Quando falamos em causas das patologias do quadril precisamos inevitavelmente observar estruturas da cintura pélvica. Esse é o lugar no qual se anulam a força de peso normal e força solo.

Ela é composta pelos dois ilíacos e o sacro, que formam a articulação sacroilíaca. Tal articulação é responsável pela transferência de carga e forças entre os membros inferiores e a parte superior do corpo, assim como para a sínfise púbica.

Considerando seu papel de transferência de forças já é possível imaginar como pequenos desequilíbrios influenciam a região.

Preste atenção nesse pequeno detalhe, existe no quadril uma estrutura chamada de acetábulo. Essa é a parte óssea côncava formada pela fusão dos ossos:

  • Ilíaco
  • Ísquio
  • Púbis

O acetábulo possui um anel de fibrocartilagem que atua para aprofundá-lo e garantir mais estabilidade. Esse é o lábio do acetábulo. Apesar dessa estrutura, ainda existe uma ligeira mobilidade nos ossos que formam o acetábulo.

Ela é uma mobilidade pequena, mas capaz de causar desequilíbrios e desarranjos musculares, desvios posturais e, claro, patologias. Isso acontece especialmente pela mobilidade ilíaca, que condiciona a estática e dinâmica dos membros inferiores.

Vamos entender um pouco mais sobre as causas das patologias do quadril.

Ilíacas e Mobilidade

As asas ilíacas são braços de alavanca essenciais para as cadeias musculares do tronco e do membro inferior. Elas possuem mobilidade que determina seu papel entre as causas das patologias do quadril. A mobilidade das asas ilíacas se resume a:

  • Anterioridade
  • Posterioridade
  • Abertura
  • Fechamento

Cada uma delas é causada por um padrão de tensões e desequilíbrios musculares. Quando elas acontecem geram diversos tipos de desequilíbrios e compensações muitas vezes dolorosas para o paciente.

Usaremos a posição dos ilíacos como referência na hora da avaliação e do diagnóstico. Eles ajudam a determinar o posicionamento da lesão e a região onde a pelve e o ilíaco se encontram disfuncionais. O sacro também sempre acompanha os ilíacos no caso de uma lesão.

Mobilidade Ilíaca

Como mencionei anteriormente, as asas ilíacas possuem mobilidade que pode ser descrita em quatro padrões.

Sua mobilidade acontece através de tensões musculares e desequilíbrios nas cadeias musculares. Por isso é tão importante saber identificar como estão posicionados os ilíacos para diagnosticar seu paciente.

Quer encontrar as causas das patologias do quadril? Continue observando os ilíacos, eles são um sinal bem importante.

Anterioridade

Acontece quando existe uma rotação anterior do ilíaco sobre a cabeça do fêmur. Se acontecer anterioridade nos dois ilíacos também observamos uma anteversão da pelve que exagera a lordose lombar.

A anterioridade dos ilíacos acontece quando o quadrado lombar fica em tensão e tensiona a asa ilíaca para o alto na sua parte posterior. O reto femoral também está envolvido tensionado, tracionando a parte anterior do ilíaco para baixo.

Clinicamente a anterioridade ilíaca gera tensão no quadríceps femoral e alterações patelo-femorais. O membro em questão apresenta um alongamento compensatório e com um maior comprimento. Já o joelho fica recurvado.

Posterioridade

É a rotação posterior do ilíaco sobre a cabeça femoral. A posterioridade dos dois ilíacos é responsável por criar uma retroversão da pelve e retificar a coluna lombar.

Os retos abdominais tracionam a asa ilíaca em sua parte anterior para cima e ficam tensionados. Os isquiotibiais  tracionam a parte posterior da asa ilíaca para baixo.

A tensão dos isquiotibiais gera um flexo de joelho e também pode levar a dores na região dos ísquios. Com a tensão da posterioridade a compressão lombar aumenta em até 30 vezes. Outro resultado é um encurtamento compensatório do membro inferior atingido.

Abertura

Ela acontece quando os glúteos tracionam a parte superior da asa ilíaca para fora e o períneo traciona a parte inferior da asa ilíaca para dentro. Esse padrão compensatório aproxima os ísquios.

O membro inferior afetado se posiciona em varo de joelho e aumenta sua projeção. O resultado é um alongamento compensatório.

