Introdução à fáscia para melhorar seus tratamentos

Introdução à fáscia para melhorar seus tratamentos

A fáscia é uma parte do tecido conjuntivo do corpo que influencia, e muito, nos resultados de nossos tratamentos e treinamentos. Apesar de ser tão importante, as pesquisas a seu respeito ainda estão em desenvolvimento e são um pouco obscuras no meio profissional. Porém, é importante acompanhá-las e saber tudo que é possível sobre o tecido fascial.

Para te ajudar a entender o que é a fáscia e sua importância no tratamento. Separei alguns conceitos básicos que devem te ajudar muito na compreensão antes de entrar em estudos mais aprofundados a respeito do tema.

Relação entre fáscia e colágeno

A fáscia é formada por proteínas, em especial o colágeno, e faz parte do tecido conjuntivo do corpo humano. Apesar do termo fáscia ainda ser discutido, como mostrei no meu artigo sobre as novidades científicas relacionadas à fáscia, podemos podemos considerá-la como: “tecidos conectivos fibrosos, moles, colágenos, soltos e densos que permeiam (ou seja, são espalhados por todo o corpo)”.

O colágeno, que forma boa parte dessa estrutura, é uma proteína produzida pelo corpo desde o nosso nascimento. Ele também é uma das proteínas mais importantes na manutenção do sistema conjuntivo, sendo responsável por manter sua estrutura matricial e força. No entanto, essa substância não é produzido pelo corpo até o fim da vida. Sua produção começa a diminuir mais ou menos aos 28 anos de idade, começando a cair cerca de 1% ao ano após os 35 anos.

Quando alguém chega aos 50 anos já deve estar produzindo cerca de 35% do colágeno que seu corpo precisaria para executar suas funções corporais. Nesse momento, o corpo começa a utilizar o estoque de colágeno que foi produzido até os 28 anos de idade, que não é o suficiente. É por isso que o processo de envelhecimento envolve a perda de elasticidade e firmeza do tecido conjuntivo.

Essa proteína é tão importante para o corpo que constitui diversas estruturas corporais que são afetadas conforme envelhecemos. Entre elas temos:

  • Ossos;
  • Unhas;
  • Músculos;
  • Cartilagens;

Cerca de 25% da proteína do corpo é colágeno, então não podemos ignorar seu papel. Sua principal função é sustentar as células, fazendo com que elas fiquem juntas e firmes. Isso também acontece no tecido da fáscia, fazendo com que essa proteína seja essencial para o funcionamento do conjunto fascial.

Funções da Fáscia

Autores relevantes já definiram a fáscia de forma bem ampla, deixando-a mais simples de compreender. O sistema fascial envolve os músculos, ossos e fibras nervosas e realiza diversas funções no corpo. Isso inclui funções:

  • Arquitetônicas/estruturais;
  • Neurológicas;
  • Transmissão de força biomecânica;
  • Morfogênese;
  • Transmissão de sinal celular.

Para conseguirmos utilizar esse artigo na nossa prática clínica, focarei na fáscia sob uma perspectiva funcional. Precisamos compreender o tecido conjuntivo e como ele realiza a ligação entre diversas estruturas do sistema musculoesquelético.

Treinamento da Fáscia

Durante nossos atendimentos precisamos considerar o conceito de treinamento da fáscia. Ele é necessário em qualquer paciente, seja ele um atleta de alto rendimento que deseja melhorar seu desempenho, um indivíduo lesionado ou uma pessoa que só quer praticar atividade física.

Quando um atleta sofre lesões por overtraining, por exemplo, a lesão acontece nos elementos da rede fascial do corpo. Os tecidos que devemos desenvolver no treinamento fascial são:

  • Envelopes musculares;
  • Aponeuroses;
  • Adaptações locais específicas (ligamentos ou tendões).

No corpo, existem estruturas que são responsáveis por adaptar os tecidos conjuntivos dos sistema fascial aos estímulos. Eles são os fibroblastos. Por isso, devemos adotar um treinamento orientado para a fáscia. Em atletas, esse treinamento precisa ser ainda mais específico para evitar sobrecarga, mas já falei a  respeito disso em outro artigo.

Nos treinamentos podemos adotar alguns recursos que ajudam a trabalhar a fáscia, mas nunca em excesso. Recomenda-se que esse tipo de treinamento aconteça entre uma e duas vezes por semana. Conseguimos melhorar o condicionamento fascial em 6 a 24 meses, dependendo do caso específico do aluno.

Muitas das lesões que encontramos na prática clínica envolvem tendões, ligamentos e outras estruturas do tecido conjuntivo. Muitas vezes, somente o tratamento do sistema musculoesquelético pode ser insuficiente. Mesmo que consigamos um resultado, o paciente pode voltar a ter o mesmo tipo de lesão.

Características da Fáscia

A fáscia é um tipo de rede de tensão que recobre todo o corpo. Ela é parte do que conecta diversas estruturas corporais, transmitindo tensões entre todo o sistema. Ela consiste de todos os tecidos conectivos, incluindo os:

  • Moles;
  • Colágenos;

A fáscia não é moldada por compressão, mas sim por tensões. Esse sistema envolve todos os músculos e órgãos. Podemos considerar alguns elementos que fazem parte da rede fascial, incluindo:

  • Envelopes musculares;
  • Cápsulas articulares;
  • Septos;
  • Tecidos conectivos intramusculares;
  • Retináculos;
  • Aponeuroses;
  • Ligamentos;
  • Tendões.

A rede fascial ao longo do corpo é formada por diversos tipos de tecidos conjuntivos, assim como algumas áreas de transição. Essas áreas ficam localizadas principalmente próximo a articulações. A rede recobre todo o corpo e é responsável por transmitir deformações tensionais multi-articulares. Por isso, cada região do corpo possui uma arquitetura local adaptada às demandas de carga de deformação impostas.

As deformações impostas sobre o sistema fascial o moldam e podem influenciar em lesões futuras. Por acaso você já conferiu um pouco do meu conteúdo sobre avaliação postural? Sempre falo a respeito de conhecer o histórico do paciente. Ele pode te dar insights importantes nas deformações que afetam o sistema fascial atualmente, mas que surgiram no passado.

Tipos de Colágeno no Mercado

No início do artigo falei um pouco da relação entre colágeno e fáscia e como nosso corpo deixa de produzir a quantidade necessária da proteína ao longo do tempo. Para suprir essa demanda, existem diversas opções de colágeno no mercado. Porém, ainda não existem estudos comprovando claramente sua eficiência no tratamento de patologias relacionadas ao tecido conjuntivo.

Os colágenos mais comuns no mercado são:

  1. Colágeno Hidrolisado – Passa por um processo de hidrólise, ou seja, é quebrado em partículas menores para ser absorvido mais facilmente e ter melhor aproveitamento pelo organismo.
  2. Colágeno Tipo 2 É o mais abundante nas cartilagens.
  3. Pepto Colágeno – É um colágeno altamente hidrolisado, que chega aos peptídeos de colágeno (conjunto de aminoácidos). Ou seja, moléculas ainda menores e de mais fácil absorção. Diversos estudos apontam que o colágeno na forma de peptídeos possui benefícios potencializados.

