Nossos alunos confundem muito as artrites e artroses, mas elas têm muito pouco de parecido. As duas não tem mecanismos de formação similares pois são problemas distintos. Por esse motivo devemos analisa-las, avalia-as e trata-las de formas singulares.

Bem resumidamente a artrite é a inflamação das articulações, enquanto que a artrose é caracterizada pela degeneração articular.

O nome correto para a artrose ou osteoartrose é osteoartrite, já o nome correto para a artrite é artrite reumatoide. Talvez a configuração parecida dos nomes das duas patologias, sugira tantas confusões entre as duas distintas patologias.

Osteoartrite

o que é artrose

A osteoartrite geralmente é chamada de artrose ou ainda osteoartrose. Esse nome é a causa mais comum de confusão entre a população em geral.

O nome surgiu da palavra artrose (do grego artrose, articulação, e do latim ose, desgaste). Como vimos anteriormente, o nome científico correto é osteoartrite.

Também quero frisar que essa não é uma doença, mas sim parte do processo de envelhecimento natural das articulações. Mas ela também não é uma “doença de velho” como ouço muita gente falando por aí. Dependendo do tipo de estresse mecânico gerado nas articulações os desgastes podem aparecer em variadas idades.

O aparecimento de desgastes articulares precoces é similar à maneira que a falta de colágeno ou diminuição dele atinge nossa pele deixando-a menos elástica. Como resultado aparecem rugas, manchas e desidratação da pele.

Surgimento das osteoartrites

surgimento das artroses

As pressões mecânicas desorganizadas e a diminuição da proteinação do colágeno geram os mesmos efeitos. Entre eles encontramos os desgastes articulares característicos das osteoartrites.

É comum confundir a osteoartrite com artrite, essa última é sim uma patologia. A artrose aparece mais nas articulações que suportam o nosso peso normal e ação da gravidade, como:

  • Coluna;
  • Quadril;
  • Joelhos.

Isso acontece porque o desgaste natural dessas articulações é mais comum por carregarem a carga do corpo. A melhor forma de tratamento está na prevenção.

Devemos evitar compensações para não deixarmos que zonas de hiperpressão se instalem. Tratamos desorganizações posturais para evitar contatos ósseos por longos períodos de tempo e, sobretudo, mantemos os músculos fortes e saudáveis.

Esse trabalho preventivo torna fundamental o conhecimento biomecânico das principais articulações acometidas pela osteoartrite. No meu blog sempre posto textos específicos para a biomecânica dessas articulações e suas correções mecânicas.

Com essas informações conseguimos evitar a instalação da osteoartrose. Após o desgaste articular já estar instalado deveremos corrigir a biomecânica articular para evitar que o paciente evolua para uma futura prótese.

Damos ênfase ao fortalecimento muscular porque ele afastará as articulações, aumentando seus espaços. Portanto diminuímos as dores e evitamos uma progressão no caso.

Só lembre que em casos onde a osteoartrite já se instalou a estrutura óssea ou cartilaginosa não se reconstruirá. Ou seja, o trabalho de força jamais pode ser interrompido.

Proteínas para osteoartrite

Já falaram muito sobre a Condroitina, uma proteína capaz de reconstruir a cartilagem articular. Porém, não existem artigos sérios que conseguiram comprovar sua eficácia até hoje. Logo, atribui-se a melhora de muitos indivíduos após o uso da proteína ao efeito placebo gerado por ela.

As pesquisas seguem e hoje a proteína da moda é o Colágeno Hidrolisado. Ele também não tem nenhuma comprovação científica ainda, mesmo que quem o consumiu tenha relatado melhoria nas dores. Sem ter a comprovação científica ficamos com a teoria do efeito placebo.

Mesmo assim o efeito placebo pode ser um forte aliado nosso durante o tratamento por diminuir a dor. Dessa maneira conseguimos ganhar a quantidade de força necessária para frearmos a evolução da osteoartrose com a dor diminuída.

Desgaste articular

proteínas para osteoartrite

É extremamente importante entendermos o desgaste articular gerado pela osteoartrite. Como vimos, não é uma patologia médica, mas sim um processo de envelhecimento articular natural. Nós, profissionais do movimento, entendemos esse desgaste muito pouco ou mal.

