Como encontrar a zona primária da lesão?

Como encontrar a zona primária da lesão?

Um problema de joelho ou quadril pode surgir por causa de falta de mobilidade de tornozelo. Da mesma forma, lesões que identificamos em membros superiores podem estar relacionadas a uma tensão em outra região da cadeia muscular. É isso que chamamos de zona primária da lesão.

O corpo humano possui um interessante esquema de compensações. Ele possui dois objetivos: garantir o movimento necessário para a vida e o conforto visceral, assim como economizar energia preciosa. Por isso, quando algo atrapalha um desses objetivos, o organismo realizará alterações para continuar se movendo e com as vísceras acomodadas.

Inicialmente essas alterações não costumam causar dor. Mas conforme elas acumulam encontraremos os problemas de movimento tão comuns em nossos espaços de trabalho. Para conseguir desvendá-los de forma a tratar o problema sem chances de retorno, precisamos encontrar a zona primária da lesão.

Conseguimos encontrá-la ainda durante a avaliação estática do paciente na maioria dos casos. Quer entender uma receita excelente para isso? Continue a leitura desse artigo e te darei todas as orientações necessárias.

O que é a zona primária da lesão?

Toda compensação começa a ser gerada num ponto que não é necessariamente o lugar onde ela se manifesta. Isso é o que chamamos de zona primária da lesão. Elas surgem como resultado das três leis que regem o corpo e sempre são obedecidas, não importa o problema:

  • Lei do conforto;
  • Lei do equilíbrio;
  • Lei da economia.

Em um corpo que mantém seu funcionamento fisiológico toda a estrutura consegue obedecer essas leis sem problemas. Ou seja, para isso a musculatura estabilizadora ou produtora de movimento deve funcionar de forma coesa, funcional e estruturada.

Sem esse funcionamento adequado, o organismo cria formas inteligentes para continuar movimentando-se. É o suficiente para gerar mecanismos compensatórios importantes, mas que a princípio são quase imperceptíveis.

No início, elas só servem para que o movimento continue, mas aos poucos exerce carga demais em certas estruturas corporais. Assim, surgem enfraquecimentos ou encurtamentos nos músculos.

Esse mecanismo é prejudicial para o corpo a longo prazo, mesmo que consiga suprir suas necessidades inicialmente. Com o tempo esse corpo desenvolverá diversificadas lesões.

Algumas estruturas começam a apresentar os primeiros sinais de desgaste mecânico. Caso o ajuste mecânico não seja realizado em tempo, essas serão estruturas que a médio prazo apresentarão algum tipo de desgaste articular.

O desgaste articular é inevitável?

Algumas doenças caracterizadas pelo desgaste articular são consideradas como fruto do envelhecimento. Realmente, o processo de envelhecer pelo qual o corpo humano passa causa problemas para o organismo e perda de habilidades, no entanto o desgaste doloroso das patologias e lesões articulares não precisa ser obrigatório.

Conseguimos evitar o desgaste mecânico excessivo e imagino que você já começou a imaginar a resposta: movimento. No entanto, para conseguir resultados, precisamos começar com uma investigação profunda da lesão. Precisamos descobrir onde está localizada a zona primária da lesão.

Como esse é o primeiro ponto de nossa estrutura corporal que desobedeceu algumas das três leites que citei acima. O motivo varia, podendo ser muscular, visceral ou articular. Trabalhando nos princípios da Osteopatia, daremos às alterações o nome de microlesões.

Como identificar a zona primária da lesão?

Encontrar a zona primária da lesão não é um processo tão complexo, especialmente para quem já aprendeu a identificar qual cadeia muscular está tensionada. Para saber mais sobre isso, recomendo consultar outros artigos aqui no blog a respeito de avaliação postural, onde falo mais a respeito.

Para começar a avaliação da zona primária da lesão, o indivíduo deve realizar o teste de flexão lateral (TFL). O lado que encontrar-se mais facilitado nos indica que as cadeias musculares de flexão e extensão do mesmo lado estão mais tensionadas.

A partir desse conhecimento, duas linhas imaginárias corporais: uma no trajeto das cadeias musculares de extensão e flexão do lado tenso e outra na cadeia muscular cruzada anterior que se encontra tensa. É usando essas linhas imaginárias que conseguimos encontrar o local onde iniciou-se o problema.

Avalie o lugar onde as linhas imaginárias se encontram. Se for no tronco superior, ou seja, caixa torácica, na unidade tronco inferior ou lombar, é aí que está localizada a zona primária da lesão.

A zona primária de lesão indica para o profissional onde a lesão teve início. Ela também indica os músculos que começaram a desorganização postural que, mais tarde, evoluiu para dor.

Caso a zona primária da lesão encontra-se no tórax, fazendo exames específicos para identificar quais os músculos que estão encurtados ou fracos. Para conseguir isso, precisamos compreender primeiro o funcionamento dos complexos articulares envolvidos na lesão. Ou seja, mais estudo para conseguir fornecer o melhor tratamento para seu aluno.

Conclusão

Através da avaliação postural conseguimos determinar os primeiros passos para o tratamento. Para isso, precisamos também encontrar a zona primária da lesão, que ajuda a determinar os músculos tensionados e tipos de compensação adotada por esse corpo.

Vale a pena lembrar que, apesar dessa investigação trazer insights importantes sobre o quadro do paciente, ela não é o suficiente sozinha. Invista numa avaliação completa para conseguir os melhores resultados possíveis. Quer saber mais sobre avaliação postural? Recomendo meu curso completo de avaliação postural.

Como Avaliar os Pontos do Quadril e o Assoalho Pélvico

Como Avaliar os Pontos do Quadril e o Assoalho Pélvico

O quadril é essencial para identificar as causas de uma patologia já que é nele que se anulam forças durante o movimento. Essa articulação é composta pelos dois ilíacos e o sacro, que forma  a articulação sacroilíaca. Vamos aprender a como avaliar pontos do quadril de seu paciente?

É essa articulação que realiza a transferência de carga e forças entre os membros inferiores e a parte superior do corpo, além de transferir forças para a sínfise púbica.

Pequenos desequilíbrios são o suficiente para influenciar a região e levar ao surgimento de patologias ou dores. Por isso, devemos prestar tanta atenção ao avaliar pontos do quadril.