Conclusão

A fáscia é parte do tecido conjuntivo que nos ajuda a entender como o corpo sofre com deformações e tensões que levam ao surgimento de patologias. Através do estudo dessa estrutura, podemos desenvolver um treinamento mais completo e eficiente para nossos alunos. Por enquanto, quero dar uma dica: estude mais sobre a fáscia para conseguir utilizá-la nas suas avaliações e tratamentos. No meu blog tenho bastante conteúdo a respeito.

 

 

Bibliografia
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  • Research: Basic Science and Implications for Conventional and Complementary
O que é Princípio da Estabilidade do Núcleo e como usar em Aula

O que é Princípio da Estabilidade do Núcleo e como usar em Aula

O que é princípio da estabilidade do núcleo?

Paul Hodges e Richardson foram os pioneiros no desenvolvimento do princípio da estabilidade do núcleo. Foram suas pesquisas que conseguiram demonstrar uma mudança no tempo inicial de contração de músculos do tronco em pacientes com dor lombar crônica.

A partir desse momento, as pesquisas a respeito do controle do tronco tomaram novo rumo. Pesquisadores queriam entender mais sobre a dor lombar crônica e, aos poucos, surgiu a ideia de que mudanças no controle motor de musculaturas do tronco estariam envolvidas. Em 1965, Freeman et al demonstrou tal fato em seus estudos.

Os achados e crenças gerais apontavam para a necessidade de músculos abdominais fortalecidos para garantir uma coluna saudável. Tais conhecimentos influenciaram muito o Pilates e o Treinamento Funcional. No Pilates, utilizou-se a ideia de treinamento do Power House, no Funcional, o treinamento de músculos do Core.

Como consequência desses estudos, inúmeros estúdios, ginásios, centros de treinamento e clínicas pelo mundo passaram a adotar exercícios para estabilidade de tronco. Eles deveriam ajudar a conseguir atletas prevenidos contra lesões de coluna e tratar dor lombar com maior eficiência.

Transverso abdominal, um dos estabilizadores

Considerando a estrutura da coluna vertebral e sua amplitude de movimentos, é fácil de considerá-la uma estrutura instável. Suas estruturas esqueléticas e estabilizadoras dinâmicas são incapazes de fornecer estabilização adequada, já sabemos disso.

Assim, os músculos tornam-se alguns dos principais mecanismos estabilizadores do tronco. No princípio de estabilidade do núcleo, os músculos geralmente são chamados de “Core”, assim como no funcional.

O transverso do abdômen ganhou destaque entre os músculos do Core. Acredita-se que ele é o principal componente da estabilização do tronco que mencionei acima. Ele possui diversas funções na postura vertical, sendo estabilidade apenas uma delas. Na verdade, sua função estabilizadora está em sinergia com os outros músculos que compõem a parede abdominal.

Essa musculatura também é responsável por controlar a pressão intracavitária para realizar:

  • Vocalização;
  • Respiração;
  • Defecação;
  • Vômito;

Para conseguir exercer todas suas funções, o TRA possui uma posição estratégica. Ele forma a parede posterior do canal inguinal, ali ele tem mais um papel: impedir a herniação das vísceras.

Papel de estabilização do transverso

Como já mencionei, no princípio da estabilidade do núcleo o transverso é essencial para estabilizar a coluna. Para conseguir confirmar se isso é verdadeiro, precisamos avaliar condições nas quais o músculo está danificado ou incapaz de realizar a estabilização.

Se ele realmente for um dos principais estabilizadores de coluna, sua falta de atividade fragilizaria a estrutura e levaria ao desenvolvimento de dor lombar.

A gravidez é um quadro interessante de analisar exatamente por esses motivos. Durante esse importante período, o Tra e outros músculos abdominais sofrem algumas alterações por causa do aumento do útero e outras alterações no corpo feminino.

Pesquisas com mulheres grávidas

O transverso sofre um alongamento que vai muito além de sua curva de comprimento x tensão. Por isso, ele perde força e deixa de estabilizar a pelve contra resistência. Para tentar comprovar a relação do Tra com a dor lombar, um estudo comparou mulheres grávidas.

De todas as 869 pessoas submetidas a estudo, mais da metade foi excluída. Boa parte delas deixou de fazer parte por conseguir recuperação espontânea da dor lombar sem intervenções após o parto.

Parece simples, elas estariam melhorando por recuperarem as funções estabilizadoras do transverso, certo? Na verdade não. Sua recuperação acontece num período no qual os músculos abdominais ainda não voltaram ao normal.

O estudo conclui que as evidências de mecânica musculoesquelética estejam relacionados ao desenvolvimento da dor lombar na gravidez.

Tempo de contração vs. força do núcleo

Se a força do músculo transverso abdominal e de outros músculos estabilizadores parece não ser tão essencial, surgiu outra hipótese: o tempo de contração. Nos estudos, indivíduos com dor lombar apresentaram um tempo de contração do Core cerca de 20ms mais lento. É uma diferença aparentemente pequena, mas que importa para os movimentos da coluna.

Perceba, a diferença em força não foi notada, mas sim no tempo de contração da musculatura. Ao contrário da força, o tempo está fora do controle consciente do paciente. Nós, terapeutas, também temos extrema dificuldade em alterá-lo através de comandos.

Durante as aulas focadas no princípio de estabilidade do núcleo, existe uma forte ênfase no fortalecimento de transverso abdominal. Utiliza-se exercícios em baixa velocidade feitos nas posições deitado, de joelhos ou de quatro apoios. A ideia seria normalizar o controle motor da musculatura, corrigindo, entre outros fatores, o problema de tempo.

Princípios das atividades físicas

Porém, não é provável que esse tipo de treinamento seja o suficiente para corrigir o problema de tempo de contração. Ele perde sua eficiência quando consideramos que esse tipo de treinamento de núcleo contradiz os princípios de aprendizado motor e de treinamento. Ou seja, eles não trabalham com similaridade, transferência ou especificidade.

De acordo com esses princípios utilizados nas atividades físicas, o corpo e seu sistema neuromuscular e esquelético seriam capazes de se adaptar a eventos motores específicos. Portanto, o que aprende-se numa situação específica pode não ser transferido para outro evento.

Com a intenção de melhorar o tempo de ativação, os proponentes do CS apresentaram uma solução: ensinar seus atletas, alunos ou pacientes a contrair continuamente o transverso do abdômen.

Com o músculo contraído a todos os momentos, seria possível deixar de se preocupar com o tempo de início da ativação. A proposta impõe um padrão de controle anormal e não funcional a esses pacientes. Seria possível utilizá-la para superar uma reorganização funcional do sistema muscular, como as lesões que encontramos com frequência.

O que é o controle motor?

O controle motor é o que precisamos desenvolver no aluno para conseguir boa ativação do transverso e outros músculos estabilizadores. Ele é composto de diversos fatores, que incluem:

  • Força;
  • Velocidade;
  • Alcance;
  • Resistência (grupo paramétrico de habilidades);
  • Co-contração;
  • Ativação recíproca.

