Beatriz Franco

Psicóloga e psicanalista*

Depois de uma sessão de fisioterapia que tive com Janaína Cintas, ela me perguntou: “Como a psicanálise entende a formação da imagem corporal?” A nossa conversa se estendeu a um pedido dela para que eu escrevesse um texto para o seu blog. Então, aqui estou! O seu interesse em dialogar produziu efeitos imediatos em mim: palavras começaram a se movimentar em meu pensamento; fiz anotações, pensei sobre o tema e me lembrei de textos importantes de autores fundamentais à psicanálise – como Sigmund Freud e Jacques Lacan – que seguem nos ensinando, assim como a prática clínica, sobre a importância da experiência na elaboração de um saber. Por isso, escolho começar este texto falando um pouco de como chegamos, eu e Janaína, àquela conversa ao final de uma sessão. Efeito de encontros que acontecem há pelo menos quatro anos, com frequências variadas, espaços maiores ou menores, determinados por expressões advindas do meu próprio corpo. Sim, é o meu corpo que, de tempos em tempos, solicita uma nova intervenção da fisioterapia. Eu tinha uma “dorzinha crônica” que persistiu por mais ou menos dois anos. Apesar de alguns tratamentos, antes de iniciar  as sessões com a Janaina, poucos resultados haviam sido alcançados. Percurso “quase clássico” de qualquer um que busca ajuda para uma dor que vai e volta… Os fisioterapeutas sabem bem disso!

A dor era no quadril, porém, Janaína nunca tocou no meu quadril para trata-la, já que sua origem estava em outro lugar. Ao compreender isso, ela pôde, em algumas sessões, aliviar aquela dor e me dizer também uma frase que não esquecerei tão cedo – quando eu ainda duvidava da minha nova liberdade de movimento recém readquirida e desejava comprar uma bicicleta e sair pedalando por aí! Ela me disse: “Você pode fazer o movimento que quiser.” Em seguida a esta afirmação, escutei sobre o seu conceito de “doença e de saúde nos movimentos”. Do que me recordo daquela conversa, o que ficou de mais marcante, foi a sua ideia de que as dores musculares não indicam que alguém deva, necessariamente, parar de se movimentar ou de que sejam índices de alguma doença. “Dores musculares são efeitos das nossas histórias e podem melhorar, às vezes espontaneamente, às vezes com a ajuda de alguém, outras vezes não passarão completamente, mas, nada disso quer dizer que devemos ficar parados, ao contrário, o movimento é um caminho para mudanças”, me explicava Janaína. Todas essas ideias e o tratamento para a dor no meu quadril sem tocá-lo diretamente, diziam de uma compreensão e abordagem do corpo como um elemento que, em seu funcionamento, não esta separado em partes autônomas.

Se a psicanálise e a fisioterapia parecem tão distantes, já que uma trata do movimento e a outra da palavra, é justamente aí que as duas se encontram: no corpo! Uma toca o corpo com o movimento, a outra com a palavra. Por tanto, podemos pensar algumas aproximações entre essas duas práticas, como: as mudanças sutis que as duas promovem, a presença de repetições, o tempo de cada sujeito, o imprevisível dos seus efeitos, o papel das contingências, entre outas. Dito isto, voltemos à pergunta que inspirou esta conversa: como a imagem corporal se forma? O interessante do conceito da imagem corporal é que, como o próprio corpo, cada um tem a sua, mas não os fazemos sozinhos. É sempre um corpo (ao menos) que faz um novo corpo, seja biologicamente ou psiquicamente.

