A pubalgia é uma patologia caracterizada pela dor na região baixa do abdômen e na virilha. Os sintomas acontecem na púbis e possui irradiações dolorosas que se espalham em direção aos adutores, músculos abdominais e arcadas crurais.

Nem sempre a pubalgia foi principalmente uma patologia de jogadores de futebol. Sua primeira descrição aconteceu em um atleta de esgrima. Porém, ela só foi realmente reconhecida como patologia em 1938 com o diagnóstico de um jogador de futebol.

Ela vem sendo cada vez mais diagnosticada em atletas, sejam eles amadores ou profissionais. A pubalgia em atletas é inclusive um dos principais motivos de aposentadoria do esporte. Elas são comuns em jogadores de futebol, tenistas e golfistas, podendo estar presente em praticamente qualquer prática esportiva.

Precisamos aprender suas causas e diagnóstico para conseguir proporcionar um tratamento adequado e eficiente para nosso aluno.

Anatomia da Pelve

A pelve é a região atingida pela pubalgia em atletas, portanto, vamos iniciar nossa estudo por ela. Ela é composta pelo seguintes ossos:

  • Osso Púbico: é o osso mais anterior da pelve que também forma o terço inferior e anterior do ilíaco;
  • Ilíaco: existem dois ilíacos formando a pelve. Eles são estruturas chatas e irregulares que na verdade são formadas pela junção do ílio, ísquio e púbis. Unindo-se os dois ilíacos e o sacro temos a formação da pelve;
  • Ílio: é a parte mais superior e forma boa parte do osso do quadril. Ele possui uma divisão em duas partes.

O ísquio divide o quadril em parte inferior e posterior, portanto conseguimos dividir essa estrutura anatomicamente em corpo e ramo.

A pelve realiza a ligação entre tronco e membros inferiores. Para isso, ela se liga aos fêmures através do acetábulo. Na parte inferior da coluna encontra-se o que chamamos de cíngulo inferior, formado pelo sacro e ilíacos, ele se liga ao tronco através da articulação lombossacral.

Esse conjunto articular é extremamente estável e possui um sistema de autobloqueio. Apesar disso, ele consegue realizar diversos micromovimentos. Só devemos tomar cuidado com a pelve que nunca deve perder sua continuidade abaulada.

Biomecânica da Pelve

Os movimentos são os grandes culpados pelo desenvolvimento de vários casos de pubalgia em atletas. Também precisamos lembrar que na pelve temos a anulação de duas forças contrários: a força peso e a força solo.

Portanto, patologias musculoesqueléticas na coluna vertebral ou membros inferiores podem estar ligadas a um mal posicionamento da pelve.

Quando o corpo está na estática, existem forças descendentes que chegam até a pelve e se propagam desde a coluna. As forças passam por sacro e sacroilíacas até chegarem às coxofemorais. Parte da força termina no púbis.

Também existem forças ascendentes que passam pelo apoio dos pés no solo, sobem pelo fêmur e se encerram em parte no púbis. O restante dessa força segue o caminho inverso das forças descendentes.

Na articulação lombossacra o corpo e o disco de LV são mais altos na região anterior. Encontramos uma discreta inclinação anterior na base do sacro quando ele encontra-se na posição estática. Ele realiza um controle de forças que foram divididas em duas na 5ª vértebra lombar.

Parte da força se aplica anteriormente sobre a base sacral, e quanto mais horizontalizado o sacro estiver, mais aumentada estará essa força, aumentando a força de tração anterior nas vértebras lombares.

Enquanto na dinâmica, durante a marcha existe uma força reacional do solo (3ª Lei de Newton) durante a fase de apoio. Newton a descreveu como uma força ascendente que incide sobre a coxofemoral.

Assim, a coxofemoral torna-se um ponto fixo. Por causa dessa ação, o peso do tronco descende através dos discos de L5-S1, aumentando a tendência de horizontalização do sacro.

Encontramos nessa explicação o motivo da imobilidade da sínfise púbica. Por isso, ela tem um reforço adicional de fibrocartilagem, ligamentos e fáscia que atuam na estabilização.

Também existem diversos tendões inseridos próximos à sínfise púbica. Eles pertencem a potentes músculos que geram mais força elástica. É aí que começam os problemas da pubalgia em atletas.

O púbis recebe forças dinâmicas dos músculos:

Como pode ocorrer a Pubalgia em Atletas

Existem indícios de que cerca de 40% dos casos de pubalgia ocorrem por causa do uso excessivo da sínfise púbica. Isso seria justificado pelos treinos intensos e frequentes de core nos atletas, especialmente daqueles inseridos num ciclo de competição.