No quadril existe uma estrutura chamada de acetábulo. Ela é uma parte óssea côncava formada pela fusão dos seguintes ossos:

  • Ilíaco;
  • Ísquio;
  • Púbis.

O acetábulo é aprofundado por um anel de fibrocartilagem que garante mais estabilidade, o lábio do acetábulo. Mesmo assim, existe uma ligeira mobilidade nos ossos que o formam. Apesar de ser pequena, a mobilidade na região pode levar a desequilíbrios, desarranjos musculares, desvios posturais e patologias.

A mobilidade ilíaca é especialmente importante em condicionar a estática e dinâmica dos membros inferiores. Que tal aprender a como avaliar pontos do quadril corretamente? Leia este texto!

Como avaliar os Pontos do Quadril

Como mencionei anteriormente, os ilíacos são alguns dos principais pontos do quadril no nossos diagnóstico. Devemos observar o posicionamento dos pontos abaixo para entender melhor os ilíacos e o próprio quadril num contexto geral:

  • Espinha ilíaca antero-superior (EIAS): devemos observar na análise postural estática qual está mais alta ou mais baixa, à direita ou à esquerda;
  • Crista ilíaca: também precisamos identificar qual das cristas ilíacas está mais alta ou mais baixa, á direita ou esquerda;
  • Espinha ilíaca postero-superior (EIPS): anotamos qual delas está mais alta ou baixa comparativamente ao lado esquerdo ou direito.

É através desses pontos que compreendemos o posicionamento da pelve e dos ilíacos.

Alteração postural dos ilíacos

Existem quatro esquemas de alteração postural possíveis para os ilíacos. Comecemos falando da anterioridade, que surge com a tensão do reto femoral. O músculo traciona o ilíaco anteriormente e para baixo. O quadro lombar também gera tração posterior e para cima.

ilíaco em anterioridade

O próximo esquema compensatório é a posterioridade. Ela é gerada pela tensão do isquiotibial que traciona o ilíaco posteriormente e para baixo. O reto abdominal tenciona esse ilíaco de maneira anterior e para cima, fazendo-o girar.

ilíaco em posterioridade

Também existe o fechamento ilíaco, que ocorre com a tensão do oblíquo abdominal e adutores que trazem a asa ilíaca para dentro em sua parte superior.

ilíaco em fechamento

Quando temos ilíacos em abertura a compensação é gerada pela tensão do glúteo médio e assoalho pélvico tracionando o ilíaco em sua asa superior para fora.

ilíaco em abertura

Percebeu que quase todos os músculos citados acima correspondem aos músculos do Power House? Portanto, isso é essencial para observar desequilíbrios tratados no atendimento, seja de Pilates ou Treinamento Funcional.

Quando temos dois ilíacos em anterioridade encontramos um caso de hiperlordose, lembrando que o sacro sempre acompanha o movimento do ilíaco, nesse caso fica horizontalizado.

Se tivermos dois ilíacos em posterioridade estamos diante de uma retificação ou apagamento da curvatura lombar. Nesse caso o sacro está em verticalização excessiva.

Avaliação do Assoalho Pélvico

Como vimos, a abertura dos ilíacos pode ser causada pela tensão excessiva do assoalho pélvico. Desde que assumimos a bipedestação há cerca de 120 mil anos, todo o peso do nosso saco visceral passou a repousar sobre o fraco assoalho pélvico. É assustador perceber o aumento no número de mulheres jovens incontinentes, especialmente entre as que praticam esportes de alto impacto.

Como o assoalho pélvico é composto de fibras do tipo II, fásicas, precisamos realizar o seguinte questionamento na avaliação: ele está tenso ou fraco?

Existe uma forma rápida e simples de identificar o tipo de alteração à qual o assoalho pélvico está submetido.

Avaliação da Tensão do Assoalho Pélvico

O avaliado deve estar deitado em decúbito ventral sobre uma maca. Começamos solicitando uma leve abdução dos seus membros inferiores. A partir de então posicionamos nossa mão sobre a prega glútea seguindo seu contorno anatômico. Seguimos com nosso polegar deslizando sobre o contorno de sua prega glútea a fim de posicioná-lo um pouco acima da origem dos adutores.

Nesse momento encontraremos os músculos do assoalho pélvico. Faremos então uma digito pressão nessa região. No entanto, peço que você explique antes a necessidade da avaliação que pode ser muito desagradável para o avaliado. Peça sua permissão para tal procedimento.

Quando o polegar estiver nos músculos do assoalho pélvico mantenha a digito pressão e avalie a tonicidade dos músculos do compartimento pélvico.

Quero lembrar aqui que temos três diafragmas: o craniano, o torácico e o pélvico. Logo, o ato da respiração deve percorrer esses 3 diafragmas. Com a percepção do nosso polegar conseguimos observar se a inspiração expande também o último diafragma, o pélvico.

Se isso não acontecer estamos diantes de músculos tensos. No entanto, vale a pena deixa claro que essa avaliação é subjetiva e superficial. Se permanecer com dúvida é preciso recomendar ao nosso avaliado procedimentos mais fidedignos que podem ser realizados por profissionais de uroginecologia.

Por que os ilíacos podem mexer-se separadamente?

Os ilíacos têm capacidade de mover-se separadamente para que o cíngulo pélvico não perca sua continuidade. Caso contrário, todas as forças atuantes na pelve paralisariam o corpo e fariam com que perdêssemos nossa autonomia.

Por isso, nosso corpo é separado por unidades funcionais que conseguem realizar as mais variadas compensações. Assim, o movimento permanece existindo, mesmo que alterado. Os ilíacos podem mexer-se separadamente por causa de uma tensão de um hemicorpo.

Diagnóstico diferencial para o quadril

Para realizar o diagnóstico diferencial ao avaliar os pontos do quadril utilizaremos o teste de flexão em pé (TFP).

Para realizá-lo, o indivíduo deve iniciar em pé e com os pés paralelos e com o segundo dedo do pé alinhado na linha média do joelho e EIAS. Estaremos posicionados através do avaliado com os polegares apoiados nas articulações EIPS, nosso polegar direito (D) sobre a EIPS direita (D), e o polegar esquerdo (E) sobre a EIPS esquerda (E).

Solicitamos que o aluno ou paciente realize uma flexão de tronco e acompanhamos as espinhas com nossos polegares. O polegar que subir indica o ilíaco que se movimentou, porque o sacro sempre acompanha o ilíaco que se move para manter a continuidade pélvica.

