O conceito hipopressivo é como todo método novo, recheado de mitos e com promessas de milagre. Quer conferir? Digite ginástica hipopressiva no Google, você perceberá como existem artigos confusos sobre ela.

Não existe como negar que o Método Abdominal Hipopressivo vem ganhando cada vez mais público. Para que esse público tenha acesso ao método com qualidade e eficiência é preciso desmistificar tais mitos e passar informações claras. Por isso escrevi esse artigo.

Método Abdominal Hipopressivo no Brasil

mitos da hipopressiva no brasil

O método chegou ao Brasil há aproximadamente 2 anos com várias promessas. Neste artigo vamos classificar como mitos e verdades, e do que o Método Abdominal Hipopressivo de fato é capaz.

Por aqui, as pessoas começaram a conhecer o método quando Gisele Bündchen anunciou que a hipopressiva era causa do retorno rápido do corpo após a gravidez. Desde então a busca por profissionais capacitados pelo Método Abdominal Hipopressivo aumentou vertiginosamente. Mas será que todos sabem do que realmente se trata o Método?

O conceito hipopressórico nasceu em Madrid através dos estudos de Marcel Caufriez e busca a melhora:

  • Postural;
  • Respiratória;
  • Sexual;
  • Metabólica.

Isso pode ser obtido através de uma busca por estímulos somático-sensoriais que propiciam a normalização das pressões corporais internas. Assim, eles produzem melhorias corporais para gerar melhor qualidade de vida.

Seus resultados seriam otimizados se realizados de maneira preventiva. Esse conceito transita a nível sistêmico. Todos sistemas são alimentados pelo conjunto de células que cumprem funções específicas, porém estão todos interligados.

Essa interligação é dada pelo tecido conjuntivo, a fáscia. O conceito hipopressórico é mais do que uma técnica para gerar a tão famosa barriga negativa. Ele também é uma técnica de prevenção e reabilitação para a ativação da faixa abdominal.

Após essa conceitualização vou esclarecer explicitando o que há de mito no Método.

O Método Abdominal Hipopressivo gera barriga definida ou negativa?

mitos da hipopressiva sobre barriga definida

Sim e não. Primeiro preciso deixar claro que para se ter um abdômen definido é imprescindível uma alimentação correta. Eu diria que 80% do processo se dá por uma dieta de baixa ingestão de gorduras. Ou seja, o indivíduo deve possuir um baixo índice de massa gorda corporal.

Porém, se esse indivíduo possuir a pressão intracavitária aumentada, se faz necessário normalizar essa pressão a fim de obter o abdômen dos sonhos também. Logo o Método Abdominal Hipopressivo é um conceito que através da normalização da pressão intra-abdominal pode sim ajudar.

Ele precisa ser somado aos fatores já citados para obter a definição do abdômen. Além disso, o método é capaz de diminuir em média cerca de 3 a 5 cm a circunferência abdominal.

A explicação para que isso aconteça é bem simples e segue o princípio físico da Lei da Blaise Pascal. A lei diz que em um componente líquido hermeticamente fechado (o saco visceral) qualquer variação de pressão será distribuída de forma homogênea por todo conjunto. Entendamos melhor a conformação dos músculos do abdômen.

Músculos do Abdômen

Reto abdominal

O reto abdominal são músculos que ficam à frente do tronco e compõem a camada muscular superficial dos músculos abdominais. Suas fibras são predominantemente vermelhas, porém entrecortadas por áreas não contráteis fasciais.

Esses músculos estão recobertos pela bainha do reto do abdome. Sua função é manter os músculos em sua posição. Ela é formada pelas aponeuroses do:

  • Oblíquo externo;
  • Oblíquo interno;
  • Transverso do abdômen.

O músculo reto do abdômen é longo e aplanado, recobre toda a face anterior do abdome. Ele é intercedido por faixas fibrotendinosas chamadas intersecções tendíneas. Os números dessas interseções variam de pessoa para pessoa.

  • Origem: Da 5ª a 7ª cartilagens costais, processos xifóide e ligamento costoxifoide
  • Inserção: Púbis e sínfise púbica
  • Inervação: Sete últimos nervos intercostais
  • Ação: Flexão do tronco, comprime o abdome e auxilia a expiração forçada.