Fechamento

O transverso do abdômen realiza a tração da asa ilíaca superior em direção à linha média. Os adutores do quadril também tracionam a asa ilíaca inferior de maneira inferolateral.

Esse posicionamento faz com que o membro inferior realize um valgo do joelho com encurtamento compensatório da perna.

Como acontecem as Alterações dos Ilíacos e Pelve

As alterações dos ilíacos e da pelve são uma organização que o corpo realiza das cadeias musculares em relação ao plano visceral. Precisamos lembrar sempre que o corpo é viscerado e que as vísceras são a prioridade no movimento.

O corpo realiza todo tipo de adaptações para manter seu conforto visceral. Por isso devemos sempre estar atentos a suas adaptações biomecânicas.

Isso é muito comum em patologias do quadril, na verdade, diversos tipos de patologias. Trabalhamos com o aluno para aliviar a tensão muscular que está gerando o desequilíbrio, mas mesmo assim o resultado é mínimo.

Se isso acontecer lembre-se que ainda existem as vísceras a considerar. Quando eliminar as tensões musculares não elimina o desequilíbrio essas são alterações a nível visceral.

Causas das Patologias do Quadril são explicadas pelas Alterações nos Ilíacos

Conseguimos explicar boa parte das patologias do quadril através das alterações dos ilíacos. Para exemplificar mostrarei nesse artigo como as alterações ilíacas são responsáveis por duas patologias bastante comuns.

Coxoartrose

Essa é uma das patologias de quadril mais comuns e acontece quando o ilíaco está em fechamento das duas partes. As alterações ilíacas são geradas por uma tensão dos oblíquos abdominais e do períneo.

As musculaturas tensionadas puxam as asas ilíacas para fechamento.

Quando o ilíaco apresenta esse padrão compensatório surge uma convexidade no meio da asa ilíaca. Isso expõe o acetábulo lateralmente e aumenta seu contato com a cabeça do fêmur. Resultado: temos maior desgaste na articulação coxofemoral.

Pacientes com coxoartrose possuem contraturas dos músculos periarticulares. Essa é uma compensação que surge para garantir a mobilidade e diminuir ou eliminar a dor. Parece uma compensação bastante confortável, mas a longo prazo ela aumenta a presença de forças intra-articulares da coxofemoral.

A partir disso a artrose evolui ainda mais.

Subluxação do Quadril

Nesse caso o ilíaco está em abertura nas duas partes. Músculos, como os glúteos, ficam tensionados excessivamente e tracionam a parte superior do ilíaco para fora e para cima. Os adutores do quadril tracionam a parte inferior do ilíaco para fora.

As alterações geram uma concavidade na asa ilíaca e diminuem o contato entre acetábulo e fêmur. Porém, a luxação só aparece efetivamente quando ocorre um trauma na região do joelho ou do quadril.

Na hora do tratamento priorizamos o equilíbrio de tensões e congestões internas abdominais ou pelvianas. Só depois de resolver essas compensações poderemos trabalhar com o relaxamento muscular.

Conclusão

Perceba, as alterações ilíacas explicam muito das causas das patologias do quadril e até desvios posturais. Ilíacos bem posicionados significam um movimento fisiológico e musculaturas sem tensão.

Por isso, devemos prestar muita atenção nesses fatores durante a avaliação. Seu aluno nunca terá um padrão de movimento correto se possuir algum músculo em tensão que leve a alterações dos ilíacos.

Quer saber ainda mais sobre como acontecem as alterações dos ilíacos? Confira meu artigo completo onde abordo sua relação com patologias dos membros inferiores e com o parto.

 

Referências
  • Busquet L. As cadeias musculares- membros inferiores. Vol 4. Ed. 2. Belo Horizonte; 2001
  • Cintas, Janaina. Cadeias Musculares do Tronco: Evolução biomecânica das principais cadeias. Sarvier. São Paulo, 2016.
  • Zambenedetti, H. W.; Oliveira, G.A.; Tamelini, B.H.M.; Junior, F.S.M. Escanometria dos Membros Inferiores: revisitando Dr. Juan Farill. Colégio Brasileiro de Radiologia e diagnostico por Imagem. Vol 40 n 2. Mar- Abr, 2007.