Avaliação Postural: da Entrevista até Lesões Ascendentes/Descendentes

Avaliação Postural: da Entrevista até Lesões Ascendentes/Descendentes

A avaliação postural é uma fase importante do tratamento. Podemos considerar que, se ela não for realizada corretamente, o indivíduo não terá o tratamento eficiente que merece. Podemos até acabar errando nos exercícios se não formos cuidadosos.

Portanto, é essencial relembrar alguns dos passos iniciais desse processo para conseguirmos melhorar nosso atendimento. Nesse artigo falo a respeito da avaliação: desde quando o aluno chega no seu espaço até a identificação de lesões ascendentes ou descendentes.

Como iniciar a avaliação?

Assim que o aluno chega ao studio ou consultório. Preste atenção na forma como ele se senta, seus gestos, modos de falar e expressões de dor. Tudo o que é importante deve ser anotado para você conseguir elaborar uma proposta de tratamento muito mais eficiente.

Uma dica importante aqui é: busque seu aluno na recepção ou sala de espera. Não peça para um colega ou secretária buscá-lo. Ao encontrar o aluno esperando por você, é possível encontrá-lo “despreparado”, ou seja, ele ainda não sabe que está sendo avaliado. É a oportunidade perfeita para descobrir seus problemas.

Por exemplo, como sabemos que a cadeia muscular de flexão ou antero mediana tem sua origem no assoalho bucal, segundo madame Godelieve Denys Struf e Leopold Busquet. Quando o aluno nos comprimenta podemos perceber alterações na fala.

Entre elas encontramos possível prognatismo, ankiloglossia (língua presa). Portanto, já temos uma pista importante para uma possível tensão nessa cadeia muscular, o que nos servirá para ao final da avaliação fecharmos nossos objetivos, diagnósticos e condutas diante do caso.

Caso utilize, ou já tenha utilizado, aparelho nos dentes é outro fator de extrema importância. A partir desse dado saberemos que estamos lidando com um corpo que já possui suas próprias tensões internas, externas e outra força que lhe está sendo imposta atuando em seus dentes e crânio.

Nada pode escapar aos nossos instintos nessa hora. Lembrando que as grandes descobertas, foram feitas em insights de conhecimentos através da observação atenta dos nossos grandes gênios antecessores, já que a tecnologia de avaliação não era algo desenvolvido há pouquíssimo tempo atrás.

Como realizar a entrevista?

Quero te avisar que, durante a entrevista, o profissional do movimento precisa ser persistente. O aluno muitas vezes deixa de mencionar informações que não considera relevantes ou que não lembra. Sabemos, por exemplo, que lidamos com um corpo viscerado. Portanto, precisamos coletar dados a seu respeito.

Quando perguntamos ao aluno como anda sua saúde no geral, ele dirá que está tudo bem. Quem concorda com a resposta e segue com a avaliação perde informações essenciais. Insista e fragmente sua pergunta para facilitar o trabalho do paciente.

Não somos médicos e não conseguimos diagnosticar doenças viscerais. Por isso, muitos profissionais podem ignorar essa parte da entrevista. No entanto, estamos em busca de tensões viscerais que possam influenciar no quadro do indivíduo. Além disso, mesmo identificando tensões viscerais nada prova que o paciente possui uma patologia no local.

Importância de realizar uma anamnese completa

Durante a anamnese devemos avaliar eventos que possam perturbar as leis que o corpo obedece. Elas são as leis do conforto, economia e equilíbrio. Uma patologia, mesmo que antiga, pode ser o começo para o corpo se reequilibrar e gerar desequilíbrios.

Quando temos uma pneumonia, por exemplo, o corpo está sujeito – durante determinado período – a uma força centrífuga. Os sinais flogísticos no caso são dor, calor, rubor e edema. De acordo com o dr. Andrew Taylor Still, criador da Osteopatia, o órgão sempre é prioridade.

Além disso, a estrutura determina a função. Portanto, percebemos que esse arcabouço costo vertebral foi obrigado a ceder espaço para o aumento da massa pulmonar causado pela doença. Um quadro asmático geraria ao contrário, um corpo que esteve ou está sob tensão centrípeta desde então.

De acordo com Madame Thérèse Bertherat, nossos músculos são como paredes de uma casa. Essas paredes tudo ouvem e tudo guardam, acumulando  memória de todo o ocorrido em nossa vida. Nessa bela frase, ela se refere brilhantemente a nossa memória corporal, que está ligada à imagem mental.

Problemas viscerais podem gerar desequilíbrios importantes, mesmo que não estejam aparentemente ligados a problemas musculoesqueléticos. Os problemas viscerais pulmonares, por exemplo, geram falta de mobilidade torácica. Como consequência, também temos enrijecimento dos tecidos circundantes osteomusculares.

O corpo fica privado de oxigênio localmente e tem como resposta a dor e retrações diafragmáticas importantes. Isso interfere diretamente na nossa relação respiratória. Os desequilíbrios gerados afetam a entrada do ar (forças centrípetas) ou eliminação de CO2 (forças centrífugas).

Também podemos aproveitar o momento da entrevista para avaliar como o indivíduo respira. Com o aumento de estresse gerado pela vida moderna muitas pessoas respiram mal simplesmente por ansiedade. Outro fator a avaliar é se a respiração ocorre em ins ou ex.

Realizando a avaliação postural estática

Após a entrevista damos início à avaliação postural estática. Nessa avaliação observamos somente os pontos anatômicos de forma estática. Mais tarde, juntamos todos os achados com aqueles da avaliação dinâmica, entrevista, testes específicos e outros.

