Trabalhando com atletas acabamos encontrando uma variedade bem grande de lesões de quadril. Isso acontece por uma combinação de excesso de treinamento e movimentos repetitivos com desequilíbrios musculares.

Os desequilíbrios são bastante comuns, especialmente se estivermos lidando com um atleta amador que tem pouca ou nenhuma instrução profissional. O resultado já está na cara: uma lesão que causa dor e uma reabilitação demorada.

Após o surgimento da patologia devemos fazer tudo que podemos para reabilitar o paciente. E mesmo depois que a dor desaparece fica a função de prevenir que as lesões de quadril voltem.

Por isso, separei 4 patologias e lesões de quadril muito comuns em atletas e algumas estratégias importantes de prevenção.

1) Síndrome da Banda Iliotibial

A lateral da coxa possui uma faixa tendínea que tem origem no quadril, na região do ílio na pelve. Sua função seria de manter a relação entre quadril e joelho estabilizadas durante o movimento.

Na corrida, em especial, isso aconteceria no momento em que acontece o contato inicial do pé com o solo. Em casos patológicos, existe uma dor na lateral externa do joelho que pode também ser sentida acima da articulação, na direção do quadril.

O que Causa a Síndrome?

A dor na banda iliotibial pode acontecer por diversos motivos. No esporte, pode acontecer por causa de fricção do tendão na parte óssea durante a corrida. Alguns estimam que o desequilíbrio é potencializado por desgastes no tênis do atleta ou até por correr em terrenos que não são nivelados.

Porém, um dos fatores mais significativos para o surgimento da patologia está na falta de força de musculaturas do quadril.

Os abdutores e rotadores externos da articulação são especialmente afetados, quero destacar aqui que o glúteo médio é um dos principais deles. Quando o atleta não tem força ou controle sobre os movimentos do quadril acaba com uma rotação interna no quadril e no joelho.

Como resultado, a banda iliotibial fica sob estresse mecânico e é pressionada sob o epicôndilo femoral lateral.

Para conseguir avaliar o que causou, ou pode causar no futuro, a patologia, você deve avaliar a posição do atleta durante o esporte. Existem diversos desequilíbrios musculares e até problemas posturais que levam ao excesso de compressão na banda iliotibial.

Como é Possível Prevenir a Síndrome da Banda Iliotibial?

Um atleta realiza movimentos repetitivos diariamente e numa intensidade bastante alta. Quando existe um controle de movimento inadequado isso gera desequilíbrios que levam ao surgimento de lesões de quadril, e entre elas temos essa síndrome.

Quer prevenir o problema nos seus alunos praticantes de esportes? Comece a observar seus movimentos esportivos.

Procure por alterações de padrão de movimento, desvios como valgo dinâmico e outros. Qualquer desvio que possa aumentar o estresse na banda iliotibial deve ser observado.

Após identificar os desequilíbrios que eventualmente levarão à síndrome, chega a hora de realizar a prevenção de lesões de quadril. O instrutor precisará trabalhar principalmente com ativação de glúteo médio. Como resultado, o aluno consegue melhorar seu movimento do joelho.

Outro aspecto que precisa de um trabalho cuidadoso é a mobilidade de quadril. Acredite ou não, mesmo atletas costumam apresentar um quadril rígido e com pouca mobilidade.

As compensações criadas pelo corpo para permitir o movimento podem gerar aquele estresse excessivo na banda iliotibial.

2) Tendinopatia de Isquiosurais (Posterior de Coxa)

Os músculos isquiosurais são essenciais para flexionar o joelho e auxiliar na extensão do quadril.

Atletas de diversas modalidades precisam ter seus movimentos em perfeito estado, mas corredores são principalmente afetados. Lesões de quadril desse músculo incluem estiramento agudo ou crônico e também a tendinite.

Quando a tendinite não é tratada corretamente pode se tornar um problema crônico.

