Como a fáscia influência no movimento

Como a fáscia influência no movimento

A fáscia é um tecido conjuntivo propriamente dito denso, tendo como principal característica ser ininterrupta. Ela circunda e conecta os músculos, estruturas nervosas e viscerais. Ela constitui assim um importante elemento de comunicação mecânica entre os vários sistemas corporais.

Ou seja, desempenha um importante papel na transmissão miofascial de forças (HUIJING, 2009). É um tecido ativo mecanicamente, que possui funções proprioceptivas e nociceptivas. (YAHIA et al. 1992; SCHLEIP et al. 2005; STECCO et al. 2006, 2007, 2008, 2013b; BHATTACHARYA et al. 2010; TESARZ et al. 2011).

A fáscia é descrita como uma rede tensional distribuída ao longo de todo o corpo humano (SCHLEIP & MÜLLER, 2012), gerando um componente de tensegridade. No corpo humano denominamos esse conceito como biotensegridade. A tensegridade é originalmente um elemento da engenharia, onde ocorre a transmissão de força miofascial.

Uma série de congressos internacionais de pesquisa sobre o assunto possui um consenso de que uma estrutura de tecido conectivo denso em camadas é denominada de “fáscia própria”. Entretanto, existem diversas outras estruturas anatômicas de tecido conectivo denso e fibroso que não são denominadas de “fáscia própria”. De qualquer maneira, eles são considerados elementos de uma vasta rede fascial que corroboram com a transmissão de força miofascial (FINDLEY et al., 2007; HUIJING et al., 2009; CHAITOW et al., 2012). Os elementos anatômicos que são englobados nessa rede tensional são:

  • Cápsula de articulações e órgãos;
  • Septos musculares, ligamentos;
  • Retináculos;
  • Aponeuroses;
  • Tendões;
  • Miofáscia;
  • Neurofáscia (SCHLEIP & MÜLLER, 2012)

Tensegridade

A tensegridade é um sistema de arquitetura comumente utilizado para a formação dos sistemas naturais. Os sistemas se auto-estabilizam mecanicamente devido à maneira como forças compressivas tensionais são distribuídas e equilibradas pela estrutura. (INGBER,1998). É um sistema de estabilização onde o componente passivo exerce uma constante tensão sobre o sistema articular. Assim diminui o gasto energético e o controle a nível central (WC, 2015).

Existe uma pré-tensão passiva do tecido conjuntivo que conecta tudo e permite o equilíbrio entre sistemas antagônicos nos 3 planos de movimento, visando a economia de energia. Essas tensões são geradas por:

  • Fibroblastos;
  • Miofibroblastos.
  • Proteínas contráteis;
  • Células musculares livres na matriz extracelular (MEC);
  • Fluxo de líquidos.

As tensões são transmitidas do meio extracelular para o meio intracelular por proteínas de membrana celular chamadas integrinas. Essa tensegridade gera um sistema de compensação onde aumentando a tensão em uma direção automaticamente ocorre diminuição na direção contrária (BERNAROCH, 2006; SPECTOR, 2010).

A inervação das fáscias profundas e superficiais é controlada, principalmente, pelo sistema nervoso autônomo simpático (SNAS). Já as fáscias internas (fáscias viscerais) recebem inervação simpática na sua camada superficial e parassimpática nas camadas mais profundas (serosas). O sistema aferente se constitui por mecanorreceptores (SCHILEIP, 2003), e são gerados principalmente pelos:

  • Fusos intramusculares (perimísio);
  • Órgãos tendinosos de Golgi (junção miotendínea);
  • Corpúsculos de Pacini e Ruffini (controlam a velocidade de movimento);
  • Terminações nervosas livres.

Discussões interessantes sobre pesquisas e descobertas atuais

Para cada aferência proprioceptiva de: fusos musculares, órgãos tendinosos de Golgi (OTG), Passini, Ruffini e terminações nervosas livres que é o receptor mais abundante do corpo são multimodais, ou seja, captam:

  • Alterações térmicas;
  • PH;
  • Alterações químicas;
  • Nociceptores e mecanoceptores (tensões, pressões e cisalhamento).

Nosso corpo envia sete aferências interoceptivas. A interocepção é a função fisiológica do hipotálamo em receber percepções relacionadas ao interior do organismo como:

  • PH;
  • Temperatura;
  • Tensão de fibras musculares lisas;
  • Outros.

Ou seja, o mesmo receptor que leva a informação de dor carrega também outras informações para o SNC.

Novos conceitos sobre o fuso muscular

A maioria dos fusos intramuscular ficam no perimísio (ventre muscular). Segundo Stecco o fuso ajuda a coordenar movimentos em um plano de movimento, movimentos uniplares, seja no plano:

  • Sagital;
  • Frontal;
  • Transversal.

Porém, na maioria das nossas atividades funcionais ocorrem em mais de um plano de movimento. Quem coordena esse movimento multiplanar são as junções músculo-tendinosas. Eles cruzam as articulações do corpo, onde as fáscias mudam de direção. Quem controla essas junções são os órgãos tendinosos de Golgi (OTG), e claro que temos outros receptores funcionando também.

Na verdade, o movimento acontece pelo controle da fáscia (percepções ápticas) que vão se remodelando a todo momento. Porém, isto está sendo modulado pelos fusos e pelos OTGs. O tempo de um entorse, por exemplo, é muito mais rápido, do que a ativação dos músculos fibulares para impedirem que a entorse aconteça. O que acontece portanto, é a remodelação do corpo inteiro para impedir a lesão.

Isso não quer dizer que as propriocepções não estão percebendo esse mecanismo. Toda vez que temos um desarranjo em mais de um plano de movimento, o controle, é mais realizado pelas articulações fasciais. Não somente por elas, mas principalmente pelas articulações fascias, onde cruzam as fáscias permitindo o movimento em mais de uma direção. Mais à frente, explicitarei o que são essas articulações fasciais.

O OTG coordena, em cada plano de movimento, seu agonista e antagonista, logo em três planos de movimento eu tenho 6 fontes vetoriais, ele inibe a contração muscular para a coordenação do movimento.

As fáscias de movimento

camadas musculares e a fásciaNeste artigo discutiremos a última camada da ilustração acima, chamadas de fáscias do movimento, pois envolvem os músculos.

São as fáscias epimisais e as fáscias profundas histologicamente 20% que estão nessas fáscias são proprioceptivos (mielinizados): fuso, OTG, Ruffini e Paccini. E 80% são terminações nervosas livres que também enviam informações proprioceptivas. Porém, essas são multimodais, podendo enviar, inclusive, informações emocionais, do tecido muscular.

Por isso, talvez estejamos muito próximos de entender a conexão mente-corpo e porque as emoções ficam, por vezes, retidas em tecidos periféricos. Por isso além das alterações químicas, o movimento auxilia nas questões emocionais. Logo, movimento com grandes amplitudes é fundamental para melhorar a fluidez de todo esse sistema. Essas terminações nervosas livres estão no músculo, por uma programação biológica, simpática ou parassimpática. Quem faz o corpo reagir a um stress, lutando ou fugindo é o músculo.

Anatomia das Fáscias da Cabeça, pescoço e tronco

Na cabeça possuímos uma camada de fáscia profunda (fáscia do movimento), no pescoço e no tronco temos 3 camadas de fáscia profunda.

A fáscia profunda encontra-se abaixo da: epiderme, derme e a hipoderme, logo abaixo da segunda camada de gordura corporal.

Fáscia profunda

Refere-se às camadas fibrosas densas que interagem com os músculos. Ela conecta diferentes elementos do sistema musculoesquelético e é importante na transmissão de forças. De acordo com sua espessura e relacionamento com os músculos subjacentes, é dividida em:

  • Fáscia aponeurótica (ex. fáscia toracolombar, bainha do reto, fáscia profunda dos membros);
  • Fáscia epimisal (ex. fáscia profunda do tronco).

Fáscia Profunda

Fáscia Epimisal

Nos membros é a fáscia que recobre cada músculo. Por exemplo: Fáscia epimisal do bíceps, do tríceps, do braquial, do deltóide, etc,

No tronco é a fáscia que recobre ou engloba cada músculo. Por exemplo: Fáscia epimisal dos oblíquos abdominais externo e interno, do transverso do abdômen, dos intercostais, grande dorsal, peitoral maior e menor, serrátil anterior e posterior, eretores da espinha, rombóides, etc.

Fáscia Aponeurótica

Nos membros é a fáscia que recobre todo o segmento ou membro. Por exemplo: Fáscia aponeurótica da perna, do pé, do braço, do antebraço, etc.

No tronco é a fáscia que serve de inserção de vários grupos musculares. Por exemplo: Fáscia tóracolombar e bainha do reto-abdominal.

Fáscias do crânio

fáscia do crânioEm contato com os ossos parietal e frontal do crânio temos a fáscia Epicraniana, a fáscia profunda da cabeça. Ela possui uma camada, porém bilaminar, separada por tecido conjuntivo frouxo. A parte laminar profunda está ligada ao periósteo dos ossos: frontal e parietal.

A fáscia Epicraniana vem do frontal, parietal e segue até a linha orbital superior. Quando ela atinge o olho, surge a primeira articulação fascial na parte superior da órbita, pois ela se cruza com a fáscia de Tenon.  Na verdade, ela é a mesma, só mudando seu nome. A fáscia de Tenon envolve:

  • Os seis músculos dos olhos;
  • A bolsa lacrimal;
  • O ducto lacrimal tendo continuidade na dura-máter envolvendo o nervo ótico;
  • O nervo troclear;
  • Abducente;
  • Óculo-motor (II, III, IV, VI pares cranianos).

