A evolução do Nervo Vago no alívio da dor

A evolução do Nervo Vago no alívio da dor

Segundo Stephen Porges desenvolvedor da Teoria Polivagal, existem 3 estágios de desenvolvimento do sistema nervoso autônomo, com três estratégias comportamentais.

Essas três estratégias comportamentais neurais estão relacionadas à sobrevivência:

1. Fingir de morto

O Nervo vago, em sua porção primitiva, o Núcleo Dorsal do Vago, é o responsável por dirigir a estratégia “fingir de morto”. Possui como referência a imobilização, tática que está ligada ao nosso Córtex Reptiliano. Porém para a evolução da nossa espécie, foi necessário o desenvolvimento de uma segunda técnica.

2. Luta e fuga

O sistema de luta e fuga é gerido pelo Sistema Nervoso Simpático, que possui sua origem na coluna vertebral, entre as alturas vertebrais de T1 a L2, que uma vez ativado um estímulo de estresse (simpaticotonia) prepara e adapta todo o sistema para lutar ou fugir diante de um problema. 

Essa estratégia está ligada a uma referência de mobilização. 

3. Relacionamento ou envolvimento social

Para continuar a nossa evolução enquanto espécie, fez-se necessário aprimorarmos mais nosso sistema, e começarmos a nos comunicar entre a nossa espécie.

Isso nos permitiu ocupar todos os territórios do planeta, desenvolvendo nosso próprio vocabulário. 

Essa estratégia está intimamente relacionada ao Vago Mielinizado, conhecido como Vago Social Ele se origina no Núcleo Homúnculo, que também está interligado o Núcleo Ambíguo e Nervo Facial.

Vamos relembrar brevemente o que é o Núcleo Homúnculo e o Núcleo Ambíguo, antes de retornar à teoria de Porges. 

Núcleo Homúnculo 

É a representação diagramática proporcional do corpo animal, presentes no córtex Somestésico e Motor. 

Ou seja, é a representação visual do corpo dentro do cérebro, onde cada área neural possui uma representação corporal, a face por possuir muita inervação, é representada de forma grande, o tronco possui uma representação neural pequena, os braços são maiores com mãos enormes, pernas pequenas com pés médios.

Temos o homúnculo sensitivo na área somestésica, localizada no giro pós-central, e o homúnculo motor na área motora, no giro pré-central. 

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Núcleo Ambíguo 

É um núcleo motor, de onde partem referências viscerais para o IX par craniano (glossofaríngeo), X par craniano (vago) e XI par craniano (acessório). 

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Após uma breve relembrada neurológica, temos três estratégias neurais para a sobrevivência:

1.  Imobilização: vago primitivo;

2. Mobilização: simpático;

3.  Relacionamento: vago social ou mielinizado (núcleo ambíguo, nervo facial e glossofaríngeo). 

Tudo isso dependerá das Neurocepções (forma como eu percebo o ambiente), isto depende de como o indivíduo percebe o meio social que está, gerando uma resposta seu corpo, que poderá ser de: luta e fuga ou de relacionamento social.

Se a Neurocepção recebida for de segurança, as áreas límbicas de defesa da amígdala são inibidas e o sistema nervoso ativa a sobrevivência social através do Vago Social e com isso e o indivíduo se torna receptivo para as relações sociais. 

O corpo todo responde a com a liberação endócrina regulada pelo centro do sistema nervoso autônomo, por outro lado, se a Neurocepção for de perigo, as funções límbicas de defesa serão ativadas, o que gerará uma resposta de luta e fuga regulada pelo sistema nervoso simpático. 

Como eu percebo o ambiente como seguro ou não seguro 

Isso é gerido pelo nosso inconsciente, pois ele percebe o ambiente e através desta percepção ele adapta todas as respostas corporais, como por exemplo, para formar uma emoção.

Quando o inconsciente reconhece o ambiente como não seguro ele ativa o sistema nervoso simpático, que imediatamente muda a informação visceral e consequentemente muda as intercepções que seguem para o córtex insular, o grande centro regulatório das emoções, gerando uma emoção negativa.

O inconsciente interpreta um ambiente como seguro através do tom de voz e das expressões faciais, lembrando, essas informações estão adicionadas ao nervo facial e ao Glossofaríngeo que se integram no núcleo Ambíguo, local de origem do de nervo vago social.

É uma estratégia de sobrevivência porque usamos para começarmos a nos organizar em grupo, pois assim nos tornamos mais fortes. 

O agrupamento é uma estratégia importantíssima para sobrevivência da nossa espécie.

Sistema Nervoso Autônomo 

O sistema nervoso autônomo possui três divisões:

  1.  Simpático
  2.  Parassimpático
  3. Sistema Nervoso Entérico

O Sistema Nervoso Entérico tem por função controlar todas as funções do sistema digestivo, possui cerca de 100 milhões de neurônios. Já o número de fibras do vago que partem do intestino são em torno de mil. 