Durante a avaliação precisamos tomar cuidado para não confundir a tendinopatia de isquiossurais com outras lesões de quadril. Um bom exemplo é a síndrome do piriforme, que gera dor irradiada numa área similar.

Porém, a síndrome do piriforme tem origem na compressão do ciático quando passa pelo músculo piriforme. A própria dor irradiada de compressão do ciático também pode ser confundida com a patologia.

A tendinopatia é geralmente caracterizada pela dor na inserção do tendão que fica na região do osso ísquio.

O que Causa a Patologia?

A maioria dos pacientes que desenvolve a tendinite de isquiossurais tem uma ativação incorreta do glúteo máximo. Assim, a extensão de quadril se torna deficiente e sobrecarrega músculos posteriores da coxa. Com o aumento do volume e demanda de treinamento alta de atletas, a lesão acontece facilmente.

Quando o atleta realiza um treinamento que exige equilíbrio entre forças excêntricas da musculatura posterior ele aumenta o risco. Pelo menos isso acontece quando já existe a ativação ruim do glúteo.

Uma mecânica inadequada do esporte piora o quadro e contribui para o surgimento de sintomas da patologia. Outro problema comum em atletas está na falta de descanso adequado após um treinamento intenso.

Como Prevenir a Tendinite de Isquiossurais

Assim que percebermos a tendinite ou desequilíbrios que podem levar a ela devemos aliviar a carga sobre o tendão. Isso inclui cargas compressivas ou cargas de tração.

Inicialmente, o aluno deve evitar alongamentos dos membros inferiores que possam piorar o quadro. Os exercícios com carga de flexão de joelho também não são recomendados.

Devemos utilizar exercícios isométricos direcionados para o treinamento de isquiossurais. Isso auxilia a reduzir a dor, se existir, e melhorar a força muscular. Quando a fase aguda passar, também deveremos começar a trabalhar com exercícios excêntricos e de ativação de glúteo máximo.

O aluno precisa ajustar seus movimentos do quadril e melhorar a mobilidade do movimento. Ele também deverá adequar sua evolução de treinamento, diminuindo o aumento da intensidade ou duração dos treinos.

3) Impacto Femoroacetabular (IFA)

Atletas sofrem bastante com lesões de quadril causadas por impacto. O impacto femoroacetabular está muito relacionado a um volume de treinamento alto, combinado com pouco descanso e período de recuperação inadequado.

Quem conhece o ritmo de treinamento da maioria dos atletas (incluindo atletas amadores), sabe que isso é frequente.

Atletas iniciantes e amadores são especialmente problemáticos e com maior tendência a desenvolver a lesão. Eles possuem um planejamento deficiente antes das provas e com pouco tempo para se preparar. Apesar de conseguirem adaptar o condicionamento cardiorrespiratório para a competição, suas estruturas musculares, articulares e os tendões não consegue se adequar à demanda.

Para aguentar o impacto que acontece durante a prática esportiva o corpo precisaria de uma excelente mecânica do movimento. Através dela seria possível absorver e dissipar a energia imposta e evitar danos às articulações.

Só para entender quanto é exigido do corpo nos esportes, na corrida o corpo sofre com impacto de 2 vezes seu peso corporal. Agora imagine um corpo com musculatura despreparada para estabilizar as principais articulações. Certamente essa pessoa sofreria uma lesão.

O impacto femoroacetabular acontece por causa de uma compressão excessiva que acontece entre o colo e a cabeça do fêmur. O contato entre as duas estruturas forma crescimentos ósseos que podem ser de tipo cam, pincer ou misto.

Tipos de Lesão no Impacto Femoroacetabular

O primeiro tipo de lesão, a CAM, aumenta o contato entre o fêmur e o acetábulo através de um crescimento ósseo anormal no colo/cabeça. O impacto acontece durante uma flexão, educação ou rotação interna do quadril.

As lesões do tipo Pincer são formações anormais na borda externa do acetábulo. Elas também fazem com que aconteça um contato maior entre as estruturas que pode levar à patologia.