Os retos do abdômen são os responsáveis pelo enrolamento da unidade tronco. Eles realizam a elevação do púbis em direção ao umbigo e abaixam o esterno em direção ao umbigo.

Essa nos parece ser uma zona de convergências de forças importantes. Com esse enrolamento indiretamente mobilizamos a coluna vertebral de forma retificadora em sua região torácica baixa e lombar.

Não raramente, há necessidade de flexibilização desses músculos. A falta de flexibilidade acontece por influências viscerais centrípetas que nos puxam para o enrolamento. Outra opção são nossos atuais hábitos de vida:

  • Sedentarismo;
  • Posicionamento ergonômico errôneo adotado no trabalho, dentre outros

O que precisamos saber é que são os retos abdominais que ao contrair-se empurram as vísceras abdominais para dentro. Portanto, sendo responsáveis por aumentar a pressão intracavitária.

Os músculos largos

São os músculos nas laterais do tronco que se opõe ao longilíneo reto do abdômen são chamados de músculos largos. São três deles dispostos em camadas:

  • Transverso do abdômen
  • Oblíquo interno
  • Oblíquo externo

Transverso do abdômen

músculo transverso do abdomen e mitos da hipopressiva

É o músculo mais profundo dentre todos os músculos largos e tem sua origem na:

  • Crista ilíaca;
  • Fáscia toracolombar;
  • Dois terços laterais do ligamento inguinal.

Sua inserção fica nas bordas inferiores das últimas 3 costelas e linha alba estendendo-se inferiormente sobre o ligamento inguinal acompanhando a prega inguinal.

Como vimos na figura, ele é cortado pela frente pela potente linha alba e por trás pela fáscia tóraco lombar. O periódico JOSPT já fala sobre a interdependência dos Transversos abdominais há cerca de 10 anos.

Não há fibras musculares do Transverso a frente do umbigo, temos somente todo tecido aponeurótico da linha alba não contrátil. Além disso, há um engano sobre a contração do Transverso.

Olhemos bem a figura do Transverso. Em suas linhas de tração, origem e inserção, analisemos agora uma contração concêntrica destes músculos.

O Transverso é dos músculos do abdômen que menos atua sobre o esqueleto. Sua principal ação está relacionada às questões viscerais:

  • Fonação;
  • Vômito;
  • Tosse;
  • Espirro;
  • Entre outras.

Esse músculo tem uma atuação importante sobre as vísceras. Ao se contrair ele diminui o diâmetro da cintura, podendo aumentar consideravelmente a pressão intra-abdominal. Somada a esse aumento de pressão, a ação

Ações do transverso e suas fibras

fibras do transverso e mitos da hipopressiva

Quando em contração forma uma cintura fininha realizada pelas fibras médias do Transverso que são horizontais.

Suas fibras inferiores são responsáveis pela proteção dos órgãos da pelve menor das diferenças pressóricas ocorridas a todo momento. Quando contraídas, essas fibras são responsáveis pelo alargamento das cristas ilíacas.

Suas fibras superiores têm um direcionamento dado para baixo e para fora sendo responsáveis pelo sutil fechamento das costelas. Por terem um ventre e um comprimento muscular pequeno essas fibras não conseguem realizar um grande fechamento das costelas. No caso de um diafragma hipertônico, trabalhando em posição baixa, somado a contração dos músculos do abdômen e a força gravitacional empurraram as vísceras para baixo, aumentando a PIA e fadigando, assim os músculos perineais.

Alguns autores identificaram um aumento da atividade eletroneuromiográfica dos músculos abdominais durante a contração do assoalho pélvico. A contração ocorreu sem qualquer contração da musculatura abdominal.

Existe entre eles uma ação de sincronia, isto é, a contração do músculo abdominal leva a uma contração recíproca do músculo pubococcígeo. Isso estabiliza e mantém o colo vesical na posição retropúbica, facilitando a igualdade das pressões transmitidas da cavidade abdominal ao colo vesical e uretra proximal. Essas ações mantém a continência urinária.