O auge do desenvolvimento do nosso arcabouço musculoesquelético é observado por volta dos 28 anos. Mas esportes de alto rendimento, traumas ou desajustes mecânicos gerados pelos padrões da vida moderna podem fazer o processo de osteoartrose começar precocemente.

O desgaste articular em sua cartilagem surge pois os condrócitos, células responsáveis pela reparação cartilaginosa, não possuem capacidades de recuperação. Além disso, a cartilagem articular não possui vascularização, fazendo com que inicie um processo degenerativo lento e silencioso. Esse processo degenerativo gera um desgaste no osso subcondral, podendo gerar vértebras em cunha ou osteófitos (bicos de papagaio).

Fisiologicamente até próximo dos 25 anos crescemos, a partir de então envelhecemos.

Artrite Reumatoide

o que é artrite reumatóide

Quando falamos de artrite (do grego artrose, articulação, e do latim ite, inflamação) estamos sim falando de uma patologia reumatológica. Falaremos minuciosamente a seguir.

Existem vários tipos de artrite, sendo que entre as mais comuns encontram-se as artrites reumatoides. Elas são caracterizadas por serem doenças:

  • Graves;
  • Crônicas;
  • Inflamatórias;
  • Que acometem diversas articulações.

A incidência de artrite reumatoide na população mundial é de 1%. No Brasil temos ao redor de 1,8 milhões de pessoas atingidas pela artrite reumatoide de acordo com os dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR).

Por enquanto as causas da artrite reumatoide são pouco conhecidas, mas trata-se de uma doença muito grave e deformante. Mas é uma doença muito grave e deformante e incapacitante quando em casos extremos. As mulheres são as mais acometidas.

Artrite reumatoide (AR) é uma poliartrite simétrica que afeta as articulações diartrodais. Essas são as articulações compostas por superfícies articulares, ligamentos e cápsula articular.

As superfícies articulares são as camadas do osso em si que se articulam. A cartilagem articular reveste a superfície articular reveste a superfície articular, sendo formada de cartilagem hialina. Já a cápsula articular se divide em duas camadas:

  • Camada sinovial, a mais profunda sendo composta de tecido conjuntivo e que secreta líquido sinovial;
  • Estruturas periarticulares.

Como acontece

como acontece artrite

O sítio inflamatório primário da artrite reumatoide é a membra sinovial (MS), que mostra hiperplasia celular e processo inflamatório gerando sinovite. Durante sua evolução, ela proporciona a destruição articular progressiva, com perda cartilaginosa e óssea.

A face interna da membrana sinovial que está em contato com a cavidade intra-articular é uma membrana delicada de duas ou três camadas celulares. Essa estrutura sofre a invasão de um grande número de células do sistema imunológico durante a artrite reumatoide. Isso leva à proliferação celular, neovascularização e formação de folículos linfoides germinativos.

Os mecanismos envolvidos no recrutamento das células inflamatórias para o interior da membrana sinovial têm sido extremamente estudados. Sabemos até agora que ocorrem alterações na função de linfócitos T e B e produção anormais de citocinas e anticorpos.

Muitas citocinas (termo genérico utilizado para denominar um grupo grande de moléculas responsáveis pela emissão de sinais entre as células que fazem a resposta imune) são lançadas na membrana sinovial no processo de formação da artrite reumatoide. Entre as citocinas podem estar:

  • Monócitos;
  • Macrófagos;
  • Linfócitos;
  • Outras não linfoides.

Sintomas

sintomas da artrite

A artrite reumatoide é autoimune (o sistema imunológico do corpo ataca por engano tecidos normais ao reconhece-los como agentes patogênicos). Geralmente, ela afeta as articulações menores e de menor carga nas mãos e pés. Ela gera:

  • Edema;
  • Dor;
  • Erosão óssea;
  • Deformidade articular.

Em casos mais severos a artrite reumatoide pode afetar outros órgão do corpo.

Por ser autoimune e de causa desconhecida, a artrite reumatoide pode afetar a qualquer pessoa em qualquer faixa etária. Quando surge na infância, entre 2 e 15 anos, é chamada de artrite reumatoide juvenil.

O fato de acometer mais mulheres por estar ligado a fatores hormonais. O estrogênio poderia desequilibrar o sistema imunológico da mulher. Porém essa hipótese ainda está sob estudo.

O fato é que segundo a Sociedade Brasileira de Autoimunidade, a incidência de artrite reumatoide é de três mulheres para um homem.