As lesões do tipo CAM aparecem mais em homens e as de tipo Pincer são mais comuns nas mulheres. Além disso, existem as lesões mistas que apresentam características do tipo Pincer e CAM e estão presentes em cerca de 86% das pessoas sintomáticas.

Principais Sintomas do Impacto Femoroacetabular

O paciente com impacto femoroacetabular pode apresentar sintomas após ou durante a prática esportiva. Depois de fazer exercícios é normal sentir dor na parte superior da virilha ou na região lateral do quadril.

Também é possível sentir dor profunda na região do glúteo e dificuldade para realizar rotações. Muitos alunos sentem dificuldade para sentar após a prática de exercícios.

Outro sintoma comum é a rigidez articular que impede diversos movimentos. Mesmo com vários sintomas é possível que o aluno não seja diagnosticado com impacto femoroacetabular. Esses são sintomas comuns que podem ser confundidos com problemas em músculos flexores de quadril e até estiramento da virilha.

Normalmente o atleta sente desconforto após treino intenso de corrida, seguido de rigidez articular.

Estratégias para Prevenção

Para conseguir identificar a causa do impacto femoroacetabular precisamos realizar uma avaliação detalhada. O tratamento e a prevenção dependem do conhecimento das alterações estruturais do quadril.

Elas podem influenciar na opção de tratamento conservador.

Para evitar a dor e começar a tratar os sintomas, precisamos alterar a rotina de treinamento do atleta. Ele precisa evitar agachamentos mais profundos e movimentos de rotação excessiva do quadril. Essas são atitudes que ajudam a controlar os sintomas para conseguir realizar o tratamento.

Também devemos inserir exercícios nas aulas para melhorar a mobilidade e amplitude de movimento. Durante os exercícios, o atleta não deve realizar alongamento excessivo do quadril.

4) Disfunção Sacroilíaca (Dor Sacrolíaca)

Já falei bastante sobre a articulação sacroilíaca no meu blog, se você estiver interessado nas lesões de quadril relacionados à ela, pode até conferir um guia completo sobre o assunto.

O que precisamos saber é que, apesar da sua extrema estabilidade, a junção entre o osso sacro e ilíaco pode desenvolver lesões e patologias.

A dor causada pela disfunção sacroilíaca é facilmente confundida com dor lombar ou ciática. Isso acontece porque seus sintomas se irradiam na região lombar, apesar da origem estar na região do quadril. Por isso precisamos de uma boa avaliação antes de diagnosticar qualquer problema que cause dor lombar.

Prevenindo a Disfunção Sacroilíaca

Para conseguir prevenir a dor causada pela disfunção sacroilíaca precisamos entender o que causou o problema. Antes que o atleta aumente seu volume de treinamento, devemos realizar uma avaliação dos seus padrões de movimento.

A avaliação precisa acontecer em um ambiente controlado para conseguirmos controlar o treino e começar a fazer ajustes no movimento.

Também devemos trabalhar mobilidade de quadril e pelve. Para isso, utilize exercícios como os de Pilates e Yoga. Eles te ajudam a desenvolver a consciência corporal do aluno e a melhorar a ativação muscular. Os exercícios também ajudam a corrigir e evitar compensações em outras regiões do corpo.

Conclusão

Um atleta precisa de grande volume de treinos e treinamentos em alta intensidade para condicionar seu corpo a ponto de aguentar suas atividades. A competição pode ser uma atividade extremamente intensa que exige muito das articulações e musculaturas.

Porém, esse mesmo treinamento cheio de movimentos repetitivos pode ser uma das causas das lesões de quadril.

O profissional do movimento precisa reabilitar o aluno após a lesão e continuar com um trabalho preventivo. Para isso é necessário usar exercícios educativos para preparar padrões de movimento corretos.

Como resultado, o atleta terá mais qualidade na prática esportiva e também evitará precisar parar a prática por causa de uma lesão.