Importância da pressão intra-abdominal

importância da pressão intra-abdominal e mitos da hipopressiva

A atividade sinérgica entre os Músculos do Assoalho Pélvico e os abdominais possibilita o desenvolvimento de uma pressão de fechamento adequada e importante para manter:

  • Continência urinária;
  • Continência fecal;
  • Pressão no abdômen;
  • Suporte aos órgãos pélvicos.

Alguns estudos demonstram que, durante a contração voluntária dos Músculos do Assoalho Pélvico, ocorre uma co-ativação dos músculos:

  • Transversos abdominais;
  • Oblíquo interno;
  • Oblíquo externo;
  • Reto abdominal.

A pressão esfincteriana aumenta com essa ativação.

Um estudo realizado a respeito da sinergia abdomino pélvica diz que aumentos repentinos na pressão intra-abdominal levam a uma rápida atividade reflexa dos músculos do assoalho pélvico (reflexo guardião).

Deve-se considerar, no entanto, que “o aumento repentino da pressão intra-abdominal”, se causada por uma manobra intrínseca (tosse, por exemplo) incluem a ativação via retroalimentação da musculatura do assoalho pélvico como parte de um complexo padrão de ativação muscular.

Acredita-se que a tosse e o espirro são gerados por um padrão individual dentro do tronco cerebral. Assim, a ativação dos Músculos do Assoalho Pélvico é uma co-ativação prévia, e não primariamente uma reação “reflexa” ao aumento da pressão intra-abdominal.

Resposta dos músculos do Assoalho Pélvico devido ao aumento da PIA

Porém pode haver uma resposta reflexa adicional dos Músculos do Assoalho Pélvico em relação ao aumento da pressão abdominal devido à distensão dos fusos musculares dentro dessa musculatura.

Outros autores também afirmaram que o aumento da pressão de fechamento da uretra e do ânus ocorre imediatamente antes do aumento da pressão intra-abdominal. Nos eventos de tossir e espirrar, o diafragma, os músculos abdominais e o assoalho pélvico são ativados de forma pré-programada pelo sistema nervoso central.

Este fato parece sugerir que a ativação dos músculos do períneo não acontece em resposta ao aumento da pressão intra-abdominal. Ela é antes produzida por mecanismos nervosos centrais que podem ser eventualmente regulados pela vontade.

Algumas investigações demonstram que o aumento da PIA precede a contração automática do Assoalho Pélvico. A contração prévia desses músculos antes do aumento intra-abdominal indica que esta resposta é pré-programada.

Oblíquo interno

O oblíquo interno pertence a camada intermediária dos músculos largos e são dois: direito e esquerdo.

Tem sua origem na:

  • Crista ilíaca;
  • Fáscia toracolombar;
  • Dois terços laterais do ligamento inguinal.

Sua inserção é nas Bordas inferiores das últimas 3 costelas e linha alba. Sua ação inclui fletir e rodar o tronco para o mesmo lado. Ele também auxilia na expiração forçada.

Seu direcionamento de fibras vermelhas circundam a cintura, numa direção para cima e de trás para a frente da pelve até as costelas. Sua ação mais potente está exatamente acima do umbigo e ao se contrair comprimira as vísceras.

Por fim, também reforça a borda do ligamento inguinal contribuindo para a contenção inferior do abdômen.

Oblíquo externo

É um músculo amplo, plano e quadrangular. Mais extenso em sua parte ventral que na parte dorsal.

Recobre a face lateral do abdome com sua porção muscular e a face anterior com sua porção aponeurótica. Tem a sua origem: da 5° a 12° costelas (bordas inferiores). Sua inserção está na: crista ilíaca, ligamento inguinal e lâmina anterior da bainha do reto abdominal. Suas aponeuroses se unem a linha alba.

Em sua ação: comprime o abdome, flete e roda o tronco para o lado oposto; auxiliando também na expiração forçada. Além disso, os oblíquos externos são capazes de direcionar as vísceras de cima para baixo pelo seu direcionamento de fibras.

Ação dos músculos largos sobre a linha alba

São eles os responsáveis em sua contração simétrica pela diástase pois tracionam a linha alba em sentidos opostos. A contração do Transverso traciona a linha alba num direcionamento horizontal, por sua disposição de fibras.