O primeiro laço que um bebê humano faz com outro humano acontece através do seu corpo e da condição de total dependência com a qual ele chega ao mundo. Mesmo não usando palavras, todo bebê se expressa através dos seu corpo e isso inclui os sons que eles produzem. Sons que são interpretados como pedidos por comida, avisos de dores, expressões de prazer e alegria e tantos outros significados que os adultos que cuidam de uma criança criam e oferecem ao novo humano em crescimento, até que se transformem também em palavras ditas pela própria criança. Assim, todos nós fizemos os nossos primeiros laços de amor, de desejos, de demandas. E os primeiros laços são também aqueles que nos constituem, que nos deixam marcas, modos de estar no mundo, indicam preferências, alguns desprazeres e até o que chamamos em psicanálise de sintomas. Isto tem toda relação com a pergunta que a Janaína me fez, cuja resposta poderia ser resumida da seguinte maneira: a nossa imagem corporal se constitui na relação com o corpo e com o inconsciente do outro; aquele primeiro outro que nos cuida e que atribui sentido aos movimentos e sons que fazemos mesmo antes de utilizarmos as palavras para nos expressarmos. Tantas vezes a mãe é aquele outro corpo que fala, deseja, sente, vê,…, ao menos um, um corpo que ocupa esse lugar de nutrir e cuidar. E isso não é pouco! E produz muitos efeitos em nossas vidas. Mas, é ali, naquele comecinho de vida, que a pessoa na função de cuidar de um bebê humano completamente dependente, que a ideia do outro como espelho tem um papel importantíssimo na constituição de um novo eu e da sua imagem corporal. Sobre isso, Jacques Lacan, psicanalista e teórico francês, tratou em 1949 no seu trabalho chamado O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica, ao dizer que: entre as idades de 6 meses e 18 meses os bebês estão formando o que a psicanálise chama de eu. Lacan sintetiza, numa passagem desse texto, o que ele chamou de função do estádio do espelho “(…) como um caso particular da função da imago, que é estabelecer uma relação do organismo com sua realidade – ou como se costuma dizer, do Innenwelt [mundo interno*1] com o Umwelt [mundo exterior*1].” (Pg. 100) O que evidencia a inseparabilidade constitucional entre psique e corpo, mundo interior e mundo exterior e derroga a ideia de separação dessas instâncias, apontando um novo modo de escuta e de inclusão da palavra e do seu som na dimensão do corpo, este que faz limite, litoral, lugar de toque, separação e encontro, simultaneamente, entre o eu e o outro.

Anteriormente, em 1914, Sigmund Freud já havia escrito um texto chamado Sobre o Narcisismo que norteou essa pesquisa no campo da psicanálise e, depois dele, os psicanalistas puderam trabalhar, escutar e desenvolver a teoria psicanalítica de como o eu se constitui na relação que o sujeito humano bebê tem com seu corpo e com o laço que este corpo produz com outro corpo humano. Assim podemos pensar, de modo simplificado, que, aquele que escuta, toca e vê um bebê e que simboliza seus primeiros “atos reflexos” está construindo, junto com ele, sua imagem corporal.

Muitas coisas acontecem no decorrer de uma vida, claro! Escolhas são feitas a todo momento. Muitas percepções mudam e, dizer que aquele momento inicial da relação de um bebê com o outro tem enorme importância no corpo e na mente daquele que se constitui, não é o mesmo que dizer que depois disso nada mais lhe afetará. Mas, é certo que, a partir da psicanálise, pensamos e verificamos, nas experiências de análises, a presença desse primeiro instante nas escolhas que se sucedem nas vidas de cada um de nós, no modo como estamos no mundo com nossos corpos e como nos relacionamos com os outros. No entanto, não podemos nos esquecer que, mesmo naquele instante tão inicial da vida de alguém, ainda bebê, algo da ordem da escolha de cada sujeito já se faz presente. E o que isso quer dizer? Isso quer dizer que: desde muito cedo escolhemos, mas nunca sem a presença do outro, do seu corpo, dos seus movimentos e das suas palavras.

(*) Beatriz Franco é psicóloga e psicanalista, graduada pela Universidade Federal da Bahia, atende em consultório particular na cidade de São Paulo e no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (IPQ-HCUSP), onde colabora com grupos de estudo e pesquisa teórico-clinicas, de transmissão da psicanálise entre os profissionais do Serviço de Psicoterapia, os alunos da graduação da medicina e da residência médica em Psiquiatria. Também é analista praticante da Rede Clínica do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo.

Contato: [email protected]

(*1) Livre tradução da autora.

Referências bibliográficas:

– Freud, S., Introdução ao Narcisismo, São Paulo, Companhia das Letras, 2015

– Laca, J., O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998