A fáscia de Tenon envolve todas estruturas que estão dentro da órbita dos olhos.

Acima da sutura do temporal, logo acima da orelha com o parietal, temos uma linha paralela superiormente a essa sutura. Essa linha é a articulação da fáscia epicraniana com a fáscia temporal profunda que no arco do zigomático insere-se a fáscia temporal profunda. Forma mais uma articulação fascial com sua ligação a fáscia massetérica ou fáscia parotidamasseterica, porque envolve também a parótida numa envaginação se relacionando ao nono nervo, o glossofaríngeo. Ele tem a função de controlar a função de amilase, que abraça a mandíbula envolvendo o masseter, aqui temos a articulação fascial com a camada superficial da fáscia profunda do pescoço (no pescoço temos 3 camadas fasciais).

Dentro da boca a fáscia massetérica se comunica com a fáscia pterigoidea. Ela possui uma expansão chamada fáscia interpterigoidea que ajuda na formação da parte posterior da boca. A fáscia cruza de um processo pterigoideo até o pterigoideo contralateral, envolvendo os músculos pterigoideos lateral e medial.

Ainda dentro da boca temos mais uma fáscia que possui continuidade com a fáscia massetérica, anterior ao masseter e posterior ao músculo bucinador. Aí encontramos a fáscia buco-faríngea envolvendo a parte posterior do bucinador. Ela é interligada ao masseter, envolve o músculo constritor superior da faringe, e segue num trajeto descendente formando a camada adventícia do esôfago e da faringe (conecta o músculo bucinador, ao esôfago e a faringe). A fáscia passa atravessando o tórax por detrás do coração emitindo expansões para o pericárdio no nível de T4. Já na parte basilar do occipital insere a fáscia buco faríngea, e para encerrar as fáscias do crânio, a fáscia epicraniana segue até a linha occipital superior, formando mais uma articulação fascial.

As fáscias profundas que são as fáscias do movimento vêm do folheto embrionário da mesoderme.

Fáscias cervicais

No pescoço conforme, já citado temos 3 camadas profundas de fáscia com e camadas bi laminares. Logo no tronco e cervical teremos 6 capas fibrosas para formar essas 3 camadas profundas. Nas fáscias cervicais começarei falando da camada superficial da fáscia profunda (fáscias do movimento). Essa fáscia envolve os músculos esternocleidomastoideo (ECOM) e trapézio. Ela é continua com a fáscia Epicraniana.

Além disso o ECOM emite expansões fasciais para o assoalho da mandíbula, comunicando-se com a fáscia massetérica. Como o ECOM se insere no terço medial da clavícula e esterno, o trapézio insere-se nos dois terços laterais da clavícula, acrômio e na espinha da escapula. Logo a camada superficial insere-se na clavícula e na espinha escapular. Como uma parte do ECOM insere-se na parte anterior da clavícula, porém algumas fibras do ECOM seguem para ter ligação com o peitoral maior, que está na camada superficial da fáscia profunda do tronco. Já o trapézio superior se liga ao trapézio médio e inferior posteriormente.

Já na camada média bi laminar da fáscia profunda, descreverei agora a lâmina superficial da camada média da fáscia profunda que sairão do osso hioideo envolvendo os músculos infra-hioideos inserindo-se uma parte na região posterior da clavícula. Parte dela segue por baixo da clavícula ligando ao músculo subclávio. Essa fáscia também envolve o peitoral menor recebendo o nome de fáscia clavipeitoral (envolve o subclávio e o peitoral menor). Essa fáscia é um segmento da lâmina superficial da camada média da fáscia profunda.

A lâmina profunda da camada média da fáscia profunda encontra-se atrás dos músculos infra-hioideos. Envolve, portanto, tireoide, paratireoide e segue por trás da clavícula. Ela forma os ligamentos suspensores do coração e pulmão:

  • Vertebro pleurais;
  • Vertebro pericárdios;
  • Costo pleurais;
  • Transverso pleurais;
  • Ligamentos do pericárdio.

Portanto, a lâmina superficial é muscular, e a lamina profunda é visceral.

A camada profunda da fáscia profunda no pescoço envolve posteriormente todos os músculos profundos:

  • Reto da cabeça;
  • Reto do pescoço;
  • Reto anterior;
  • Reto lateral;
  • Reto posterior maior e menor;
  • Oblíquos superior e inferior;
  • Esplênios;
  • Semi espinhal da cabeça e do pescoço.

A frente do corpo vertebral cervical temos o gânglio cervical superior (simpático) se ligando posteriormente ao ligamento nucal da base do crânio até T4. Anteriormente as vértebras cervicais as 3 camadas juntam-se para envolver as estruturas corporais nobres: artéria carótida, veia jugular e nervo vago são envolvidas pela bainha carotídea.

Na altura da cervical média as bainhas carotídeas esquerda e direita se ligam através da fáscia alar. Elas se unem para comunicações sensitivas, o nervo glossofaríngeo é o responsável por levar informações do controle de oxigênio sanguíneo para o cérebro e da pressão dos vasos.

O glossofaríngeo se comunica com o vago que segue até o coração controlando-o. Além disso, temos uma comunicação da fáscia cervical profunda da camada profunda através da fáscia buco faríngea. Entre essas duas fáscias temos um espaço retro faríngeo para o alimento descer para o estomago. Além disso, a camada profunda da fáscia profunda no pescoço envolve também o escaleno. Ele se insere na primeira e segunda costela, sendo continuo com os intercostais.

A camada superficial da fáscia profunda envolve o trapézio e o ECOM, tendo continuidade com o peitoral maior que se insere na clavícula, esterno e costelas. No esterno parte de sua fáscia segue para o lado contrário envolvendo o peitoral contralateral. A outra parte costal tem continuidade com o músculo oblíquo esterno. Por detrás do tronco a camada superficial da fáscia profunda o trapézio se liga ao grande dorsal, inserindo-se na fáscia toraco-lombar, ombro e crista ilíaca.

A camada média da fáscia profunda em sua lâmina superficial sai do hioideo envolvendo os infra-hioideos passando pela clavícula, envolvendo o subclávio e o peitoral menor que se insere nas 3, 4, 5 e em alguns casos 6 costelas. Ele se comunica com o oblíquo interno e o serrátil anterior, unindo a bainha do reto abdominal. O reto abdominal está em todas camadas, que se junta para forma-lo, na linha alba.

Na região posterior do tronco o serrátil anterior envolve todos os músculos da escápula que se comunica com os romboides.  Liga esse segmento fascial ao ligamento nucal e os ligamentos inter e supra espinhais. A camada média da fáscia profunda do tronco envolve o serrátil póstero-superior e o serrátil póstero-inferior.

A camada profunda da fáscia profunda envolve as fáscias cervicais e tem continuidade com os intercostais e transverso abdominal. A folha profunda dos intercostais está em contato com a cavidade torácica, fundindo-se com a pleura parietal. Ele forma a fáscia endo-torácica para garantir nossa fonação e respiração ao mesmo tempo. Já no abdômen essa ligação não acontece a fáscia transversalis não tem ligação do peritônio parietal com a fáscia muscular mais interna.

No abdômen o oblíquo externo está localizado na camada superficial da fáscia profunda, o oblíquo interno na camada média da fáscia profunda e o transverso abdominal na camada profunda da fáscia profunda. Essas três fáscias se unem para formar a bainha do reto do abdômen.

A capa que envolve o oblíquo interno cruza-se para o lado contralateral, cruzando a bainha do reto abdominal para envolver o músculo oblíquo externo. Isto ocorre, pois, o tendão segue a linha de tensão do músculo para transmitir as tensões musculares. Como as fibras têm outra direção é chamada de aponeurose do oblíquo externo. A função das aponeuroses não é a transmissão de forças, mas sim organizar movimentos.

Na região posterior do tronco os trapézios (superior, médio e inferior) se conectam com o músculo grande dorsal ligando-se a fáscia tóraco-lombar para se conectar ao glúteo do lado oposto.

Temos ainda uma coluna interna no corpo que forma seu pilar de sustentação chamado de tendão central que envolve o:

  • Cérebro;
  • Encéfalo;
  • Medula.

Através da dura mater o tendão central se conecta com a camada profunda da fáscia profunda e com a camada média da fáscia profunda da cervical. Juntas, elas envolvem as estruturas cervicais chegando até:

  • Pericárdio;
  • Pleura;
  • Diafragma;
  • Psoas que se encontra posteriormente;
  • Peritônio.

Chega até as fáscias do assoalho pélvico, encerrando o tendão central. Logo o tendão central é formado pela camada media da fáscia profunda e camada profunda da fáscia profunda.

Conclusão

Como vimos a fáscia e única e emite expansões para todos os planos, sentidos, direções em diferentes continuações que se engendram para as vísceras, ossos, sistema nervoso e todos os tecidos corporais, impossível pensarmos em fáscia sem antes entendermos suas conexões anatômicas.