Costumo brincar que a avaliação é um divertido jogo de quebra cabeça. Nele, as peças vão se juntando uma a uma para entender melhor o corpo que nos pediu ajuda. A avaliação postural estática precisa seguir os seguintes critérios para ter sucesso:

  • Posicione o indivíduo de forma que consiga dar a volta por seu corpo sem precisar mexê-lo. Movimentos, mesmo que pequenos, podem alterar suas influências tônicas;
  • Posicione-se exatamente a linha média do avaliado para não gerar interferências visuais.
  • Comece com o indivíduo em pé sempre da maneira mais confortável possível;
  • Comece a avaliação de baixo para cima;
  • Seja o mais rápido possível em sua análise;
  • Explique ao avaliado que todos temos assimetrias. Nosso objetivo é deixá-lo o menos constrangido possível;
  • Mulheres devem usar um biquíni durante a avaliação e homens devem usar sunga. Não realize a avaliação postural de top (esconde parte dos processos espinhosos) ou bermuda (impede observar o joelho);
  • As mãos do avaliador devem estar aquecidas e serem firmes para passar segurança;
  • Sempre peça a permissão do avaliado para tocá-lo;
  • Fale tranquilamente, mas com firmeza.

Analisando as lesões descendentes e ascendentes

Durante a avaliação postural estática conseguimos começar a identificar as lesões do indivíduo. Trabalhamos com dois tipos de lesões bastante distintas: ascendentes e descendentes. Abaixo defino o que são cada uma delas para que você consiga identificá-las com mais facilidade.

Lesões Ascendentes

Originam-se sempre abaixo da dor relatada. Ou seja, caso estejamos diante de uma lesão ascendente, em uma possível lombalgia o esquema de compensação postural que se esgotou causando a dor surgiu de uma estrutura inferior, como por exemplo, pés, joelhos, ou ainda, quadril.

Lesões Descendentes

São o contrário, originam-se sempre acima da dor relatada. Na mesma lombalgia citada anteriormente, a lesão primária teve origem em uma estrutura superior, podemos citar aqui: a região torácica, cervical, ou importante, visceral.

Avaliando a lesão

Avaliarmos se a lesão é ascendente ou descendente é bem simples: Traçamos uma linha imaginária de um acrômio até o outro, e da mesma forma, traçamos também uma linha imaginária de uma crista ilíaca até a outra. Dados esses que já foram colhidos durante a avaliação postural estática.

Caso as linhas se encontrem em algum ponto estaremos diante de uma lesão ascendente, já se estivermos diante de um caso em que as linhas imaginárias nunca se encontram estaremos diante de uma lesão descendente.

Esse procedimento é importantíssimo para traçarmos nossa estratégia com esse indivíduo, para identificarmos, por onde começaremos a mobilizá-lo, fortalecê-lo, ou ainda relaxá-lo.

Concluindo…

O que mencionei aqui foi um breve resumo dos passos iniciais da avaliação postural que devemos realizar antes de qualquer tratamento. Cada um desses passos te ajuda a compreender melhor as compensações do corpo e dá insights para conseguirmos a melhora efetiva do indivíduo.

Vale a pena lembrar que nenhuma avaliação está completa sem a avaliação dinâmica e testes específicos da patologia. É através deles que conseguimos comprovar as hipóteses criadas durante a avaliação estática e determinar o tratamento mais eficiente.

Como fazer uma Avaliação com Exercícios de MAT Pilates?

Como fazer uma Avaliação com Exercícios de MAT Pilates?

Avaliar é o primeiro passo dentro do planejamento de um atendimento, seja para reabilitação ou treinamento. Avaliar as condições inicias do seu aluno pode ser o diferencial entre em um trabalho bem-sucedido com resultados consistentes e meses de esforço sem progresso.

Atualmente encontramos inúmeros protocolos de avaliação – muitos deles bastante consistentes -, que nos oferecem os mais diferentes scores para componentes da aptidão física.

Ou seja, se você está planejando um treinamento de força é possível avaliar exatamente qual a carga correspondente aos percentuais de uma repetição máxima e, então, prescrever seu treinamento.

Ter como base bons parâmetros garante que você não subestime seu cliente, levando para treinamentos sem resultados significativos, ou que você superestime, ocasionando em práticas com alto risco de lesão. Entendido isso fica a dúvida: como avaliar as habilidades do meu aluno de Pilates?

Continue comigo e você vai entender tudo sobre a importância de uma Avaliação com Exercícios de MAT Pilates especifica para os seus alunos de Pilates e como isso pode mudar para melhor a qualidade e segurança do seu trabalho com os alunos.

Como funciona uma Avaliação com Exercícios de MAT Pilates?

Um dos mais importantes princípios do treinamento físico é a especificidade. Se quero desenvolver as capacidades físicas de um corredor, treinamentos que envolvam o gesto da corrida são essenciais e as transferências dos ganhos de treinamentos específicos são sempre mais efetivas.

Além disso, em outro exemplo, se eu procuro avaliar a velocidade de um nadador não adianta analisar o tempo de uma prova de 2 mil metros, que reflete muito mais a capacidade de resistência aeróbica. Dito isso, a especificidade da Avaliação com Exercícios de MAT Pilates também é essencial. Para tanto é necessário utilizarmos o Método Pilates como ferramenta de avaliação do próprio método.

Normalmente na nossa prática nos Studios de Pilates temos como costume realizar avaliações posturais, funcionais e antropométricas em busca das abordagens principais que teremos em relação aos objetivos dos nossos alunos. Você já parou para pensar que essas avaliações deveriam ser, na realidade, uma prática em qualquer modalidade?

Elas não são específicas para o método e não levam em consideração qual modalidade iremos utilizar a seguir – elas não embasam o planejamento de forma especifica!

E quais parâmetros você usa como base para escolher qual o nível de dificuldade dos exercícios que você vai prescrever para seu aluno? Começar pelo mais fácil e ir progredindo parece a resposta lógica, certo? Até pode ser a abordagem mais segura, mas certamente não é a mais eficiente.

Essa parece a melhor opção, mas você já parou pensar que seu aluno pode ser subestimado e que você vai perder tempo utilizando exercícios que não irão gerar adaptação? Ou pior, escolhendo exercícios abaixo da necessidade do seu aluno pode até mesmo levá-lo ao destreino.

