O que é treinamento da fáscia e sua importância

O que é treinamento da fáscia e sua importância

A fáscia é composta fundamentalmente de:

“Tecidos conectivos fibrosos, moles, colágenos, soltos e densos que se permeiam (estão espalhados por todo o corpo)”.

Essa parte da definição é baseada no reconhecimento histológico estabelecido do tecido conjunto como tipo de tecido básico. Ele é anatomicamente subdividido em três categorias de tecido conjuntivo embrionário:

  • Mesênquima;
  • Tecido conjuntivo mucoso;
  • Tecido conjuntivo propriamente dito (tecido conjuntivo solto e denso);
  • Tecido conjuntivo especializado (sangue, osso, cartilagem, tecido adiposo, tecido hematopoiético, linfático) (Ross e Pawlina, 2011).

A partir dessa perspectiva classificatória, a fáscia é geralmente considerada como uma forma de tecido conjuntivo propriamente dito. Apesar disso, sua sub-identificação a especifica como tecido conjuntivo solto e / ou “regularmente” ou “irregularmente” tenha disposição no tecido conjuntivo denso ainda não foi esclarecida.

Nomenclatura da fáscia

O uso desta definição dos tecidos conjuntivos plurais reconhece que, em estudos histológicos, o sistema fascial é constituído por vários tipos de tecido conjuntivo. Não existe apenas um, por exemplo: areolar, denso regular / irregular e adiposo.

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Nos últimos anos, a especialização da histologia tem favorecido cada vez mais o termo tecido conectivo e de suporte sobre o tecido conjuntivo (Young et al., 2014, Programa Anatômico Federativo sobre Terminologias Anatômicas [FAPAT] 2008).

No entanto, a definição proposta para o sistema fascial relaciona-se com o termo tradicional, tecido conjuntivo. Assim, é possível permitir a discussão sobre o papel do sistema fascial na transmissão da força de tensão. Essa definição é diferente de apenas, como no passado, principalmente estabilização das compressões mecânicas, para a qual ossos e outros elementos são mais especializados. Também porque é assim que esse tipo de tecido é tipicamente conhecido na comunidade da FRS e FRC.

A palavra suave distingue o tecido conjuntivo fascial da cartilagem e do osso. Ambos são formas de tecido conjuntivo tangivelmente mais difíceis e diferentemente especializadas. O termo tecido macio foi escolhido pois é o termo atualmente defendido na Terminologia Histológica (FAPAT, 2008). Ele foi escolhido em vez de outros como:

  • Tecido fibroso;
  • Tecido conjuntivo adequado;
  • Tecido de suporte macio.

Novamente, o termo colágeno que contém distingue deliberadamente a fáscia do músculo. Esse último é frequentemente categorizado separadamente como outra forma “especializada” de tecidos moles. Esta referência geral ao colágeno inclui implicitamente os Tipos I e III. Assim, deixa a porta aberta para qualquer outro colágeno que possa (no futuro) se caracterizar significativamente neste amplo grupo de tecidos.

Formação da fáscia

como funciona o treinamento da fásciaA fáscia é constituída de proteínas. O colágeno é a principal estrutura na sua composição. Essa é uma proteína produzida pelo nosso organismo desde o nascimento e um dos mais importantes para a manutenção dos blocos de sustentação dos tecidos conjuntivos.

O colágeno é responsável pela manutenção de sua estruturação matricial e força. Porém, sua produção começa a diminuir perto dos 28 anos de idade e, sobretudo, depois dos 35, diminui cerca de 1% ao ano.

Aos 50 anos o organismo chega a apenas 35% do colágeno necessário para executar sua principal função. Para manter suas funções começa a se utilizar do colágeno produzido até os 28 de idade de forma abundante, colágeno este que fica armazenado.

Esse processo leva à perda da elasticidade e firmeza do conjuntivo em geral. Essa proteína participa ativamente da construção e constituição dos ossos, músculos, cartilagens, cabelos e unhas. Por isso os benefícios do colágeno para a saúde são tão conhecidos.

Aliás, e o colágeno, representa cerca de 25% de toda proteína que existe em nosso corpo. Sua função é dar sustentação às células, deixando-as firmes e juntas. Tem papel importante para a saúde em geral da fáscia, sendo seu principal componente proteico, fundamental para o funcionamento de todo tecido conjuntivo fascial.