Bibliografia

Functional Atlas of the Human Fascial System

-CARLA STECCO MD Orthopaedic Surgeon; Professor of Human Anatomy and Movement Science, University of Padua, Italy English Language Editor Warren Hammer DC MS Postgraduate Faculty, New York Chiropractic College, NY, and Northwestern Health Sciences University, Bloomington, MN, USA Forewords by Andry Vleeming PhD Professor, Department of Anatomy, Center of Excellence in Neuroscience, University of New England, Maine, USA; Professor, Department of Rehabilitation and Kinesiotherapy, University of Ghent, Belgium; Program Chairman, World Congress Lumbopelvic Pain Raffaele De Caro MD Full Professor of Human Anatomy, Director, Institute of Human Anatomy, Department of Molecular Medicine, University of Padua, Italy; President, Italian College of Anatomists

– Leonardo Sette Vieira ABF- Academia Brasileira de Fascias

Diafragma: como sua mecânica influencia a pressão intra abdominal

Diafragma: como sua mecânica influencia a pressão intra abdominal

Anatomia do Diafragma

O diafragma é um músculo de função respiratória. Ele é composto por uma lâmina músculo-fibrosa curvada que divide a cavidade torácica da cavidade abdominal. Em sua composição anatômica a face  superior convexa está voltado em direção cefálica, para o tórax. Já em sua face inferior côncava está voltado para o abdômen. As suas posições cupulares possuem movimentos oscilatórios e variáveis pois trabalham de acordo com a fase respiratória da ventilação.

Anatomicamente encontraremos após expiração forçada a cúpula direita na altura aproximada da quarta cartilagem costal (mamilo direito). No entanto, a cúpula esquerda se encontra aproximadamente uma costela abaixo. No momento de uma inspiração máxima, a cúpula pode descer aproximadamente 10cm.

A origem das fibras musculares do diafragma emerge da circunferência oblíqua da abertura superior do tórax. As inserções são baixas posteriormente e lateralmente, porém altas anteriormente. O músculo anatomicamente possui três partes:

  • Esternal;
  • Costal;

A porção esternal do diafragma inicia-se no rebordo posterior do processo xifoide, e nem sempre está presente. A parte costal do diafragma tem origem nas faces internas das seis cartilagens costais inferiores e de suas costelas adjacentes a cada lado. Ela possui íntima relação com o músculo transverso do abdômen.

Já a porção lombar do diafragma origina-se nos dois arcos aponeuróticos: os ligamentos arqueados medial e lateral. A partir das vértebras lombares pelos dois pilares musculares, possui o pilar direito e o pilar esquerdo.

O ligamento arqueado lateral é uma faixa espessada de fáscia que recobre o músculo quadrado lombar. Ele arqueia através da parte superior do músculo, se fixando medialmente à frente do processo transverso da primeira vértebra lombar e lateralmente à margem inferior da décima segunda costela próximo ao seu ponto médio.

O ligamento arqueado medial é um arco tendíneo na fáscia que recobre a parte superior do músculo psoas maior. Medialmente, é contínuo com a margem tendínea lateral do pilar correspondente. Deste modo encontra-se fixado ao lado do corpo da primeira ou segunda vértebra lombar. Lateralmente, está fixado à frente do processo transverso da primeira vértebra lombar.

Os pilares do diafragma são tendíneos em suas inserções e se misturam ao ligamento longitudinal anterior da coluna vertebral. O pilar direito é mais largo que o esquerdo , e surge a partir das faces antero-laterais dos corpos vertebrais e dos discos intervertebrais das três vértebras lombares superiores. O pilar esquerdo se origina nas partes correspondentes das duas vértebras lombares superiores.

Estas fixações circunferenciais fazem com que as fibras do diafragma convergam para o centro tendíneo. As fibras a partir do processo xifoide são curtas, seguem quase horizontalmente. Já as fibras derivadas dos ligamentos arqueados medial e lateral, e mais especialmente aquelas derivadas das costelas e suas cartilagens, são mais longas.

Elas se elevam quase verticalmente primeiro, e em seguida se curvam em direção à sua fixação central. As fibras mediais do pilar direito envolvem o esôfago por onde atravessa o diafragma, sendo que as fibras mais superficiais ascendem à esquerda e as fibras mais profundas cobrem a margem direita. O fascículo muscular derivado da face medial do pilar esquerdo cruza a aorta e segue de forma obliqua através das fibras do pilar direito em direção ao forame da veia cava.

O centro tendíneo do diafragma é uma delgada, porém forte, aponeurose de fibras intimamente entrelaçadas, situada próximo ao centro do músculo, contudo bem próximo da parte anterior do tórax, de maneira que suas fibras musculares  posteriores sejam mais longas. No centro, ele se encontra abaixo do pericárdio, com o qual se funde parcialmente. Porém, devo aqui dizer que está e uma visão antiga do diafragma. Hoje sabemos que este músculo possui complexas funções no nosso corpo. A seguir descreverei algumas pesquisas que denotam sua grande importância.

Biomecânica Diafragmática

biomecânica do diafragma

Mais uma vez aqui, estamos perante de um músculo que trabalha mediante as diferenças de pressão. O diafragma é um músculo ativado pelo bulbo. Quando a acidez sanguínea é reconhecida pelo sistema nervoso, o mesmo dispara um estímulo elétrico para que o músculo diafragmático contraia-se (abaixando) gerando uma pressão negativa na cavidade torácica. Assim, aumenta a pressão intra abdominal.

Essa diferença de pressão promove a entrada do ar para a normalização da acidez sanguínea. O diafragma torna-se assim o músculo motor primário da respiração. Além disso o diafragma tem ainda, por função, ajudar no peristaltismo dos intestinos, massageando o mesocolon transverso a cada contração.

Quando as cúpulas diafragmáticas sobem no seu relaxamento gera uma pressão positiva na cavidade torácica, expulsando o ar dos pulmões. Toda vez que as pressões se alteram na caixa torácica também se alterarão na cavidade abdominal.

O diafragma se divide em duas porções principais:

  • O diafragma costal age ativamente na respiração
  • O diafragma crural age no ritmo respiratório, mas não na mecânica respiratória, pois não se insere nas costelas.

Funções do diafragma

funções do diafragma

A função respiratória do diafragma se dá pelo aumento da pressão intra-abdominal. Ela sobe quando o centro frênico se contrai, gerando um aumento da pressão da massa visceral. Essa, por sua vez, cria o que chamamos de área de aposição (aumento da pressão das paredes diafragmáticas nas costelas). Essa área de aposição é o que permite levantamos as costelas, ao contrário do que pensávamos o tendão central não é necessário para o ato respiratório. As pesquisas atuais indicam que sua principal função seria promover um aumento e diminuição da tensão do saco pericárdico. Assim, favorece um melhor retorno venoso. Em pesquisa realizada aonde foi cortado o nervo frênico em cachorros foi observado o não comprometimento respiratório.

O diafragma crural e o diafragma costal trabalham em série. O diafragma crural através de sua ligação e ação direta na coluna vertebral através de seus pilares. O diafragma costal através do aumento da pressão abdominal que age em sinergia com outros músculos, criando uma alavanca de flexão no tronco; A alavanca será, para manter o equilíbrio do indivíduo, pré-compensada por uma alavanca de extensão também no tronco, gerando assim a estabilização da coluna vertebral.

O diafragma também possui as funções de:

  • Mobilidade visceral,
  • Retorno venoso e linfático
  • Contenção gastroesofágica

A contração do diafragma aumenta:

  • Pressão abdominal;
  • Pressão torácica;
  • Pressão craniana.

Existe uma relação pressórica entre as diversas cavidades corporais. Essas alterações pressóricas são responsáveis pelo mecanismo de estabilização da coluna vertebral, e também, pélvica.

Contudo, o diafragma trabalha em sinergia muscular numa atividade pré-programada do córtex cerebral. O trabalho é realizado junto ao transverso do abdômen e ao assoalho pélvico.

Pesquisas recentes, caminham para a comprovação de que o assoalho pélvico age antecipadamente aos demais músculos citados. Essa função é de extrema importância para a continência urinaria. Outros músculos também estarão ativados nessa sinergia, como:

  • Intercostais;
  • Escalenos;
  • Esternocleidomastoideos;
  • Trapézio.

Segundo O. Sullivan, essa sinergia muscular pode ser independente, ou seja, estar ativada unilateralmente.

Disfunções Biomecânicas

disfunções biomecânicas do diafragma

Quando esta ativação citada anteriormente, que é fisiológica, torna-se permanente, por interferências:

  • Corticais ou subcorticais;
  • Mecanoceptivas;
  • Oculares;

Essas são as vias de controle dessa ativação muscular. Caso alguma dessas vias entre em disfunção a ativação da série muscular poderá tornar-se continua. (Willian e Finnet)

Em sua pesquisa de 2002 O. Sullivan avaliou indivíduos com dor sacro ilíaca crônica. Comparou o hemicorpo em disfunção com o lado sem disfunção, quando o indivíduo encontrava-se em decúbito dorsal e lhe foi solicitado uma flexão ativa do quadril. Ele então, mensurou alguns parâmetros:

  • Pressão intra-abdominal;
  • Ventilação;
  • Posicionamento do diafragma;
  • Posicionamento das vísceras pélvicas,;
  • Atividade elétrica dos músculos escalenos;
  • Pressão do membro inferior contralateral contra a maca.
  1. Sullivan encontrou as seguintes alterações:
  • Aumento da frequência respiratória com diminuição da excursão do diafragma, isto aconteceu porque o diafragma foi empurrado excentricamente pelo aumento da pressão intra-abdominal.
  • Descida do assoalho pélvico também empurrados para baixo, por conta do aumento da pressão intra-abdominal.
  • Alterações respiratórias, com o advento dos escalenos passarem a ativar uma contração tônica, ao invés da contração fásica (fisiológica).
  • Pressão do membro inferior contralateral na maca também aumentou.