Protocolo de Avaliação com Exercícios de MAT Pilates

Outro ponto, os exercícios do Método Pilates são, na sua maioria, globais. Considerando isso, e se o seu aluno tem flexibilidade para realizar um exercício avançado, mas não possui estabilidade lombo-pélvica para sustentar aquela posição? Você estaria aceitando colocá-lo em uma posição que pode representar risco de lesão? Quando é a hora certa de progredir nos exercícios?

Para responder essas e outras perguntas criei, com base na literatura científica disponível, um protocolo de Avaliação com Exercícios de MAT Pilates que utiliza exercícios do próprio Método Pilates para dar essas respostas e indicar em qual nível de habilidade seu aluno se encontra.

Levando em consideração diferentes aspectos como força de membros superiores, força de membros inferiores, mobilidade, flexibilidade da coluna, flexibilidade de extensores do quadril, força e funcionalidade abdominal, força de extensores da coluna e estabilidade lombo-pélvica.

Cada componente da avaliação exige a análise de mais de um exercício gerando scores que poderão ser acompanhados para garantir a evolução do seu aluno e o ganho de resultados consistes em menos tempo do que um treinamento sem a utilização de Avaliação com Exercícios de MAT Pilates.

Estamos falando de eficiência, melhores resultados em menos tempo o que levará a maior fidelização dos seus clientes e a entrega do resultado final prometido agregando muito mais valor ao seu trabalho. A comparação da evolução do seu aluno através de uma boa avaliação é primordial quando falamos em retenção de clientes e potencial de indicação.

Além de ver o retorno do seu trabalho de uma forma gratificante, você apresenta os resultados de tal maneira gerando vínculos e confiança. Só existe benefícios em incorporar um bom protocolo de Avaliação com Exercícios de MAT Pilates na sua metodologia de atendimento.

O que se deve observar durante a avaliação?

A Avaliação com Exercícios de MAT Pilates baseia-se na observação das habilidades do avaliado ao realizar uma série de exercícios de MAT Pilates. Para cada exercício estaremos observando aspectos específicos que representam uma ou mais das categorias avaliadas.

Cada exercício possui um número máximo de pontos possíveis e, ao final da avaliação, poderemos calcular se seu aluno é classificado como nível básico, intermediário ou avançado. Isso de forma geral e de maneira específica, entre as categorias citadas anteriormente.

As categorias são compostas pelos scores de um conjunto específico de exercícios e traz um olhar importante. Nossos alunos podem ter diferentes níveis entre as habilidades: muitas vezes um aluno com força pode não ser flexível e classificá-los somente de forma global pode acarretar em erros na hora de prescrever.

Esses resultados vão ajudar a planejar e escolher o nível de dificuldade apropriado dos exercícios, garantindo um trabalho individualizado e prescrito de forma adequada.

Além disso – tendo essa ferramenta em mãos -, será possível planejar os aumentos de dificuldade de forma periódica, períodos de regeneração e reavaliar para realizar os ajustes e apresentar os resultados.

Entre os aspectos observados estão:

  • Capacidade de mobilização da coluna;
  • Capacidade de controlar o movimento em fases excêntricas;
  • Capacidade de manter a organização da cintura escapular;
  • Capacidade de manter a sinergia na contração dos flexores e estabilizadores da coluna.

Conclusão

Avaliar é o primeiro passo de um trabalho responsável, de qualidade e eficiente. Entregar os resultados prometidos no menor tempo possível é o que representa um bom profissional que sabe exatamente o que está fazendo. Existem muitas prescrições realizadas sem planejamento, resultados que vem de forma lenta e muitas vezes por acaso.

Para ter base em um trabalho de sucesso que irá conquistar seus clientes de forma gratificante, tanto para você avaliar e quanto reavaliar seus alunos de forma específica é essencial. A palavra chave que uma boa Avaliação com Exercícios de MAT Pilates pode lhe trazer é EFICIÊNCIA.

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Este artigo foi escrito por Paula Finatto

É atualmente aluna de Doutorado Acadêmico no Programa de Pós Graduação em Ciências do Movimento Humano (UFRGS) realizando o programa Doutorado Sanduíche na Sacramento State University nos Estados Unidos. Mestre em Ciências do Movimento Humano (UFRGS) com ênfase em biomecânica e fisiologia da locomoção humana e Método Pilates. Também é Especialista no Método Pilates (UFRGS) e Bacharel em Educação Física (UFRGS) no ano de 2015/01. Formou-se em 2011/2 em Licenciatura em Educação Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), integrante do Grupo de Pesquisa Locomotion e do Grupo de Pesquisas em Atividades Aquáticas e Terrestres da UFRGS e do Grupo GPCine (UFRGS). Certificada no Método Pilates pela Espaço Vida Pilates e possui formação no Método Pilates Original pela Associação Brasileira de Pilates atuando como instrutora há 8 anos.

Como fazer uma Boa Avaliação Estática de Membros Inferiores

Como fazer uma Boa Avaliação Estática de Membros Inferiores

Uma das etapas da avaliação postural que utilizamos é a estática. Quero começar avisando: esse tipo de avaliação não é o suficiente para compreender nosso aluno por completo.

Depois de avaliarmos todos os pontos anatômicos estaticamente, conseguimos juntar nossos achados para a avaliação dinâmica. Também conseguimos aplicar os conhecimentos obtidos nessa fase na entrevista e nos testes específicos.