Considerando o esquema acima, se o polegar que se mover para cima for o direito, supomos que temos três pontos baixos. Ou seja, EIAS D mais baixa, crista ilíaca D mais baixa e EIPS D mais baixa, ou seja, um fechamento ilíaco à direita.

Se o polegar que subir for o esquerdo, teremos uma poterioridade à esquerda. Encontraremos EIAS E mais alta, crista ilíaca E mais alta e EIPS E mais baixa.

Se encontrarmos três pontos altos estaremos diante de uma abertura. Assim, o paciente também apresentará um varo no membro inferior que pode nos induzir ao diagnóstico de uma falsa perna longa.

Ao encontrarmos três pontos baixos estamos diante de um esquema de fechamento que gera um valgo, com possível falsa perna curta.

Conclusão

Certamente a avaliação não termina quando conseguimos avaliar os pontos do quadril e o assoalho pélvico. Essa é somente uma parte de uma avaliação realmente completa que consegue diagnosticar os desequilíbrios do seu aluno.

Ao prestar atenção nos pontos mencionados nesse artigo você consegue identificar não somente desequilíbrios do quadril, mas também de todo o esquema corporal. Portanto, estude com cuidado os ilíacos, mesmo que exija alguns testes a mais para seu paciente. Espero que tenha aprendido a avaliar pontos do quadril de um paciente!

Melhores do Ano 2018 – 5 Matérias Mais Acessadas Sobre Cadeias Musculares

Melhores do Ano 2018 – 5 Matérias Mais Acessadas Sobre Cadeias Musculares

Quando estava pensando no que eu poderia fazer para comemorar, no final de 2018, o sucesso do meu blog, várias opções especiais passaram pela minha cabeça.

Não posso deixar de comentar que foram 629.450 visualizações durante todo o ano! Mais de meio milhão em 12 meses, dá pra acreditar? É muito acesso em tão pouco tempo!

Isso me deixa extremamente feliz e, por esse motivo, preparei 4 especiais com os Melhores de Ano em 2018!

Cada especial é dedicado à uma categoria diferente do meu blog. São elas:

  • Hipopressiva;
  • Biomecânica;
  • Avaliação Postural;
  • Cadeias Musculares.

Abaixo, você pode encontrar os textos mais acessados e comentados da categoria Cadeias Musculares! Espero que você aproveite todo o conhecimento que esse Top 5 pode trazer para a sua vida profissional.

Um feliz ano novo, e até o ano que vem! Aproveitem!

#5 – Patologias do joelho: como realizar o tratamento usando cadeias musculares

Você, que trabalha com reabilitação, sente dificuldade em trabalhar com patologias do joelho?

Os membros inferiores sofrem com diversas patologias, muitas delas comuns nos nossos Studios de Pilates e outros centros de reabilitação. Sei que muitos também sentem alguma dificuldade em prescrever exercícios adequados para essas patologias, mas não é esse meu propósito aqui.

Ao invés de passar diversos exercícios para patologias do joelho, quero desenvolver raciocínio crítico. Isso quer dizer saber realizar uma boa avaliação do aluno e compreender seu problema. Assim conseguimos nos livrar daquela péssima mania de depender de protocolos de aula prontos que raramente realmente correspondem às necessidades do aluno.

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  • Data da Publicação: 19 de fevereiro de 2018
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#4 – O que é treinamento da fáscia e sua importância

A fáscia é composta fundamentalmente de:

“Tecidos conectivos fibrosos, moles, colágenos, soltos e densos que se permeiam (estão espalhados por todo o corpo)”.

Essa parte da definição é baseada no reconhecimento histológico estabelecido do tecido conjunto como tipo de tecido básico. Ele é anatomicamente subdividido em três categorias de tecido conjuntivo embrionário:

  • Mesênquima;
  • Tecido conjuntivo mucoso;
  • Tecido conjuntivo propriamente dito (tecido conjuntivo solto e denso);
  • Tecido conjuntivo especializado (sangue, osso, cartilagem, tecido adiposo, tecido hematopoiético, linfático) (Ross e Pawlina, 2011).

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  • Data da Publicação: 15 de janeiro de 2018
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#3 – Como tratar a Escoliose usando cadeias musculares

Assim que o aluno ouve que tem uma escoliose já entra em desespero. O problema começa na palavra, que ele provavelmente não faz ideia do que significa, mas parece bastante assustadora. Ele também fica com medo de precisar operar ou fazer um tratamento doloroso.

Mas quem disse que o tratamento precisa ser doloroso ou invasivo? O Pilates é um método que oferece um tratamento conservador para manter o funcionamento da coluna vertebral. Ele também ajuda a evitar que as curvas escolióticas evoluam.

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  • Data da Publicação: 16 de outubro de 2017
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#2 – Como a fáscia influência no movimento

A fáscia é um tecido conjuntivo propriamente dito denso, tendo como principal característica ser ininterrupta. Ela circunda e conecta os músculos, estruturas nervosas e viscerais. Ela constitui assim um importante elemento de comunicação mecânica entre os vários sistemas corporais.

Ou seja, desempenha um importante papel na transmissão miofascial de forças (HUIJING, 2009). É um tecido ativo mecanicamente, que possui funções proprioceptivas e nociceptivas. (YAHIA et al. 1992; SCHLEIP et al. 2005; STECCO et al. 2006, 2007, 2008, 2013b; BHATTACHARYA et al. 2010; TESARZ et al. 2011).

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  • Data da Publicação: 29 de novembro de 2017
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#1 – O que são Cadeias Musculares e por que você deve conhecer

Apesar de serem amplamente mencionadas nas áreas do movimento, nem todo mundo sabe o que são Cadeias Musculares. Mas fique sabendo: entender o que elas são e como funcionam muda todo seu tratamento.

Posso garantir que se você as ignora tem grande probabilidade de reabilitar seu aluno da maneira errada. E isso não muda de acordo com a patologia ou desequilíbrio.

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  • Data da Publicação: 28 de agosto de 2017
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*Dados computados até o dia 11/12
Introdução à fáscia para melhorar seus tratamentos

Introdução à fáscia para melhorar seus tratamentos

A fáscia é uma parte do tecido conjuntivo do corpo que influencia, e muito, nos resultados de nossos tratamentos e treinamentos. Apesar de ser tão importante, as pesquisas a seu respeito ainda estão em desenvolvimento e são um pouco obscuras no meio profissional. Porém, é importante acompanhá-las e saber tudo que é possível sobre o tecido fascial.