Porém, todas essas alterações foram revertidas na pesquisa com uma compressão ativa e manual da cintura pélvica. Isso nos demonstra que todas alterações citadas no estudo são mecânicas. Uma vez estabilizada a pelve as alterações desapareciam.

Portanto, as alterações apresentadas sugerem um mecanismo inteligente de compensação do sistema neuromuscular para aumentar as forças de fechamento da pelve quando a estabilidade da mesma está comprometida por uma disfunção. Contudo, toda compensação possui um custo muito alto.

Neste caso é o aumento da compressão da articulação sacro-ilíaca em até 4 vezes da sua pressão normal. Além disso, essas estratégias não são totalmente eficazes para manter a estabilidade da articulação sacro-ilíaca, pois aumentarão substancialmente a pressão intra-abdominal.

Somando a todos fatores citados, nessa tentativa corporal de estabilizar a articulação sacro-ilíaca, a coluna vertebral também estará submetida a esse aumento de pressão intra-abdominal e a articulação sacro-ilíaca em disfunção será retroalimentada por mais pressão do contato articular, gerando assim, um ciclo vicioso de lesão.

O mesmo estudo repetido nos mesmos indivíduos do lado sem dor, não foram encontradas essas compensações citadas.

Pressão intra-abdominal

Aqui devo lembrar que o aumento da pressão intra-abdominal se faz importante para a estabilização da coluna vertebral (Teoria descrita por Paul Hodges). Porém se esse aumento for mantido, o indivíduo perde a eficácia da contração dos músculos extensores profundos do tronco. Gera uma estratégia de compensação para manter a estabilidade, que neste caso especifico será realizado pelos músculos superficiais.

O pesquisador egípcio Shaffik em suas pesquisas observou que a pressão intra-abdominal também possui estreita relação com a pressão do fechamento do esfíncter gastresofágico (Reflexo de Esforço Gastresofágico). Nessa mesma pesquisa ele observou que o aumento da pressão intra-abdominal transitória aumenta a eficácia e competência deste reflexo. Porém se esse aumento da pressão intra-abdominal for crônico o diafragma crural entende esse estímulo excessivo. Ele o interpreta de forma paradoxal, ou seja, o diafragma se relaxa em consequência do esforço.

Isso nos traduz que um aumento da pressão intra-abdominal transitório não é maléfico. Ela pode ser aumentada em até 30 mmhg durante alguns segundos de esforço sem nenhum dano ao indivíduo, com exceção aos hipertensos. Porém se esse aumento da pressão intra-abdominal se tornar crônico o diafragma crural perde sua função, passando a se relaxar.

Conforme já citamos, o diafragma crural tem ritmo respiratório. Ou seja, age em sincronia respiratória, porém não é um músculo respiratório, isto mesmo! O diafragma crural não é um músculo respiratório, mas o diafragma crural possui uma atividade eletromiográfica de repouso. Ou seja, o músculo diafragma crural tem uma atividade tônica de base, contribuindo na barreira gastresofágica, tendo sua maior atividade elétrica na fase expiratória.

Durante uma atividade física ocorre o aumento da atividade elétrica do diafragma crural somada ao aumento da pressão manométrica da barreira gastresofágica em sincronia. Portanto, a função do diafragma crural é realizar o fechamento da barreira gastresofágica. Seu objetivo é evitar o refluxo durante a atividade física.

Contudo, o esforço prolongado leva a ineficácia do Reflexo de Esforço Gastresofágico. Também ocorre o declínio da ativação do diafragma crural, pois o diafragma crural é um musculo esquelético de fibras estriadas. Portanto, ele se fadiga perante ao esforço mantido por longo período.

O diafragma crural tem função de aproximadamente 44% de atuação na barreira gastresofágica. Esse dado é de extrema importância, pois existem publicações comprovando que indivíduos que fazem Ioga, Pilates, ou exercícios respiratórios melhoram a funcionalidade do músculo diafragma. Também observa-se uma melhora da barreira gastresofágica em aproximadamente 45%, desde que os exercícios respiratórios não exijam a contração do powerhouse. Já sabemos que a exigência constante do powerhouse aumentará a pressão intra-abdominal.

Sistema nervoso central (SNC) e pressão intra-abdominal

Quando pensamos no Sistema Nervoso Central (SNC) este será afetado pelo aumento da pressão intra-abdominal que desencadeia um aumento da pressão intracraniana. Vimos que a alteração pressórica em uma cavidade desestabiliza a pressão em todas as outras cavidades. Portanto, aumenta a pressão intracraniana com a diminuição da perfusão celular. Pode gerar uma compressão na veia jugular e uma redução no fluxo venoso. (Begges 2014)

Quando temos um aumento da pressão intra-abdominal seu efeito na mecânica respiratória será o desencadeamento de uma sequência de alterações:

  • Alteração na mecânica respiratória torácica
  • Deslizamento caudo-cranial do diafragma e do conteúdo visceral.

O que muito nos interessa nesses dados citados acima, e aqui de novo, esclareço que a pressão intra-abdominal é de fundamental importância para a manutenção para nossa bipedestação.

O abdômen funciona como um sistema hidráulico cuja pressão intra-abdominal deve estar em aproximadamente de 5 a 7 mmhg para que mantenhamos uma boa postura. A grande questão, que nós devemos aprender a identificar e administrar, é:

O aumento da pressão intra-abdominal é permanente ou transitório?

Quando esse aumento é transitório ela pode aumentar consideravelmente sem riscos ao indivíduo. Um bom exemplo é durante nossos exercícios abdominais realizados no Pilates.

Porém quando esse aumento é permanente pode ser extremamente danoso e perigoso a saúde do indivíduo. Se faz muito importante identificarmos em nossa avaliação quando o indivíduo que procura nosso serviço já possui uma pressão intra-abdominal aumentada.

Dor lombar e pressão intra-abdominal

como o diafragma influencia dor lombar

A dor lombar pode ser um fator mecânico para o aumento da pressão intra-abdominal. É possível que a pressão aumente para gerar maior estabilidade na coluna vertebral (Ajuste Postural Antecipatório). Essa estratégia corporal de compensação funciona bem a curto prazo.

A questão é que a pressão intra-abdominal continua aumentada quando a dor lombar desaparece e os músculos ficam hiperativados. Nos pacientes com dor lombar crônica, ocorre a ativação do ajuste postural antecipatório, com aumento da pressão intra-abdominal. Esse ajuste, que é controlado por uma unidade central, ocorre após o movimento dos membros já ter sido realizado. Ou seja, quando o indivíduo com dor lombar crônica necessita dessa estabilização por intermédio do aumento da pressão intra-abdominal, ela não acontece de forma eficaz.

Em mais uma pesquisa de relevância, Paul Hodges estudou a reorganização do córtex motor associados a deficiência do controle postural em indivíduos com dor crônica recorrente. Nesse estudo Paul Hodges realizou uma ressonância nuclear magnética transcraniana da atividade do córtex cerebral durante a realização de tarefas posturais e mapeou o centro gravitacional dentro da aérea de controle do músculo transverso abdominal.

Foram separados dois grupos: um de indivíduos saudáveis e outro grupo com dor crônica na coluna vertebral. Ele por fim, observou que “parece” que os indivíduos com dor crônica possuem uma nova organização do córtex motor. Além do centro de gravidade, nos indivíduos saudáveis ser 2 cm mais anteriorizado e lateral em relação aos indivíduos com dor crônica. Seus centros gravitacionais encontrarem-se mais posterior e mais medial.

Esses achados são extremamente desmotivadores, pois pode ser fator desencadeante para a geração de rigidez da coluna vertebral. Com aumentos importantes da pressão intra-abdominal e perda das curvaturas fisiológicas da coluna vertebral, comprometendo assim seus movimentos. Neste momento vocês devem estar se perguntando o que essa pesquisa tem a ver com o diafragma, pois lhes explico.

Os indivíduos com dor crônica estão com o córtex motor reprogramado com o centro gravitacional deslocado. Isto provavelmente ocorre, devido ao fato, do nervo frênico possuir duas vias para gerenciar as tarefas posturais e respiratórias. Portanto, o nervo frênico possui uma via curta e uma via longa.

A via longa do nervo frênico parece ser ativada em situações compensatórias ou alternativas. Parece ainda, que nosso corpo já possui soluções pré-programadas para enfrentarmos situações de dor. Lembrando sempre, que nosso corpo busca sempre: o equilíbrio, o conforto e a economia. Essa organização do córtex motor é muito funcional em situações álgicas. Porém, a grande questão e que essa estratégia de compensação continua ativa quando o quadro álgico foi sanado.

Paul Hodges prosseguiu seu estudo, e de forma, mais uma vez surpreendente descobriu que esse processo se faz reversível se bem treinado. Nesta sua nova pesquisa utilizou indivíduos com dor lombar crônica, os mesmos que haviam participado do estudo citado anteriormente. Constatou de que seu córtex cerebral já estava atuando de forma reorganizada. Separou então esses indivíduos em 2 grupos:

O primeiro grupo foi submetido a um treino simples de caminhar na esteira. O outro grupo realizava treinos de habilidades motoras, musculares, respiratórios e reeducação postural durante 2 semanas com frequência diária. Os grupos foram treinados e o exame repetido. Ao final do estudo constatou, que o grupo 2 voltava a ter a organização do córtex cerebral de indivíduos saudáveis, com seu centro gravitacional reorganizado. Ou seja, o córtex motor pode trabalhar durante um período em disfunção, porem graças a sua plasticidade.