Gosto de comparar a avaliação com um jogo de queda cabeça. Nele, as peças se juntam uma a uma para compreendermos melhor o corpo que precisamos melhorar. Para conseguir realizar a avaliação estática com resultados positivos precisamos seguir os seguintes critérios:

  1. Posicionamento do avaliado: o indivíduo deve estar posicionado de forma a conseguirmos dar a volta no seu corpo sem movê-lo. Um movimento sequer pode alterar suas influências tônicas e o resultado da avaliação;
  2. Posicionamento do avaliador: o profissional deve ficar exatamente na linha média do avaliado. Caso contrário, corremos o risco de sofrer com algum tipo de inferência visual;
  3. Início: a avaliação estática começa com o indivíduo em pé e na posição mais confortável possível. Sempre começamos a avaliar de baixo para cima;
  4. Tempo: a avaliação deve ser o mais rápida possível. O profissional também deve explicar ao indivíduo que todos possuímos assimetrias para deixá-lo menos constrangido;
  5. Vestimenta: mulheres devem usar um biquíni durante a avaliação. Homens devem usar sunga. É impossível avaliar bem um aluno de top, já que ele esconde parte dos processos espinhosos, ou bermuda, que impede a observação dos joelhos;
  6. Mãos: durante a avaliação precisamos tocar o avaliado. Portanto, elas devem estar aquecidas para evitar desconforto e serem firmes. Assim, conseguirmos passar mais segurança. Sempre peça permissão ao avaliado antes de tocá-lo;
  7. Forma de falar: devemos falar tranquilamente, mas com firmeza, ao avaliado. Cada manobra deve ser explicada com seu devido objetivo.

Unidades corporais avaliadas

Antes de começar a falar sobre a avaliação estática em si, preciso relembrar um pouco das unidades corporais que iremos analisar. Começamos sempre pelo membro inferior, que é formado pelas seguintes unidades, como explicaram Béziers e Piret:

  • Pé: responsável por dirigir o movimento;
  • Unidade ilíaca: possui papel de apoio ligado ao tronco e papel dinâmico do membro. Faz o membro inferior participar do tronco, utilizando a perna para transmitir a tensão e movimento ao pé;

As unidades que citei acima compõem a única unidade de membro inferior. A base do esqueleto do membro inferior é formado pelos dois ossos do quadril.

Os ilíacos (esquerdo e direito) são unidos pela sínfise púbica e pelo sacro. A pelve óssea é formada pelo cíngulo do membro inferior e sacro.

Podemos dividir os ossos do membro inferior nos seguintes segmentos:

  • Cintura pélvica: ilíacos direito e esquerdo;
  • Coxa: fêmur e patela;
  • Perna: tíbia e fíbula;
  • : ossos do pé.

Avaliação estática do joelho

O membro inferior é responsável por sustentar o peso corporal e auxiliar na locomoção e manutenção do equilíbrio. Além disso, ele realiza a transferência estável de peso durante uma marcha ou corrida.

Quando falamos mais especificamente dos joelhos, estamos considerando a articulação mais complexa do corpo humano, anatômica e funcionalmente. Ela é formada pela articulação tibiofemoral e patelofemoral.

A extremidade distal do fêmur, na articulação tibiofemoral, possui os côndilos. Eles articulam-se com a tíbia e dividem-se por um sulco central que forma a superfície articular da patela. Esses côndilos são cobertos de cartilagem hialina espessa. Ela suporta forças extremas sobre as superfícies articulares durante o movimento.

A porção proximal da tíbia é conhecida como platô tibial. Nela encontram-se duas conchas achatadas niveladas anteriormente pela diáfise da tíbia. A superfície está alinhada com a cartilagem hialina, onde acomodam-se os côndilos femorais. A região intercondilar encontra-se na divisão entre platôs medial e lateral.

O joelho também possui a articulação patelofemoral, formada pela:

  • Cavidade troclear;
  • Facetas posteriores da patela (maior osso sesamóide).

É nessa articulação que se interpõe o quadríceps. O tendão patelar também está nessa região e vai do vértice inferior da patela até a tuberosidade da tíbia.

Encontramos inúmeras lesões e patologias no joelho durante a prática clínica. Isso é facilmente compreensível, especialmente quando consideramos que a articulação está situada entre os dois braços de alavanca mais longos do corpo. Eles são o fêmur e a tíbia, que tornam o joelho tão suscetível a lesões.

Lesões do joelho

Quando o joelho encontra-se em flexão ele está no seu movimento de maior instabilidade. É nessa posição que ocorrem lesões de ligamentos e meniscos.

Em extensão de joelho, sendo esta a posição de movimento onde há maior estabilidade, torna esta articulação mais sujeita, mais vulnerável a fraturas e rupturas ligamentares.

Quando alguém realiza um agachamento acontece a cocontração dos músculos isquiotibiais e quadríceps. Em pequenos ângulos, essa cocontração é responsável por diminuir a translação anterior da tíbia e a rotação interna causada pelo quadríceps.

Em ângulos acima de 60º a cocontração muscular leva a tíbia a se deslocar posteriormente e a realizar uma rotação externa. Esse movimento aumenta a pressão exercida sobre a patela. A força de contato articular é maior acima de 50º e a cocontração dos isquiotibiais aumenta a pressão a partir de 60º.

Powers et. al analisou onde existiria maior estresse da articulação femoropatelar. Em seu estudo, mostrou que durante exercícios de agachamento as angulações que produziam mais força de estresse na articulação foram 90º, 75º e 60º de flexão de joelhos.

Portanto, para diminuir o estresse femoropatelar o sugerido é realizar agachamento de 45º a 0º. Não devemos chegar a flexão de 90º, onde existe grande compressão articular.

Alterações do membro inferior

Podemos considerar o membro inferior como uma cadeia cinética. Assim, é possível pressupor que qualquer alteração biomecânica em um dos seus complexos articulares consegue influenciar a biomecânica e função do restante.

O alinhamento do joelho no plano frontal é bastante pesquisado por conta de sua importância clínica. Quando existe incongruência de membros inferiores, especialmente do joelho, é possível existirem dores articulares e instabilidade relacionadas.

Desordens nessas estruturas ainda podem trazer problemas, como:

  • Dificuldade de sustentação muscular;
  • Problemas sobre os tendões;
  • Problemas em ligamentos e retináculos.