Causas

Fatores genéticos são bem importantes para o desenvolvimento da artrite reumatoide. Infecções virais e bacterianas também podem desencadear a doença e podem despertar um desequilíbrio no sistema imunológico.

Fatores ambientais também podem contribuir para a artrite reumatoide, entre eles:

  • Tabagismo;
  • Poluentes como a sílica.

Como em toda doença autoimune, as causas não são muito bem entendidas.

Depois de instalada, a artrite reumatoide pode gerar diversos sinais e sintomas como dores nas articulações dos:

  • Dedos;
  • Pés;
  • Joelhos;
  • Tornozelos;
  • Cotovelos.

Também podemos encontrar:

  • Edema;
  • Aumento da temperatura normal das articulações;
  • Nodulações (nódulos reumatoides);
  • Fadiga;
  • Febre;
  • Perda de peso;
  • Outros.

Os sintomas variam de acordo com a gravidade da patologia. Eles também são intermitentes, ou seja, alternam-se entre períodos de crise e de remissão relativa onde os sintomas estão amenos.

Diagnóstico

diagnóstico de artrite

Não basta a presença dos sintomas apresentados na artrite reumatoide e dos exames laboratoriais e radiografia para o diagnóstico. Também precisamos complementar com outros exames como:

  • Ultrassonografia;
  • Ressonância magnética nuclear.

Eles que revelarão a sinovite (inflamação da membra sinovial).

Em estudo realizado, observou-se que a maioria dos pacientes com artrite reumatoide não tem boa qualidade de sono, aproximadamente 81,5%. A depressão e o risco de apneia do sono são independentemente associados ao comprometimento do sono dos portadores de artrite.

Avaliação funcional

Conforme explanado anteriormente a artrite reumatoide é uma doença deformante e altamente incapacitante. Portanto, os desequilíbrios da funcionalidade do indivíduo podem ser os mais diversos.

Por entendermos que as articulações distais, como pés e mãos geralmente são as mais frequentemente acometidas entendemos que a funcionalidade durante a marcha estará alterada.

Numa pesquisa que utilizou o teste de dinamometria isocinética para todos os movimentos não se observou diferenças significativas nos índices isocinéticos dos seguintes músculos:

  • Inversores;
  • Evertores dos pés.

Mas em ambos os grupos a musculatura flexora plantar foi estatisticamente mais forte que a dorsiflexora. Logo, nos atentamos para o maior risco de quedas nos portadores de artrite reumatoide. Esse fator deverá ser somado a idade do doente.

A avaliação do profissional do movimento é de extremo valor para nos guiar nos exercícios realizados com esses alunos. O motivo é a diferença da variação de padrão normal de movimento para cada indivíduo.

Como as compensações que nosso aluno consegue gerar também são variadas a avaliação será sempre nosso principal guia.

Tratamento Fisioterápico

tratamento fisioterápico da artrite

A fisioterapia é uma ferramenta importante para aliviar as dores e disfunções geradas pelas deformidades da artrite reumatoide. Com ela conseguimos melhorar a qualidade de vida dos portadores da doença.

A frequência do atendimento depende da gravidade do caso, sendo que alguns necessitam até de atendimentos diários. Eu particularmente já chegue a realizar duas sessões diárias para alguns pacientes. Isso foi durante minha experiência de trabalho de 10 anos com o dr. João Luiz Nobrega, um dos reumatologistas mais respeitados do Hospital Israelita Albert Einstein em São Paulo.

A fisioterapia busca:

  • Diminuir a dor e o desconforto gerado pela patologia;
  • Melhorar da amplitude dos movimentos;
  • Prevenir ou tratar as deformidades articulares já instaladas;
  • Manter ou ganhar de força muscular e
  • Principalmente gerir a melhora das atividades diárias, mantendo a independência do paciente.

O fisioterapeuta pode utilizar todo seu conhecimento para atingir os objetivos do tratamento e também diminuir a dor através da eletroterapia. Só faço uma ressalva aqui para o Ultrassom, com um calor profundo que pode aumentar os níveis de osteoporose em idosos.

O calor profundo aumenta o metabolismo local, melhora a circulação sanguínea e diminui a dor. Dessa forma, conseguimos realizar movimentos para manutenção de força e mobilidade articular. Consequentemente, a inflamação local é combatida e permitimos uma melhora realização de movimentos com a articulação afetada.