Mais uma vez, destaco em meus artigos um trabalho de equipe multidisciplinar. Existe a fase da reorganização postural, para alívio das suas tensões que geraram a dor. Porém, se o trabalho não for continuado e os hábitos e gestuais de vida diária não forem organizados, a disfunção, e por consequência, a dor volta. Ou seja, a dor lombar crônica para ser tratada com eficácia e cura definitiva, deverá passar por 3 fases de tratamento:

  1. Alivio da dor: com normalização das tensões corporais e reorganização das pressões cavitarias através de terapia manual.
  2. Alinhamento e reeducação da postura, com RPG, GDS ou cadeias musculares.
  3. Treinamento dos gestuais de vida diária, através do treinamento funcional ou pilates bem trabalhado na limpeza dos vícios dos movimentos da vida diária, sem aumento da pressão intra-abdominal.

Em suas pesquisas Takata em 1990 observou que o aumento da pressão intra-abdominal em situações fisiológicas na fase inspiratória, com o diafragma trabalhando em posição baixa existe um aumento da pressão intra-abdominal, de tal forma, a diminuir excessivamente o fluxo venoso de sangue da veia cava do abdômen para o tórax. Segundo Takata, o fluxo se faz quando a pressão da veia cava é  maior que a pressão abdominal somada a pressão da parede dos vasos, essa condição é encontrada no final da fase inspiratória e no começo da fase expiratória, este fator não se faz somente presente na veia cava, mas também na veia iliofemoral, logo o fluxo sanguíneo dessas duas veias vitais ao sistema corporal como um todo e diminuído ao aumento pressórico intra-abdominal, podendo ser fator de desenvolvimento fisiopatológico para problemas de origem vascular e linfático.

E de novo aqui, o diafragma aparece como o grande músculo responsável por diversas funções, além da respiração, pois ele e o maior sitio de reabsorção da linfa abdominal em direção ao tórax, isto porque o músculo diafragma é  intercelular e se engendra através das fibras musculares, formando as áreas de Lacune que encaminham o fluxo linfático para os ductos venosos, ou seja, todos os fluidos transitam pelo diafragma.

Conclusão

Como vimos, o diafragma e muito mais que o motor primário da inspiração, sendo de extrema importância mantermos esse músculo dentro da homeostasia, e sobretudo dominar as questões pressóricas que o ditam para um bom controle postural, e sobretudo a eliminação da dor crônica.

Tipos de joelho varo e valgo encontrados no Pilates

Tipos de joelho varo e valgo encontrados no Pilates

Durante seus atendimentos você encontrará alguns alunos com condições específicas do joelho. Esses são desvios que influenciam o corpo e criam compensações importantes. Precisaremos compreender esse sistema de compensações para que consigamos trabalhar com o aluno da maneira mais adequada.

É por isso que devemos conhecer muito bem quais tipos de desvio dos joelhos podemos encontrar na nossa aula de Pilates. Montei um infográfico abaixo com os tipos de desvio de joelho e também algumas características importantes, continue lendo para compreender tudo.

Tipos de joelho varo e valgo

Tipos de joelhos varo e valgo

Importância dos membros inferiores

O membro inferior é essencial no movimento do aluno e está geralmente compensando quando encontramos patologias e lesões. Ele possui funções importantes no corpo, como veremos abaixo:

  • Sustentar o peso corporal;
  • Realizar a locomoção;
  • Manter o equilíbrio;
  • Transferir peso durante a marcha ou corrida.

Portanto, qualquer desequilíbrio biomecânico será importante para nossa aula. Os joelhos em especial, são considerados as articulações mais complexas de todo o corpo anatomicamente e funcionalmente.

O membro inferior pode ser considerado como uma cadeia cinética. Como tal, pressupõe-se que alterações biomecânicas em um dos complexos articulares dessa cadeia influencia negativamente a biomecânica e função dos demais complexos

O alinhamento do joelho no plano frontal tem sido alvo de pesquisas, principalmente por conta de sua importância clínica. A incongruência dos membros inferiores, em especial a do joelho, pode estar relacionada com instabilidades e dores articulares.

Desordens nessas estruturas podem trazer, ainda, problemas na:

  • Sustentação muscular;
  • Tendões;
  • Ligamentos e os retináculos.

Essas alterações alternam o alinhamento do joelho em varo ou joelho valgo. Assim a função dos joelhos se altera gerando sobrecarga compressiva em algum ponto da articulação dependente de qual desalinhamento apresentar.

A literatura tem demonstrado que um desalinhamento frontal do joelho piora o prognóstico de doenças degenerativas como a osteoartrose. Dependendo da orientação do desvio do joelho, se em valgo ou em varo, mesmo que de apenas 10 (dez) graus, as forças articulares tanto estática quanto dinâmica não estarão mais homogeneamente distribuídas.

O desalinhamento favorece o surgimento de processos disfuncionais e até mesmo patológicos desta articulação. Articulações próximas também sofrem porque sabemos que o corpo tem unidades de cadeias musculares separadas didaticamente. Elas se complementam na realidade corporal perante um desarranjo, seja articular, seja fascial, muscular e/ou outros tecidos moles.

As cadeias musculares aplicadas à musculação: uma visão holística

As cadeias musculares aplicadas à musculação: uma visão holística

Por muito tempo uma ideia reducionista foi propagada. Imaginava-se que o fator causal de uma disfunção musculoesquelética ou a chave para preveni-la seria um músculo específico, o “músculo chave”. Porém, novas pesquisas vêm à tona o tempo todo mostrando que não é bem dessa maneira.

E isso se aplica principalmente a cadeias musculares. Segundo Madame Meziérès as cadeias são o conjunto de músculos pluriarticulares de mesmo sentido e direção que se comportam como um único músculo. Elas se recobrem como se fossem telhas de um telhado. Se você reparar bem, esse conceito já faz cair por terra muitas visões reducionistas que temos por aí. É claro que não podemos descartá-las por completo, mas elas não podem ser determinantes.

Tudo tem início com a ação de uma musculatura. Essa força tende a se propagar por toda a cadeia muscular. Para ter essa visão mais global do comportamento biomecânico do organismo precisamos compreender primeiro a ação cinesiológica desse determinado músculo.

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Madame Godeliève Denys Struyf acreditava que o indivíduo se estrutura sobre a sua história de vida. As Cadeias Musculares irão se moldar ao indivíduo de acordo com suas necessidades de expressão corporal. Madame Godeliève acreditava que nosso corpo poderia se modelar através de questões psicofísicas, comportamentais, idiossincráticas que aquele determinado indivíduo demonstrava durante a sua vida.

Podemos dizer que GDS (Godeliève Denys Struyf) revolucionou a forma de avaliar o nosso aluno ou paciente. Ela mostrou que o nosso corpo como um todo “tem memória”. Os acontecimentos que ocorreram em um passado distante, ou não, pode ter afetado de forma a gerar desarranjos biomecânicos naquele corpo. Isso é fantástico!

Segundo Léopold Busquet, as Cadeias Musculares são circuitos anatômicos que circulam o corpo através das forças organizadoras. Tom Mayers descreve como trilhos anatômicos. Mas vocês devem estar se perguntando agora, o que isso tudo tem a ver com globalidade? O que de fato faz com que todos esses músculos, ou cadeias musculares se relacionem e trabalhem em igualdade, conjuntas, em determinados planos, eixos e movimentações? Pois aí eu lhes respondo, todo esse sistema é engendrado por um tecido conjuntivo, mais conhecido como, fáscia.

“O termo “fáscia” representa o tecido conjuntivo membranoso, um verdadeiro esqueleto fibroso que inclui o tecido muscular e funciona como peça única”. Marcel Bienfait.

Qual é o verdadeiro papel da fáscia?

papel das cadeias musculares na musculação

Por muito tempo se pensou que, a fáscia era um tecido que recobria apenas um músculo. Ou seja, cada músculo era recoberto por uma fáscia. Porém com a publicação de novas pesquisas, descobrimos que isso é uma inverdade. Hoje sabemos que a fáscia, é um tecido que recobre todo nosso sistema profundo (todas as nossas vísceras) como também nossa camada fisiológica mais superficial (músculos, ossos, ligamentos, tendões, nervos, vasos, etc.)

Agora peço a todos meus leitores que, pensemos juntos na seguinte linha de raciocínio: uma musculatura usada excessivamente está ligada a fáscia, que dá ao sistema músculo esquelético biotensegridade ao nosso corpo. Essa tensão que ocorreu nesse determinado músculo, não irá desencadear tensões bioelétricas ou cargas de piezeletricidade por toda a cadeia muscular?

Agora pensemos o que aconteceria se todo profissional de movimento tivesse os seguintes conhecimentos:

  • Tiver o conhecimento e ciência dessas cadeias;
  • Entender de fato o caminho e por onde essas “linhas de tração” percorrem.

Com esses conhecimentos os profissionais poderão reabilitar e avaliar de forma mais fidedigna para o aluno ou paciente? Se lembrarmos da biomecânica básica, entenderemos que um músculo com tensões hiperativas não é um músculo forte. Na verdade, é um músculo que não trabalha de forma adequada pensando na sua curva de comprimento-tensão biomecânica. Assim, ele desencadeia tensões distribuídas por toda a cadeia muscular. Nossa faz perfeitamente o papel de engendrar e por isso essas tensões são desencadeadas. Apagar tudo

Thomas Myers descreve isso perfeitamente em seu livro “trilhos anatômicos”: “quando o estresse passa por um material, ele acaba deformando-o, nem que seja apenas um pouco, por isso ‘estica’ as ligações entre as moléculas. Nos materiais biológicos, entre outros, isso cria um ligeiro fluxo elétrico através do material conhecido como carga piezelétrica (pressão). Essa carga, representativa da tensão através do tecido, pode ser ‘lida’ pelas células vizinhas da carga, e as células do tecido conjuntivo são capazes de responder aumentando, reduzindo ou alternando os elementos intracelulares na área”.

