Nesse texto tentarei explicitar o enrolamento do tronco sob a ótica da biomecânica. Por ser um movimento muito comum no Pilates, é importante o conhecermos melhor para bem aplicá-lo.

O rolamento foi descrito por Madame Bezieres e Madame Piret, também chamado de movimento fundamental do tronco. Falaremos dos movimentos de:

  • Flexão
  • Extensão
  • Inclinação Lateral

Como acontece um bom Enrolamento do Tronco?

O enrolamento do tronco está presente em diversos exercícios de Pilates. Por isso é tão importante entender como ele funciona para direcionar o aluno na hora de realizá-lo. Assim conseguiremos uma ativação muscular adequada e bom alinhamento postural.

No enrolamento do tronco observamos uma série de ações, que incluem:

  • Elevação do púbis;
  • Abaixamento do esterno em direção ao umbigo;
  • Enrolamento do tronco, que se flexiona sobre si mesmo e concentra todo o volume visceral;
  • Direcionamento do movimento combinado com encontrar o equilíbrio;
  • Armazenamento de energia cinética para endireitar o tronco posteriormente.

Durante tudo isso temos ação principalmente dos retos abdominais, cadeia flexora de tronco e cadeia de extensão de tronco. As duas cadeias atuam em conjunto durante o movimento, uma em concentricidade e outra em excentricidade.

Quando observamos a unidade cervical vale a pena destacar que o enrolamento da cabeça acontece com a ação dos músculos supra e infra hioideos. Eles realizam a aproximação do queixo com o esterno.

O formato da cabeça e da pelve são especialmente importantes para esse movimento. A cabeça possui uma forma esfenoideana. Isso quer dizer que ela se prolonga para trás da coluna vertebral e para frente pelos ossos da face.

A pelve tem uma forma esférica similar, mas como uma abóbada invertida. Ao realizar o enrolamento do tronco aproximamos as duas esferas. Nesse movimento forma-se o eixo anterior.

Durante o encurtamento do eixo anterior a cabeça e a pelve se aproximam. Nesse momento as duas cinturas laterais devem ser simétricas quando vistas de frente.

Papel da Cadeia de Extensão do Tronco

Os ossos hoideo, esterno e púbis, que são intercalados por extensas massas musculares, formam o pilar hio-esterno-abdominal.

O papel da esfera pélvica no enrolamento da unidade cervical é direcionar o sacro e o eixo vertebral posterior em direção ao processo odontoide. Os discos intervertebrais que vão do sacro até a segunda vértebra se tornam uma haste flexível para possibilitar o movimento. A haste se forma através da contração da cadeia muscular de flexão e é controlada por músculos da cadeia de extensão.

Mas a principal função da cadeia de extensão do tronco é direcionar e coordenar o movimento. Suas ações permitem a realização do movimento e também a volta à posição inicial no fim do exercício.

Flexão Cervical

Durante o rolamento a cabeça bascula-se à frente. Junto à báscula da cabeça também ocorre a flexão cervical com as forças musculares que se centram no hioideo. É assim que a cabeça se aproxima do esterno.

O movimento segue a partir de todas as vértebras cervicais até a sexta vértebra dorsal.

Para permitir o alongamento do tórax as primeiras costelas se deslocam para trás e se posicionam de forma oblíqua. O esterno também desliza para baixo em direção à pelve auxiliando no movimento.

A pelve segue uma mecânica similar. Quando o rolamento da pelve acontece em direção à cabeça, o sacro se move de forma anterior e superior. Essa mecânica se difunde até a sexta vértebra dorsal. Ao passar por T12 as 3 últimas costelas são tracionadas para trás e para baixo. O tórax aumenta seu volume aproximando o esterno e a pelve em direção ao umbigo.

Ações Musculares

Entender a biomecânica de um movimento exige compreender também como agem os músculos. Começaremos a discutir agora as ações musculares que ocorrem durante o enrolamento de tronco em exercícios de Pilates.

Todas as musculaturas acima do osso hioideo participam do enrolamento da unidade cabeça que descrevi anteriormente. Portanto, observamos a ação de músculos:

  • Da face;
  • De mastigação;
  • De deglutição;
  • Pré-vertebrais.