Para te ajudar a entender o que é a fáscia e sua importância no tratamento. Separei alguns conceitos básicos que devem te ajudar muito na compreensão antes de entrar em estudos mais aprofundados a respeito do tema.

Relação entre fáscia e colágeno

A fáscia é formada por proteínas, em especial o colágeno, e faz parte do tecido conjuntivo do corpo humano. Apesar do termo fáscia ainda ser discutido, como mostrei no meu artigo sobre as novidades científicas relacionadas à fáscia, podemos podemos considerá-la como: “tecidos conectivos fibrosos, moles, colágenos, soltos e densos que permeiam (ou seja, são espalhados por todo o corpo)”.

O colágeno, que forma boa parte dessa estrutura, é uma proteína produzida pelo corpo desde o nosso nascimento. Ele também é uma das proteínas mais importantes na manutenção do sistema conjuntivo, sendo responsável por manter sua estrutura matricial e força. No entanto, essa substância não é produzido pelo corpo até o fim da vida. Sua produção começa a diminuir mais ou menos aos 28 anos de idade, começando a cair cerca de 1% ao ano após os 35 anos.

Quando alguém chega aos 50 anos já deve estar produzindo cerca de 35% do colágeno que seu corpo precisaria para executar suas funções corporais. Nesse momento, o corpo começa a utilizar o estoque de colágeno que foi produzido até os 28 anos de idade, que não é o suficiente. É por isso que o processo de envelhecimento envolve a perda de elasticidade e firmeza do tecido conjuntivo.

Essa proteína é tão importante para o corpo que constitui diversas estruturas corporais que são afetadas conforme envelhecemos. Entre elas temos:

  • Ossos;
  • Unhas;
  • Músculos;
  • Cartilagens;

Cerca de 25% da proteína do corpo é colágeno, então não podemos ignorar seu papel. Sua principal função é sustentar as células, fazendo com que elas fiquem juntas e firmes. Isso também acontece no tecido da fáscia, fazendo com que essa proteína seja essencial para o funcionamento do conjunto fascial.

Funções da Fáscia

Autores relevantes já definiram a fáscia de forma bem ampla, deixando-a mais simples de compreender. O sistema fascial envolve os músculos, ossos e fibras nervosas e realiza diversas funções no corpo. Isso inclui funções:

  • Arquitetônicas/estruturais;
  • Neurológicas;
  • Transmissão de força biomecânica;
  • Morfogênese;
  • Transmissão de sinal celular.

Para conseguirmos utilizar esse artigo na nossa prática clínica, focarei na fáscia sob uma perspectiva funcional. Precisamos compreender o tecido conjuntivo e como ele realiza a ligação entre diversas estruturas do sistema musculoesquelético.

Treinamento da Fáscia

Durante nossos atendimentos precisamos considerar o conceito de treinamento da fáscia. Ele é necessário em qualquer paciente, seja ele um atleta de alto rendimento que deseja melhorar seu desempenho, um indivíduo lesionado ou uma pessoa que só quer praticar atividade física.

Quando um atleta sofre lesões por overtraining, por exemplo, a lesão acontece nos elementos da rede fascial do corpo. Os tecidos que devemos desenvolver no treinamento fascial são:

  • Envelopes musculares;
  • Aponeuroses;
  • Adaptações locais específicas (ligamentos ou tendões).

No corpo, existem estruturas que são responsáveis por adaptar os tecidos conjuntivos dos sistema fascial aos estímulos. Eles são os fibroblastos. Por isso, devemos adotar um treinamento orientado para a fáscia. Em atletas, esse treinamento precisa ser ainda mais específico para evitar sobrecarga, mas já falei a  respeito disso em outro artigo.

Nos treinamentos podemos adotar alguns recursos que ajudam a trabalhar a fáscia, mas nunca em excesso. Recomenda-se que esse tipo de treinamento aconteça entre uma e duas vezes por semana. Conseguimos melhorar o condicionamento fascial em 6 a 24 meses, dependendo do caso específico do aluno.

Muitas das lesões que encontramos na prática clínica envolvem tendões, ligamentos e outras estruturas do tecido conjuntivo. Muitas vezes, somente o tratamento do sistema musculoesquelético pode ser insuficiente. Mesmo que consigamos um resultado, o paciente pode voltar a ter o mesmo tipo de lesão.

Características da Fáscia

A fáscia é um tipo de rede de tensão que recobre todo o corpo. Ela é parte do que conecta diversas estruturas corporais, transmitindo tensões entre todo o sistema. Ela consiste de todos os tecidos conectivos, incluindo os:

  • Moles;
  • Colágenos;

A fáscia não é moldada por compressão, mas sim por tensões. Esse sistema envolve todos os músculos e órgãos. Podemos considerar alguns elementos que fazem parte da rede fascial, incluindo:

  • Envelopes musculares;
  • Cápsulas articulares;
  • Septos;
  • Tecidos conectivos intramusculares;
  • Retináculos;
  • Aponeuroses;
  • Ligamentos;
  • Tendões.

A rede fascial ao longo do corpo é formada por diversos tipos de tecidos conjuntivos, assim como algumas áreas de transição. Essas áreas ficam localizadas principalmente próximo a articulações. A rede recobre todo o corpo e é responsável por transmitir deformações tensionais multi-articulares. Por isso, cada região do corpo possui uma arquitetura local adaptada às demandas de carga de deformação impostas.

As deformações impostas sobre o sistema fascial o moldam e podem influenciar em lesões futuras. Por acaso você já conferiu um pouco do meu conteúdo sobre avaliação postural? Sempre falo a respeito de conhecer o histórico do paciente. Ele pode te dar insights importantes nas deformações que afetam o sistema fascial atualmente, mas que surgiram no passado.

Tipos de Colágeno no Mercado

No início do artigo falei um pouco da relação entre colágeno e fáscia e como nosso corpo deixa de produzir a quantidade necessária da proteína ao longo do tempo. Para suprir essa demanda, existem diversas opções de colágeno no mercado. Porém, ainda não existem estudos comprovando claramente sua eficiência no tratamento de patologias relacionadas ao tecido conjuntivo.

