Sempre gosto de enfatizar como o trabalho no Pilates precisa ser individualizado para cada aluno. Cada corpo é único em suas compensações, desequilíbrios e até pontos fortes e positivos. Por isso, protocolos de aula pré-prontos pouco ajudarão seu aluno a obter os resultados desejados. Precisamos preparar a aula considerando o tipo específico de corpo do aluno, isso inclui os tipos de coluna.

Na coluna existem cifoses e lordoses. Tais curvaturas surgem com o desenvolvimento do corpo para proteção dos órgãos vitais do organismo.

A coluna possui curvaturas alternadas e cada uma tem sua função. Aqui já podemos lembrar que, ao contrário do que muitos pensam, uma coluna reta não é a coluna perfeita. Pelo contrário, esses tipos de coluna apresentam diversos problemas que exploraremos mais tarde.

Comecemos a análise da coluna com as cifoses. Elas têm uma função importante de proteção e também servem como pontos fixos. É através desses pontos fixos que muitos músculos realizam seus movimentos. Vemos então que as cifoses são naturalmente menos móveis.

As lordoses estão presentes entre as cifoses e ajudam na distribuição da força de compressão axial (força gravitacional). Portanto, são bem mais móveis.

Considerando a mobilidade e estabilidade podemos considerar que existem dois tipos de coluna:

  • Tipo Funcional Dinâmico
  • Tipo Funcional Estático

Tipos de Coluna: Funcional Estático

Os tipos de coluna funcional estático são uma coluna com curvaturas menos marcadas. Lembra do que falei daquela coluna reta que muita gente confunde com coluna saudável? Ela seria do tipo funcional estático, retificada e sem curvaturas muito marcadas. Acredite ou não, os brasileiros têm muitos exemplos desses tipos de coluna.

Existem dois tipos de colunas:

  1. Tipo Funcional Dinâmica
  2. Tipo Funcional Estática

Uma coluna do tipo funcional estático tem um equilíbrio muito precário. O indivíduo que a possui está mais suscetível a quedas. Quanto menor for sua mobilidade, menor será a estabilidade e o equilíbrio.

Então, esse indivíduo terá maior dificuldade de manter seu equilíbrio durante os movimentos e pode cair mais facilmente. Tome cuidado especialmente com idosos que apresentem esse tipo de coluna. (Rachel W. Pata, Katrina Senhor, Jamie Lamb)

Tipos de Coluna: Funcional Dinâmico

Uma coluna do tipo funcional dinâmico é caracterizada por curvaturas mais móveis. Considerando os perigos da rigidez, talvez você pense que ela seria a solução para os problemas gerados pela coluna estática.

Na verdade não, a coluna desse tipo funcional possui uma mobilidade exagerada e se torna mais suscetível a lesões.

Perceba que existe um dilema paradoxal nos tipos de coluna. Ela precisa ser estável o suficiente para aguentar as forças gravitacionais às quais é submetida. Porém, estabilidade demais compromete o equilíbrio e o movimento. Ela também precisa ser móvel o suficiente para ser flexível, possibilitar o movimento e evitar lesões.

Mas mobilidade demais também é um fator lesivo.

Sem encontrar um equilíbrio entre estabilidade e mobilidade, a coluna não terá uma energia potencial para se mover e evitar lesões. Portanto, na hora de trabalhar o aluno no Pilates devemos considerar qual é seu tipo de coluna.

Se ele for mais flexível e possuir uma coluna do tipo funcional dinâmico a estabilidade será prioridade. Quem é mais rígido e retificado precisa de um trabalho de mobilidade.

Eu falei em priorizar essas características da coluna. Nunca devemos trabalhar só mobilidade ou só estabilidade. Na coluna do tipo funcional dinâmica, por exemplo, precisamos trabalhar estabilidade sem perder sua flexibilidade natural. Em uma coluna do tipo funcional estática precisamos priorizar mobilidade sem comprometer a estabilidade já existente.

Importância da Estabilidade da Coluna Vertebral

Panjabi foi um dos primeiros autores a falar sobre a estabilidade. Ele determinou que o aumento da dor lombar causado por uma coluna instável estava relacionada à perda do padrão de movimentos funcionais. Joseph seguia uma linha de pensamento similar, buscando recuperar os movimentos fisiológicos encontrados em animais e crianças.

