Autor: Massimo Lombardozzi Osteopata D.O. MROI, MRO Br,  membro do Finet e Williame Teaching team

As colunas de pressão são um fenômeno fisio-patológico que ocorre no corpo humano e que os profissionais da saúde precisam conhecer.

Diversas funções do corpo dependem desse mecanismo, como:

  • Respiração;
  • Postura;
  • Mobilidade visceral;
  • Circulação dos flúidos;
  • Fala;
  • Riso;
  • Choro;
  • Defecação;
  • Micção;
  • Parto;
  • Barreira gastro esofágica;
  • Outras.

Conhecer as colunas de pressão em seus aspectos funcionais e disfuncionais é uma ferramenta indispensável para o profissional da saúde.

O que são as colunas de pressão?

Imagine seu corpo representado em forma de balões. Cada balão seria uma das cavidades internas que interage com as outras (figura 1). O abdômen, o tórax e o crânio são as três principais cavidades do nosso corpo e funcionam em conjunto como um sistema de vasos comunicantes.

Se a pressão interna de uma destas cavidades muda, as outras também mudam isto e devido a um bom gerenciamento das pressões de cada cavidade, mas também pode estar relacionado com muitas patologias.

Mas quem controla estas pressões e como elas funcionam? É isto que vamos ver neste artigo, de uma forma sintética, mas cientificamente embasada.

Como funcionam as colunas de pressão?

Pesquisas científicas demonstraram que, no nosso corpo, sempre que executamos algum gesto ou movimento que desafia o equilíbrio da coluna vertebral, se ativa um reflexo chamado de “ajuste postural antecipatório”, Hodges, Gandevia, Butler evidenciaram isto em 1997.

Ao ativar este reflexo antecipatório (cerca de 20 milisegundos antes de qualquer movimento), a pressão intra-abdominal é aumentada e isto contribui à estabilidade da coluna vertebral.

O mecanismo é, por certo lado, muito simples: uma série de músculos que trabalham em conjunto, pre-ativados ao nível do cortex cerebral, se contraem gerando uma alavanca flexora na coluna vertebral. Estes músculos, segundo as pesquisas de Hodges e outros, são o diafragma torácico, o transverso abdominal e o períneo . Mas outras pesquisas demonstraram que junto com estes músculos acima citados, outros músculos também se contraem, tanto na respiração quanto na postura ,  a este fenômeno damos o nome de ativação da série muscular, de maneira que, nenhum músculo da série é totalmente independente, e a contração de um músculos ativara por sinergia à contração dos outros músculos da série  (figura 2).

Todavia esta atividade postural antecipada, que produz uma flexão na coluna vertebral, é por sua vez pré-compensada por uma alavanca extensora, gerada pela contração dos músculos paravertebrais e extensores do tronco, com um reflexo que podemos definir pré-pré antecipatório, ou seja que opera ainda antes do outro . Esta combinação de ações flexoras e extensoras, na coluna vertebral, é o que contribui à sua estabilidade.

Segundo as pesquisas de Hodges e outros, a pressão intra-abdominal é um elemento fundamental para a ação postural, pois ela é aumentada pela contração destes músculos.

Todavia existe uma relação bilateral da pressão abdominal com a contração muscular: se a contração dos músculos aumenta a pressão abdominal, é verdade também o contrário, ou seja, o aumento da pressão intra-abdominal tambem provoca a contração dos músculos .

Além da coluna pressória posturo-respiratória muscular, também existe uma coluna pressória visceral , representada pela ação do diafragma respiratório sobre as vísceras abdominais.

Com a sua descida e o consequente aumento de pressão intra-abdominal, o diafrâgma torácico cria um pistão que produz um movimento visceral sistemático e repetitivo, que serviria para dissipar as pressões, proteger as vísceras de serem esmagadas pela pressão e favorecer o retorno venoso e linfático .

Qual é a função das colunas de pressão? 

As colunas de pressão, conforme citado acima, servem para contribuir ao controle postural.

Mas os músculos da série são ativados também durante a respiração e em toda e qualquer atividade em que o aumento da pressão abdominal se torna necessário: fala, riso, choro, micção, defecação, parto, inclusive para acionar no mecanismo da barreira anti refluxo.

Na inspiração diafragmática, se faz necessário um aumento pressórico para a contração do diafragma poder acontecer corretamente, a pressão intra-abdominal, aumentada pela descida do diafragma, mantêm o centro frénico em posição alta e faz aderir as fibras externas do músculo à caixa do tórax, gerando a assim chamada área de aposição (figura 3). Este contato das fibras musculares com as costelas permite o mecanismo de alavanca que levanta as mesmas no movimento em alça de balde; sem o aumento da pressão intra-abdominal, este mecanismo seria impossível e o ato respiratório poderia acontecer apenas pela contração dos músculos intercostais, passando de uma respiração diafragmática para uma respiração torácica.

O pistão diafragmático, durante a respiração, também é responsável pela mobilidade das vísceras abdominais, que a cada ato respiratório, se adaptam modificando sua forma e se deslocando dentro do abdomen, dissipando a pressão e protegendo desta forma os elementos nobres nela contidos (vasos e estruturas nervosas).

Além da mobilidade visceral, a pressão abdominal contribui também para o mecanismo anti refluxo: o diafragma crural em particular, com o aumento da pressão abdominal, entra em contração e, com suas fibras que cercam o hiatus esofágico, contribui ao fechamento na cárdia para impedir o refluxo do conteúdo gástrico no esófago .