Os tipos de colágeno

  1. Colágeno hidrolisado: passa por um processo de hidrólise, ou seja, é quebrado em partículas menores para ser absorvido mais facilmente e ter melhor aproveitamento pelo organismo.
  2. Colágeno tipo 2: é o mais abundante nas cartilagens
  3. Pepto colágeno: é um colágeno altamente hidrolisado, que chega aos peptídeos de colágeno (conjunto de aminoácidos). Ou seja, moléculas ainda menores e de mais fácil absorção. Diversos estudos apontam que o colágeno na forma de peptídeos possui benefícios potencializados.

Função Fascial

função do treinamento da fásciaO reconhecimento da definição de que o sistema fascial “interpenetra e envolve todos os órgãos, músculos, ossos e fibras nervosas” é copiado da definição amplamente utilizada de FRAC de Findley e Schleip (2007), com seus conhecimentos e permissão.

É amplamente aceito que o sistema fascial também pode preencher várias outras funções importantes no corpo. Incluindo (mas não limitado a):

  • Funções arquitetônicas / estruturais;
  • Neurológicas;
  • Transmissão de força biomecânica;
  • Morfogênese;
  • Transmissão de sinal celular (Schleip et al., 2012).

No entanto, no interesse da brevidade, a definição proposta do sistema fascial não tenta identificar todas as funções atualmente conhecidas da fáscia. Ele deliberadamente apenas alude a essas várias e amplas funções de maneira geral. Assim, é possível concentrar-se em seu objetivo de descrever o que o sistema fascial é.

Por exemplo, identificar seus elementos básicos a partir de uma perspectiva funcional. Uma vez que esta tarefa de descrição inicial é realizada, outros podem decidir continuar a partir daqui e começar a tarefa muito útil, embora possivelmente aberta, de enumerar as funções atualmente conhecidas deste sistema dentro de um corpo complexo.

Terminologias relacionadas à Fáscia: lentes diferentes para diferentes fins

Três nomenclaturas respectivas mais utilizadas foram comparadas. A terminologia mais restritiva e precisa entre eles é a “Terminologia Anatômica”, proposta pelo Comitê Federativo de Terminologia Anatômica (FCAT) em 1998. Sugere excluir a denominada “fáscia de Scarpa” e “fáscia de Colle” (camadas de tecido conjuntivo membranoso dentro da parede abdominal anterior e peritoneo), todo o tecido conjuntivo subcutâneo (entre a pele e a fáscia do músculo subjacente) a partir de futuras descrições de “fáscia”.

Semelhante à terminologia proposta no editorial da seção Fáscia da presente edição da revista, o FCAT sugere restringir o termo “fáscia” a folhas de tecido conjuntivo fibroso muito mais densas. Alguns exemplos são:

  • Envelopes musculares;
  • Septos intermusculares;
  • Periósteo.

Excluindo tantos outros tecidos conjuntivos fibrosos (Wendell-Smith, 1997). Embora tenha a lógica mais rigorosa e convincente por trás disso, a nomenclatura FCAT falhou em termos de implementação. Idioma e se isso é usado na medicina ou em outras áreas da sociedade e muitas vezes segue diferentes dinâmicas de desenvolvimento do que aqueles que chegaram através da lógica ou aqueles propostos pelos especialistas atuais em um campo.

Portanto, não é surpreendente que a maioria das autoridades de livros didáticos de inglês continuasse usando o termo “fáscia superficial” para descrever os tecidos conectivos soltos subcutâneos (Platzer, 2008; Standring, 2008; Netter, 2011; Tank, 2012). Da mesma forma, a maioria dos livros de anatomia descritiva no mundo de hoje continuaram a usar os termos ‘Fáscia de Scarpa’, Fáscia de Colle e termos relacionados.

A segunda terminologia discutida nesta revisão é a utilizada na última edição britânica da anatomia de Gray (Standring, 2008). A nomenclatura deste livro de texto altamente considerado é atualmente utilizada pelo maior número de autores médicos quando comparada com qualquer outra nomenclatura relacionada à fáscia.

Ao excluir a aponeurose e as camadas intramusculares de perimísio e endomísio do reino da fáscia, esta terminologia reconhece especificamente toda a gama de tecido conjuntivo solto subcutâneo da derme à fáscia muscular mais densa como “fáscia superficial”.