Ao movimentar a cabeça em flexão para começar um enrolamento já acionamos os hióideos. Mas ainda assim é preciso que o masseter esteja em contração. Caso contrário, nada acontecerá fora a boca se abrindo.

O osso hioideo é o principal dissipador das forças partindo da cabeça ou subindo do esterno. Portanto, o enrolamento começa pelos músculos infra hióideos, cuja principal função é fixar o osso hioideo.

Quando o enrolamento da cabeça tem início pelo atlas-axis os infra hióideos e pré-vertebrais se contraem. Entre eles encontramos:

  • Constritor da Faringe
  • Estilofaringeo
  • Constritor Médio da Faringe
  • Constritor Inferior da Faringe

O enrolamento da cabeça é um movimento que ocorre nas seguintes etapas:

  • Ativação dos músculos supra-hióideos;
  • Contração dos infra-hióideos, gerando o movimento de enrolamento da coluna cervical e torácica.

Esses músculos atuam de maneira importante sobre a unidade da coluna cervical. Por isso, é preciso que o movimento seja muito bem coordenado evitando sempre a ação do esternocleidomastoideo.

Esse músculo é parte das cadeias cruzadas, sua ativação no enrolamento do tronco pode gerar um padrão rotacional de enrolamento.

Continuação do Movimento

Os músculos mencionados continuam o movimento gerando uma grande alavanca. Esse movimento acontece através da ação dos:

  • Pequenos e grandes retos da cabeça;
  • Longuíssimo do pescoço;
  • Escalenos, que tracionam as primeiras costelas para trás e para cima;
  • Esterno;
  • Músculos abdominais, que tracionam o esterno para baixo de forma que todo o vetor anterior esteja tensionado.

O movimento das duas primeiras costelas e o movimento do esterno é responsável pelo enrolamento torácico. Os intercostais profundos continuam o movimento até as últimas costelas. Somente as costelas esternais serão direcionadas para trás, para baixo e para fora. Esses movimentos são realizados pelo oblíquo externo.

Durante a orientação e enrolamento da unidade pélvica os músculos perineais realizam a ação. Suas fibras longitudinais são transformadas em prolongamento dos retos abdominais que aproximam o ísquio do púbis. Suas fibras transversais são responsáveis por aproximar os ísquios e promovem uma discreta abertura das asas ilíacas. Isso ocorre para garantir o conforto da massa visceral.

O períneo empurra a plataforma do sacro para trás até mais ou menos a quinta vértebra lombar. É assim que ocorre o enrolamento do púbis para cima e para dentro.

Essa ação também é responsável pela ativação dos retos abdominais, contraindo-os em direção ao umbigo e aproximando o púbis e o esterno.

Nas nossas aulas de Pilates e Treinamento Funcional devemos respeitar e organizar muito bem esse enrolamento do tronco. Para garantir que o profissional consiga instruir seu aluno separei também algumas dicas. Confira todas elas abaixo.

Realizando um bom Enrolamento do Tronco

Quando seu aluno realizar um enrolamento do tronco observe com cuidado sua coluna vertebral. Durante o movimento ele deve construir um C profundo na coluna que percorre toda sua extensão. Não devem existir linhas de quebra nessa curvatura.

Falta de mobilidade em uma das articulações envolvidas, qualquer uma delas, leva ao aumento da mobilidade de outras estruturas. É esse excesso de mobilidade que dá início às compensações que chamamos de linha de quebra.

Esse fenômeno se dá para qualquer movimento da coluna:

  • Flexão
  • Extensão
  • Flexões Laterais

Conclusão

Como no Pilates a grande gama de exercícios explora esses enrolamentos, é de vital importância que estejamos atentos. Devemos ativar a mobilização das vértebras em rigidez.

Segue-se então alguns exercícios e os comandos a serem dados para que orientemos de forma clara e satisfatória esses enrolamentos.

Para que o movimento fundamental do tronco seja respeitado devemos antes flexibilizar os músculos opositores para onde desejamos que o movimento seja realizado: se nosso exercício for solicitar o enrolamento do tronco, devemos flexibilizar os músculos da cadeia muscular de extensão da unidade tronco.