O número de mulheres que realiza partos cesáreos no Brasil não para de crescer. Mesmo assim, existem diversos riscos da cesárea para a mecânica do corpo.

Muitas mulheres apresentam dor lombar após realizar a cirurgia. Isso está relacionado a uma série de compensações geradas pelo corpo que teve uma grande quantidade de tecido conjuntivo e importantes músculos cortados.

Para fornecer um tratamento eficiente a essas pacientes precisamos entender também como as compensações surgem.

Nesse artigo você entenderá os riscos da cesárea para a mecânica corporal e quais são as disfunções que surgem dela. Assim, conseguirá preparar um tratamento muito mais eficiente e completo para sua paciente.

Início: Processo da Anestesia

As cirurgias de cesárea usam a raquianestesia, um tipo de anestesia que é aplicada nas meninges da coluna vertebral. Logo veremos como essa anestesia afeta diretamente a cadeia neuromeningea.

Ela é aplicada diretamente no líquor, sua ação bloqueia as raízes posteriores e anteriores, gânglios das raízes posteriores, parte da medula espinhal. Quando a paciente recebe o procedimento ela perde a atividade autônoma sensitiva e motora na parte inferior do corpo.

Para realizar a aplicação a paciente fica deitada em decúbito lateral em posição de tronco. A posição ajuda a aumentar os espaços articulares intervertebrais, facilitando o acesso ao local da aplicação anestésica. Na hora de aplicar utiliza-se uma agulha fina que é introduzida no intervalo entre as últimas vértebras lombares.

Perceba que a aplicação da anestesia gera um pequeno orifício que o corpo precisará ser cicatrizado ou recoberto. Em algumas pacientes isso não acontece, fazendo com que parte do líquor seja recoberto.

O resultado é uma alteração nas pressões do líquido céfalo raquidiano. Pacientes com tais alterações sofrem com sintomas como:

Os sintomas têm início cerca de 24 horas após a cirurgia e podem persistir por mais ou menos 5 dias. Após esse período eles desaparecem de forma espontânea conforme o corpo repõe o líquido perdido. Para que a paciente tenha uma recuperação mais rápida o ideal é permanecer em repouso e hidratar-se bastante.

Apesar dos sintomas desaparecerem a memória muscular do corpo não os deixa serem completamente esquecidos.

Quando as meninges sofrem alterações pressóricas como as desse tipo de caso os músculos da nuca e região dorsal se retesam. Essa é uma reação que tem como objetivo proteger o tecido nervoso de lacerações. Mesmo após a retomada da pressão normal do líquido a reação muscular permanece.

Muitas vezes é preciso intervenção do fisioterapeuta para livrar o corpo desse padrão de proteção e aliviar as dores.

Riscos da Cesárea envolvendo a Cirurgia

Os maiores riscos da cesárea para a biomecânica do corpo estão na própria cirurgia, em especial no corte realizado. Ele acontece na área de inserção dos retos do abdômen e também cortam 6 camadas de tecido conjuntivo.

O grande problema que encontramos é a cicatrização dessa grande quantidade de tecido conjuntivo, do reto abdominal e das aponeuroses da região. Quando ela não acontece corretamente (e isso é muito comum) pode surgir uma cicatriz tóxica.

Essa cicatriz é um dos grandes riscos da cesárea.

Ela pode prejudicar a postura e alterar o funcionamento mecânico do corpo. Tais cicatrizes permanecem em constante reação com estímulos externos e internos. Elas criam uma contratura muscular na região, gerando um ponto fixo.

Além disso, são capazes de modificar o tecido conjunto e o líquido extracelular ao seu redor. O local onde existe uma cicatriz tóxica se torna uma área reativa que chamamos de campo perturbador.

Geralmente as cicatrizes horizontais, como as da cesárea, costumam ser as mais reativas. Dá para entender a importância das cicatrizes para a mecânica corporal ao analisar a pele. Esse é o maior órgão do corpo, é rico de terminações nervosas livres e exteroceptores.

Quando existe uma cicatriz tóxica os exteroceptores ficam estirados em certas posições, gerando alterações posturais para evitar isso.

Cicatriz Tóxica da Cesárea

A incisão que corta 6 camadas de tecidos conjuntivo da cesária cria um problema para as cadeias de flexão do tronco e anterior.

Quando o tecido cicatriza o músculo lacerado perde sua flexibilidade e se torna um ponto fixo interno. Assim, o corpo passa a possuir uma força centrípeta que impede a contração muscular. A cadeia a qual o músculo afetado pertence passa a funcionar em tensão constante para compensar.

Perceba que o problema da cesárea não para por aí. Os músculos retos do abdômen possuem sua continuidade na cadeia muscular. Essa continuidade se dá nos músculos perineais com inserção no cóccix. A tensão se espalha dos retos abdominais, tracionando o cóccix para a direção cefálica.

A tração do cóccix também leva ao apagamento das curvaturas da coluna lombar. A cadeia antagonista fica em tensão excêntrica, completando o quadro de dor. Já percebeu que muitas pacientes sofrem de dor lombar após realizar a cesárea?

O grande problema está na cicatrização do tecido conjuntivo e músculos lesados no procedimento. Esse é um dos maiores riscos da cesárea ao qual profissionais do movimento devem estar atentos.

Como Tratar a Paciente?

Os distúrbios gerados pela tensão de cadeias musculares do tronco e uma matriz cicatricial ruim geram dor lombar após o parto.

Muitas vezes pensamos que o culpado é a falta de força no núcleo, porém o tratamento não funcionará só com fortalecimento de musculaturas estabilizadoras. Na verdade, precisamos resolver todo o conjunto de compensações geradas pelo corpo.

Para isso precisaremos relaxar os músculos que estão tensionados, gerando um padrão de movimento mais fisiológico. Também devemos dar atenção à matriz cicatricial tóxica que está impedindo o movimento.

Devemos livrar o corpo dos pontos fixos que forçam a tensão nas cadeias musculares. Por fim, é preciso usar técnicas para normalizar a pressão intra-abdominal que estará aumentada.

Conclusão

Considerando o número de mulheres que realiza cesáreas anualmente, nós, profissionais do movimento, precisamos estar prontos para tratar suas compensações.

O corpo cria uma série de mecanismos de proteção para manter-se funcionando, mas isso não é o suficiente. A paciente terá dor lombar e outros incômodos gerados por tensões nas cadeias musculares do tronco e pela cicatriz tóxica.

Para realizar um bom tratamento é preciso entender detalhadamente de onde surgem essas tensões.

Depois de conhecer suas origens, é hora de liberar a tensão muscular e recuperar um padrão de movimento fisiológico que ajude a paciente a se livrar da dor.

 

Referências
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  5. ANÁLISE/ANALYSIS
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  8. Raquianestesia: o que é? Quais os preparos necessários? Como é feita? Quais são as vantagens e as desvantagens?
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