Esses fatores representam o nível de controle sinérgico e para as habilidades motoras mais complexas, incluem ainda:

  • Coordenação;
  • Equilíbrio;
  • Tempo de transição entre diferentes atividades;
  • Relaxamento motor.

Todos esses fatores estão presentes durante um movimento. Caso um deles esteja alterado, todos os restantes terão alterações. Além disso, nenhum estudo até o momento demonstrou que o exercício de estabilidade de núcleo irá redefinir o tempo de início da contração do núcleo em pacientes com CLBP.

O núcleo precisa ser forte?

Quando falamos no princípio de estabilidade do núcleo, muitos pensam imediatamente em força. Realmente, existe muita confusão a respeito da força do tronco e como ela está relacionada a lesões e dores lombares. O controle muscular do tronco ao todo está prejudicado no caso de lombalgia, incluindo a força.

A co-contração muscular possui diversos papéis nos movimentos do tronco. Ela ajuda sim a estabilidade das articulações e a melhorar o movimento, mas não precisa ser exagerada. Os níveis de co-contração do tronco em pessoas saudáveis são mantidos em níveis baixos. Ou seja, eles precisam ser o suficiente para realizar atividades diárias.

Será que aumentar a força e, portanto a força de compressão no disco, seria ideal para nossas aulas? Não parece uma boa estratégia. Isso levaria o corpo a consumir mais energia e deixaria o tronco mais rígido. É uma maneira incompleta de tratar um corpo que também precisa de melhor amplitude de movimento e flexibilidade.

Isolando o transverso dos outros músculos abdominais

Um dos princípios dos treinamentos de estabilidade do núcleo é pedir para os alunos isolarem o transverso do restante dos músculos abdominais. O transverso seria um músculo central no tronco entre o restante de músculos globais. Isso é possível? Dificilmente, é duvidoso que existe um grupo de músculos capaz de operar de maneira independente do restante do tronco.

Para conseguir essa ativação o indivíduo precisaria substituir seu padrão natural de ativação muscular. Além de ser impraticável, seria perigoso para o paciente. Focar o treinamento em um único músculo é extremamente difícil porque a ativação por músculo simplesmente não existe.

Conclusão

O processo de controle muscular está distante do controle consciente. Ele é realizado na hierarquia dos processos motores dos centros espinhais. Mesmo os neurônios relacionados a músculos particulares estão misturados. Portanto, percebemos que a divisão muscular é puramente anatômica e não pode ser aplicada em pacientes na prática.

Ao contrário do que o princípio da estabilidade de núcleo propõe, não conseguimos contrair um músculo ou grupo específico. Nossos alunos conseguem isso ainda menos. Quando tentamos incentivar essa contração em aula, o paciente provavelmente acaba contraindo grandes grupos de músculos abdominais.

 

 

Bibliografia
Bouche, K., Stevens, V., Cambier, D., et al., 2006. Comparison of postural control in unilateral stance between healthy controls
and lumbar discectomy patients with and without pain. Eur. Spine J. 15 (4), 423e432.
O que é Dor? Guia Definitivo com Conceitos atuais da Neurociência

O que é Dor? Guia Definitivo com Conceitos atuais da Neurociência

A definição mais atual que temos é a de que a dor é uma experiência, que reflete a sensação de ameaça à integridade da pessoa. Como ela é uma experiência, cada pessoa irá vivenciar o que é dor de forma diferente.

Isto quer dizer que cada um irá sentir, lidar e viver com a dor, de acordo com a sua forma de experimentar a vida e os fatos que ocorrem nela.

Se dor é uma experiência e está intimamente ligada à forma que alguém lida com ela. Então, nós já sabemos que não dá para separar dor de emoção.

Algumas pessoas dizem: “A dor vem do cérebro”, mas o processamento da dor é muito mais complexo do que isso. Não é “só coisa da sua cabeça” não! Quer saber o que é dor? Então continue lendo!

Primeiros estudos sobre a Dor

No início, na época de René Descartes, não se sabia o que é dor. Pensavam que ela pudesse surgir do coração, tamanha é a relação entre emoção e dor. E, como todos bem sabem, o coração é um órgão que correlaciona-se muito com emoções, devido seu envolvimento direto com o Sistema Nervoso Autônomo.

Descartes, em 1664, dizia que receptores de dor distribuídos pelas partes do corpo captavam informações, e as levavam a campainha da cabeça (glândula pineal), soando um alarme que gerava a sensação dolorosa. Esta foi a base para a ciência para responder o que é dor até 1970.

Por volta de 1900 foram descritos receptores térmicos, mecânicos e químicos espalhados pelo corpo. Estes receptores seriam os responsáveis por enviar sinais dolorosos ao cérebro.

No entanto, hoje sabemos que os estímulos capazes de acionar estes receptores, nem sempre são dolorosos. E mesmo quando eles são altamente dolorosos, a percepção da dor depende da interação com vários outros fatores.

Um exemplo é uma pessoa com lesão muito extensa e dolorosa, mas que precisa fugir de uma ameaça maior e consegue, relatando posteriormente que na hora que precisava fugir ela não sentiu dor.

Outro exemplo são os atletas, que muitas vezes sofrem lesões sérias durante competições, mas continuam até o final, e depois também relatam que no momento da lesão não estavam sentindo tanta dor porque “o corpo estava quente”.

Em contrapartida, um pequeno corte do dedo numa folha de papel pode ser extremamente doloroso.

Função social da dor

Há uma influência social e de contexto na sensibilidade da dor, pois ela está relacionada diretamente com a percepção de risco ou ameaça que a pessoa tem.

Muitas vezes os receptores de dor, denominados nociceptores, não estão captando sinal doloroso, pois não há lesão ocorrendo nos tecidos. No entanto, o paciente está sentindo muita dor! E isto é verdadeiro!

Existem quatro mecanismos geradores de dor:

  1. A dor nociceptiva: onde há algum dano no tecido estimulando os receptores de dor.
  2. A dor neuropática: onde há algum dano no tecido neural, estimulando a dor.
  3. A dor nociplastica: onde não há dano no tecido, e consequentemente não há ativação dos receptores de dor. O mecanismo envolvido aqui é a sensibilização central, que vou explicar mais adiante.
  4. A dor de origem desconhecida.

Além disso, a dor também pode ser classificada de acordo com o tempo de surgimento:

  • Aguda: quando apareceu há menos de três meses.
  • Crônica: quando apareceu há mais de três meses.
  • Recorrente: quando a dor some por um período e depois volta.

Quais são as causas da dor?

A causa da dor é multifatorial e envolve a qualidade dos tecidos corporais, hábitos de vida, estado emocional, crenças e outros fatores que podem afetar o indivíduo.

Um determinado fator pode estar influenciando fortemente para se descobrir o que é dor naquela pessoa. Em outra pessoa, outros fatores irão impactar mais ou menos.

Por isso, cada caso deve ser avaliado e tratado individualmente, e a resposta irá depender de cada paciente.

Por exemplo: Muitos se deparam com exames de ressonância magnética apresentando hérnia de disco. Isto geralmente é motivo de extrema preocupação.