Os colágenos mais comuns no mercado são:

  1. Colágeno Hidrolisado – Passa por um processo de hidrólise, ou seja, é quebrado em partículas menores para ser absorvido mais facilmente e ter melhor aproveitamento pelo organismo.
  2. Colágeno Tipo 2 É o mais abundante nas cartilagens.
  3. Pepto Colágeno – É um colágeno altamente hidrolisado, que chega aos peptídeos de colágeno (conjunto de aminoácidos). Ou seja, moléculas ainda menores e de mais fácil absorção. Diversos estudos apontam que o colágeno na forma de peptídeos possui benefícios potencializados.

Conclusão

A fáscia é parte do tecido conjuntivo que nos ajuda a entender como o corpo sofre com deformações e tensões que levam ao surgimento de patologias. Através do estudo dessa estrutura, podemos desenvolver um treinamento mais completo e eficiente para nossos alunos. Por enquanto, quero dar uma dica: estude mais sobre a fáscia para conseguir utilizá-la nas suas avaliações e tratamentos. No meu blog tenho bastante conteúdo a respeito.

 

 

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  • Research: Basic Science and Implications for Conventional and Complementary
O que é Princípio da Estabilidade do Núcleo e como usar em Aula

O que é Princípio da Estabilidade do Núcleo e como usar em Aula

O que é princípio da estabilidade do núcleo?

Paul Hodges e Richardson foram os pioneiros no desenvolvimento do princípio da estabilidade do núcleo. Foram suas pesquisas que conseguiram demonstrar uma mudança no tempo inicial de contração de músculos do tronco em pacientes com dor lombar crônica.

A partir desse momento, as pesquisas a respeito do controle do tronco tomaram novo rumo. Pesquisadores queriam entender mais sobre a dor lombar crônica e, aos poucos, surgiu a ideia de que mudanças no controle motor de musculaturas do tronco estariam envolvidas. Em 1965, Freeman et al demonstrou tal fato em seus estudos.

Os achados e crenças gerais apontavam para a necessidade de músculos abdominais fortalecidos para garantir uma coluna saudável. Tais conhecimentos influenciaram muito o Pilates e o Treinamento Funcional. No Pilates, utilizou-se a ideia de treinamento do Power House, no Funcional, o treinamento de músculos do Core.

Como consequência desses estudos, inúmeros estúdios, ginásios, centros de treinamento e clínicas pelo mundo passaram a adotar exercícios para estabilidade de tronco. Eles deveriam ajudar a conseguir atletas prevenidos contra lesões de coluna e tratar dor lombar com maior eficiência.

Transverso abdominal, um dos estabilizadores

Considerando a estrutura da coluna vertebral e sua amplitude de movimentos, é fácil de considerá-la uma estrutura instável. Suas estruturas esqueléticas e estabilizadoras dinâmicas são incapazes de fornecer estabilização adequada, já sabemos disso.

Assim, os músculos tornam-se alguns dos principais mecanismos estabilizadores do tronco. No princípio de estabilidade do núcleo, os músculos geralmente são chamados de “Core”, assim como no funcional.

O transverso do abdômen ganhou destaque entre os músculos do Core. Acredita-se que ele é o principal componente da estabilização do tronco que mencionei acima. Ele possui diversas funções na postura vertical, sendo estabilidade apenas uma delas. Na verdade, sua função estabilizadora está em sinergia com os outros músculos que compõem a parede abdominal.

Essa musculatura também é responsável por controlar a pressão intracavitária para realizar:

  • Vocalização;
  • Respiração;
  • Defecação;
  • Vômito;

Para conseguir exercer todas suas funções, o TRA possui uma posição estratégica. Ele forma a parede posterior do canal inguinal, ali ele tem mais um papel: impedir a herniação das vísceras.

Papel de estabilização do transverso

Como já mencionei, no princípio da estabilidade do núcleo o transverso é essencial para estabilizar a coluna. Para conseguir confirmar se isso é verdadeiro, precisamos avaliar condições nas quais o músculo está danificado ou incapaz de realizar a estabilização.

Se ele realmente for um dos principais estabilizadores de coluna, sua falta de atividade fragilizaria a estrutura e levaria ao desenvolvimento de dor lombar.

A gravidez é um quadro interessante de analisar exatamente por esses motivos. Durante esse importante período, o Tra e outros músculos abdominais sofrem algumas alterações por causa do aumento do útero e outras alterações no corpo feminino.

Pesquisas com mulheres grávidas

O transverso sofre um alongamento que vai muito além de sua curva de comprimento x tensão. Por isso, ele perde força e deixa de estabilizar a pelve contra resistência. Para tentar comprovar a relação do Tra com a dor lombar, um estudo comparou mulheres grávidas.

De todas as 869 pessoas submetidas a estudo, mais da metade foi excluída. Boa parte delas deixou de fazer parte por conseguir recuperação espontânea da dor lombar sem intervenções após o parto.

Parece simples, elas estariam melhorando por recuperarem as funções estabilizadoras do transverso, certo? Na verdade não. Sua recuperação acontece num período no qual os músculos abdominais ainda não voltaram ao normal.

O estudo conclui que as evidências de mecânica musculoesquelética estejam relacionados ao desenvolvimento da dor lombar na gravidez.

Tempo de contração vs. força do núcleo

Se a força do músculo transverso abdominal e de outros músculos estabilizadores parece não ser tão essencial, surgiu outra hipótese: o tempo de contração. Nos estudos, indivíduos com dor lombar apresentaram um tempo de contração do Core cerca de 20ms mais lento. É uma diferença aparentemente pequena, mas que importa para os movimentos da coluna.

Perceba, a diferença em força não foi notada, mas sim no tempo de contração da musculatura. Ao contrário da força, o tempo está fora do controle consciente do paciente. Nós, terapeutas, também temos extrema dificuldade em alterá-lo através de comandos.

Durante as aulas focadas no princípio de estabilidade do núcleo, existe uma forte ênfase no fortalecimento de transverso abdominal. Utiliza-se exercícios em baixa velocidade feitos nas posições deitado, de joelhos ou de quatro apoios. A ideia seria normalizar o controle motor da musculatura, corrigindo, entre outros fatores, o problema de tempo.