A terceira nomenclatura mais comum usada hoje em relação à fáscia é aquela, que foi proposta como base para o primeiro Congresso Fascia Research (Findley e Schleip, 2007); Isto foi desenvolvido para os dois congressos seguintes (Huijing e Langevin, 2009).

O termo fáscia aqui inclui todos os tecidos colágenos fibrosos cuja arquitetura é formada principalmente pelo carregamento tensional (em contraste com um carregamento de compressão localmente dominante). Pode ser visto como tendo parte em uma rede de transmissão de força tensional no todo o corpo.

A rede fascial completa abrange não só folhas de tecido colágeno denso (como envelopes musculares, septos, cápsulas articulares, cápsulas de órgãos e retináculos), que também podem ser chamados de “fáscia adequada”. Também inclui densificações locais desta rede sob a forma de tendões e ligamentos.

Além disso, inclui tecidos conectivos colágenos mais suaves, como a fáscia superficial (como na Anatomia de Grey) e a camada intramuscular mais interna do endomísio. Note-se que os tecidos conjuntivos com uma morfologia que se adapta principalmente ao carregamento compressional (como ossos, cartilagens ou o núcleo pulposo dos discos) não são considerados como tecidos fasciais nesta perspectiva.

Ao comparar essas três terminologias mais comuns, é evidente que cada abordagem traz consigo grandes vantagens que a tornam superior ao aplicar a terminologia relacionada dentro de um contexto específico (Tabela 1). Por exemplo, a nomenclatura da Grey’s Anatomy tende a ser mais aplicável quando se comunica com profissionais médicos e acadêmicos cuja compreensão semântica está principalmente enraizada na terminologia britânica ou americana convencional.

Da mesma forma, a aplicação da nomenclatura FCAT oferece uma precisão preditiva melhorada em termos de análise histológica. Ao olhar através de um microscópio, é realmente útil colocar tecidos conjuntivos areolares soltos em um recipiente linguístico diferente do que as cápsulas articulares mais densas.

Por outro lado, ao investigar o papel dos tecidos conjuntivos na cicatrização de feridas, ele funciona bem para incluir tipos de tecidos conjuntivos soltos e mais densos em uma análise comum com base em suas propriedades funcionais compartilhadas (Hinz et al., 2012).

O mesmo se aplica à propriocepção e nocicepção para os quais uma alta densidade de terminações nervosas foi relatada nos tecidos conectivos soltos hipodérmicos (Willard et al., 2012). A terminologia mais abrangente dos congressos sobre fáscia funciona bem quando se olha a transmissão de força em vários segmentos corporais.

Esta terminologia mais nova também pode ser mais útil para descrever a arquitetura anatômica em torno das principais articulações. Uma divisão arbitrária de tecidos locais muitas vezes parece bastante pesada e tende a ignorar a continuidade do tecido local presente nessas áreas, elas dividem em:

  • Cápsulas;
  • Ligamentos;
  • Fáscia;
  • Tendões
  • Aponeuroses.

Conforme descrito anteriormente (Schleip et al., 2012), as disputas semânticas improdutivas podem ser evitadas ao se referir a tecidos conjuntivos densos especializados (como cápsulas ou aponeuroses) como sendo parte da “rede fascial”, em vez de insistir que eles são “apenas fascia”. Enquanto o termo “fáscia apropriada” serve bem para reconhecer que os tecidos relacionados expressam mais claramente as características descritas como fáscia em terminologias mais restritivas, como a do FCAT e a Grey’s Anatomy.

Além de reconhecer um tecido específico como sendo parte da rede fascial global ou não, também é útil, usar um dos doze outros termos descritivos propostos por Huijing & Langevin no segundo Congresso Fascia Research (como “tecido conjuntivo solto” ‘,’ Periost ‘ou’ endomísio ‘); pelo menos sempre que um desses termos parece aplicável (Huijing e Langevin, 2009).

É verdade que os tecidos fasciais reconhecidos pela terminologia dos congressos sobre fáscia são bastante congruentes com a compreensão dos leigos sobre o termo “tecido conjuntivo”. No entanto, o uso adequado desse termo no campo da medicina inclui ossos, cartilagens e até mesmo sangue. Todos esses são derivados do mesênquima embrionário.