No entanto, a hérnia representa um grande fator na causa da dor em apenas 2% dos casos. Não é porque apareceu um achado no exame de imagem que ele é a causa da dor. Muitas alterações encontradas em exames de imagem não tem relação com a dor que o paciente está sentindo!

Papel do profissional na avaliação da dor

A dor envolve muitos fatores e é preciso avaliar o quanto cada fator influencia em cada caso. Esta influência é diferente em cada pessoa e difícil de mensurar de forma exata.

Por isso, é muito importante que o profissional de saúde ouça o paciente. Ele precisa entender como este paciente experimenta o que é dor. Assim ele poderá avaliar e tratar o paciente de forma adequada, ou encaminha-lo para o profissional pertinente.

Não é possível avaliar um paciente de acordo com os conceitos o que é dor apenas olhando para o físico! Precisamos, no mínimo, olhar o contexto do momento em que ele vive.

Quando o paciente apresenta dor crônica, podem ocorrer modificações no cérebro, na medula e na transmissão do sinal pelos neurônios.

No cérebro, a dor é interpretada como um sinal saliente. Ou seja, tem a função de chamar a atenção para um determinado estímulo.

Processamento dos Estímulos Nervosos

A forma como o estímulo doloroso é processado é que determina a quantidade de dor que o paciente irá sentir, e não a extensão da lesão (se é que ela existe).

Existem áreas cerebrais específicas, onde o sinal de dor será detectado, interpretado e posteriormente acomodado. Estas áreas também recebem e interpretam emoções e cognição.

Da mesma forma, também existem regiões cerebrais que modulam o que é dor, ou seja, aumentam ou diminuem a intensidade da dor.

As áreas relacionadas à cognição e emoção também podem modular o que é dor:

  • Emoções agradáveis inibem dor.
  • Emoções desagradáveis potencializam dor.

Meditação, hipnose, relaxamento, exercícios respiratórios, exercícios físicos e educação em dor também podem gerar efeito regulatório.

Isto ocorre por estimularem uma região cerebral, denominada córtex pré-frontal, que é capaz de inibir a dor.

Na dor nociplastica o mecanismo gerador envolvido é a sensibilização central, onde ocorre uma hipersensibilidade medular e cerebral que, de forma repetida, será capaz de ativar células da glia pro inflamatórias, resultando em neuroinflamacao.

Ocorre também uma facilitação sináptica, onde há aumento do número de receptores de dor. Vale ressaltar que este é o mesmo mecanismo que ocorre na memória e aprendizagem.

Relações entre a o que é dor crônica e as emoções

Nem todo paciente com dor crônica irá apresentar sensibilização central. Para isso, precisa haver sintomas como:

  • Hiperalgesia;
  • Alodinia;
  • Dor difusa;
  • Experiência desproporcional em relação à dor;
  • Hipersensível a luz, sons, cheiros e até mesmo paladar;
  • Alterações do sono;
  • Fadiga;
  • Dificuldade de concentração.

Na fibromialgia, a sensibilização central, é o mecanismo gerador da doença.

Em um estudo, conduzido por Baliki, et al. e publicado na revista Nature Neuroscience em 2012, pacientes que se curaram e pacientes que permaneceram com dor crônica obtiveram mudanças nas suas ressonâncias magnéticas cerebrais.

Em ambos os grupos as áreas do cérebro responsáveis pela sensação corpórea (relacionada com o homúnculo de Peinfield), não estavam mais ativas. No entanto, no grupo que permaneceu com dor, caracterizando-a como crônica, a atividade cerebral migrou para áreas cognitivo emocionais.

Há vários fatores que correlacionam dor e emoção na prática clínica como:

  • Medo relacionado a dor, geralmente medo que o movimento piore a dor;
  • Catastrofizacao, onde o sofrimento do paciente em relação à sua dor é muito aumentado;
  • Ansiedade;
  • Depressão;
  • Stress crônico;
  • Síndrome de estresse pós traumático;
  • Sensação de injustiça, onde o paciente se sente injustiçado pela dor, como se alguém estivesse produzindo a dor nele.

A dor está relacionada com a necessidade de manutenção da integridade corporal. E a emoção está relacionada com detectar pistas nocivas, agradáveis ou neutras no ambiente para moldar o comportamento.

Geralmente, há três emoções básicas envolvidas na dor: raiva, medo e tristeza.

O medo de executar determinado movimento deve ser extinto, guiando o paciente na execução do mesmo. Para que ele perceba que aquela situação não é mais ameaçadora.

Relações entre a dor e o sentimento de medo

A reatividade emocional envolve o acionamento do Sistema Nervoso Autônomo (SNA), gerando respostas de correr, lutar ou congelar.

Para esta situação é possível utilizar estratégias para a regulação emocional, resinificando as emoções estressoras e que pioram a dor.

Novamente, técnicas como o mindfulness, exercícios respiratórios e de relaxamento são indicados. Não se aprende a ter dor, mas podemos aprender a ter medo. O medo do movimento pode ser aprendido por:

  • Instrução verbal: como nos casos de profissionais da saúde que utilizam estratégias educacionais para com seus pacientes que geram neles medo de executar uma determinada atividade. Atualmente denominamos este efeito de “efeito nocebo”.
  • Observação: muitos já viram parentes ou amigos abaixarem para pegar algo no chão e travarem a coluna durante este movimento. Inconscientemente, o cérebro vai gravando que abaixar pode gerar dor nas costas.
  • Condicionamento: toda vez que o paciente faz determinado movimento sente dor. Com o tempo o cérebro vai condicionando aquele tipo de movimento à dor.

Isto ocorre porque o cérebro funciona por modelos preditores, para poupar energia. Uma estratégia para mudar isso é pedir para o paciente executar o movimento em uma amplitude de movimento menor, antes de começar a sentir a dor e realizar repetições na mesma amplitude.

Assim, estarei alterando o modelo preditor do cérebro, que estará sendo atualizado. Com isso vou ganhando em amplitude, dessensibilizando o cérebro, até que o paciente esteja executando o movimento completo sem dor.

Ensinando o paciente a direcionar sua atenção

O aprendizado do medo é rápido. Basta que o paciente sinta novamente a dor para que o medo volte. Por isso é importante que o profissional tranquilize o paciente, mostrando a ele que não há risco ou possibilidade de lesão com o movimento adequado.

Outra questão importante é que o nosso comportamento é extremamente relacionado ao sistema de recompensas do cérebro, fazendo-se necessário mostrar a ele quais as vantagens de voltar a realizar os movimentos que antes eram dolorosos.

Colocar atenção na melhora e não na dor, pois a atenção pode ser reguladora de emoções e elas pioram ou melhoram os sintomas.

Ensinar o paciente a direcionar a sua atenção para os prazeres que ele pode ter, apesar da dor, já pode afetar a intensidade da dor no sentido de diminuí-la.

Pessoas mais negativas não conseguem se deslocar da imagem emocional. Não conseguem focar em outra coisa e se desprender da dor, aumentando a sua intensidade.