Isso é muito interessante pois, com esse pensamento, já podemos começar a imaginar que tensões geradas em um local podem desencadear consequências longes daquela zona que está sofrendo. Ou seja, a causa de todo o problema. A biotensegridade corporal é o termo que designa a explicar qualquer força externa que atue sobre o corpo. Este é um sistema único de tensão que pode alterar qualquer estrutura corporal como se fosse uma rede mesmo à distância como uma rede única de tensão. E a fáscia que permite a continuidade de forças existentes nas Cadeias Musculares.

Pesquisas recentes apontam para uma nova propriedade da fáscia que é a de se contrair sozinha, sem ação muscular. O terapeuta Robert Schliep, licenciado em psicologia, juntou-se ao neurofisiologista Heike Jaeger e desde 2003 na Universidade de Ulm e montaram um laboratório de estudo fascial. Lá descobriram que o estresse pode contrair a fáscia sem os músculos, através do SNC ativando uma parasimpaticonia Os pesquisadores estudam ainda a possibilidade de a fáscia possuir seus próprios receptores e já descobriram que a fáscia é portadora de mecanorreceptores.Apagar o que esta em vermelho

Por que nossos músculos tendem a entrar em hiperatividade?

cadeias musculares na musculação e hiperatividade dos músculos

O tecido conjuntivo é formado logicamente por células conjuntivas, os blastos.  Segundo Marcel Bienfait (1995), os blastos em sua fisiologia produzem a secreção de duas proteínas de constituição: o colágeno e a elastina. Porém, além dessas substâncias o tecido fascial é formado por um composto denominado de substância fundamental, que é uma espécie de gel viscoso (daí já podemos começar a imaginar que esse composto ajuda na lubrificação ou hidratação local) além de água, eletrólitos e proteínas multi adesivas.

Entendamos o seguinte contexto de que, teoricamente não existe a estática. A nossa estática está baseada em um desequilíbrio anterior, ora, todos os nossos movimentos são baseados em um movimento levando-nos à anterioridade. A maioria de nossas vísceras se localizam na região anterior, alguém já viu alguma pessoa que anda para trás? Já viram alguém estender uma roupa no varal por trás? Um simples aperto de mão? Quase 100% de nossos movimentos são baseados na anterioridade.

Então seria loucura concordar que, se todos os nossos movimentos são baseados em uma anterioridade. Vai existir sempre um conjunto de musculaturas que irá estar trabalhando de forma excêntrica? Faço a seguinte pergunta a todos vocês quantas pessoas têm tensões exacerbadas em trapézio? Eretores espinhais? Grande dorsal? Já se perguntaram por que? Fica aí esse questionamento e raciocínio a todos.

Voltando à nossa substância fundamental, esse componente serve para promover uma hidratação adequada em nosso tecido fascial e consequentemente em todo nosso tecido musculoesquelético. Inclui o colágeno quanto a substância fundamental, em um corpo livre de tensões. A tendência é que esses componentes estejam distribuídos de forma igualitária.

Porém, como já falamos, nossa estática é baseada em um desequilíbrio anterior. Na maioria das vezes infelizmente ou felizmente, poderemos encontrar essa musculatura extremamente tensa, trabalhando de forma exacerbada para nos equilibrarmos em nosso polígono de sustentação. Por um lado, isso é bom, porém a partir daí começam a ocorrer alguns problemas. Principalmente quando vamos analisar a distribuição desses compostos (colágeno x substância fundamental).

Em um corpo cheio de tensões, poderemos muitas vezes encontrar uma musculatura rígida. Vamos raciocinar novamente, hoje muito se fala em “stiffness” de uma musculatura. Isso desencadeia uma inibição recíproca na musculatura antagônica, isso ocorre muitas vezes na comparação de uma musculatura fásica (produtora de força, fibras brancas) e uma musculatura tônica (músculos anti-gravitacionais, prioritariamente fibras oxidativas). Porém temos que analisar que, estamos tratando recentemente a reabilitação de forma global, e não em uma visão tão mecanicista ou reducionista.

Sendo assim, será mesmo se um músculo entra em hiperatividade e inibe reciprocamente uma musculatura. Seriam as cadeias que contraem em excentricidade para “segurar” nosso corpo diante de um movimento? Seria mais coerente pensarmos dessa forma, não acham?

O que deveria ocorrer de fato era esse conjunto de músculos (cadeia) a partir de um movimento, se alongar segurando a movimentação em excentricidade e logo depois relaxar. Porém em um corpo que não é livre de tensões, isso não ocorre. A consequência é aquela determinada cadeia “adoecer”, começar um processo de hiperatividade. Como consequência a perda local de substância fundamental e o depósito (uma espécie de retroalimentação) de colágeno, tende a deixar aquela cadeia mais rígida e daí começar a criar os incômodos pontos gatilhos ou pontos de tensões musculares.

É isso que mais vemos em nossa cadeia posterior. Repito novamente, praticamente todos os nossos movimentos são provindos de uma anterioridade. Podemos afirmar que os músculos tônicos, deveriam trabalhar em rajadas, contrair-se para reequilibra-nos e logo depois se relaxar. Caso isso não aconteça o tecido se tornará mais denso e rígido, adoecendo.

As cadeias musculares

como funcionam as cadeias musculares na musculação

Podemos dizer que as cadeias musculares são uma espécie de circuito de forças que circundam todo o nosso corpo. Assim, transmite tensões através da fáscia.

Tudo começou com Madame Meziérès que nasceu em 1909 em Hanoy. Em 1937 ela formou-se em fisioterapia pela Escolei Francoise d Ortopedie. Ensinou seu método a mais de 1500 fisioterapeutas (onde alguns deles citaremos aqui nesse artigo. Alguns têm métodos que são mais utilizados e outros nem tanto. O Método das Cadeias Musculares foi lançado em um postulado em 1947. Madame Meziérès era pura prática e tinha dons de observação fora da curva habitual, por isso encontramos pouca literatura e escritos autorais da mesma.

Seu método nasceu durante um atendimento, onde ela estava tratando de uma paciente hipercifótica. Ao retirar o colete de estabilização dessa paciente e tentou mobilizar sua cifose em decúbito dorsal. Ela notou que ao posicionar melhor sua torácica na maca sua lombar realizou uma anteversão. Por isso, solicitou então uma retroversão ativa pela paciente. Ao realizá-la, a paciente gerou uma hiperextensão cervical, solicitou então um crescimento axial ativo de sua paciente. Assim ela a levou a um bloqueio respiratório, nesse momento um universo se abriu na mente de Madame Meziérès. Isso possibilitou que ela chegasse às seguintes conclusões.

Meziérès concluiu então que a sua paciente possuía tal rigidez muscular. Seus segmentos haviam perdido a autonomia individual a ponto de que quando fosse solicitado uma correção local de cada segmento individualmente, para essa paciente era impossível sem o comprometimento de todo o sistema.

Depois disso Mezièrès definiu algumas leis que hoje já caíram por terra. Algumas delas são que só existiam lordoses. Hoje sabemos que são existem apenas essas curvaturas e em outra lei ela dizia que: Essa musculatura da Cadeia Muscular Posterior (cadeia de músculos que realiza a extensão do tronco) é sempre forte demais, potente demais e curta demais, pois está sempre em contração contra a gravidade.

A Cadeia Muscular Posterior funcionalmente é estática (tônica) e de controle neural inconsciente, feita para a sustentação gravitacional. Porém, sabemos que se uma cadeia é curta demais, ela consequentemente não deverá ser forte demais. Lembremos novamente da biomecânica de comprimento-tensão da nossa musculatura. Se um músculo está curto demais, ele provavelmente está em insuficiência ativa perdendo assim a capacidade de produzir força para vencer uma determinada resistência.

Porém Madame Françoise Mezièrès contribuiu demais para essa nova visão de avaliação e reabilitação de uma forma global. É assim que na verdade tem que ser, e se hoje as pesquisas sobre fáscia estão avançadas, com certeza ela contribuiu generosamente para isto.

Como foi falado anteriormente, Madame Françoise Mezièrès formou cerca de 1.500 fisioterapeutas, sendo os principais:

  • Marcel Bienfait;
  • Madame Thérèse Bertherat;
  • Phiipe Souchard com seu método de Reeducação Postural Global (RPG);
  • Outros.

Aplicabilidade das cadeias musculares na musculação

aplicabilidade das cadeias musculares na musculação

Fora esses fisioterapeutas citados acima, como sabemos Madame Françoise Mezièrès formou muitos outros. Porém, três eu quero citar aqui, pois vemos que são os cadeístas mais utilizados para uma fidedigna avaliação postural e prescrição de exercícios na musculação.

Porém jamais devemos negligenciar os outros cadeístas. Digo que, muitas pessoas os utilizam para terem um norte em sua avaliação e tem sucesso. Porém nesse texto irei relatar à vocês as cadeias de Leopold Busquet, Madame Goledieve Denys Struyf e por último mas não menos importante, Thomas Myers.

