Durante a avaliação estamos tão concentrados na coluna e postura do nosso aluno que podemos esquecer os pés. Na realidade, eles são essenciais para movimento e precisam de atenção, especialmente no Pilates.

Joseph Pilates sabia disso quando criou seu método. Por isso, possuímos tantos exercícios que ajudam a organizar a mecânica dos pés e proporcionar uma melhor organização corporal. No entanto, só saberemos usá-los se soubermos avaliar o paciente.

Hoje falarei um pouco sobre a biomecânica dos pés e como ela influencia na prática do Pilates. Assim, você terá uma melhor base para sua avaliação durante as aulas.

Por que os pés são tão importantes?

Todos os corpo físicos, inclusive o humano, são regidos por leis gravitacionais. De acordo com essas lei, um corpo só está em equilíbrio quando a vertical traçada partindo de seu centro gravitacional cai em sua base de sustentação. Essa é a base da fisiologia estática.

É fácil de entender isso em corpos mais simples, mas como funciona no corpo humano? Somos complexos e nosso centro de gravidade geral é resultado de diversos fatores. Posições variadas e sequenciais no espaço formam os centros de gravidade de cada unidade funcional do corpo.

A lei da estática nos direciona para compreender a lei das compensações, tão importante na prática do Pilates. Quando estamos em posição ortostática não acontece desequilíbrio segmentar de uma unidade corporal sem que existe compensação sequencial. Ou seja, uma área desequilibrada no corpo causa compensações em outras.

A postura humana pode ser considerada como um desequilíbrio permanente que se corrige e se compensa com complexos mecanismos. Quando estamos em bipedestação o corpo nunca está parado. Ele oscila sobre sua base, alterando postura e posição.

Como ocorre o equilíbrio do corpo

Antes de explicar mais sobre o equilíbrio, precisamos relembrar as três unidades funcionais do corpo humano. Os membros inferiores consistem na base de todo o movimento, por isso dediquei esse texto à avaliação dos pés.

Também existe a unidade tronco, que é responsável pelo desequilíbrio. Por último, temos a unidade cabeça e pescoço, que possui órgãos de orientação espacial e coordena o conjunto.

Sabendo que os membros inferiores são a base do corpo, podemos entender que o apoio dos pés no solo resulta numa boa estática. Para isso, os pés utilizam seus próprios mecanismos, como a articulação do tornozelo.

Tornozelo

O tornozelo é composto por dois ossos:

  • Tíbia;
  • Fíbula.

Esses ossos estão ligados a uma polia que conhecemos como tálus. É esse encaixe em forma de polia que é responsável por formar os maléolos interno e externo. Eles permitem ao tornozelo dois movimentos, a flexão dorsal (anterior) e flexão plantar (posterior.

O tornozelo precisa ser uma articulação bastante estável, por isso possui sua flexão plantar naturalmente diminuída. Na prática conseguimos perceber isso muito bem, já que diminuímos substancialmente nossa base de equilíbrio.

Existe outra estrutura, o sub tornozelo, que permite os movimentos laterais. Ele é formado pelo tálus e ossos do metatarso. É a articulação que realiza os movimentos de inversão e eversão do pé.

Além disso, os pés também possuem uma região anterior, o ante-pé, que possui a articulação tarsometatarsial com cinco metatarsos. São eles que permitem os movimentos anteriores, apesar de terem mobilidade diminuta.

Física do movimento nos pés

Durante o movimento os pés recebem a descarga da nossa massa corporal a todo momento. Nessa etapa, eles têm a importante função de amortecimento. Quando estamos em bipedestação, existem trações musculares partindo do pé que transformam a força gravitacional em energia cinética.

Os músculos dos pés possuem a ação de uma mola. Portanto, realizam o armazenamento da energia cinética em sua fibra e a liberam quando a contração muscular na região for solicitada.

Para a física, a energia é a capacidade de realizar trabalho. Nesse escopo, a energia cinética é aquilo que um corpo adquire quando está na dinâmica, em movimento. Ela é dependente de duas grandezas matemáticas que o corpo em movimento possui: massa e velocidade.

Por isso é tão importante respeitar a sincronia muscular que nos rege. Os pés servem como molas propulsoras para o restante do corpo. Quando organizamos os arcos plantares conseguimos melhorar a utilização de forças físicas e mecânicas que nos regem, melhorando o movimento.

Como a avaliação dos pés influencia no Pilates

Realizar uma boa avaliação dos pés pode mudar completamente sua aula de Pilates. Joseph Pilates sabia dessa sincronia muscular, portanto criou métodos de trabalhar os pés muito eficientes. Na série dos Footworks ele exigiu de forma inteligente um bom trabalho dos pés. Assim, seria possível evitar a desorganização dessas bases do corpo nas aulas.

Os Footworks também possuem aplicabilidade física. Eles utilizam a extensão e flexão de quadris e joelhos para auxiliar a organizar e até tratar os pés. Essa série é fundamental para sua aula e você, profissional, precisa saber quando usá-la.

Existem muitas lesões corporais músculoesqueléticas ascendentes que surgem por causa de má organização plantar. Em idosos esse trabalho também auxilia a prevenir quedas, mas falarei mais a respeito disso em outro artigo.

Como o Reformar trabalha a biomecânica dos pés

Depois de realizar uma avaliação dos pés é preciso encontrar formas de trabalhá-los em aula. Felizmente, temos tudo que precisamos no Pilates, mesmo que exista uma tendência a negligenciar os pés nas aulas diárias. Como uma boa organização corporal depende do seu alinhamento, não podemos esquecê-los.

Muitos exercícios de Pilates expõem a fragilidade dos tornozelos e exigem atenção especial. Eles incluem:

  • Footwork;
  • Running;
  • Stomach massage;
  • Longo stretch;
  • Up stretch;
  • Arabesque;
  • Frontsplits;
  • Semicircle;
  • Leg pull front;
  • Push up series.

Todos esses exercícios são realizados no Reformer e existe um motivo simples para isso. Esse equipamento foi desenvolvido por Joseph Pilates especificamente para melhorar a organização dos pés. Para Joseph, exercícios na posição horizontal eram imprescindíveis em nossas aulas.

De acordo com ele, esses movimentos ajudavam a aliviar o estresse e tensão articular, assim como melhorar o alinhamento corporal. Esses benefícios são ainda melhor aplicados aos pés, já que boa parte dos exercícios no Reformer exigem sua boa organização.

Quando realizar um exercício no Reformer com seu aluno nunca deixe que se movimente com compensações iniciando pela base de sustentação.

Devemos corrigir as compensações, inclusive as que surgem acima. De acordo com Joseph Pilates, as aulas deveriam sempre começar deitado. Era uma forma de seguir a lógica de movimentos que o aluno realiza durante o dia, começando com o acordar.

Conclusão

A avaliação dos pés tem um papel especial no Pilates, mesmo que muita gente esqueça. Existem mais de 100 movimentos que foram criados por Joseph Pilates especialmente para o Reformer e que exigem uma boa organização dos pés.

Para Pilates, treinar com a carga externa das molas do Reformer tornaria o corpo humano e seu movimento mais eficiente. Assim, conseguimos preparar o corpo para a retirada da carga na sua condição habitual, longe da aula de Pilates.

A resistência oferecida para os pés pelas molas incentiva uma adaptação mais rápida do sistema neuromuscular. Em outros casos, ele pode facilitar os exercícios para que seu aluno consiga corrigir sua mecânica corporal e obter melhores resultados.