Qualquer coisa que aumente a responsividade do sistema nervoso autônomo simpático, com reações de luta, fuga ou congelamento, poderá aumentar a intensidade da dor.

Como tratar um paciente com dor

Geralmente, pessoas com tendência à simpaticotonia tem dificuldade em lidar com situações adversas e maior chances de desenvolver dores crônicas. Já as pessoas com tendência maior a parassimpaticotonia, possuem mais habilidade para lidar com situações aversivas e menor tendência à cronificação.

Da mesma forma que o efeito nocebo pode ser nocivo ao paciente, o efeito placebo pode ser bastante benéfico e representa uma parte importante do tratamento.

Dizer para o paciente que ele vai melhorar, acalma-lo, fazê-lo sentir que está sendo atendido por um profissional competente e utilizar o maior número de estímulos que mostre ao paciente que ele está melhorando são formas de ampliar o efeito placebo e que beneficiam o paciente.

Explicar ao paciente de forma clara e não técnica o que está acontecendo com ele pode ser uma maneira de se evitar o efeito nocebo e ainda colocar o paciente na posição de protagonista no tratamento da sua dor.

Um estudo, realizado em 2003, mostrou que 40 a 80% de tudo o que o profissional de saúde diz para o paciente é esquecido e 50% do que é lembrado foi mal interpretado.

Por isso, escutar o paciente sem interromper, para:

  • Entender o que ele quer receber com o tratamento;
  • Observar como ele recebe as informações que são fornecidas;
  • Caso necessário esperar para passar novas informações;
  • Perguntar se as informações estão fazendo sentido para ele;
  • Ter empatia;
  • Respeitar as preferências do paciente quanto ao formato de tratamento são atitudes que fortalecem a aliança terapêutica.

Ela por si só não tem efeito de diminuir a dor, mas facilita todo o restante do processo.

Conclusão
fatores psicológicos na dor lombar

Realizar a educação em dor, explicando todo o mecanismo neurofisiológico de maneira simples e  desmistificando as falsas crenças, pode ser muito benéfico para a melhora dos sintomas.

É importante considerar que todo paciente está inserido num contexto biopsicosocial, sendo que alguns tem o fator biológico/físico mais proeminente, em outros é o fator psicológico que exacerba e, algumas vezes, o mesmo paciente irá alternar entre fatores biológicos, psicológicos ou sociais que evidenciam mais em determinado momento.


Esse texto foi co-escrito pela Dra. Thaysa Greve

Thaysa é Fisioterapeuta com Pós Graduação em Fisiologia Humana, assim como cursos nas áreas:

  • Certificação em Osteopatia Estrutural e Funcional- EBOM
  • Formação em Osteopatia Estrutural – EOM
  • Formação em Osteopatia Postural e Visceral- Instituto Docusse de Osteopatia e Terapia Manual (Idot)
  • Formação em Manipulação Visceral – Barral Institute (USA)
  • Formação em Cadeias Musculares -Método Busquet
  • Formação em Manipulação das Fáscias – Método Stecco
  • Formação em Terapia Crânio Sacral-TCSI- Upledger Institute.
  • Certificação em Pilates para Reabilitação
  • Curso de Pilates nas Patologias de Joelho, Tornozelo e Pé – Congresso Brasileiro de Pilates

 

Referência
  • Texto elaborado com base  no curso “Abordagem da dor com base nos conceitos atuais da neurociência “ do Professor Felipe Reis, PhD. 2018.
Histofisiologia da contração do músculo e suas fáscias

Histofisiologia da contração do músculo e suas fáscias

Você sabe o quão importante é, para um profissional do movimento, entender todos os processos que compreendem a histofisiologia da contração do músculo? Mediante novas descobertas científicas sobre a fáscia, faz-se extremamente importante recordarmos alguns conceitos para termos uma completa compreensão do papel da fáscia junto ao sistema musculoesquelético.

O músculo estriado esquelético, é aquele grupamento muscular no qual a contração depende da nossa vontade. Ou seja, são músculos voluntários. Quer saber mais sobre este assunto? Continue lendo para entender!

Como funciona o músculo reto femoral?

Na imagem a cima, podemos fazer uma viagem microscópica e enxergar uma parte do músculo reto femoral. Também podemos visualizar um feixe de fibras musculares. Depois a figura separa uma fibra muscular específica, ou seja, uma célula muscular, que vamos chamar de fibra muscular.

Ao alongar esta fibra muscular, logo podemos conferir vários núcleos periféricos. Percebam que esses núcleos estão na periferia da célula, pois a fibra é multinucleada. No centro temos o citoplasma – que, por se tratar de um músculo estriado esquelético, vamos chama-lo de sarcoplasma.

Bem como, nesse filamento de sarcoplasma, temos estriações que darão aos músculos estriados esqueléticos muitas miofibrilas. Dentro delas, se encontram todas as proteínas da contração.

Assim sendo, o citoplasma trazido para a célula estará cheio de miofibrilas em seu interior, nelas há, também, bandas claras e bandas escuras. Quando olhadas no microscópio eletrônico, as estriações são constantes e cada miofibrila apresenta estrias.

Músculo estriado esquelético e o movimento corporal

O músculo estriado esquelético – aqueles que produzem movimento e promovem a manutenção postural – possui musculaturas mais tônicas que nos sustentam contra a gravidade. Há, portanto, músculos fáscias que fazem explosão e tem, como objetivo, produzir contrações mais rápidas e funcionais.

Os músculos se ligam aos ossos pois, quando eles se contraem, essa ação passa pelos ligamentos, tendões e fáscias chegando ao esqueleto que replica essas contrações e cria movimento.

Conforme essa contração se mantém – como por exemplo no caminhar -, o metabolismo deste músculo aumenta, assim como seu aporte sanguíneo. Isso cria um aumento do metabolismo muscular gerando, assim, calor (durante este processo, a coloração dos nossos tecidos torna-se mais avermelhados).

Os músculos são cercados de fáscia, mais precisamente: duas camadas de fáscia superficiais. Saiba mais sobre estes dois pontos abaixo:

  1. Um dos pontos atua na distribuição de tecido conjuntivo adiposo que, dispostos de forma perpendicular, ajudam a amortecer choques;
  2. O outro ponto, também formado por tecido conjuntivo adiposo só que em paralelo, tem a finalidade de favorecer a distribuição de líquidos pelo músculo – por ali passa o interstício.

Percebeu que o tecido muscular também tem como função ajudar o tecido adiposo a ser um amortecedor de choques? É por isso que os músculos que pertencem a camada da fáscia profunda (também conhecida como as fáscias do movimento) também são protetores.

Como é a histologia dos músculos esqueléticos?

Na figura acima, podemos ver uma parte de um osso qualquer e o tendão que está inserido neste osso – que será contiguo com as capas protetoras dos nossos músculos. O agrupamento do epimísio (que nada mais é que uma capa protetora de tecido conjuntivo que também agrupa as fibras musculares), possui vasos sanguíneos e, internamente entre as fibras musculares, temos tecido conjuntivo chamado endomisio.

Esse tecido conjuntivo está sustentando e propagando a contração entre todas as fibras musculares. Continuando no sentido microscópico, a figura destaca também um feixe  que nada mais é do que um grupo de células musculares chamadas de perimísio.