Antes de mais nada é importante salientar que o sucesso de um começo de tratamento para reabilitação proporcionado pelas cadeias musculares (o qual não é o único método) depende de uma avaliação. Costuma-se falar que o difícil não é tratar, mas sim avaliar. Se ocorrer um erro na sua avaliação, você com certeza está fadado ao fracasso em seu programa de reabilitação postural.

Outro fator que temos que ter em mente é que o tratamento com as cadeias serve até certo ponto. Depois dele, devemos com o nosso tratamento devolver o indivíduo para continuar realizando suas AVDs normalmente e alinhados biomecanicamente para realizar o seu treinamento.

Madame Godelieve Denys Struyf

Essa fisioterapeuta e osteopata revolucionou a forma de avaliar através das cadeias musculares. A partir daí, desenvolveu um conjunto de posturas designativas de estados psicofísicos, personalísticos específicos e idiossincráticos.

Cadeia AM (Ântero mediana): é composta pelo:

  • Períneo;
  • Reto abdominal;
  • Peitoral maior;
  • Triangular do esterno;
  • Esternocleidomastoideo;
  • Hioideos e músculos da estrutura bucal.

São os músculos responsáveis pelo enrolamento do tronco. O indivíduo apresentará o corpo inclinado para trás, cabeça em protrusão com apoio nos calcanhares.

As cadeias musculares de AM são responsáveis pelo bom posicionamento feito na ancoragem de T8. A Cadeia Muscular AM está ligada a:

  • Afetividade;
  • Necessidade de ser amado;
  • Necessidade de toque essencial para a construção do Ego e da consciência corporal.

Comportar-se em AM é viver em espera, constrói suas decisões do futuro com base nas suas aquisições do passado e a busca pela mãe.

Agora vocês devem estar se perguntando: mas e aí!? Qual a aplicabilidade dessas cadeias musculares enquanto o meu desenvolvimento de performance na musculação? Imaginem que um indivíduo apresente essa cadeia AM em tensão. Essa cadeia não realiza o enrolamento do tronco? Quais consequências negativas esse desarranjo biomecânico poderia ocasionar durante a prática da musculação? Inúmeros!

Se um indivíduo apresentar a tensão dessa a cadeia, provavelmente o mesmo apresentará uma discinese escapular. O peitoral maior faz parte dessa cadeia, e sabemos que esse músculo em tensão ocasionará um tilte anterior da escápula. Assim, aumentam as chances assim de uma síndrome do impacto. Isso ocasionaria com toda a certeza uma síndrome cruzada de ombros, onde temos a hiperatividade de peitoral menor e trapézio descendente com inibição de:

  • Trapézio inferior;
  • Romboides;
  • Serrátil;
  • Músculos profundos cervicais.

Nessas condições pode ocorrer um pinçamento constante nos tecidos moles que passam pelo espaço sub-acromial, ocasionando dores e consequentemente limitando o indivíduo até mesmo para suas AVDs. Por isso o conhecimento de cadeias é tão importante quando vamos avaliar o indivíduo. Elas ajudam a consequentemente entender o que se passa em seu corpo, suas tensões para poder montar o seu treino da forma mais eficaz possível.

Lembrem-se que, a avaliação por cadeias é apenas um método para identificar disfunções no corpo daquele indivíduo. Também pode ser um preditivo para poder entender o que devemos relaxar (tenso) e o que temos que fortalecer (inibido).

Podendo então melhorar a postura do aluno para que ele consiga através do treino dele desempenhar o melhor movimento possível. Ele deve realizá-lo sem ou quase sem apresentar inúmeras compensações. Óbvio que, uma melhora estética, simétrica, deve ser notada quando o trabalho com cadeias musculares é proposto com qualidade.

Quando pensamos na cadeia PM (póstero mediana) também pensamos da mesma forma. Porém agora sabemos que teoricamente teremos à nossa frente um indivíduo mais retificado principalmente à nível de tronco. Daí já temos que raciocinar que existe uma cadeia teoricamente sob tensão.

Leopold Busquet

 Em minha opinião esse é um dos cadeístas que conseguimos colocar mais em prática todo o seu conhecimento relacionado às cadeias. Para Busquet as fáscias ligam as vísceras ao sistema musculoesquelético. Elas não permitem serem alongadas, mas sim relaxadas.

Sendo assim uma disfunção musculoesquelética compromete alguma das funções viscerais, ou vice-versa. Ele denomina isso da relação contentor (músculos, articulações e ossos) conteúdo (vísceras e tensões cranianas) trabalham a serviço da fáscia.

Para Busquet as fáscias ligam as vísceras ao sistema musculoesquelético. Elas não permitem serem alongadas, mas sim relaxadas. Sendo assim uma disfunção musculoesquelética compromete alguma das funções viscerais, ou vice-versa, o que ele denomina da relação contentor (músculos, articulações e ossos) conteúdo (vísceras e tensões cranianas) trabalham a serviço da fáscia. Agora vocês devem estar se perguntando: poxa, mas são tantos cadeístas, quais eu sigo? Calma que você vai clarear sua mente um pouco mais agora.

Como aplicar os cadeístas na prática

como aplicar os cadeístas na prática

Algumas cadeias de alguns estudiosos cadeístas, acabam que sendo a mesma. Isso mesmo, o mesmo trajeto, como é por exemplo a cadeia AM de Godelieve e a cadeia de fechamento do tronco de Busquet. Entendam que, apenas o nome muda, mas o trajeto e os músculos são os mesmos. Os movimentos em nosso corpo também são os mesmos.

Porém não para por aí, essa cadeia AM de Godelieve e a cadeia de fechamento do tronco de Busquet não terminam na pelve. Elas fazem tanto o enrolamento ou flexão da coluna cervical, e vão descendo e realizando flexão em todas as articulações.

Flexão de quadril, joelho, flexão de tornozelo e dedos. Ou seja, dependendo da situação, podemos tratar o enrolamento do tronco que teoricamente limitaria uma abdução glenoumeral começando a relaxar a cadeia pelo membro inferior e vice-versa.

Busquet tem mais cadeias além da cadeia de fechamento do tronco, as demais são:

  • Cadeia de extensão;
  • Cadeia cruzada anterior à direita;
  • Cadeia cruzada anterior à esquerda;
  • Cadeia cruzada posterior à esquerda;
  • Cadeia cruzada posterior à direita;
  • Cadeia estática;
  • Cadeia visceral;
  • Cadeia neuromeníngea.

Apesar dessas muitas cadeias, iremos falar apenas de mais uma, que é a cadeia de extensão, dita assim por Busquet, ou cadeia PM (póstero-mediana) colocada assim por Godelieve. Novamente, apesar de nomes diferentes são o mesmo segmento de linha muscular que percorre nosso corpo nesse sentido longitudinal. Ela passa pela região posterior do tronco, cruzando anteriormente pelo quadríceps, posteriormente pelo sóleo, arco plantar e se inserindo logo acima dos dedos, para extendê-los.

Uma das alterações que essa cadeia em tensão pode desencadear é a hiperlordose lombar. Nesse caso, teremos quadrados lombares tensos levando a pelve à anterioridade. Assim, aumentamos a nossa curvatura lombar, e consequentemente aumentando o cisalhamento principalmente em L4-L5 e L5-S1.

Na pelve essa alteração desencadeará o que chamamos de síndrome cruzada da pelve. Teremos a inibição glúteo máximo e abdômen e hiperatividade de quadrados lombares e iliopsoas, segundo Vladimir Janda.

Uma das alterações que essa cadeia em tensão pode estar ligada é a amnésia glútea (pois teremos um glúteo fortemente inibido fazendo com que essa pelve incline-se anteriormente). Novamente vocês devem estar se perguntando: mas o glúteo máximo não faz parte da cadeia de extensão? Então… exatamente por isso que ocorre a inibição do mesmo. Lembremos que, músculo tenso é músculo fraco, que não trabalha adequadamente em sua curva de comprimento tensão.

Thomas W. Myers

Thomas é na opinião de muitos, um dos estudiosos que mais cai em contradição em suas linhas. O mesmo as chama de trilhos anatômicos em seu livro. Porém existe uma aplicabilidade dessas linhas de Thomas quando pensamos em correção postural e simetria de hemicorpos. Uma dessas linhas de Thomas são as linha do braço, chamadas por ele de:

  • Linha superficial anterior do braço (LSAB);
  • Linha profunda anterior do braço (LPAB);
  • Linha profunda posterior do braço (LPPB);
  • Linha superficial posterior do braço (LSPB).

Pois para (Thomas, 2014), os padrões comuns de compensação postural associados às Linhas do Braço provocam todos os tipos de problemas no ombro, bem como problemas no braço e na mão. Geralmente eles envolvem ombros que estão sendo protraídos, retraídos, levantados ou “curvados” (rotação medial e inclinação anterior da escápula).

A Linha Superficial Anterior do Braço (LSAB) encontra-se então na parte anterior do seu braço:

  • Músculos palmares;
  • Flexores inferiores do braço;
  • Septo intermuscular do peitoral maior.

A Linha Superficial Posterior do Braço (LSPB) encontra-se ao longo da parte posterior do braço:

  • Trapézio;
  • Deltóide;
  • Septo intermuscular lateral;
  • Extensores.

A Linha Profunda Anterior do Braço (LPAB) encontra-se ao longo da parte anterior:

  • Músculos de eminência tenar;
  • Rádio;
  • Bíceps;
  • Peitoral menor (sob o maior).