Logo, temos um grande centro que regula o funcionamento do sistema e que funciona de forma relativamente independente do Sistema Nervoso Central, porém modulado pelo vago e pelo Sistema Nervoso Simpático. 

Já o Sistema Nervoso Parassimpático está diretamente relacionado com o nervo vago sendo que 80% das fibras do Parassimpático são carregadas pelo nervo vago. 

O Simpático é o nosso sistema de luta e fuga e está ligado a estratégias animalescas geridas pelo Córtex Reptiliano. 

Basicamente, temos um centro no hipotálamo que se liga ao corno lateral da medula nele há um ramo comunicante branco, que sai e segue em conjunto para o gânglio paravertebral, seguindo por três caminhos:

  1. Primeira possibilidade: o segundo neurônio chega até o ramo comunicante cinza e volta para o nervo espinhal, os dois em conjunto inervam o soma (somática do corpo), onde encontram-se os vasos do soma, os vasos piloeretores e as glândulas sudoríparas. Uma vez ativado o simpático, teremos uma piloereção e o aumento da função das glândulas sudoríparas, para que o suor possa espantar o inimigo, além de uma vaso constrição periférica.
  2. Segunda possibilidade: uma característica importante do sistema nervoso simpático está ligado a sua falta de localização, pois o nervo Vago está difuso tendo respostas, portanto, mais difusas. 

Isso acontece por que ao ter uma resposta difusa diante de um perigo, temos uma amplificação das nossas defesas, entretanto, essa característica difusa exige mais perspicácia diante de um tratamento. 

Ficou claro até aqui que estamos falando de um sistema puramente visceral e essas respostas difusas podem dificultar diante de um tratamento. 

Por exemplo, um ovário ou um testículo pode estar gerando uma metâmera de T5 até T11, o que nos exige muito conhecimento para tratar o sistema visceral.

  1. Terceira possibilidade: o vago segue direto para os gânglios pré vertebrais: celíaco e mesentérico superior e inferior, onde fará nova sinapse seguindo para as vísceras efetoras.

Dentro desse complexo sistema temos uma exceção: a informação que vai para a medula da suprarrenal não faz sinapse, porque o corpo precisa de uma resposta muito rápida para a liberação de adrenalina diante de um perigo.    

Organização nervosa

Como essa organização varia muito de indivíduo para indivíduo. 

Este é um guia rápido de consulta das metâmeras e suas possíveis ligações:

 Do Sistema Simpático

  •  T1 a T4 – pode estar relacionado a inervação: da cabeça, do pescoço, coração e pulmão;
  •  T5 a T9 – inerva a região proximal no sistema digestivo, e T2 pode inervar: útero testículo e ovários;
  • T10 a T11 – inervação intermediária do intestino começando em D3 até a metade do mesocólon transverso, mesentérico inferior até o final dos intestinos inervando também as vísceras ou órgãos pélvicos.   

 Do sistema Parassimpático

  • Vago até metade do cólon transverso e a partir de S2, S3 e S4 do plexo sacral.

Conclusão 

Como vimos, a Teoria Polivagal é de extrema importância para nós profissionais do movimento, pois podemos estar diante de uma dor sacral ou torácica de origem não musculoesquelética, sendo importante conhecermos toda a interligação desse sistema e do gerenciamento do sistema nervoso para sermos mais eficazes e complexos em nossos atendimentos. 

Uma metâmera presente em T11, poderá gerar falta de mobilidade e dor na região torácica, e nada ter a ver com o sistema musculoesquelético.

Evoluir para movimentar! Movimentar para evoluir!

Evoluir para movimentar! Movimentar para evoluir!

Falar sobre a importância da prática de atividade física regular é algo extremamente batido e antigo. Acredito que todo mundo já recebeu, ou convive com alguma pessoa que já tenha recebido, um “puxão de orelha” por estar sem se exercitar com regularidade.

Muitos têm na ponta da língua a resposta de que está sem tempo, de que não consegue parar nunca para se exercitar. A vida, o trabalho são tão corridos, consomem tanto a energia, que não sobra nada para os exercícios.

Pois bem, que a vida está corrida nós também sabemos e isso também é uma frase “batida” e antiga. Porém esse tempo tem que existir! E vou justificar de maneira bem simples, basta prestarmos um pouco de atenção no nosso corpo. 

Continue lendo para aprender sobre a importância do movimento, confira!

O corpo em movimento

Não é necessário saber sobre anatomia, fisiologia, biomecânica, assim como também não se faz necessário o estudo profundo da evolução da espécie humana para entender o porquê temos que achar o bendito tempo para praticar algum tipo de atividade física, ou melhor dizendo, o tempo para proporcionar uma variedade de movimentos para todo o nosso corpo. 

Em nosso organismo nada está parado. Todas as estruturas se movem o tempo todo. 

O coração bombeia  o sangue que percorre por todo corpo, oxigenando e nutrindo cada estrutura. 

Os pulmões que filtram e renovam o ar. 

Os músculos que estão por todo o corpo, contraindo desde o movimentos dos olhos enquanto estamos “parados” assistindo à televisão, por exemplo, até durante uma corrida ou qualquer outra prática de atividade física.