A capa externa que chamada de epimisio, da continuidade aos tendões fazendo esta ligação com os ossos, já citada anteriormente.

A fáscia e o tecido conjuntivo vinculados a musculatura tem como função o preenchimento, a sustentação, a cicatrização, a circulação, o metabolismo celular, a alimentação e a propagação da contração muscular para os tendões, ligamentos e ossos para que o movimento seja gerado.

Do macro para o micro

Uma fibra muscular foi destacada na figura acima, fibra muscular esta que se encontra no interior do sarcoplasma. Esta fibra muscular possui uma quantidade infinita de miofibrilas, esta miofibrila está tridimensionada na figura para que possamos chegar no sarcômero. Essas miofibrilas cheias de estriações das bandas claras e escuras que formam um sarcômero.

Sarcômero, então, é o local onde acontece o deslizamento das proteínas de actina com a miosina. Logo, podemos dizer, que é o local onde acontece a contração muscular. Neste sarcômero de um músculo estriado sempre haverá uma sequência de uma banda clara com uma banda escura.

Dentre as bandas claras e escuras pode-se conferir a presença de actina e miosina. Essas duas proteínas se entrelaçarão, trabalhando em conjunto para que aconteça a contração muscular.

Olhando com mais afinco para as proteínas desse sarcômero, podemos ver moléculas de miosina com seus filamentos grossos e pesados, além das moléculas de actina, com seus filamentos mais finos, pois são proteínas globulares (cheias de glóbulos enroladas em hélice onde encontraremos o peptídeo).

Atente-se ao fato de que peptídeos são compostos formados pela ligação de um ou mais aminoácidos em uma ligação covalente. São um dos blocos de construção da vida, ou seja, é uma proteína não globular, alongada e inteira, chamada proteína pectidea. No final dela encontraremos uma cabeça ou várias cabeças para interagir com os sítios ativos da actina.

Fibras do músculo e o conceito de bandas

Nestas figuras, podemos ver o sarcolema – que é uma membrana plasmática que contém parte dos núcleos. Portanto, ela é multinucleada com suas estriações, que aparecerão em grande escala no microscópio eletrônico.

Nesta fibra, se dermos um corte longitudinal transversal, podemos observar muito claramente a miofibrila. Nesta miofibrila vemos uma banda A, uma banda escura e uma banda clara, que sempre se alternaram, da seguinte forma:

  • Uma banda escura, uma banda clara, uma banda escura, uma banda clara, uma banda escura, uma banda clara, e assim por conseguinte.

Assim sendo, pela quantidade de proteínas que existe dentro delas. Nas bandas claras vamos ter uma quantidade de actina com as suas proteínas troponina e tropomiosina. Essas proteínas auxiliam a actina na sua ativação. E nas bandas escuras encontraremos a proteína mais pesada que é a miosina.

No sarcômero essa alternância se repete incessantemente. Logo teremos sempre uma banda clara, chamada de banda I e uma banda escura chamada de banda A. Entre as bandas claras encontraremos uma linha Z e, em toda banda escura, teremos uma zona H no meio.

Então, o sarcômero é definido de uma banda clara até outra banda clara: de uma linha Z até a outra linha Z. Assim, formando uma banda I com uma banda Z, uma banda I com uma linha Z, com uma banda A com uma zona H. Dentre elas encontram-se as proteínas de actina e miosina.

O sarcômero encontrar-se-á de uma linha Z até outra linha Z. Atravessando duas bandas claras com uma banda escura no meio.

Toda fibra estriada esquelética a sua miofibrila será composta de proteína. Essas proteínas estarão junto os filamentos mais finos. Na parte proteica vamos ter actina, a troponina e a tropomiosina. Essas proteínas estarão juntas, nesses filamentos finos, na banda clara chamada banda I com uma linha Z no meio.

Componentes do músculo

O músculo normalmente possui dois componentes básicos. Abaixo você pode conferir uma explicação deles.

Componentes elásticos: comportamento em que os músculos retornam a sua forma original após o alongamento, e ele e tempo dependente.

Componentes plásticos: são aqueles que não retornam à forma original cessada a contração, se não houver influência externa:

  • Mitocôndrias (30-35% volume muscular),
  • Retículo Sarcoplasmático
  • Sistema Tubular (5% do volume muscular)

Contudo, isso vai depender dos fatores gerados no treinamento, nos exercícios e na atividade motora. Assim sendo, uma coisa é bem tecidual contraio e relaxo. Conseguindo, assim, que os músculos retornem ao seu tamanho normal, a sua forma original. Já quando eu quero aumentar estruturas eu preciso ter atividades que gerarão estes processos.

Conclusão

Sei que este artigo foi pesado, mas reforço que nós, profissionais do movimento, não podemos desconhecer esta teoria histológica densa, mas fundamental para o entendimento de nossas funções.

Conheça Algumas Compensações nos Pacientes com Escoliose

Conheça Algumas Compensações nos Pacientes com Escoliose

Quando falamos em escoliose estamos falando de um desvio postural cheio de compensações para o corpo.

De acordo com Andrew Taylor Still, os sistemas corporais estão interligados, portanto, a doença não ocorre de maneira isolada. Ela afeta todos os demais sistemas. Ainda de acordo com a concepção de Still, uma estrutura em harmonia não possui doença. Portanto, qualquer problema ou doença tem origem no distúrbio da harmonia da estrutura, no caso, o corpo.

O corpo humano é auto regulável e está sempre em busca do equilíbrio e harmonia das suas estruturas. Still chamava essa habilidade de homeostasia, considerando que é realizada pelo sistema miofascioesquelético.

Esses conceitos se encaixam perfeitamente com as escolioses e suas compensações para o corpo. Existem diversas origens para as escolioses de acordo com a visão osteopática.

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Origens da Escoliose na Osteopatia

As escolioses podem ser de origens:

  1. Viscerais
  2. Neurológicas
  3. Musculares
  4. Cranianas

As de origem visceral podem ser compreendidas ao observar as estruturas dos órgãos. Eles não são simétricos ou medianos e muitas vezes podem acabar comprimidos. Como resposta, o corpo realizaria inclinação e rotação da coluna vertebral para aliviar a compressão.

As de origem musculares têm um nome bastante autoexplicativo. Elas surgiriam na estrutura esquelética, geralmente em resposta a um distúrbio externo. Elas podem ser as mais fáceis de tratar, especialmente no início.

Escolioses de origem craniana se referem às deformações cranianas. Muitas vezes elas são geradas durante o parto, através de algum trauma craniano. Outra opção é a correção dentária, que impõem forças diferentes a esse crânio e pode gerar alterações posturais.

Como são as Escolioses de Origem Visceral?

Ao estudar cadeias musculares encontramos a ideia de que os músculos têm memória. Madama Godelieve Denys Struyf, que criou o método das cadeias musculares descreveu essa capacidade do corpo. De acordo com ela, a postura e forma do corpo vem de diversos fatores.

Eles incluem genética, psiquismo e comportamento.