De acordo com panjabi, a estabilização da coluna acontece através de 3 subsistemas:

  1. Coluna Vertebral
  2. Músculos da Coluna Vertebral
  3. Unidade de Controle Neural

Portanto, precisamos desenvolver uma coluna que seja flexível, mas tenha musculaturas fortes. Pouco atuamos sobre o sistema de controle neuromuscular porque pouco é conhecido sobre ele.

Um corpo com muita oscilação tem maior probabilidade de desenvolver dor lombar. Isso indica um sistema de controle neuromuscular menos eficiente. Ele é incapaz de proporcionar a estabilidade que a coluna precisa.

Como garantir a Estabilização da Coluna

Paul Hodges faz uma proposta bastante eficiente para estabilizar a coluna vertebral: o movimento. Muitos impõem rigidez à coluna para resolver seus problemas biomecânicos, mas talvez essa não seja a melhor solução.

Quando preparamos o corpo para o movimento e ajustamos a posição de sua coluna vertebral temos menor perturbação.

A estabilidade não é e nem deve ser confundida com um impedimento do movimento. Na verdade, ela envolve pequenos movimentos que são feitos no momento certo e na quantidade certa.

Outro erro comum é exigir uma contração excessiva do centro do corpo e estabilizadores da coluna. De acordo com Hodges, a melhor estabilidade não acontece pela geração máxima de contração, mas sim ao contrair os músculos corretos, na quantidade certa e no momento certo.

As contrações musculares responsáveis por estabilizar a coluna vertebral são custosas para o corpo. Elas restringem a respiração, além de aumentar a pressão sobre o assoalho pélvico e compressão sobre a coluna vertebral. Então, não devemos deixar que o aluno realize essa contração de qualquer jeito ou com força excessiva.

Ao trabalhar com a estabilização no núcleo precisamos que a atividade muscular preceda qualquer força de perturbação da coluna vertebral. Por isso, Hodges considera que o timing e a antecipação é mais importante.

Como sabemos, o transverso é o principal músculo de estabilização segundo Paul Hodges. Logo vamos conhecer mais profundamente esse importante músculo.

Transverso

Perceba na imagem do transverso que ele é cortado pela frente pela potente linha alba e por trás pela fáscia tóraco lombar. Acredito que existe interdependência e ainda na existência de dois músculos transverso.

É possível dividi-lo em transverso direito e transverso esquerdo. Considerando essa divisão anatômica, seria incorreto usar o comando de levar o umbigo para a coluna. Isso só seria possível com a colaboração dos retos abdominais.

O transverso não realiza esse movimento.

Também existe um engano no Brasil sobre a contração do transverso. Observe novamente a figura do transverso do abdômen. Agora pensemos em uma contração concêntrica dos transversos. As linhas inferiores do músculo o tracionam para dentro e para baixo.

Elas alargam a parte inferior do abdômen como as figuras que criamos de cinturão, espartilho e outras. É mais um fator anatômico que devemos levar em consideração na contração do transverso. Ele impede que esse músculo realize sua contração não somente no sentido interno.

Ele traz sua contração para a crista ilíaca de forma ascendente. Isso forma uma cintura fininha na altura das suas fibras médias que são horizontais, não nas fibras interiores e superiores.

O comando correto a ser utilizado é de aplanamento do abdômen com a formação de uma cintura fininha. Não podemos realizar a contração incorreta e empurrar as vísceras para baixo. Isso fadigaria o assoalho pélvico.

Toda a linha de estudo osteopático fala em fadiga do assoalho pélvico, não fraqueza, na maioria dos casos.

Conclusão

Vou reforçar aqui que o Pilates não é uma receita pronta. Não existem comandos prontos que funcionam para cada aluno. Precisamos realizar uma avaliação detalhada para determinar qual é a melhor estratégia de atendimento.

No Pilates trabalhamos até hoje com a estabilização segmentar da coluna ou com o fortalecimento do Powerhouse. Acreditamos que quanto mais forte forem essas musculaturas, mais estável estará a coluna. A ideia não é completamente errada, mas está pouco compreendida.

Confundimos estabilidade com rigidez e ignoramos a mobilidade. Precisamos começar a trabalhar os tipos de coluna no Pilates de acordo com as necessidades individuais de cada paciente.

 

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