O oblíquo externo afasta a linha alba obliquamente em sua região superior para baixo. E o oblíquo interno atua na região infra umbilical tracionando a linha alba num direcionamento cefálico.

Os músculos retos do abdômen não realizam a separação da linha alba por serem paralelos a ela.

Solicitar contrações mantidas à pacientes que já possuam pressão intra-cavitária elevada, pode ser muito perigoso. Esta elevação acentuada da pressão intra-abdominal pode gerar um efeito compressivo sobre os feixes vásculo-nervosos. Isso prejudica o funcionamento de todo o sistema visceral.

Esse excesso de pressão intracavitária também acontece sobre o assoalho pélvico. A longo prazo facilita a instalação de mecanismos de fuga, empurrando as vísceras para baixo. Blandine traz da França todo um novo conceito em seus livros sobre Pilates. Ela recomenda solicitar a realização do exercício na fase inspiratória sem o fechamento das costelas.

Essas ações tentam não sobrecarregar as vísceras. Além disso, ele preconiza que os exercícios sejam realizados na fase inspiratória evitando assim o aumento da pressão intra-abdominal durante os enrolamentos no Pilates.

Exercícios na inspiração

Em contrapartida, ao realizarmos os exercícios na inspiração o diafragma estará em posição baixa. Isso diminui a área abdominal, e quanto a essa nova proposta ainda não temos estudos científicos comprobatórios.

Como vimos, vários autores e pesquisadores contemporâneos já se atentaram para as questões das variações pressóricas. Eles vêm buscando novas propostas para o conforto de um corpo viscerado, sem desrespeitar as três leis corporais:

  • Conforto;
  • Equilíbrio;
  • Economia.

Contudo, sabemos também que nos mantemos em bipedestação graças às pressões intracavitárias, e as potentes fáscias posteriores. O problema está quando essa pressão se mantém elevada. Segundo o físico francês Blaise Pascal, já citado anteriormente, essa pressão elevada distribuirá toda essa tensão de forma igualitária pelo saco visceral. Por isso as vísceras estariam sob o risco de não conseguirem realizar seus movimentos que são vitais a nossa sobrevivência. Como a víscera é prioridade ante os músculos, esses se relaxarão.

Sendo assim quanto mais abdominais tradicionais apliquemos a esse corpo, mais pressão no saco visceral geraremos então um abdômen mais globoso. Visto isto, o Método Abdominal Hipopressivo  propõe a normalização dessas pressões. Mais uma vez recorremos a física, sendo a pressão igual a força dividida pela área. Quanto menos pressão no saco visceral, menos área externa teremos na conformação desse abdômen. Logo o Método Abdominal Hipopressivo é capaz sim de diminuir a circunferência abdominal a médio prazo.

O Método Abdominal Hipopressivo emagrece?

emagrecimento e mitos da hipopressiva

De novo a resposta é sim e não. Somente com uma dieta equilibrada o emagrecimento será possível. Porém o Método é capaz de a médio e a longo prazo aumentar o metabolismo basal do indivíduo.

Os exercícios trabalham numa faixa interessante de variabilidade cardíaca gerada pela noradrenalina produzida pelo sistema nervoso simpático. Alguns exercícios da série dinâmica podem chegar a atingir 85% da frequência cardíaca máxima de um indivíduo.

Porém, deve estar acompanhada de exercícios específicos de Treinamento Funcional, Pilates, corrida, musculação, dentre outras atividades. Aqui reitero, o Método Abdominal Hipopressivo vem somar a outras técnicas e formas de atividade física quando falamos das questões estéticas. Além, de ser extremamente eficaz na capacidade de produzir Dopamina.

Conclusão

Como vimos o Método Abdominal Hipopressivo se associados a outros métodos pode somar muitos ganhos estéticos ao praticante. Os benefícios acontecem desde que supervisionado e avaliado por um profissional do movimento. Como todo método ele também possui contraindicações.

Devido ao marketing e a cultura da beleza muito fortes em nossa sociedade, fique atento. O método tem grande procura no mercado fitness. Porém, lembre-se seus benefícios vão muito além da estética somente.