O corpo utiliza suas famílias musculares para se expressar, porém em algumas situações os músculos aprisionam o corpo em uma determinada tipologia. Isso deixa sua adaptabilidade biomecânica e comportamental comprometida e se torna fonte de sofrimento.

É assim que surgem as cadeias de tensão musculares.

Através dessa ideia de memória muscular conseguimos compreender melhor as escolioses de origem visceral. Como o corpo tem memória, qualquer patologia visceral gera um esquema de adaptação. Lembremos que a víscera sempre tem prioridade de conforto.

Portanto, o corpo gera adaptações escolióticas em resposta a problemas viscerais que podem ser:

  • Renais
  • Cardíacos
  • Hepáticos
  • Muitos Outros

Compensações Musculares em Pacientes com Escoliose

Os pacientes com escoliose têm uma série de camadas de compensações que precisamos desvendar aos poucos. Aqui falarei sobre duas musculaturas em especial que estão envolvidas com a atitude escoliótica do corpo.

Psoas e Iliopsoas

Precisamos prestar muita atenção no Psoas nesse tipo de paciente. Ele é uma musculatura profunda que realiza a estabilização do corpo humano. Suas alterações afetam:

Seu papel inclui gerar força para movimentos posturais e esportivos.

Considerando o iliopsoas, precisamos lembrar que ele é formado a partir de três músculos. Eles são:

  1. Psoas Maior
  2. Psoas Menor
  3. Ilíaco

O psoas maior e menor têm como origem as vértebras torácicas e lombares. Já o ilíaco tem origem na fossa ilíaca da pelve. Os três músculos têm inserção no trocanter menor do fêmur.

O iliopsoas é um flexor de quadril que move a coxa para a cima. Quando a coxa está fixa, ele realiza a tração do tronco em direção à coxa. Um exemplo de sua ação é num movimento de flexão abdominal completo.

Por causa da sua origem e trajeto ele também estabiliza a coluna e a pelve.

Tensões no músculo iliopsoas tracionam o quadril para a frente de maneira anormal. Como resultado, a lordose lombar aumenta gerando um quadro de hiperlordose. Quando a tensão do Psoas é unilateral a tração também acontece de forma unilateral e torce os ilíacos. Assim surgem escolioses musculares.

Para o tratamento deveremos trabalhar esse músculo e suas tensões.

Diafragma

A função respiratória também fica afetada em casos de escoliose, mostrando uma conexão direta com o diafragma. Boa parte dos pacientes com escoliose possuem a região torácica afetada, piorando o posicionamento dos pulmões.

O diafragma tem inserção nas costelas, no esterno e vértebras lombares. Se existir alguma alteração nessas regiões de inserção seu funcionamento fica alterado. Para o tratamento, devemos realizar liberação do diafragma.

Tratamento de Pacientes com Escoliose

Percebemos que a escoliose gera uma série de compensações complexas em todo o corpo. Então, como é possível desvendá-las e realizar um tratamento desse desvio na coluna? Minha solução vai parecer simplista, mas é eficiente.

Realizo uma avaliação inicial para encontrar desequilíbrios e tensões e começo a corrigi-las uma por uma. Relaxo as musculaturas tensionadas e, ao terminar, realizo uma nova avaliação.

Dessa vez encontro novas compensações, tensões e conflitos musculares e os resolvo. Realizo mais uma avaliação e libero as musculaturas tensionadas. O processo continue nesse ciclo até conseguir liberar o corpo do seu esquema adaptativo e compensatório.

Podemos realizar a liberação das tensões de diversas maneiras, como:

  • Relaxamentos Musculares Simples
  • Pompagens de Marcel Bienfait
  • Liberação Miofascial

Conforme soltamos, liberamos e relaxamos as tensões o corpo volta à homeostasia. O próprio corpo percebe que a patologia foi solucionada e que pode se libertar do esquema compensatório adotado anteriormente.

É claro que em escolioses de origens neuromusculares ou viscerais a causa principal também deve ser tratada.

De nada adianta adotar protocolos de tratamento mirabolantes ou milagrosos. A maioria deles só complica a disfunção musculoesquelética e dá pouca atenção à sua origem biomecânica, que é a parte que deveria nos interessar mais.

Conclusão

Tratar um corpo com escoliose talvez pareça um desafio quase impossível. São tantas compensações musculares que ficamos em dúvida.

Na verdade, o tratamento pode ser bem mais simples do que você imaginava. Precisamos avaliar nosso aluno constantemente e liberar seu corpo aos poucos da tensão exercida pelo desequilíbrio muscular.

Dessa maneira o corpo consegue retornar ao equilíbrio que havia sido perdido por algum motivo. Nunca deixe de avaliar seus pacientes com escoliose e corrigir todas as compensações que surgirem.


5 Cadeístas que você precisa conhecer!

5 Cadeístas que você precisa conhecer!

O conhecimento das cadeias musculares e da globalidade do corpo é essencial para conseguirmos melhorar nosso atendimento. Ele só foi atingido graças ao trabalho incansável de diversos cadeístas que trouxeram os conceitos que usamos até hoje nos mais variados tipos de tratamentos.

Conheça 5 cadeístas que moldaram a visão atual de cadeias musculares e entenda um pouco mais do seu trabalho!

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1) Tom Myers

Ao estudar as cadeias musculares encontramos os trabalhos de Tom Myers sobre as linhas do braço. O autor expôs seu conceito na obra Trilhos Anatômicos. É nele que Myers descreve as linhas, que ele denomina de trilhos anatômicos.

Apesar de existirem diversos conceitos mostrados na obra, aqui só vamos discutir as linhas do braço. Elas possuem diversas funções no corpo, incluindo postural e de movimento.

Sua principal função é postural por causa do seu peso e diversas ligações com atividades diárias.

A tensão que existe na parte do cotovelo afeta o meio das costas. Já um ombro mal posicionado pode levar a uma resistência significativa sobre:

  • Costelas
  • Pescoço
  • Função Respiratória
  • Outros

Conseguimos compreender melhor as linhas do braço quando entendemos as funções dos membros superiores. Eles estão envolvidos em diversas atividades diárias. Isso inclui movimentos bem simples como puxar uma cadeira para sentar, até levar o alimento à boca e pentear os cabelos, o que envolve muito os membros superiores.

Existem linhas que exercem a função de estabilizar e permitir mobilidade durante esses movimentos. Existem diversas compensações posturais que estão relacionadas às linhas do braço. Elas provocam várias disfunções do ombro e também acontecem no braço e mãos.

Os ombros com compensações costumam estar:

  • Protraídos
  • Retraídos
  • Levantados ou “Curvados”
  • Rotação Medial
  • Inclinação Anterior da Escápula (MYERS, 2016, PAG 175)

Outras falhas posturais e de sustentação na cadeia levam a:

  • Lesões na Região do Túnel do Carpo
  • Lesões no Cotovelo e Ombro
  • Dor Muscular
  • Pontos-Gatilho

2) Madame Mezieres

A segunda dos cadeístas que vou apresentar é Madame Mézières. Sua proposta surgiu em 1947 na França, esse era o nascimento do método das Cadeias Musculares.

