avaliação do problema e elaborar um tratamento mais eficiente.

Também conseguimos mais resultados no alívio dos sintomas de patologias do ombro relacionadas e retorno mais rápido à atividades diárias. Entendeu por que precisamos conhecer os desequilíbrios das escápulas e como eles surgem?

Só quero fazer uma observação aqui: não confunda escápula alada com discinesia escapular.

Alguns usam os termos como se fossem sinônimos, mas eles representam problemas bastante diferentes. A escápula alada é causada por uma lesão no nervo torácico longo. É um termo que fala sobre perda de controle dos movimentos voluntários da estrutura. Encontramos tal situação em pacientes com lesões neurológicas centrais.

Causas da Discinesia Escapular

De acordo com Burkhart, Morgan e Kibler a discinesia escapular pode surgir de vários fatores. Entre eles estão:

  • Má Postura Corporal (excessiva cifose torácica ou lordose cervical)
  • Lesões Nervosas
  • Disfunções Proprioceptivas
  • Fraturas da Clavícula
  • Lesões Acromioclaviculares

Além desses fatores, encontramos alterações na ativação e coordenação dos músculos estabilizadores da escápula. Também é possível que o paciente tenha alterações nos movimentos escapulares por falta de flexibilidade, fraqueza e contratura de estruturas no complexo articular do ombro.

Essas duas situações são muito comuns e você precisará descobrir quais são as compensações que existem nesse corpo.

Se a escápula for incapaz de desempenhar seu papel estabilizar teremos um complexo do ombro pouco eficiente. Isso gera alterações nos padrões de movimento do indivíduo. Como consequência, o ombro torna-se mais instável e propenso a lesões como:

  • Capsulite Adesiva
  • Síndrome do Impacto

Kibler e McMullen determinaram que boa parte dos pacientes com lesões e patologias do ombro apresentavam discinesia escapular. Entre eles encontramos:

  • 68% dos Pacientes com Síndrome do Impacto
  • 94% dos Pacientes com Lesão Labral
  • 100% dos Pacientes com Instabilidade Glenoumeral

Não podemos confundir essa relação com uma causa. Nem sempre a discinesia escapular foi a origem do problemas.

É possível que ela seja uma compensação secundária causada pela lesão ou patologia do ombro. De qualquer maneira, é preciso identificá-la e corrigi-la durante o tratamento.

Músculos Importante no Trabalho com as Escápulas

Ao elevarmos o membro superior, as escápulas precisam rodar para cima e externamente. Elas também precisam realizar uma inclinação posterior. Para a realização desses movimentos precisamos de músculos serrátil anterior e trapézio funcionando de forma funcional.

São esses músculos que contribuem para uma escápula bem posicionada em qualquer movimento de elevação do ombro. Sua ação ajuda a posicionar a escápula corretamente.

O serrátil anterior, por exemplo, é um dos principais fixadores das escápulas na caixa torácica ao realizar elevações do membro superior. Quando o paciente possui um serrátil enfraquecido ele terá problemas na rotação externa da escápula.

Como sabemos, os movimentos da escápula são essenciais para ter uma boa elevação do membro superior. Para complementar esse movimento, temos a ação do trapézio em sua porção média e inferior. Eles auxiliam a realizar uma boa rotação externa da escápula e elevação do ângulo superomedial da escápula.

Quando trabalhamos com carga existem outros fatores que podem contribuir para o desenvolvimento de lesões do membro superior:

  • Diminuição da Rotação para Cima
  • Aumento da Inclinação Anterior
  • Aumento da Rotação Medial da Escápula

Tais compensações também levam a uma diminuição do espaço subacromial e consequente compressão de suas estruturas.

O peitoral menor encurtado também pode contribuir para uma diminuição da inclinação posterior e rotação interna aumentada da escápula nesses movimentos.

A influência do peitoral menor acontece por ser um músculo chave para o funcionamento do ombro. Suas ações só acontecem corretamente quando ele está livre de encurtamentos e tensões. Um peitoral menor encurtado diminui a inclinação posterior da escápula.

Assim, perdemos um movimento que diminuiria bastante a compressão de estruturas subacromiais e garantiria um movimento seguro.

Conclusão

As escápulas são estruturas que ajudam a garantir movimentos funcionais e seguros do ombro.

Considerando a quantidade de pacientes que desenvolvem patologias e lesões nesse complexo articular, podemos imaginar que a discinesia escapular é bastante comum.

Aprenda a trabalhar com as escápulas, corrigir seus movimentos e eliminar compensações relacionadas a ela e você perceberá que seu tratamento para ombro se torna muito mais eficiente.

 

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