A Linha Profunda Posterior do Braço (LPPB braço):

  • Músculos de eminência hipotênar;
  • Ulna;
  • Tríceps;
  • Manguito rotador;
  • Romboides (sob o trapézio);
  • Levantador da escápula.

A LPAB é principalmente uma linha de estabilização. Em termos de músculos, começa nas faces anteriores costais com o músculo peitoral menor, músculos qual, cursa sob o peitoral maior. Dois músculos que continuam a partir daí são, a cabeça curta do bíceps braquial e o coracobraquial.

Há claramente uma continuidade miofascial entre o peitoral menor e esses dois músculos mais distais. Segundo (Thomas, 2014) um excessivo encurtamento nessa unidade miofascial pode afetar negativamente:

  • Respiração;
  • Postura do pescoço e da cabeça;
  • Funcionamento adequado do ombro.

Imaginem que durante um movimento de supino para peitorais, onde realizaremos o movimento de adução no plano transverso, geralmente o que se observa é que o braço que está com a LPAB tensa. Tende a ir mais acima em relação ao outro braço. Agora imaginem esse aluno realizando tal exercício com a barra, nitidamente vocês poderão perceber a barra de um lado mais alto em relação ao outro. A mesma coisa será percebida quando o aluno realizar o mesmo exercício com halter.

Lembre-se que, um dos músculos chave dessa linha fascial é o peitoral menor. Esse músculo tem sua inserção distal no processo coracóide da escápula e inserção proximal em 3ª, 4ª e 5ª costela.

Quando essa musculatura se encontra tensa ela tende a tracionar inferiormente a cintura escapular a partir do acrômio. Isso ocasiona um tilte anterior de escápula e consequentemente uma síndrome do impacto (chances altas, além também da rotação interna do úmero (glenoumeral), retirando nitidamente a estética do músculo peitoral maior (que é um músculo estético).

Conclusão

Entendamos que, o olhar deve ser global-local-global. Ou seja, temos que avaliar nosso aluno sempre de forma global. Levemos em consideração a fáscia que é responsável por toda coligação entre nossos sistemas. Encontrar a causa chave ou zona alvo daquela disfunção, liberando-a de tensões para só então, tornar nosso cliente globalmente funcional para realizar suas AVDs. Treinamentos (quaisquer que sejam), sendo que não podemos esquecer que, o trabalho de cadeias ou qualquer que seja para alívio da dor e realinhamento postural é de certa forma “limitado”. Essa é a primeira parte de todo o trabalho que deve ser feito em seu aluno. Posteriormente os alunos têm que ser treinados para performance, independente se não relativamente ativos ou atletas. Todos têm que ser treinados da mesma maneira, óbvio que com suas adequadas progressões de carga e periodização específica. Bons estudos!

Autores: Janaína Cintas e Rafael Danilo

Faculdade: Instituto de Ensino Superior Múltiplo (IESM)

Período: 5/6

Experiência: Academia Ricardo Paraguassu (unidade Sintufpi)

Estagiário Janaína Cintas Cursos

Compensações geradas pela síndrome da amnésia glútea

Compensações geradas pela síndrome da amnésia glútea

Chamamos de síndrome da amnésia glútea a perda dos movimentos naturas do glúteo máximo. Com ela também temos uma perda de movimentos funcionais do quadril, tônus e força do glúteo máximo.

O glúteo máximo possui uma função essencial para o corpo, é o cíngulo de anulação de forças que permite todos os movimentos. Portanto, alguém incapaz de ativá-lo perde o padrão motor correto. Em casos de amnésia glútea encontramos:

  • Inibição das conexões neuromusculares naturais;
  • Uma fonte de compensações corporais inadequadas;
  • Ativações musculares errôneas.

Muitos movimentos que originalmente são naturais ficam prejudicados. Um exemplo é o agachamento, pegue um adulto sedentário e peça para fazer um agachamento profundo, ele provavelmente não conseguirá ou fará com muitas compensações.

Porém, essas são habilidades naturais com as quais nascemos. Observe uma criança brincando, ela faz agachamentos perfeitos sendo que ninguém as ensinou. Esse aprendizado é inato, porém a falta de movimento nos faz perder essa capacidade.

Além disso, o glúteo máximo também costuma estar enfraquecido em alunos com amnésia glútea. Assim os membros inferiores perdem desempenho e força, deixando o corpo exposto a uma série de lesões e dores.

Lesões associadas com a amnésia glúteador lombar e amnésia glútea

  • Disfunção patelo-femural
  • Síndrome da banda ou do trato ílio-tibial
  • Herniações ou dores lombares
  • Síndrome do piriforme
  • Desalinhamento extremidades inferiores
  • A ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA).
  • Instabilidade crônica do tornozelo.

Compensações mecânicas

Num corpo normal, os quadris de movem constantemente. Só existe uma situação na qual eles deixam de se mover: quando tentam fazer com que o corpo fique estável durante a estática. Porém, com os glúteos inibidos, ele será incapaz de alcançar essa estabilidade.

Compensações na lombar

compensações da amnésia glútea na lombar

Um quadril sem mobilidade não impedirá seu corpo de se mover. A falta de mobilidade gera mais movimentos e instabilidade na região lombar para compensar.

A co-contração do glúteo máximo com o Psoas contribui para a estabilização lombo-sacral. O glúteo máximo proporciona estabilidade à articulação sacroilíaca por meio de apoio e compressão.

Com movimentos em excesso na articulação sacro ilíaca comprometeremos as articulações intervertebrais L5-S1, assim como o disco intervertebral. O glúteo máximo também proporciona menor estabilidade de volta através de sua conexão com os espinhais e a fascia toracolombar.

Algumas de suas fibras são contínuas com as fibras dos espinhais. Uma contração do glúteo máximo irá gerar tensão nos eretores no mesmo lado, proporcionando rigidez à coluna vertebral. Ou seja, enquanto uma parte da coluna está instável, outra estará rígida.

A contração de Glúteo máximo também exerce uma força na extremidade inferior da fáscia toracolombar. A fáscia é uma camada espessa de tecido conjuntivo ligamentar cuja tensão estabiliza as vértebras.

Como resultado, podemos ter casos de dor lombar inespecífica crônica que na verdade são causados por falta de ativação glútea.

Compensações no joelho

compensações no joelho

Os glúteos também são responsáveis por estabilizar os movimentos do fêmur, quando estão inibidos esse controle não acontece. O joelho perde sua capacidade de adaptação por perder a rotação externa realizada pelo glúteo máximo. Apesar de existirem outros músculos que fazem o movimento nenhum é potente como o glúteo máximo. Mesmo trabalhando com todas essas musculaturas em conjunto existe a necessidade de ativar o glúteo.

 

Compensações no ombro

compensações no ombro

E quem disse que as compensações param nos membros inferiores e na coluna vertebral? As compensações criadas pelo glúteo máximo se espalham para os membros superiores e acabam diminuindo a amplitude de movimento do ombro. Os glúteos estão conectados via fáscia ao longo do quadril para o ombro oposto.

Essa conexão se dá através da fáscia das cadeias cruzadas de extensão ou abertura da unidade funcional do tronco.

A fáscia fica mais rígida devido a inibição dos glúteos. Assim a amplitude de movimento do ombro diminui. O corpo não consegue gerar força do chão para o ombro, sobrecarregando os membros superiores que ainda precisam gerar energia cinética e se mover.

Existe um grande problema nessa compensação: o glúteo é mais complexo e frágil. Temos também a questão do grande dorsal que costuma estar encurtado e fraco nesses casos, gerando mais dor lombar e de ombro.

 

Outras compensações

extensão cervical e glúteo

Para continuar a mecânica compensatória da inibição glútea, o grande músculo opositor de forças é o músculo Psoas. O Psoas flexiona o quadril lordosando-o, enquanto os glúteos o estendem retificando-o. O Psoas traciona a pelve anteriormente enquanto os glúteos o tracionam posteriormente.

Se os glúteos estão inibidos, a parte inferior das costas torna-se mais instável e o Psoas aumenta sua tensão. As compensações são feitas para estabilizar a parte inferior das costas aumentando a lordose lombar de forma considerável por causa da potência do músculo.

Além disso, enquanto os glúteos rodam o fêmur externamente, o Psoas por sua linha de tração, roda o fêmur internamente. O movimento gera o valgismo dinâmico, como consequência mais dores lombares e nos joelhos.

Os isquiotibiais assumem o trabalho principal dos glúteos para estender o quadril. Essa compensação é muito comum em atletas. Encontramos nesse caso uma tração dos joelhos para hiperextensão pelo seu excesso de tensão, chamado comumente de falso varo do esportista.

Porém os isquiotibiais só realizam a extensão do quadril, não possuem nenhuma função no plano latero-lateral. Os adutores ficam completamente desgovernados realizando seu papel de adução, sem nenhum musculo em contraposição de forças, reforçando o valgismo dinâmico.

Com os glúteos inibidos perderemos a tensão da fáscia em torno da força motriz de quadril necessária para a propulsão para a frente. Essa tensão percorrerá toda a fáscia toracolombar. Ela pode gerar dentre todas as compensações já citadas um aumento da extensão cervical. Assim podemos encontrar um aumento da tensão sobre os músculos da cintura escapular, dentre eles o Trapézio em suas fibras Superiores.

Já que a fáscia toracolombar segue até a linha nucal, a tensão sobre esses músculos citados estará aumentada. Cervicalgias e cefaleias cervogenicas podem estar relacionadas à inibição do glúteo.