Princípios das atividades físicas

Porém, não é provável que esse tipo de treinamento seja o suficiente para corrigir o problema de tempo de contração. Ele perde sua eficiência quando consideramos que esse tipo de treinamento de núcleo contradiz os princípios de aprendizado motor e de treinamento. Ou seja, eles não trabalham com similaridade, transferência ou especificidade.

De acordo com esses princípios utilizados nas atividades físicas, o corpo e seu sistema neuromuscular e esquelético seriam capazes de se adaptar a eventos motores específicos. Portanto, o que aprende-se numa situação específica pode não ser transferido para outro evento.

Com a intenção de melhorar o tempo de ativação, os proponentes do CS apresentaram uma solução: ensinar seus atletas, alunos ou pacientes a contrair continuamente o transverso do abdômen.

Com o músculo contraído a todos os momentos, seria possível deixar de se preocupar com o tempo de início da ativação. A proposta impõe um padrão de controle anormal e não funcional a esses pacientes. Seria possível utilizá-la para superar uma reorganização funcional do sistema muscular, como as lesões que encontramos com frequência.

O que é o controle motor?

O controle motor é o que precisamos desenvolver no aluno para conseguir boa ativação do transverso e outros músculos estabilizadores. Ele é composto de diversos fatores, que incluem:

  • Força;
  • Velocidade;
  • Alcance;
  • Resistência (grupo paramétrico de habilidades);
  • Co-contração;
  • Ativação recíproca.

Esses fatores representam o nível de controle sinérgico e para as habilidades motoras mais complexas, incluem ainda:

  • Coordenação;
  • Equilíbrio;
  • Tempo de transição entre diferentes atividades;
  • Relaxamento motor.

Todos esses fatores estão presentes durante um movimento. Caso um deles esteja alterado, todos os restantes terão alterações. Além disso, nenhum estudo até o momento demonstrou que o exercício de estabilidade de núcleo irá redefinir o tempo de início da contração do núcleo em pacientes com CLBP.

O núcleo precisa ser forte?

Quando falamos no princípio de estabilidade do núcleo, muitos pensam imediatamente em força. Realmente, existe muita confusão a respeito da força do tronco e como ela está relacionada a lesões e dores lombares. O controle muscular do tronco ao todo está prejudicado no caso de lombalgia, incluindo a força.

A co-contração muscular possui diversos papéis nos movimentos do tronco. Ela ajuda sim a estabilidade das articulações e a melhorar o movimento, mas não precisa ser exagerada. Os níveis de co-contração do tronco em pessoas saudáveis são mantidos em níveis baixos. Ou seja, eles precisam ser o suficiente para realizar atividades diárias.

Será que aumentar a força e, portanto a força de compressão no disco, seria ideal para nossas aulas? Não parece uma boa estratégia. Isso levaria o corpo a consumir mais energia e deixaria o tronco mais rígido. É uma maneira incompleta de tratar um corpo que também precisa de melhor amplitude de movimento e flexibilidade.

Isolando o transverso dos outros músculos abdominais

Um dos princípios dos treinamentos de estabilidade do núcleo é pedir para os alunos isolarem o transverso do restante dos músculos abdominais. O transverso seria um músculo central no tronco entre o restante de músculos globais. Isso é possível? Dificilmente, é duvidoso que existe um grupo de músculos capaz de operar de maneira independente do restante do tronco.

Para conseguir essa ativação o indivíduo precisaria substituir seu padrão natural de ativação muscular. Além de ser impraticável, seria perigoso para o paciente. Focar o treinamento em um único músculo é extremamente difícil porque a ativação por músculo simplesmente não existe.

Conclusão

O processo de controle muscular está distante do controle consciente. Ele é realizado na hierarquia dos processos motores dos centros espinhais. Mesmo os neurônios relacionados a músculos particulares estão misturados. Portanto, percebemos que a divisão muscular é puramente anatômica e não pode ser aplicada em pacientes na prática.

Ao contrário do que o princípio da estabilidade de núcleo propõe, não conseguimos contrair um músculo ou grupo específico. Nossos alunos conseguem isso ainda menos. Quando tentamos incentivar essa contração em aula, o paciente provavelmente acaba contraindo grandes grupos de músculos abdominais.

 

 

Bibliografia
Bouche, K., Stevens, V., Cambier, D., et al., 2006. Comparison of postural control in unilateral stance between healthy controls
and lumbar discectomy patients with and without pain. Eur. Spine J. 15 (4), 423e432.
O que é Dor? Guia Definitivo com Conceitos atuais da Neurociência

O que é Dor? Guia Definitivo com Conceitos atuais da Neurociência

A definição mais atual que temos é a de que a dor é uma experiência, que reflete a sensação de ameaça à integridade da pessoa. Como ela é uma experiência, cada pessoa irá vivenciar o que é dor de forma diferente.

Isto quer dizer que cada um irá sentir, lidar e viver com a dor, de acordo com a sua forma de experimentar a vida e os fatos que ocorrem nela.

Se dor é uma experiência e está intimamente ligada à forma que alguém lida com ela. Então, nós já sabemos que não dá para separar dor de emoção.

Algumas pessoas dizem: “A dor vem do cérebro”, mas o processamento da dor é muito mais complexo do que isso. Não é “só coisa da sua cabeça” não! Quer saber o que é dor? Então continue lendo!

Primeiros estudos sobre a Dor

No início, na época de René Descartes, não se sabia o que é dor. Pensavam que ela pudesse surgir do coração, tamanha é a relação entre emoção e dor. E, como todos bem sabem, o coração é um órgão que correlaciona-se muito com emoções, devido seu envolvimento direto com o Sistema Nervoso Autônomo.

Descartes, em 1664, dizia que receptores de dor distribuídos pelas partes do corpo captavam informações, e as levavam a campainha da cabeça (glândula pineal), soando um alarme que gerava a sensação dolorosa. Esta foi a base para a ciência para responder o que é dor até 1970.

Por volta de 1900 foram descritos receptores térmicos, mecânicos e químicos espalhados pelo corpo. Estes receptores seriam os responsáveis por enviar sinais dolorosos ao cérebro.

No entanto, hoje sabemos que os estímulos capazes de acionar estes receptores, nem sempre são dolorosos. E mesmo quando eles são altamente dolorosos, a percepção da dor depende da interação com vários outros fatores.