Os clínicos que se referem ao tecido conjuntivo também devem saber que a “pesquisa do tecido conjuntivo” é um campo científico muito bem estabelecido. Inclui vários órgãos internacionais de pesquisa e conferências científicas regulares, bem como o periódico ‘Connective Tissue Research’ que está incluído no índice Medline (Com mais de 170 questões publicadas desde 1972).

Embora a grande maioria dos tópicos explorados neste campo científico compartilhe muito pouco em comum com o campo atual da pesquisa da fáscia, seria desrespeitoso, se não impossível, torcer neste campo científico estabelecido em uma direção orientada a fáscia, que principalmente olha para o:

  • Comportamento tecidual;
  • Sensibilidade mecânica;
  • Sensibilidade sensorial durante intervenções de terapia manual e de movimento;
  • Transmissão miofascial em várias articulações.

A diversidade das terminologias existentes reflete não só a arquitetura complexa da própria rede fascial. Também reflete a rica diversidade de profissionais que trabalham em diferentes campos que compartilham um interesse nesse tecido fascinante.

Em vez de usar um bisturi afiado para distinguir entre o certo e o errado, recomendamos exercitar a capacidade de entender e respeitar as vantagens específicas das terminologias relacionadas.

Cada uma das três terminologias descritas, se apropriadamente aplicada, permite reconhecer as continuidades e distinções dos tecidos através de uma lente especialmente focada. Cada lente é mais apropriada para um campo específico de aplicação e perspectiva, sendo menos apropriada para outras tarefas.

Treinamentos Fasciais

tipos de treinamento da fásciaO treinamento de esportes convencionais enfatiza o treinamento adequado de:

  • Fibras musculares;
  • Condicionamento cardiovascular;
  • Coordenação neuromuscular.

A maioria das lesões de sobrecarga desportivas, no entanto, ocorrem dentro de elementos da rede fascial do corpo, que são então carregados além da capacidade preparada. Esta rede tensional de tecidos fibrosos inclui folhas densas, como:

  • Envelopes musculares;
  • Aponeuroses;
  • Adaptações locais específicas, como ligamentos ou tendões.

Os fibroblastos continuamente, mas lentamente, adaptam a morfologia desses tecidos a estimulações de carga desafiadoras aplicadas repetidamente. Os princípios de uma abordagem de treinamento orientada para fáscia são introduzidos.

Estes incluem a utilização de:

  • Retrocessos elásticos;
  • Contra-movimentos preparatórios;
  • Alongamento lento e dinâmico;
  • Práticas de reidratação e refinamento proprioceptivo.

Esse treinamento deve ser praticado uma ou duas vezes por semana. Assim, produzimos um treino do corpo fascial mais resiliente dentro de um período de 6 a 24 meses.

Sempre que um jogador de futebol não é capaz de retornar ao campo devido a uma dor recorrente no joelho, uma estrela de tênis desiste cedo de uma partida devido a problemas de ombro, ou um velocista por toda a linha de chegada com um tendão rasgado de Aquiles, o problema muitas vezes não é nem na musculatura nem no esqueleto.

Em vez disso, é a estrutura do tecido conjuntivo e ligamentos, tendões, cápsulas articulares, etc. e que podem ter sido carregados além da capacidade preparada (Renstro¨m e Johnson, 1985; Hyman e Rodeo, 2000; Counsel e Breidahl, 2010).

A Fáscia foi descrita como uma rede de tensão de todo o corpo, que consiste em todos os tecidos conectivos moles colágenos e fibrosos. Sua arquitetura fibrosa é predominantemente moldada por tensão tensional em vez de compressão.

Essa rede contínua envolve e conecta todos os músculos e órgãos. Os elementos desta rede fibrosa incluem:

  • Envelopes musculares;
  • Cápsulas articulares;
  • Septos;
  • Tecidos conectivos intramusculares;
  • Retináculos;
  • Aponeuroses;

Bem como especificações locais mais densas, como ligamentos e tendões. Embora em algumas áreas seja possível uma distinção local de diferentes elementos de tecido (como aponeuroses, ligamentos, etc.). Muitas áreas como as que estão próximas das principais articulações consistem em transições graduais entre diferentes arquiteturas de tecido em que uma distinção clara aparece frequentemente como arbitrária e enganosa (Schleip et al., 2012b).