Lembrando que devemos aproveitar da analgesia para corrigir as disfunções mecânicas geradas pelas deformidades. Uma vez que essas disfunções forem amenizadas a retroalimentação da dor diminui.

Podemos aplicar às técnicas de aumento da amplitude articular e muscular da região afetada através de:

  • Mobilizações articulares;
  • Ganho de amplitude de movimento;
  • Alongamento;
  • Trigger points (pontos gatilho);
  • Inibições de cadeias musculares sob tensão;
  • Acupuntura;
  • Outros.

Nessa fase de tratamento usamos toda nossa gama de conhecimento para melhorar a dor. Também tentaremos auxiliar o tratamento medicamentoso para tentarmos evoluir para a próxima fase de tratamento.

Na próxima fase devemos começar a implantar a prática de exercícios específicos e leves. Como evolução usamos a troca da resistência da Theraband com resistência baixa a princípio. O ganho de força deve ser realizado após as mobilizações articulares para melhora da amplitude de movimento.

Resumindo, o tratamento fisioterápico inclui exercícios físicos controlados, fisioterapia e orientação nutricional para evitar sobrepeso e controlar colesterol. Outro profissional que vai nos ajudar é o Terapeuta Ocupacional, visto que a patologia atinge mãos e compromete AVDs.

Lembrando, não é tão simples e rápido evoluir com portadores de artrite reumatoide. Toda vez que nosso paciente estiver em uma fase aguda da doença devemos retroceder o nosso tratamento.

Como sempre digo, não acredito em protocolos. Cada paciente é único e deve ser tratado como tal.

Tratamento Medicamentoso

Segundo a OMS nos últimos anos o tratamento da artrite reumatoide evolui significativamente. Tudo graças a melhores avaliações da atividade inflamatória, conhecimento dos fatores de pior prognóstico e uso precoce de fármacos anti-reumáticos de ação lenta. Outras contribuições foram o surgimento da terapêutica combinada e terapêutica biológica.

Os doentes com artrite reumatóide devem ser acompanhados por um médico reumatologista.

Infelizmente não existe cura para artrite reumatoide. O que existe são períodos quando a patologia entra em remissão, portanto nas remissões o tratamento medicamentoso deverá ser continuado. O tratamento é voltado, portanto, para a diminuição dos processos inflamatórios e prevenção das deformidades.

A terapia com drogas é o principal tratamento da artrite reumatoide. E os reumatologistas dispõem de 4 classes diferentes de medicamentos que podem ser usados de acordo com a gravidade do caso.

1- Anti-inflamatórios não esteroides (AINES)

São drogas que agem aliviando os sintomas da artrite. Demoram de 2 a 4 semanas para se alcançar o efeito máximo. Apresentam muitos efeitos colaterais quando usado a longo prazo e não impedem que ocorra lesões deformantes nas articulações.

2- Drogas anti-reumáticas modificadoras de doença (DMARDs)

Este é o grupo de drogas capaz não só de diminuir o processo inflamatório das artrites, mas também de impedir a progressão para doença deformante.

Muitos desses medicamentos são drogas imunossupressoras e devem ser usadas sob estrito controle médico. Os efeitos dos DMARDs só são sentidos após semanas/meses de tratamento.

3- Modificadores da resposta biológica

São o grupo mais novo de drogas para a artrite reumatoide. São medicamentos que agem diretamente nos mediadores inflamatórios e nas células envolvidas na artrite. Também têm efeito imunossupressor. Sua ação é mais rápida que dos DMARDs, aparecendo já em 2 semanas.

4- Corticoides

Drogas como a prednisona agem rapidamente reduzindo o processo inflamatório e aliviando os sintomas da artrite reumatoide. Podem ser tomadas por via oral ou injetadas diretamente nas articulações acometidas. Sua capacidade de prevenir deformidades é restrita e seus efeitos colaterais são inúmeros

O seu uso é indicado no início do tratamento, normalmente junto com os AINES, para um rápido alívio dos sintomas enquanto se espera o efeito completo dos DMARDs.

 Conclusão

Espero ter elucidado a diferença entre as duas patologias, e ter deixado claro neste artigo a gravidade da artrite reumatoide, e que o tratamento só terá o efeito desejado, caso o tratamento multidisciplinar seja bem direcionado, e a perfeita integração entre as especialidades citadas no texto.

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