Isso ocorre principalmente quando existe alternância de alinhamento do joelho em varo ou valgo. Assim, a função dos joelhos fica alterada e gera sobrecarga compressiva em algum ponto da articulação, dependente de qual desalinhamento apresentar.

Um moderado desalinhamento frontal de joelho, por exemplo, pode piorar o prognóstico de doenças degenerativas, como osteoartrite.

Dependendo da orientação, que pode estar em varo ou valgo, as forças articulares estáticas e dinâmicas deixam de estar homogeneamente distribuídas. Assim, elas favorecem o surgimento de processos disfuncionais e até mesmo patologias na articulação e articulações próximas.

Como sabemos, o corpo funciona em cadeias musculares que separamos para o bem da didática, mas que são complementares na realidade corporal. Caso ocorra um desarranjo, seja fascial, muscular ou de tecidos moles, todo o sistema fica comprometido.

Conclusão

Durante a avaliação estática conseguimos começar a identificar alguns desequilíbrios do corpo. Para entendê-los bem, precisamos avaliar cuidadosamente os membros inferiores, dando destaque aos joelhos. Seu posicionamento pode afetar toda a cadeia dos membros inferiores e gerar lesões, patologias e aumentar as chances de doenças degenerativas.

No entanto, volto a lembrar que somente a avaliação estática não é o suficiente para conseguir uma análise completa do aluno. Para entender mais sobre esse assunto sugiro conferir meu artigo sobre os dois tipos de avaliação, estática e dinâmica. Se quiser saber mais sobre avaliações do membro inferior, confira meu guia completo sobre a avaliação estática.

Como realizar a Avaliação das Cicatrizes no paciente

Como realizar a Avaliação das Cicatrizes no paciente

O corpo humano é marcado por diversas experiências que passamos ao longo da vida e, em alguns casos, podemos ver essas marcas claramente. As cicatrizes são expressões daquilo pelo qual o corpo passou e podem influenciar muito na organização corporal.

Por acaso você observa as cicatrizes do seu paciente ou aluno quando está realizando a avaliação estática? Espero que a resposta tenha sido sim, porque elas são importantíssimas para entender as compensações realizadas por esse corpo, como você pode conferir abaixo.

Importância de fazer a avaliação das cicatrizes

Enquanto realizamos a avaliação das cicatrizes na estática, precisamos ter os olhos atentos para todas as pequenas alterações no corpo do avaliado. Comece procurando por toda a extensão do seu corpo por cicatrizes. Barral foi o primeiro a mostrar que essas marcas podem ter consequência.

A má formação na teia de matriz cicatricial pode alterar o funcionamento mecânico do corpo. Portanto, devemos buscar essas marcas com atenção, já que elas podem ser algumas das causas que estão intoxicando o sistema musculoesquelético.

Cicatrizes tóxicas

Esse tipo de cicatriz é aquele que altera o funcionamento mecânico corporal. Elas são formadas após um ferimento ou intervenção cirúrgica, assim como boa parte das cicatrizes. No entanto, elas permanecem em reação com estímulos internos e externos depois de sua formação.

A cicatriz tóxica é capaz de causar uma contração muscular do músculo em questão. Ela também consegue modificar o tecido conjuntivo e o líquido extracelular que o circunda. Portanto, transforma-se numa área reativa, que chamamos de campo perturbador. Algumas das áreas onde essas marcas aparecem são:

  • Face;
  • Laterais do tronco;
  • Medianas da parede anterior do abdômen.

Preste muita atenção a cicatrizes horizontais, já que elas são mais nocivas para o desarranjo biomecânico. Só não se engane, não é o tamanho da cicatriz que define se ela é tóxica ou não.

Em alguns casos, marcas grandes não representam disfunções corporais, enquanto uma pequena cicatriz pode causar modificações teciduais no tecido conjuntivo e desregulação exteroceptiva. Ela implica em obstáculos para a correção postural durante o tratamento que elaboramos mais tarde.

Por que cicatrizes são tão importantes?

Para entender a desorganização corporal causada pelas cicatrizes basta observar o papel da pele. Ela é o maior órgão do corpo humano e é dotada de inúmeras terminações nervosas livres. Entre elas encontramos também grande qualidade de exteroceptores, como órgãos de Ruffini e Discos de Merkel. Essas células atuam como mecanorreceptores e são extremamente sensíveis.

Uma cicatrizes anterior de tronco pode, por exemplo, provocar uma projeção anterior do corpo. Isso acontece na tentativa de relaxar o estiramento do exteroceptor para conseguir um ajustamento no tônus muscular.

A pele também é um dos maiores órgãos do corpo que está exposto diretamente a estímulos do meio ambiente. Assim, ela realiza uma troca contínua de informações. O sistema de entrada pode ser perturbado em algumas ocasiões, como é o caso de uma cicatriz. Quando isso ocorre sua capacidade de interação com o ambiente interno e externo fica prejudicada.

Como saber se estamos diante de uma cicatriz tóxica?

Como mencionei, algumas cicatrizes são tóxicas independente do tamanho dela. Se o tamanho não é o suficiente, como podemos identificá-las durante nossa avaliação das cicatrizes? Confira alguns aspectos que você pode utilizar para identificar os tipos de cicatriz.

Aspectos de uma cicatriz normotrófica (que não causa distúrbios):

  • Cor próxima ao tom da pele;
  • Textura fina.

Agora, veja os aspectos de uma cicatriz tóxica, aos quais você deve estar muito atento durante a avaliação das cicatrizes:

  • Cor em tons de vermelho, variando entre tons claros, escuros e acastanhados;
  • Retrações;
  • Quelóides;
  • Alto relevo;
  • Trofismo, atrófica ou hipertrófica.

No entanto, não basta ver o aspecto da cicatriz para conseguir ter certeza se estamos diante de uma cicatriz tóxica. Ainda precisamos realizar testes adequados para ver se aquela marca consegue tornar-se um bloqueio para a correção postural ou não.

Testes para avaliação das cicatrizes

Os testes abaixo podem ser utilizados para avaliar a toxicidade de suas cicatrizes.