A terminologia anatômica anterior geralmente restringe o termo fáscia a folhas densas de tecidos conectivos com arquitetura de fibra similar a uma rede ou aparentemente irregular. Em contraste, a terminologia mais abrangente e inovadora proposta pela série de congressos internacionais de pesquisa de fáscia continua a honrar esse uso. Em geral, nos referimos a esses tecidos como “fáscia adequada”. Ao mesmo tempo permite uma orientação perceptual.

Os tecidos conjuntivos mencionados acima são incluídos como elementos de uma “rede fascial” de todo o corpo para a transmissão de deformação tensional multi-articular (Findley et al., 2007; Huijing et al., 2009; Chaitow et al., 2012). É importante entender que a arquitetura local desta rede se adapta à história específica das demandas anteriores de carga de deformação (Blechschmidt, 1978; Chaitow, 1988). Logo, nos torna imprescindível o conhecimento das tensões musculares do histórico do seu paciente.

Um treinamento focado desta rede fascial é de grande importância para os atletas, dançarinos e outros amantes do movimento. Se o tecido fascial for bem treinado, isto é, otimizado de forma elástica e resiliente. Pode-se confiar para que ele desempenhe efetivamente e ao mesmo tempo oferecer um alto grau de prevenção de lesões (Kjaer et al., 2009).

Até recentemente, a maior parte da ênfase no esporte se concentrou na tríade clássica da:

  • Força muscular;
  • Condicionamento cardiovascular;
  • Coordenação neuromuscular (Jenkins, 2005).

Algumas atividades de treinamento físico alternativas, como Pilates, Yoga e artes marciais, já estão levando conta a rede de tecidos conjuntivos. Aqui, a importância da fáscia é muitas vezes discutida especificamente, embora as idéias modernas no campo da pesquisa da fáscia não tenham sido especificamente incluídas.

Por conseguinte, sugere-se que, para construir uma rede de órgãos fasciais resistentes a lesões e elásticos. É imprescindível traduzir os conhecimentos atuais do campo em desenvolvimento dinâmico da pesquisa da fáscia em programas de treinamento prático. A intenção é encorajar fisioterapeutas, instrutores esportivos, educadores físicos e outros profissionais do movimento a incorporar os princípios apresentados aqui e aplicá-los ao seu contexto específico.

A seguir, apresentam-se alguns fundamentos básicos biomecânicos e neurofisiológicos para uma abordagem de treinamento orientada à fáscia, seguidas de sugestões para algumas aplicações práticas.

Fundamentos básicos

Remodelação Fascial

Uma característica reconhecida do tecido conjuntivo é a sua impressionante adaptabilidade: quando regularmente colocados sob uma tensão crescente ainda fisiológica, os fibroblastos inerentes ajustam sua atividade de remodelação da matriz de modo que a arquitetura do tecido atenda melhor a demanda.

Por exemplo, através da nossa locomoção bípede diária, a fáscia no lado lateral da coxa desenvolve uma firmeza mais palpável que no lado medial. Esta diferença na rigidez do tecido dificilmente é encontrada nos pacientes com cadeira de rodas.

Se nós preferíssemos gastar a maior parte de nossa locomoção com nossas pernas sobre um cavalo, então aconteceria o contrário, ou seja, depois de alguns meses a fáscia no lado interno das pernas se tornaria mais desenvolvida e forte (El-Labban et Al., 1993).

As variadas capacidades dos tecidos conectivos colágenos fibrosos permitem que estes materiais se adaptem continuamente às cepas regulares mais desafiadoras. A adaptação acontece particularmente em relação às mudanças de comprimento, força e capacidade de contração.

Não é só a densidade óssea que sofre mudanças, como acontece com astronautas em gravidade zero com ossos que tornam-se mais porosos. (Ingber, 2008). Os tecidos fasciais também reagem aos seus padrões de carregamento dominantes.

Com a ajuda dos fibroblastos, eles lentamente, reagem constantemente à tensão diária, bem como a treinamento específico. Eles remodelam constantemente a disposição de sua rede de fibra colágena (Kjaer et al., 2009).