Um exemplo é uma pessoa com lesão muito extensa e dolorosa, mas que precisa fugir de uma ameaça maior e consegue, relatando posteriormente que na hora que precisava fugir ela não sentiu dor.

Outro exemplo são os atletas, que muitas vezes sofrem lesões sérias durante competições, mas continuam até o final, e depois também relatam que no momento da lesão não estavam sentindo tanta dor porque “o corpo estava quente”.

Em contrapartida, um pequeno corte do dedo numa folha de papel pode ser extremamente doloroso.

Função social da dor

Há uma influência social e de contexto na sensibilidade da dor, pois ela está relacionada diretamente com a percepção de risco ou ameaça que a pessoa tem.

Muitas vezes os receptores de dor, denominados nociceptores, não estão captando sinal doloroso, pois não há lesão ocorrendo nos tecidos. No entanto, o paciente está sentindo muita dor! E isto é verdadeiro!

Existem quatro mecanismos geradores de dor:

  1. A dor nociceptiva: onde há algum dano no tecido estimulando os receptores de dor.
  2. A dor neuropática: onde há algum dano no tecido neural, estimulando a dor.
  3. A dor nociplastica: onde não há dano no tecido, e consequentemente não há ativação dos receptores de dor. O mecanismo envolvido aqui é a sensibilização central, que vou explicar mais adiante.
  4. A dor de origem desconhecida.

Além disso, a dor também pode ser classificada de acordo com o tempo de surgimento:

  • Aguda: quando apareceu há menos de três meses.
  • Crônica: quando apareceu há mais de três meses.
  • Recorrente: quando a dor some por um período e depois volta.

Quais são as causas da dor?

A causa da dor é multifatorial e envolve a qualidade dos tecidos corporais, hábitos de vida, estado emocional, crenças e outros fatores que podem afetar o indivíduo.

Um determinado fator pode estar influenciando fortemente para se descobrir o que é dor naquela pessoa. Em outra pessoa, outros fatores irão impactar mais ou menos.

Por isso, cada caso deve ser avaliado e tratado individualmente, e a resposta irá depender de cada paciente.

Por exemplo: Muitos se deparam com exames de ressonância magnética apresentando hérnia de disco. Isto geralmente é motivo de extrema preocupação.

No entanto, a hérnia representa um grande fator na causa da dor em apenas 2% dos casos. Não é porque apareceu um achado no exame de imagem que ele é a causa da dor. Muitas alterações encontradas em exames de imagem não tem relação com a dor que o paciente está sentindo!

Papel do profissional na avaliação da dor

A dor envolve muitos fatores e é preciso avaliar o quanto cada fator influencia em cada caso. Esta influência é diferente em cada pessoa e difícil de mensurar de forma exata.

Por isso, é muito importante que o profissional de saúde ouça o paciente. Ele precisa entender como este paciente experimenta o que é dor. Assim ele poderá avaliar e tratar o paciente de forma adequada, ou encaminha-lo para o profissional pertinente.

Não é possível avaliar um paciente de acordo com os conceitos o que é dor apenas olhando para o físico! Precisamos, no mínimo, olhar o contexto do momento em que ele vive.

Quando o paciente apresenta dor crônica, podem ocorrer modificações no cérebro, na medula e na transmissão do sinal pelos neurônios.

No cérebro, a dor é interpretada como um sinal saliente. Ou seja, tem a função de chamar a atenção para um determinado estímulo.

Processamento dos Estímulos Nervosos

A forma como o estímulo doloroso é processado é que determina a quantidade de dor que o paciente irá sentir, e não a extensão da lesão (se é que ela existe).

Existem áreas cerebrais específicas, onde o sinal de dor será detectado, interpretado e posteriormente acomodado. Estas áreas também recebem e interpretam emoções e cognição.

Da mesma forma, também existem regiões cerebrais que modulam o que é dor, ou seja, aumentam ou diminuem a intensidade da dor.

As áreas relacionadas à cognição e emoção também podem modular o que é dor:

  • Emoções agradáveis inibem dor.
  • Emoções desagradáveis potencializam dor.

Meditação, hipnose, relaxamento, exercícios respiratórios, exercícios físicos e educação em dor também podem gerar efeito regulatório.

Isto ocorre por estimularem uma região cerebral, denominada córtex pré-frontal, que é capaz de inibir a dor.

Na dor nociplastica o mecanismo gerador envolvido é a sensibilização central, onde ocorre uma hipersensibilidade medular e cerebral que, de forma repetida, será capaz de ativar células da glia pro inflamatórias, resultando em neuroinflamacao.

Ocorre também uma facilitação sináptica, onde há aumento do número de receptores de dor. Vale ressaltar que este é o mesmo mecanismo que ocorre na memória e aprendizagem.

Relações entre a o que é dor crônica e as emoções

Nem todo paciente com dor crônica irá apresentar sensibilização central. Para isso, precisa haver sintomas como:

  • Hiperalgesia;
  • Alodinia;
  • Dor difusa;
  • Experiência desproporcional em relação à dor;
  • Hipersensível a luz, sons, cheiros e até mesmo paladar;
  • Alterações do sono;
  • Fadiga;
  • Dificuldade de concentração.

Na fibromialgia, a sensibilização central, é o mecanismo gerador da doença.

Em um estudo, conduzido por Baliki, et al. e publicado na revista Nature Neuroscience em 2012, pacientes que se curaram e pacientes que permaneceram com dor crônica obtiveram mudanças nas suas ressonâncias magnéticas cerebrais.

Em ambos os grupos as áreas do cérebro responsáveis pela sensação corpórea (relacionada com o homúnculo de Peinfield), não estavam mais ativas. No entanto, no grupo que permaneceu com dor, caracterizando-a como crônica, a atividade cerebral migrou para áreas cognitivo emocionais.

Há vários fatores que correlacionam dor e emoção na prática clínica como:

  • Medo relacionado a dor, geralmente medo que o movimento piore a dor;
  • Catastrofizacao, onde o sofrimento do paciente em relação à sua dor é muito aumentado;
  • Ansiedade;
  • Depressão;
  • Stress crônico;
  • Síndrome de estresse pós traumático;
  • Sensação de injustiça, onde o paciente se sente injustiçado pela dor, como se alguém estivesse produzindo a dor nele.