Como resultado, o atleta desenvolve lesões repetidas e progressivas que podem afetar os seguintes músculos ou estruturas:

  • Reto Abdominal
  • Adutores
  • Sínfise Púbica

Percebam que o músculo reto abdominal em seus 2 ventres inserem-se um ventre de cada lado da sínfise, ou seja, o reto abdominal direto, parte do esterno para se inserir na sínfise púbica direita e o reto abdominal esquerdo, parte do esterno para encerrar-se na sínfise ao lado esquerdo.

Sabemos que os retos do abdômen, descem juntos pela linha alba, entrecortados, pelas fáscias dos músculos largos, que servem de reforço para essa junção dos 2 ventres musculares do reto abdominal.

O excesso de treinamento do core, pela busca quase insana da estabilização da coluna vertebral (teoria essa equivocada, incompleta, e, portanto, ultrapassada), acaba por gerar um aumento de ativação dos músculos pertencentes ao core, que são bilaterais e tônicos.

Isso mesmo, eu disse tônicos, e ativados por um controle central.

Ou seja, abdominais tradicionais, pranchas, ativação de transverso do abdômen não estabilizam a coluna vertebral, geram troncos rígidos, e pelves desequilibradas, podendo ser fator preponderante para o desenvolvimento da pubalgia em atletas.

Existem também as pubalgias que podem ser geradas pelas hérnias esportivas (cerca de 40% delas). Estas podem acontecer por insuficiência da parede abdominal anteroinferior, as herniações são muito dolorosas, retiram o atleta do treinamento, e mais uma vez, chamo a atenção ao conceito ultrapassado da estabilização segmentar, o famoso Powerhouse, Core ou Bracing.

A hérnia esportiva pode acontecer por uma falha musculoaponeurótica da faixa abdominal. Na parede abdominal existem, dentre outras estruturas, os feixes dos músculos largos e o músculo reto abdominal na camada superficial da parede abdominal, reforçado pelos músculos largos e suas fáscias .

A relação entre essas duas estruturas pode ser um possível causador da hérnia, por excesso de pressão intra-abdominal gerada pelas manobras de estabilização supra-citadas.

E pelo aumento da tensão da faixa abdominal tracionando os retos para longe da linha média, podendo gerar, as famosas diástases, reconhecida como uma depressão com profundidade delimitada pelo feixe transversal acima de 2,5 cm.

De novo desequilibrando a pelve, acelerando ao processo de formação de uma possível pubalgia.

Percebam, que mais uma vez, o vilão está no excesso de tensão dos músculos do abdômen, e não na fraqueza da faixa abdominal, podemos através do movimento prevenir a herniação, esquecendo o trabalho da estabilização estática.

A estabilização deve ser trabalhada em atletas, de forma dinâmica, e dentro da especificidade do seu gestual esportivo.

Já disse anteriormente, e vou repetir, abdominais tradicionais só nos faz acelerar o desequilíbrio da pelve, acelerando disfunções como:

  1. Pubalgia
  2. IFA
  3. OA
  4. Incontinência Urinária de Esforço
  5. Dentre Outros

Outros 20% dos casos de pubalgia em atletas acontecem por desequilíbrios próximos à pelve. Isso inclui disfunções de quadril, desequilíbrio do músculo:

  • Iliopsoas
  • Isquiotibiais
  • Pelvicotrocanterianos
  • Ilíacos

Um estudo, por exemplo, encontrou associação de pubalgia com outras patologias de quadril em 15% dos indivíduos pesquisados.

Conclusão

Na verdade, defendo que o principal trabalho nosso seria o de prevenção da pubalgia nos atletas.

Assim que percebemos alterações gestuais ou biomecânicas no atleta que podem levar ao surgimento da patologia, precisamos corrigi-las, através de uma boa avaliação do posicionamento ilíaco e da articulação sacro-ilíaca, e já conseguiremos identificar e corrigir o desalinhamento mecânico, antes de ocorrer sobrecarga mecânica de outros tecidos.

Uma vez a pubalgia instalada, devemos corrigir os desequilíbrios pélvicos:

  • Articulares ou Musculares (retirando o excesso de ativação de grupos musculares específicos)
  • Relaxar os Músculos Largos do Abdômen
  • Normalizar a Pressão Intra-Abdominal
  • Melhorar o Gestual Esportivo

E antes que algum leitor atire a primeira pedra, claro que não podemos esquecer dos traços psicossociais de toda disfunção, lembrando aqui, que atletas de alto nível vivem sob estresse constante e muita pressão por resultados, porém nem todos sabem lidar com isso, e os questionários de estresse não podem ser esquecidos.

Boa parte dos pacientes não busca ajuda assim que a pubalgia aparece. Porém, eles podem te procurar para resolver outras lesões dolorosas que são indicativos de desequilíbrios que podem levar ao surgimento de pubalgia.

 

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