Por exemplo, com cada ano que passa, metade das fibrilas de colágeno são substituídas em um corpo saudável (Neuberger e Slack, 1953). A extrapolação dessas dinâmicas de renovação exponencialmente predispostas prevê uma substituição esperada de 30% de fibras de colágeno no prazo de 6 meses e de 75% em dois anos.

Curiosamente, os tecidos fasciais dos jovens mostram ondulações mais fortes e chamados de crimpagem – dentro das suas fibras de colágeno, remanescentes de molas elásticas, enquanto que em pessoas mais velhas as fibras aparecem bastante achatadas (Staubesand et al., 1997). A pesquisa confirmou a suposição anteriormente otimista de que o exercício apropriado se aplicado regularmente pode induzir uma arquitetura de colágeno mais jovem, o que mostra um arranjo de fibras mais onduladas (Wood et al., 1988; Jarniven et al., 2002) e que também expressa uma capacidade de armazenamento elástica aumentada significativa. (Reeves et al., 2006; Witvrouw et al., 2007).

No entanto, parece importar que tipo de movimentos de exercício são aplicados: um estudo de exercício controlado com um grupo de mulheres acima de 65 anos que utilizaram contrações de baixa velocidade e baixa carga demonstrou apenas um aumento na força e volume musculares; no entanto, não conseguiram produzir qualquer alteração na capacidade de armazenamento elástico das estruturas colágenas (Kubo et al., 2003). Embora a última resposta possivelmente possa estar também relacionada às diferenças de idade, estudos mais recentes de Arampatzis et al. (2010) confirmaram que, para produzir efeitos de adaptação nos tendões humanos, a magnitude da tensão aplicada deve exceder o valor que ocorre durante as atividades habituais. Esses estudos fornecem evidências da existência de um limiar ou ponto de ajuste na magnitude da deformação aplicada na qual a transmissão do estímulo mecânico influencia a homeostase tensional dos tendões. (Arampatzis et al., 2007).

Conclusão

As pesquisas avançam a passos largos em relação aos treinamentos faciais, porém já nos parece claro, que treinos de moderados a intensos são mais apropriados para a remodelagem fascial, desde que as compressões mecânicas sejam corrigidas.

Melhores do ano: 4 artigos mais lidos sobre cadeias musculares

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As cadeias musculares são importantes para o atendimento, seja no Pilates ou na fisioterapia. Quer aprender mais sobre elas? Confira os 4 artigos mais lidos sobre cadeias musculares desse ano para continuar aprendendo sobre essa parte importante do tratamento.

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1. O que são cadeias musculares e por que você deve conhecê-las? 

cadeias musculares o que sãoCadeias musculares são mencionadas o tempo todo em estudos e nas áreas de pesquisa do movimento. Mesmo assim, existem muitos profissionais que não compreendem completamente a que se refere o termo. É fácil de entender essa confusão, porém não podemos continuar assim.

Aprenda nesse artigo o que realmente são as cadeias musculares. Elas te ajudarão a reabilitar seu aluno tendo uma visão global de seu corpo. Aproveite para conferir todos esses conceitos que te tornarão um profissional mais completo e consciente.

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2. Escoliose: como tratar usando cadeias musculares

escoliose e cadeias muscularesMencionei no tópico anterior que as cadeias musculares te ajudam a realizar tratamentos na fisioterapia e no Pilates. Se você queria alguma prova aqui vai um ótimo exemplo. A escoliose é um desvio da coluna que causa um número enorme de compensações para que o corpo continue se movendo. Ao analisar esse quadro através da ótima de cadeias musculares perceberemos como todo o corpo está sendo afetado pelo desvio.

Aprenda a tratar as escolioses utilizando cadeias musculares e você perceberá que os resultados são muito mais fáceis de perceber.

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3. 3 leis biomecânicas que regem as cadeias musculares

cadeias-musculares-3Não adianta você decorar protocolos prontos de atendimento se não consegue compreender a biomecânica dos movimentos. O mesmo acontece com as cadeias musculares, de nada adianta conhecer informações teóricas se o profissional é incapaz entender as leis biomecânicas que as fazem funcionar.

É exatamente por isso que preparei um infográfico completo sobre as 3 principais leis biomecânicas relacionadas a cadeias musculares. Você pode conferir todas eles nesse artigo.