1. Baseado na cinesiologia aplicada

Para realizar esse teste podemos eleger qualquer músculo do corpo. Aqui exemplificarei usando o músculo bíceps braquial. O aluno deve manter o cotovelo em flexão enquanto o avaliador mantém as mãos na face anterior do antebraço avaliado.

Resista ao movimento em direção à função do músculo escolhido para teste e solicite que o avaliado faça uma força em sentido da flexão de cotovelo enquanto resistimos.

Durante a resistência, o avaliador deve tocar suavemente com a outra mão a cicatriz do avaliado. Caso a pessoa perca a força e permita que seu cotovelo seja levado à extensão o teste é considerado positivo. Ou seja, estamos lidando com uma cicatriz tóxica. Se não acontecerem alterações na resistência aplicada ao músculo temos uma cicatriz normotrófica.

2. Baseado no teste de pulsologia de nogier (teste da reação autonômica circulatória)

Esse é o teste de pulso radial. Nele, o avaliador toca o pulso radial do avaliado suavemente com o dedo indicador e médio. Ele percebe por alguns segundos a pulsação e, depois, toca a cicatriz em toda sua extensão com a outra mão.

Quando a cicatriz é tóxica o pulso diminui ou desaparece no momento do toque. Caso isso não aconteça é uma cicatriz normotrófica. A diminuição do pulso acontece por causa de uma desregulação humoral através da secreção do hormônio adrenalina que se liga ao receptor Beta 2 nos vasos das artérias musculoesqueléticas, que provoca vasodilatação e consequente redução da amplitude da onda do pulso.

Conclusão

Todos os aspectos do corpo do avaliado podem indicar motivos de um desequilíbrio postural. Por isso, o avaliador deve ter olhos atentos a qualquer alteração. As cicatrizes são problemas comuns que muitas vezes esquecemos de observar por estarmos muito atentos ao movimento.

Minha dica é aproveitar o momento da avaliação postural estática para realizar uma avaliação das cicatrizes mais detalhadas. Tente identificar se são tóxicas ou não.

Caso o resultado dos testes seja positivo e você esteja diante de uma cicatriz tóxica precisará trabalhar antes para melhorar sua matriz cicatricial. Se não fizer isso, o aluno será incapaz de manter os ganhos posturais que conseguirmos com o tratamento.

 

Bibliografia
  • Cadernos de Saúde Pública
  • On-line version ISSN 1678-4464
  • Cad. Saúde Pública vol.7 no.2 Rio de Janeiro Apr./June 1991
  • http://dx.doi.org/10.1590/S0102-311X1991000200003
  • ANÁLISE/ANALYSIS
  • AbcMed  –  Exames e Procedimentos
  • Atalho: 70NEWKL
  • Raquianestesia: o que é? Quais os preparos necessários? Como é feita? Quais são as vantagens e as desvantagens?
  • Livro Cadeias Musculares do Tronco, Janaina Cintas
  • Nogier, Raphael, Boucinhas, J.C. – Prática Fácil de Auriculoterapia e Auriculomedicina, Editora: Ícone, 3ª edição, 2006
Melhores do Ano 2018 – 5 Matérias Mais Acessadas Sobre Avaliação Postural

Melhores do Ano 2018 – 5 Matérias Mais Acessadas Sobre Avaliação Postural

Quando estava pensando no que eu poderia fazer para comemorar, no final de 2018, o sucesso do meu blog, várias opções especiais passaram pela minha cabeça.

Não posso deixar de comentar que foram 629.450 visualizações durante todo o ano! Mais de meio milhão em 12 meses, dá pra acreditar? É muito acesso em tão pouco tempo!

Isso me deixa extremamente feliz e, por esse motivo, preparei 4 especiais com os Melhores de Ano em 2018!

Cada especial é dedicado à uma categoria diferente do meu blog. São elas:

  • Hipopressiva;
  • Biomecânica;
  • Avaliação Postural;
  • Cadeias Musculares.

Abaixo, você pode encontrar os textos mais acessados e comentados da categoria Avaliação Postural! Espero que você aproveite todo o conhecimento que esse Top 5 pode trazer para a sua vida profissional.

Um feliz ano novo, e até o ano que vem! Aproveitem!

#5 – Avaliação Postural Estática X Avaliação Postural Dinâmica

Já que conhecemos as Cadeias Musculares gostaria de propor para vocês uma abordagem de avaliação diferente. Claro que a avaliação postural estática é importante, mas não vivemos na estática.

Aliás, sabemos que a estática não existe, visto que nosso equilíbrio é baseado em um desequilíbrio anterior. Levando isso em consideração, nada mais lógico que também avaliemos de forma simples e rápida esse corpo através das suas dinâmicas Cadeias Musculares que levam o nosso corpo para o movimento.

Quer ler o texto completo? Basta clicar aqui!

Informações Gerais

  • Data da Publicação: 23 de junho de 2017
  • Visualizações: 3.598

#4 – Tudo que você precisa saber sobre avaliação postural estática

Na avaliação postural estática observamos somente os pontos anatômicos de forma estática. Só depois juntamos todos nossos achados à avaliação dinâmica, entrevista, testes específicos, dentre outros.

Costumo brincar que a avaliação é um divertido jogo de quebra cabeça. Nele as peças vão se juntando uma a uma para que entendamos o corpo que nos pediu ajuda.

Quer ler o texto completo? Basta clicar aqui!

Informações Gerais

  • Data da Publicação: 13 de dezembro de 2017
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#3 – Dor lombar e suas possíveis origens viscerais

Já falamos na nossa série de artigos sobre dor lombar a respeito de cesáreas tratamento da dor lombar. Agora chegou a hora de falar sobre as dores de origens viscerais.

Andrew Taylor Still, criador da osteopatia, acreditava que todos os sistemas do corpo estavam interligados. Portanto, a doença de um sistema afetaria os outros. Usaremos essa visão da osteopatia para discutir a dor lombar visceral.

