Já tratou a disfunção sacroilíaca em algum aluno? Então você sabe que essa é uma patologia difícil de diagnosticar e de trabalhar.

Muitos alunos podem pensar que têm dor lombar ou até nos joelhos ou região glútea, sendo que o problema está oculto nessa discreta articulação da cintura pélvica.

Hoje quero mostrar para vocês a importância de avaliar o glúteo máximo nesses pacientes. Essa é uma musculatura essencial para a sustentação de diversos movimentos no corpo e, apesar de parecer improvável, está muito envolvida com a sacroilíaca.

Aproveitaremos para relembrar um pouco sobre a anatomia da articulação e seus mecanismos de estabilização que a tornam uma estrutura tão particular.

Anatomia da Articulação Sacroilíaca

Fonte: https://www.anatomiaonline.com/articulacoes-coluna-vertebral/

A sacroilíaca é uma articulação sinovial que encontra-se na cintura pélvica, um importante complexo articular do corpo.

Ela é caracterizada por uma excelente estabilidade com a presença de elementos imóveis e fibrosos. Seu formato é responsável por dissipar e transmitir as forças geradas durante o movimento do corpo.

A região na qual está localizada a articulação sacroilíaca é ricamente inervada por nociceptores e proprioceptores.

Isso acontece porque é ali que estão localizados o plexo sacral e lombar. Assim, a região é essencial para um bom movimento em seus padrões fisiológicos e funcionais. Ela está envolvida nos processos de controle da postura e posição articular.

Na verdade, para realmente analisar a articulação sacroilíaca precisamos compreender também a cintura pélvica. Como mencionei anteriormente, sua localização e inervação contribuem para que esse seja um complexo muito presente em todos os movimentos do corpo.

Apesar de ser composta por articulações bastante estáveis, a cintura pélvica consegue realizar movimentos nos 3 planos de movimento.

Os movimentos da cintura pélvica influenciam em diversas ações diárias do indivíduo. Na marcha, por exemplo, a cintura pélvica realiza todos seus movimentos. Pelo menos isso é o que deveria acontecer quando o corpo está em seu funcionamento fisiológico.

A disfunção sacroilíaca é um fator de perturbação no funcionamento normal da cintura pélvica. Ela gera diversas compensações que chegam a afetar até lombar e membros inferiores.

Estabilidade da Articulação Sacroilíaca

Mencionei anteriormente, mas vale lembrar. A sacroilíaca é uma articulação muito estável que é rodeada por ligamentos fortes especialmente na sua parte posterior e anterior. Além de manter os ossos ilíaco e sacro estáveis, os ligamentos também servem de inserção para outros ligamos.

Isso faz com que a sacroilíaca esteja intimamente conectada com outras regiões, como:

Além disso, existe o ligamento interósseo responsável por prevenir um excesso de mobilidade na articulação e garantir seu papel de estabilização da pelve. Mesmo assim ainda existem movimentos discretos que os ossos sacro e ilíaco podem realizar.

Eles se movem um em relação ao outro de maneira simétrica e assimétrica. Esses são movimentos que possuem pequenos graus de rotação e alguns milímetros de translação.

Apesar de pequenos, os movimentos das estruturas da articulação sacroilíaca possuem grande possibilidade de gerar compensações. Entenda, a sacroilíaca faz parte de uma cadeia de articulações que está interligada. Elas são:

  • Anel Pélvico e suas Articulações
  • Articulação Coxofemoral
  • Articulação Lombossacral

Qualquer movimento ou força anormal gerado em uma articulação afeta a outra. Esse é o caso da disfunção sacroilíaca que discutiremos nesse artigo.

O que é Disfunção Sacroilíaca?

Sabemos que a articulação sacroilíaca é responsável por ligar o tronco e membros inferiores ao realizar movimentos que envolvam carregamento de peso. Para um movimento funcional que não gera dores e lesões, é preciso que existe uma boa ativação de:

  • Musculatura Abdominal
  • Musculatura dos Membros Inferiores
  • Musculatura das Costas

Todos esses conjuntos musculares ajudam a realizar um bom movimento e transmissão normal de forças através da região lombopélvica. Na disfunção sacroilíaca essa ativação não acontece.