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4. O papel da fáscia nas cadeias musculares

cadeias-musculares-1Ouvimos falar muito sobre a fáscia na nossa área de atuação. E você sabia que as fáscias também têm tudo a ver com as cadeias musculares? É impossível tratar um aluno sem levar em consideração tanto as cadeias quanto as fáscias.

Nesse artigo você compreenderá a relação entre fáscia e cadeias musculares para trabalhar com seu aluno de maneira completa.

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Como a fáscia influência no movimento

Como a fáscia influência no movimento

A fáscia é um tecido conjuntivo propriamente dito denso, tendo como principal característica ser ininterrupta. Ela circunda e conecta os músculos, estruturas nervosas e viscerais. Ela constitui assim um importante elemento de comunicação mecânica entre os vários sistemas corporais.

Ou seja, desempenha um importante papel na transmissão miofascial de forças (HUIJING, 2009). É um tecido ativo mecanicamente, que possui funções proprioceptivas e nociceptivas. (YAHIA et al. 1992; SCHLEIP et al. 2005; STECCO et al. 2006, 2007, 2008, 2013b; BHATTACHARYA et al. 2010; TESARZ et al. 2011).

A fáscia é descrita como uma rede tensional distribuída ao longo de todo o corpo humano (SCHLEIP & MÜLLER, 2012), gerando um componente de tensegridade. No corpo humano denominamos esse conceito como biotensegridade. A tensegridade é originalmente um elemento da engenharia, onde ocorre a transmissão de força miofascial.

Uma série de congressos internacionais de pesquisa sobre o assunto possui um consenso de que uma estrutura de tecido conectivo denso em camadas é denominada de “fáscia própria”. Entretanto, existem diversas outras estruturas anatômicas de tecido conectivo denso e fibroso que não são denominadas de “fáscia própria”. De qualquer maneira, eles são considerados elementos de uma vasta rede fascial que corroboram com a transmissão de força miofascial (FINDLEY et al., 2007; HUIJING et al., 2009; CHAITOW et al., 2012). Os elementos anatômicos que são englobados nessa rede tensional são:

  • Cápsula de articulações e órgãos;
  • Septos musculares, ligamentos;
  • Retináculos;
  • Aponeuroses;
  • Tendões;
  • Miofáscia;
  • Neurofáscia (SCHLEIP & MÜLLER, 2012)

Tensegridade

A tensegridade é um sistema de arquitetura comumente utilizado para a formação dos sistemas naturais. Os sistemas se auto-estabilizam mecanicamente devido à maneira como forças compressivas tensionais são distribuídas e equilibradas pela estrutura. (INGBER,1998). É um sistema de estabilização onde o componente passivo exerce uma constante tensão sobre o sistema articular. Assim diminui o gasto energético e o controle a nível central (WC, 2015).

Existe uma pré-tensão passiva do tecido conjuntivo que conecta tudo e permite o equilíbrio entre sistemas antagônicos nos 3 planos de movimento, visando a economia de energia. Essas tensões são geradas por:

  • Fibroblastos;
  • Miofibroblastos.
  • Proteínas contráteis;
  • Células musculares livres na matriz extracelular (MEC);
  • Fluxo de líquidos.

As tensões são transmitidas do meio extracelular para o meio intracelular por proteínas de membrana celular chamadas integrinas. Essa tensegridade gera um sistema de compensação onde aumentando a tensão em uma direção automaticamente ocorre diminuição na direção contrária (BERNAROCH, 2006; SPECTOR, 2010).

A inervação das fáscias profundas e superficiais é controlada, principalmente, pelo sistema nervoso autônomo simpático (SNAS). Já as fáscias internas (fáscias viscerais) recebem inervação simpática na sua camada superficial e parassimpática nas camadas mais profundas (serosas). O sistema aferente se constitui por mecanorreceptores (SCHILEIP, 2003), e são gerados principalmente pelos:

  • Fusos intramusculares (perimísio);
  • Órgãos tendinosos de Golgi (junção miotendínea);
  • Corpúsculos de Pacini e Ruffini (controlam a velocidade de movimento);
  • Terminações nervosas livres.