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  • Data da Publicação:29 de setembro de 2017
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#2 – Avaliação de ombro: testes para os principais músculos

O ombro é uma zona bastante lesionada em todos os tipos de alunos. Por ser muito instável e complexo, esse conjunto articular geralmente acaba com pouca estabilidade ou mobilidade. Além disso, existem diversos tipos de lesões e patologias que podemos encontrar no complexo do ombro.

Por isso é extremamente importante saber realizar uma boa avaliação de ombro e suas musculaturas. É exatamente esse o foco desse artigo. Entenda melhor como realizar alguns testes musculares no ombro e as musculaturas mais importantes na avaliação. Para entender tudo isso é só continuar lendo.

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  • Data da Publicação: 22 de janeiro de 2018
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#1 – 6 dicas para uma avaliação postural eficiente

Assim que o aluno entra em nosso espaço ele está sob avaliação, mesmo que não saiba. O motivo é simples: uma boa avaliação postural consegue garantir o sucesso de um tratamento.

Da mesma maneira, se avaliarmos aquele corpo de maneira incompleta ou errada a reabilitação será pouco eficiente. É durante a avaliação que descobrimos praticamente tudo sobre o aluno que terá importância no nosso trabalho mais tarde.

Portanto, fazer essa etapa de qualquer jeito é pedir para suas aulas fracassarem. Um bom profissional deve conhecer muito bem as técnicas para aplicar uma boa avaliação postura. Se você está em dúvida sobre esse assunto ou só quer melhorar seus conhecimentos continue lendo.

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  • Data da Publicação: 11 de agosto de 2017
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*Dados computados até o dia 11/12

 

Qual é a melhor forma de prevenir a cervicalgia?

Qual é a melhor forma de prevenir a cervicalgia?

A cervicalgia é um problema comum que deve afetar cerca de 48% da população de acordo com o Global Burden of Disease Study. Na maioria dos casos essas alterações acontecem por causa do processo de envelhecimento natural do corpo, mas também pode surgir por causa de alterações posturais, patologias, traumas e lesões.

Após um episódio de cervicalgia, existem grandes chances que nosso paciente volte a sofrer com o problema. Por isso, é essencial desenvolver um programa preventivo eficiente. Quer aprender a melhor forma de prevenir a cervicalgia? Continue a leitura para relembrar um pouco da anatomia e movimentos dessa importante região e entender o que pesquisas dizem sobre a prevenção.

Anatomia da coluna cervical

A coluna cervical tem uma função bastante essencial: sustentar e movimentar a cabeça, além de proteger diversas estruturas neurais e vasculares. Movemos a cervical quase continuamente durante o dia, chegando a realizar cerca de 600 movimentos por hora ou um a cada 6 segundos.

Essa estrutura é feita de 7 vértebras. As duas primeiras vértebras, atlas e axis, possui propriedades bastante distintas das restantes. O atlas tem forma de anel sem possuir corpo vertebral, ela se articula com a base do crânio através da articulação occipito-axial. É ela que é responsável por boa parte dos movimentos sagitais da cervical.

O axis é a segunda vértebra cervical e tem proeminência que emerge de seu corpo vertebral. Ela se chama processo odontóide, estrutura que se projeta para o interior do atlas, onde forma um pivô sobre o qual a articulação atlanto-axial consegue realizar a rotação do crânio.

Essas duas vértebras não possuem disco intervertebral. Elas são separadas e sustentadas por ligamentos internos.

O restante das vértebras cervicais, de C3 até C7, são mais homogêneas. Elas possuem corpo vertebral anterior e arco neural posterior. Elas se diferenciam das vértebras torácicas e lombares por apresentarem o forame transverso, pelo qual passa a artéria vertebral.

Disco intervertebral

Esses corpos vertebrais são separados por discos intervertebrais, formados pelas partes:

  1. Central – chamada de núcleo pulposo, o qual é constituído em 90% água e proteoglicanos, e
  2. Periférica – denominada ânulo fibroso, formada por fibras resistentes dispostas em lamelas concêntricas.

Essas estruturas realizam a absorção de impacto e dispersam a energia mecânica, sofrendo constantemente com processos degenerativos.

Conforme o corpo envelhece a quantidade de água do núcleo pulposo diminui consideravelmente. Assim, a capacidade de embebição do disco diminui, junto a um aumento do número de  fibras colágenas, determinando uma menor elasticidade e compressibilidade.

Por causa dessas alterações o ânulo fibroso torna-se mais suscetível a rupturas. Isso pode produzir herniações discais e outros tipos de processos degenerativos.

Movimentos da Coluna Cervical

A coluna cervical é responsável pelos movimentos de :

  • Flexão e Extensão
  • Inclinação Lateral à Esquerda e à Direita
  • Rotação à Esquerda e à Direita

Flexão ou Flexão Anterior

Acontece no plano sagital quando o mento se aproxima da parede anterior do tórax. Os músculos motores primários são:

  1. Esternocleidomastóideos Direito e Esquerdo

Os motores secundários são:

  1. Escalenos
  2. Pré-Vertebrais (longo da cabeça, longo do pescoço, reto anterior da cabeça e reto lateral da cabeça) de ambos os lados. A amplitude articular normal varia de 60º  a 90º.

Extensão

Movimento, no plano sagital, em que a nuca se aproxima do dorso.

Os músculos motores primários são:

  1. Trapézio (Fibras Superiores)
  2. Esplênio da Cabeça
  3. Esplênio do Pescoço
  4. Semi-Espinhal da Cabeça – de ambos os lados

Os motores secundários são:

  1. Extensões Cervicais e Craniais do Eretor da Espinha (iliocostal cervical, longuíssimo da cabeça, longuíssimo do pescoço, espinhal da cabeça, espinhal do pescoço).
  2. Reto Posterior Maior da Cabeça
  3. Reto Posterior Menor da Cabeça – de ambos os lados. A amplitude de movimento articular normal varia entre 50º a 70º .