A dor está relacionada com a necessidade de manutenção da integridade corporal. E a emoção está relacionada com detectar pistas nocivas, agradáveis ou neutras no ambiente para moldar o comportamento.

Geralmente, há três emoções básicas envolvidas na dor: raiva, medo e tristeza.

O medo de executar determinado movimento deve ser extinto, guiando o paciente na execução do mesmo. Para que ele perceba que aquela situação não é mais ameaçadora.

Relações entre a dor e o sentimento de medo

A reatividade emocional envolve o acionamento do Sistema Nervoso Autônomo (SNA), gerando respostas de correr, lutar ou congelar.

Para esta situação é possível utilizar estratégias para a regulação emocional, resinificando as emoções estressoras e que pioram a dor.

Novamente, técnicas como o mindfulness, exercícios respiratórios e de relaxamento são indicados. Não se aprende a ter dor, mas podemos aprender a ter medo. O medo do movimento pode ser aprendido por:

  • Instrução verbal: como nos casos de profissionais da saúde que utilizam estratégias educacionais para com seus pacientes que geram neles medo de executar uma determinada atividade. Atualmente denominamos este efeito de “efeito nocebo”.
  • Observação: muitos já viram parentes ou amigos abaixarem para pegar algo no chão e travarem a coluna durante este movimento. Inconscientemente, o cérebro vai gravando que abaixar pode gerar dor nas costas.
  • Condicionamento: toda vez que o paciente faz determinado movimento sente dor. Com o tempo o cérebro vai condicionando aquele tipo de movimento à dor.

Isto ocorre porque o cérebro funciona por modelos preditores, para poupar energia. Uma estratégia para mudar isso é pedir para o paciente executar o movimento em uma amplitude de movimento menor, antes de começar a sentir a dor e realizar repetições na mesma amplitude.

Assim, estarei alterando o modelo preditor do cérebro, que estará sendo atualizado. Com isso vou ganhando em amplitude, dessensibilizando o cérebro, até que o paciente esteja executando o movimento completo sem dor.

Ensinando o paciente a direcionar sua atenção

O aprendizado do medo é rápido. Basta que o paciente sinta novamente a dor para que o medo volte. Por isso é importante que o profissional tranquilize o paciente, mostrando a ele que não há risco ou possibilidade de lesão com o movimento adequado.

Outra questão importante é que o nosso comportamento é extremamente relacionado ao sistema de recompensas do cérebro, fazendo-se necessário mostrar a ele quais as vantagens de voltar a realizar os movimentos que antes eram dolorosos.

Colocar atenção na melhora e não na dor, pois a atenção pode ser reguladora de emoções e elas pioram ou melhoram os sintomas.

Ensinar o paciente a direcionar a sua atenção para os prazeres que ele pode ter, apesar da dor, já pode afetar a intensidade da dor no sentido de diminuí-la.

Pessoas mais negativas não conseguem se deslocar da imagem emocional. Não conseguem focar em outra coisa e se desprender da dor, aumentando a sua intensidade.

Qualquer coisa que aumente a responsividade do sistema nervoso autônomo simpático, com reações de luta, fuga ou congelamento, poderá aumentar a intensidade da dor.

Como tratar um paciente com dor

Geralmente, pessoas com tendência à simpaticotonia tem dificuldade em lidar com situações adversas e maior chances de desenvolver dores crônicas. Já as pessoas com tendência maior a parassimpaticotonia, possuem mais habilidade para lidar com situações aversivas e menor tendência à cronificação.

Da mesma forma que o efeito nocebo pode ser nocivo ao paciente, o efeito placebo pode ser bastante benéfico e representa uma parte importante do tratamento.

Dizer para o paciente que ele vai melhorar, acalma-lo, fazê-lo sentir que está sendo atendido por um profissional competente e utilizar o maior número de estímulos que mostre ao paciente que ele está melhorando são formas de ampliar o efeito placebo e que beneficiam o paciente.

Explicar ao paciente de forma clara e não técnica o que está acontecendo com ele pode ser uma maneira de se evitar o efeito nocebo e ainda colocar o paciente na posição de protagonista no tratamento da sua dor.

Um estudo, realizado em 2003, mostrou que 40 a 80% de tudo o que o profissional de saúde diz para o paciente é esquecido e 50% do que é lembrado foi mal interpretado.

Por isso, escutar o paciente sem interromper, para:

  • Entender o que ele quer receber com o tratamento;
  • Observar como ele recebe as informações que são fornecidas;
  • Caso necessário esperar para passar novas informações;
  • Perguntar se as informações estão fazendo sentido para ele;
  • Ter empatia;
  • Respeitar as preferências do paciente quanto ao formato de tratamento são atitudes que fortalecem a aliança terapêutica.

Ela por si só não tem efeito de diminuir a dor, mas facilita todo o restante do processo.

Conclusão
fatores psicológicos na dor lombar

Realizar a educação em dor, explicando todo o mecanismo neurofisiológico de maneira simples e  desmistificando as falsas crenças, pode ser muito benéfico para a melhora dos sintomas.

É importante considerar que todo paciente está inserido num contexto biopsicosocial, sendo que alguns tem o fator biológico/físico mais proeminente, em outros é o fator psicológico que exacerba e, algumas vezes, o mesmo paciente irá alternar entre fatores biológicos, psicológicos ou sociais que evidenciam mais em determinado momento.


Esse texto foi co-escrito pela Dra. Thaysa Greve

Thaysa é Fisioterapeuta com Pós Graduação em Fisiologia Humana, assim como cursos nas áreas:

  • Certificação em Osteopatia Estrutural e Funcional- EBOM
  • Formação em Osteopatia Estrutural – EOM
  • Formação em Osteopatia Postural e Visceral- Instituto Docusse de Osteopatia e Terapia Manual (Idot)
  • Formação em Manipulação Visceral – Barral Institute (USA)
  • Formação em Cadeias Musculares -Método Busquet
  • Formação em Manipulação das Fáscias – Método Stecco
  • Formação em Terapia Crânio Sacral-TCSI- Upledger Institute.
  • Certificação em Pilates para Reabilitação
  • Curso de Pilates nas Patologias de Joelho, Tornozelo e Pé – Congresso Brasileiro de Pilates

 

Referência
  • Texto elaborado com base  no curso “Abordagem da dor com base nos conceitos atuais da neurociência “ do Professor Felipe Reis, PhD. 2018.