Enfim, realmente não paramos nunca!

Agora, para trazer ainda mais sentido à ideia de que o movimento deve fazer parte da rotina de todo mundo, podemos voltar a alguns bilhões de anos e lembrar da evolução da nossa espécie.

Sim, hoje somos quem somos e temos nossas habilidades por conta da evolução da espécie humana. 

Passamos pela tal seleção natural! Os fortes sobreviveram, os que melhor se desenvolveram e se adaptaram às diferentes condições (clima, alimentação, reprodução, locomoção, e por aí vai.), procriaram, aumentaram o clã e seguiram evoluindo.

Em todos esses longos anos de evolução, sobrevivemos pois fomos adquirindo mais habilidades, mais capacidade de adaptação, de sobrevivência, desenvolvemos melhores estratégias de movimento tanto para caçar e fugir quanto para nos locomovermos para encontrar o melhor local para nos instalarmos. 

E durante todo esse processo evolutivo não podíamos nos dar ao luxo de sermos inativos. 

Precisávamos caminhar, correr, saltar por muitos quilômetros até encontrar e conseguir caçar a presa e depois carregar para levar o alimento para casa e alimentar o bando. 

Precisávamos fugir dos predadores, subir em locais mais altos, agachar, enfim, precisávamos nos movimentar infinitamente mais do que precisamos nos dias de hoje. 

A distância da geladeira até a mesa de jantar, é bem menor do que os quilômetros que percorremos na Savana.       

Lembrando disso, fica evidente que nosso corpo é preparado para aguentar atividades generalistas e de grande intensidade, apenas temos que favorecer esses movimentos e deixar um pouco de lado toda tecnologia que fez surgir a tendência de sermos inativos cronicamente.

Ser cronicamente inativo é anormal e patológico (Santurbano e Liberman).

Outra questão bastante interessante de pontuarmos é sobre conseguir ou não conseguir mais fazer determinadas posturas e movimentos. 

Não precisamos ir muito longe no passado, vamos pensar em uma criança, um bebê de quase um ano de idade que está aprendendo andar.

Ele agacha e fica de cócoras, ele levanta e senta com grande facilidade, corre, escala, enfim, faz movimentos que evoluímos fazendo e que com o desenvolvimento da tecnologia deixamos de fazer e, muito pior, estamos evitando que as crianças de hoje em dia façam!

E a consequência disso? Estamos criando adultos e idosos medrosos, com medo de movimentar-se. 

Idosos cada vez mais dependentes de adaptações nos espaços físicos, dependentes de dispositivos auxiliares como bengalas e andadores, vasos sanitários mais altos, entre outros recursos.

E olhem só, em 2015, em um artigo publicado por West BA, foi possível afirmar que o que dispositivo auxiliar para marcha pode limitar mobilidade e aumentar o risco de queda.

Nossos idosos têm medo de cair pois não sabem mais como movimentar-se no chão, perderam a habilidade de rolar, ajoelhar, perderam a mobilidade, a força, o equilíbrio.

Tudo isso por causa da idade? Não, pela falta de estímulos! Pela falta de movimento na rotina ao longo da tal vida corrida! 

O exercício diminui o risco de queda em idosos (Tricco, AC, et al. 2017) e também pode diminuir ou prevenir incapacidade em idosos vulneráveis (Pahor M, et al, 2014).

Fica meu alerta para quem convive com crianças: deixem as crianças livres para se movimentar. Deixem que elas encontrem as estratégias para alcançar aquele brinquedo mais alto ou distante. 

Deixem que elas abaixem para procurar o que caiu embaixo do sofá e que o escalem depois para sentar. Claro que sempre de maneira segura.

Deixem as crianças livres! Vamos criar futuros idosos saudáveis, menos dependentes.

Os ganhos na infância preparam o corpo para a vida adulta! As habilidades são aprendidas e acumuladas, por isso devemos começar o quanto antes. Vamos?

OK! Legal! Quero colocar tudo isso em prática! Existe alguma atividade física que seja melhor, mais indicada de praticar?

Não ao meu ver. Para mim, a melhor forma de você se movimentar é aquela a qual você melhor se adapta, a que você mais gosta e a que mais combina com o seu estilo de vida e seus objetivos. 

Seja o Pilates,  Yoga, caminhada, corrida, Crossfit, natação, enfim, em qualquer prática física é importante que seja algo que lhe dê prazer em praticar, que promova bem estar e favoreça a saúde, que não cause dores que te impossibilite de fazer suas atividades diárias ou que provoque a reincidência de dores que já haviam melhorado.

Minha dica é que sempre tome cuidado com o local e profissional que irá orientar sua prática. Pesquise sobre, busquem qualidade!

Respeite sempre seu corpo, seus limites e condições.

Busque equilíbrio, pois um corpo biomecanicamente mais equilibrado deve aguentar à toda e qualquer demanda.

O movimento trata! O movimento cura! Movimente-se.