Uma outra função da pressão abdominal é a de regular o fluxo do sangue venoso no abdômen para o tórax, pois o movimento rítmico operado pelo diafragma na cavidade abdominal, alterna momentos em que a pressão bloqueia o fluxo do sangue, a momentos em que o favorece, como se realizando um bombeamento . A mesma ação é operada sobre o fluxo do sangue venoso dos membros inferiores em direção ao abdômen .

Tudo isto se faz por intemédio do aumento da pressão abdominal, que permite o desenvolvimento das diversas funções, sem ela muitas destas seriam impossíveis ou parcialmente comprometidas.

Todavia a pressão abdominal deve se manter dentro de valores fisiológicos e seu aumento, quando necessário, para o desenvolvimento das funções acima descritas, deve ser transitório.

Se a pressão abdominal aumenta de forma crônica e permanente, isto pode levar a patologias que vão de leves transtornos funcionais até à falha de órgãos, podendo até ser fatal, como no caso da síndrome compartimental abdominal.

Valores normais e alterações das colunas de pressão

A pressão intra-abdominal, medida por via intra bexigal, em posição deitada com os abdominais relaxados, se considera patológica a partir de 12mm de hg. Acima deste valor se falasse já em hipertensão abdominal e, acima de 20mm Hg, estamos numa condição de sindrome compartimental abdominal. Para os urgentistas, am caso de hipertensão abdominal e/ou síndrome compartimental, medidas urgentes de descompressão devem ser adotadas.

Todavia, segundo alguns autores, o abdômen funciona como um sistema hidráulico, cuja pressão interna normal varia de 5 a 7 mm Hg.

Segundo Cernea, acima de 10 mmHg, a pressão já pode provocar danos aos órgãos intra, extra-abdominais, e também, ao sistema nervoso central.

Estes dados nos dizem, em primeiro lugar, que não existe um consenso sobre os valores normais e patológicos da pressão intra-abdominal e que, de qualquer forma, pequenas variações, já podem ser suficientes para determinar uma condição patológica.

O que parece ser determinante a respeito do efeito danoso da hiper pressão intra-abdominal sobre a saúde, é principalmente o seu caráter temporal, ou seja: mais que os valores maximais, que em caso de esforço transitório podem aumentar, e muito, mesmo sem provocar danos, o que mais pode comprometer a homeostasia, é o caráter permanente, do aumento.

O tempo durante o qual a pressão intra-abdominal permanece aumentado é o que mais impacta sobre a saúde, pois, quanto maior for o tempo do aumento, quanto piores serão os danos ao organismo .

Segundo estas pesquisas, mesmo pequenas variações da pressão abdominal, quando prolongadas no tempo, podem determinar efeitos danosos, entre eles: o atraso de cicatrização de feridas, danos e insuficiência dos rins, do sistema digestório, respiratório, cardio vascular e no sistema nervoso central, assim como aumento de endo toxinas bacterianas no sangue e transmigração bacteriana através das membranas celulares, que estarão mais permeáveis ao aumento da pressão.

De fato, o que deveria ser um mecanismo favorecedor da respiração e do controle postural e que deveria permitir a normal circulação do sangue e da linfa, se torna uma bomba armada e pronta a explodir, tendo como fator determinante o tempo de duração do aumento da pressão intra-abdominal dentro do nosso corpo.

Como acontece o aumento crônico da pressão abdominal

No inicio deste artigo falamos sobre os músculos que controlam a pressão abdominal, ela depende da contração destes músculos.

Eles agem em sinergia, de forma pre-programada ao nível do cortex cerebral, para se contrairem em conjunto, durante o desenvolvimento de tarefas posturais, no mecanismo do Ajuste Postural Antecipatório e em todas as outras situações em que o aumento pressórico se faz necessário.

Um aumento crónico da pressão abdominal depende, portanto, de uma contração crónica destes músculos.

Existem inumeras situações que podem provocar uma ativação permanente desta série de músculos pois ela é ativada por muitas variáves.

Ela depende da atividade postural , mas também pode estar relacionada com a atividade dos mecanoceptores do aparelho músculo esquelético, com o sistéma vestibular , com a formação reticular , com áreas corticais e sub corticais e assim por diante.

Portanto cada uma destas áreas ou funções, caso se encontre alterada, pode por sua vez ativar os músculos da série e provocar um aumento crónico da pressão abdominal, que irá permanecer até que tais mecanismos não forem normalizados.

A normalização destes mecanismos necessita de competência, para investigar qual ou quais estruturas estão à base da ativação crônica da série, para determinar o tipo de disfunção em que estas estruturas se encontram e saber normalizá-las através de técnicas apropriadas, sejam estas técnicas manuais ou outros recursos da medicina tradicional ou das medinicas complementares.

O que o profissional deve saber para ajudar seu paciente ou não prejudicá-lo

O profissional da saúde deve, pelo menos, estar a parte dos efeitos danosos da pressão abdominal e não ignorar sua periculosidade e deve possuir ferramentas para saber avaliar o paciente e perceber se o mesmo se encontra numa condição de ativação crônica dos músculos posturo respiratórios.

Também deve possuir alguns recursos de base para saber normalizar ou reduzir as pressões intra cavitárias ou encaminhar o paciente para ser tratado por outro profissional caso não tenha esta competência.