A disfunção sacroilíaca é de difícil diagnóstico. No início é possível que não exista sintoma algum relacionado à articulação ou até à região lombar. A disfunção tem início discreto com suas compensações.

O corpo começa a realizar outros desequilíbrios para compensar o excesso de mobilidade sacroilíaco e manter-se em movimento.

Com o tempo as compensações começam a afetar a região lombar gerando dor. É bastante raro que o aluno apresente dor exatamente na região sacroilíaca. Também observamos compensações nos movimentos do quadril, joelho e praticamente todas articulações dos membros inferiores.

Resumindo: a disfunção sacroilíaca é uma patologia importante por ter um forte poder de desequilibrar outras partes do corpo.

Avaliação da Articulação Sacroilíaca

Nem exames de imagem conseguem determinar o excesso de mobilidade da articulação sacroilíaca. É raro que existam alterações significativas nos exames de imagem, portanto o paciente pode chegar com diagnóstico de dores crônicas na região lombar ou glútea.

Portanto, o diagnóstico da disfunção sacroilíaco é principalmente clínico. Realizamos uma avaliação da movimentação da cintura pélvica. Precisamos determinar se existe um excesso de mobilidade ilíaca e tensões ou musculaturas inibidas.

Quero chamar a atenção aqui para o glúteo máximo!

Estima-se que exista uma relação entre a disfunção sacroilíaca e disfunções nessa musculatura. À primeira vista parece que o glúteo máximo estaria pouco relacionado com o funcionamento da articulação. Mas na verdade ele está bastante envolvido.

Pesquisas indicam que o glúteo máximo pode ser um dos responsáveis por estabilizar a sacroilíaca com suas fibras que são perpendiculares a elas. Em testes, indivíduos com a disfunção tiveram ativação anormal do glúteo máximo em exercícios com carga.

Por isso, é possível que, além da presença de seus potentes ligamentos, a sacroilíaca também precise do glúteo para garantir seus movimentos.

A fraqueza do glúteo máximo acaba elevando a carga exercida sobre a sacroilíaca. Como resultado, sua estabilidade é perdida e seus movimentos ficam prejudicados.

Conclusão

Devemos observar o aluno em sua totalidade, não somente como uma disfunção isolada. Nesse artigo quis dar uma ênfase ao papel do glúteo máximo nessa importante disfunção da cintura pélvica que influencia tanto os movimentos de nossos alunos.

O glúteo máximo mostra-se como mais um dos muitos estabilizados dessa articulação que, mesmo sendo pouco móvel, ainda consegue se mover o suficiente para gerar grandes compensações.

O desequilíbrio da sacroilíaca só poderá ser tratado corretamente quando conseguirmos fazer uma avaliação completa e determinar os causadores do problema.

Minha dica é: avalie a ativação glútea durante os movimentos. Sabemos que muitos pacientes sofrem de amnésia glútea por causa do seu estilo de vida sedentário. Portanto, não seria tão estranho imaginar que a disfunção sacroilíaca, na verdade, foi causada por uma fraqueza ou falta de ativação dessa musculatura.

 

Bibliografia
  1. Sandy, S. P. Andre, W. V. Peter der, Disfunção Sacroilíaca, Acta Ortopédica Brasileira, 2003. Acesso em: http://www.redalyc.org/html/657/65711208/
  2. Henrique, S. Egberto dos, O. Juliano de, L. F. Tiago, Disfunção da articulação sacroilíaca e a influência na flexão de tronco e no ângulo Q do joelho. Revista Interdisciplinar de Promoção de Saúde. Acesso em: https://online.unisc.br/seer/index.php/ripsunisc/article/view/11937
  3. N. Marco Aurélio, F. Diego G. de, K. Karina T., M. Robroy L, F. Thiago Y., Strenghthening the Gluteus Maximus in Subjects with Sacroiliac Dysfunction. The International Journal of Sports Physical Therapy, February 2018.