O método surgiu de suas observações clínicas e de um insight que ocorreu enquanto atendia uma paciente. O caso era de uma cifose dorsal com uso de colete estabilizador.

Ao tentar mobilizar a região dorsal, os ombros realizaram uma compensação, apesar de não estarem sendo manipulados. Posteriormente, a terapeuta solicitou uma retroversão ativa para diminuir a lordose lombar da paciente. Novamente, aconteceu uma compensação. Dessa vez houve um aumento da lordose cervical.

Para corrigir a posição cervical, solicitou um auto crescimento ativo. Após essa última manobra ocorreu um bloqueio inspiratório na paciente.

Ao observar o caso, Mezières concluiu que sua paciente possuía rigidez muscular com perda de autonomia individual dos segmentos. A correção local de cada parte compensada era impossível comprometer todas as lordoses e gerar encurtamento.

Assim surgiram suas leis.

Primeira Lei de Mézières

Madame Mézières só admitia a existência de lordoses. Para ela, o crédito de comprimento ganhado nessa cadeia era enganoso e podia ser recuperado em alguma das extremidades.

Segunda Lei de Mézières

Existe a cadeia posterior que se comporta como um único músculo. Todos os demais músculos seguem suas ações. Atualmente existem outros cadeístas que discordam dessa visão de uma única cadeia posterior.

Terceira Lei de Mézières

A musculatura da cadeia muscular posterior seria sempre forte demais, curta demais e potente demais. Isso aconteceria por causa de algumas características da cadeia, como:

  • Dominante
  • Estruturalmente Profunda e Multiarticular
  • Funcionalmente Estática (Tônica)
  • De Controle Neurológico Central Inconsciente
  • Estruturada para um Trabalho de Sustentação Antigravitacional

Quarta Lei de Mézières

Para conseguir realizar um tratamento global da cadeia, é necessário conter todas as suas compensações.

Quinta Lei de Mézières

As cadeias devem aceitar a postura excêntrica. Madame Mezières também acreditava na existência de um conjunto de cadeias que eram sinérgicas a cadeia posterior. Ela também acreditava que a cadeia posterior não se cruzava no corpo.

Sexta Lei Mézières

Esforços musculares são capazes de bloquear a respiração.

3) Marcel Bienfait

Madame Françoise Mezières formou diversos seguidores, entre eles estava Marcel Bienfait.

Esse aluno acabou tornando-se um importante estudioso da postura estática e um dos grandes cadeístas. Além de seguir das cadeias propostas por Mezières, ele também defendia que existia necessidade de realizar a reeducação estática local.

Para ele, o uso indiscriminado do conceito de globalidade estava levando a uma negligência da postura estática. Em 1975 ele começou a estudar em Osteopatia Iniziagli, mais tarde juntando seus conceitos a terapia manual. Essa técnica já era ensinada no Brasil, na França e na Itália desde 1980.

Marcel Bienfait não desenvolveu seu próprio método pessoal, mas sim adaptações dos tratamentos de fisioterapia. Elas foram feitas para incorporar avanços da fisiologia moderna e alcançar melhores resultados.

Considerando seus conceitos de fisiologia moderna, Marcel Bienfait escreveu diversas publicações a respeito de terapia manual.

Seu trabalho teve sucesso e foi traduzido para vários idiomas. Desde 1998 suas obras já fazem parte da literatura mais consultada por estudantes universitários de fisioterapia no Brasil.

Apesar de considerar o conceito de globalidade proposto por Madame Mezières brilhante, Marcel Bienfait percebeu que ele vinha sendo usando indiscriminadamente. Seu uso acabava escondendo deficiências anatômicas e fisiológicas dos terapeutas ao invés de revelá-las e tratá-las.

Diferença entre Marcel Bienfait e Mezières

Marcel Bienfait não discordava das posturas de Mezières, porém discordava da origem das deformações. De acordo com seus estudos, elas surgiriam a partir de:

  • Músculos
  • Aponeuroses (foi o primeiro a descrever manobras fasciais)
  • Disfunção Articular

Com o tempo, esses problemas levam a uma cadeia muscular deficitária. Alguns dos problemas gerados só poderiam ser corrigidos através de tratamentos localizados.

Portanto, Marcel Bienfait propôs em usar retrações músculo aponeuróticas. Isso só poderia ser feito quando as retrações ainda estivessem em estágio de não fixação.

Depois que as fixações se transformassem realmente em fixações seria impossível revertê-las. Ele admitia que a terapia manual tem limites.

4) Philippe Souchard

Phillipe Souchard fez uma divisão entre os músculos fásicos em dois tipos de cadeias. Essas são as cadeias musculares dinâmicas e os músculos tônicos, como cadeias musculares estáticas.

Aqui encontramos uma diferença em relação ao trabalho de Madame Mézières, que não valorizava dessa maneira a questão do fortalecimento dos músculos fásicos. Philippe Souchard usou seu conhecimento para desenvolver a Reeducação Postural Global (RPG).

A RPG tem como objetivos:

  • Devolver aos músculos hipertônicos, rígidos e dolorosos a força, comprimento e flexibilidade através de posturas de alongamento ativo;
  • Alongar músculos da estática e músculos suspensores, além de encurtar músculos da dinâmica;
  • Alongar os músculos rígidos e encontrar a retração de origem através de estiramento progressivo.

Para Souchard, não existem alongamentos para grupos musculares isolados. Os músculos estão dispostos em cadeias musculares que são ligadas pelas fáscias. Portanto, não faria sentido tentar alongar músculos de maneira isolada.

Alongar isoladamente tiraria o comprimento de outra musculatura da cadeia. Ou seja, geraria compensações.

5) Madame Godelieve Denys Struyf

A última dos cadeístas que vou apresentar é Madame Godelieve Denys Struyf. Ela foi uma fisioterapeuta e osteopata importante ao estudarmos os cadeístas. Ela nasceu no antigo Congo e viveu em uma fazenda de cacau até os 16 anos. Por ser de uma família belga ela retornou à Bélgica e tornou-se estudante da escola de belas artes de Bruxelas.

Como desenhista, Madame Godelieve tentava mostrar que era necessário aprender a ver. Posteriormente, ela usou essa habilidade em sua carreira como terapeuta para mostrar informações importantes.

As cadeias musculares criadas por ela são musculares e articulares. Denys-Struyf concebeu diversas posturas que mostram estados:

  • Psicofísicos
  • Personalísticos Específicos
  • Idiossincráticos

Para seu desenvolvimento, ela usou pressupostos teóricos de outros métodos, como:

  • Facilitação Neuro Muscular Proprioceptiva
  • Linha Mézièrista
  • Percepção da Coordenação Motora

Todos possuem como ponto em comum acreditar que o tecido muscular é um conjunto indissociável: o tecido fibroso.

Conclusão

Se quisermos continuar a nos aperfeiçoar como profissionais, nunca devemos deixar de estudar conceitos e teorias que podem complementar nossa atividade, através dos estudos desenvolvidos por esses cadeístas.

Esse é o caso das cadeias musculares, que tanto nos auxiliam no planejamento e execução das aulas.