Flexão ou Inclinação Lateral

Movimento no plano frontal em que a cabeça e o pescoço se aproximam do ombro direito ou esquerdo. Os músculos motores primários são:

  1. Esternocleidomastóideo do Lado do Movimento.

Os motores secundários são:

  1. Escalenos
  2. Esplênios da Cabeça e do Pescoço
  3. Oblíquos Superior e Inferior da Cabeça – do lado do movimento. A amplitude de movimento articular normal varia entre 20 e 40º.

Rotação

Movimento no qual o pescoço e a cabeça giram para direita ou para esquerda em torno de um eixo vertical (50% do movimento ocorre na articulação atlantoaxial). Os motores primários são:

  1. Esternocleidomastóideo do lado oposto ao movimento;
  2. Escalenos e Esplênios do lado do movimento. A amplitude de movimento articular normal varia entre 60 e 90º.

No eixo sagital:

  • Flexão e a Extensão atingem uma amplitude de aproximadamente 70 graus
  • Rotação compreende 90 graus e a lateralização 45 graus, sendo que estas amplitudes são reduzidas com a idade e na vigência de processos inflamatórios.

Exame e diagnóstico da cervicalgia

Ao recebermos um aluno reclamando de cervicalgia ou outros tipos de desconfortos cervicais precisamos realizar:

  • Inspeção;
  • Palpação;
  • Mobilização ativa e passiva;
  • Manobras especiais.

Durante essa inspeção precisamos observar se existem deformidades na coluna. Isso inclui:

  • Alterações da lordose cervical;
  • Posições antálgicas;
  • Anormalidades posturais;
  • Sinais traumáticos.

Durante esse diagnóstico também precisamos realizar a palpação da tireoide e dos pulsos carotídeos. A mobilização ativa e passiva tem como objetivo fornecer a amplitude de movimento e indicar qual deve ser o segmento cervical acometido.

Quando existir dor irradiada para o ombro, escápula e membro superior também precisamos fazer uma avaliação neurológica cuidadosa. A ênfase é nas alterações de reflexos, presença de parestesias ou paresias e distribuição dermatomérica.

Quais são as possíveis formas de prevenir a cervicalgia?

Precisamos lembrar que dor cervical é um problema bastante comum e grave. Ela causa incapacidades que impedem o indivíduo de trabalhar e realizar suas atividades diárias e merece muita atenção.

É exatamente por isso que devemos trabalhar para prevenir a cervicalgia, evitando tais problemas e ajudando nossos pacientes a não repetirem a experiência da cervicalgia.

Para isso, podemos utilizar exercícios de fortalecimento, alongamento, flexibilidade, entre outros. Outra alternativa é utilizar a instrução do aluno para melhorar as condições ergonômicas do seu espaço de trabalho e a realizar alongamentos e outros exercícios laborais para a prevenção.

Entre as estratégias ergonômicas é possível citar:

  • Ajuste da estação de trabalho;
  • Redesenho ou modificação ergonômica;
  • Avaliação da postura durante tarefas diárias;
  • Ajustes dos instrumentos de trabalho;
  • Mudança de função.

Certamente, ao recomendar exercícios preventivos para nossos alunos, queremos oferecer a eles as opções com melhores resultados. Por isso, selecionei uma revisão sistemática baseada no systematic reviews and meta-analysis of studies that evaluate physical healthcare interventions (PRISMA). O estudo comparou a intervenção com exercícios e ergonômica para prevenir a cervicalgia e pode trazer insights importantes para nossos próprios tratamentos.

Qual forma de tratamento é mais eficiente?

A revisão utilizou 5 estudos com um total de 3852 participantes com média de idade de 40 anos. 42% deles eram mulheres. Esses estudos investigaram duas estratégias para prevenir a cervicalgia: programas de ergonomia e exercícios.

Um dos estudos avaliou exercícios de alongamento e resistência que deveriam ser realizados durante o horário de trabalho duas vezes ao dia. Ele era combinado com exercícios domiciliares que deveriam ser adotados por 12 meses.

Outro sugeriu um programa aeróbio geral que incluía:

  • Exercícios de fortalecimento;
  • Estabilização;
  • Alongamento;
  • Informações sobre saúde;
  • Treinamento do controle do estresse;
  • Atividades práticas no local de trabalho.

Esse programa era realizado por 1 hora, 3 vezes na semana ao longo do período de 9 meses.

Os outros 3 estudos analisados estudaram os efeitos de programas de ergonomia quando comparados a nenhuma intervenção ou intervenção mínima. Infelizmente, os resultados não se mostraram muito satisfatórios. Existem poucos indícios de que somente o programa de ergonomia interfira para prevenir a cervicalgia.

Esses resultados também indicam que talvez existam outros fatores relacionados ao desenvolvimento de dor cervical além de adaptações ergonômicas no trabalho e na vida diária.

Os estudos que analisaram um programa de exercício, no entanto, mostraram evidência moderada do efeito benéfico de exercícios na prevenção. De acordo com eles, esse tipo de programa preventivo para prevenir a cervicalgia reduz o risco de dor cervical em 53%.

Conclusão

Apesar dos resultados apontarem exercícios como a forma mais eficiente de prevenir a cervicalgia, isso não nos deixa um tratamento definido. Os exercícios utilizados podem e devem variar de acordo com o caso, indo de abordagens focadas na cervical até exercícios de fortalecimento, alongamento e flexibilidade global.

Portanto, posso encerrar esse artigo recomendando que sempre avalie seu aluno para compreender melhor o que causou o primeiro episódio de dor. Talvez ele tenha uma combinação de desequilíbrios que um protocolo feito para outro indivíduo não atende.

Quer aprender ainda mais a respeito de avaliação do movimento para proporcionar o melhor tratamento e prevenção para seu aluno? Então confira meu curso de avaliação postural, que te dá informações ainda mais completas sobre o assunto.