Discussões interessantes sobre pesquisas e descobertas atuais

Para cada aferência proprioceptiva de: fusos musculares, órgãos tendinosos de Golgi (OTG), Passini, Ruffini e terminações nervosas livres que é o receptor mais abundante do corpo são multimodais, ou seja, captam:

  • Alterações térmicas;
  • PH;
  • Alterações químicas;
  • Nociceptores e mecanoceptores (tensões, pressões e cisalhamento).

Nosso corpo envia sete aferências interoceptivas. A interocepção é a função fisiológica do hipotálamo em receber percepções relacionadas ao interior do organismo como:

  • PH;
  • Temperatura;
  • Tensão de fibras musculares lisas;
  • Outros.

Ou seja, o mesmo receptor que leva a informação de dor carrega também outras informações para o SNC.

Novos conceitos sobre o fuso muscular

A maioria dos fusos intramuscular ficam no perimísio (ventre muscular). Segundo Stecco o fuso ajuda a coordenar movimentos em um plano de movimento, movimentos uniplares, seja no plano:

  • Sagital;
  • Frontal;
  • Transversal.

Porém, na maioria das nossas atividades funcionais ocorrem em mais de um plano de movimento. Quem coordena esse movimento multiplanar são as junções músculo-tendinosas. Eles cruzam as articulações do corpo, onde as fáscias mudam de direção. Quem controla essas junções são os órgãos tendinosos de Golgi (OTG), e claro que temos outros receptores funcionando também.

Na verdade, o movimento acontece pelo controle da fáscia (percepções ápticas) que vão se remodelando a todo momento. Porém, isto está sendo modulado pelos fusos e pelos OTGs. O tempo de um entorse, por exemplo, é muito mais rápido, do que a ativação dos músculos fibulares para impedirem que a entorse aconteça. O que acontece portanto, é a remodelação do corpo inteiro para impedir a lesão.

Isso não quer dizer que as propriocepções não estão percebendo esse mecanismo. Toda vez que temos um desarranjo em mais de um plano de movimento, o controle, é mais realizado pelas articulações fasciais. Não somente por elas, mas principalmente pelas articulações fascias, onde cruzam as fáscias permitindo o movimento em mais de uma direção. Mais à frente, explicitarei o que são essas articulações fasciais.

O OTG coordena, em cada plano de movimento, seu agonista e antagonista, logo em três planos de movimento eu tenho 6 fontes vetoriais, ele inibe a contração muscular para a coordenação do movimento.

As fáscias de movimento

camadas musculares e a fásciaNeste artigo discutiremos a última camada da ilustração acima, chamadas de fáscias do movimento, pois envolvem os músculos.

São as fáscias epimisais e as fáscias profundas histologicamente 20% que estão nessas fáscias são proprioceptivos (mielinizados): fuso, OTG, Ruffini e Paccini. E 80% são terminações nervosas livres que também enviam informações proprioceptivas. Porém, essas são multimodais, podendo enviar, inclusive, informações emocionais, do tecido muscular.

Por isso, talvez estejamos muito próximos de entender a conexão mente-corpo e porque as emoções ficam, por vezes, retidas em tecidos periféricos. Por isso além das alterações químicas, o movimento auxilia nas questões emocionais. Logo, movimento com grandes amplitudes é fundamental para melhorar a fluidez de todo esse sistema. Essas terminações nervosas livres estão no músculo, por uma programação biológica, simpática ou parassimpática. Quem faz o corpo reagir a um stress, lutando ou fugindo é o músculo.

Anatomia das Fáscias da Cabeça, pescoço e tronco

Na cabeça possuímos uma camada de fáscia profunda (fáscia do movimento), no pescoço e no tronco temos 3 camadas de fáscia profunda.

A fáscia profunda encontra-se abaixo da: epiderme, derme e a hipoderme, logo abaixo da segunda camada de gordura corporal.

Fáscia profunda

Refere-se às camadas fibrosas densas que interagem com os músculos. Ela conecta diferentes elementos do sistema musculoesquelético e é importante na transmissão de forças. De acordo com sua espessura e relacionamento com os músculos subjacentes, é dividida em:

  • Fáscia aponeurótica (ex. fáscia toracolombar, bainha do reto, fáscia profunda dos membros);
  • Fáscia epimisal (ex. fáscia profunda do tronco).

Fáscia Profunda

Fáscia Epimisal

Nos membros é a fáscia que recobre cada músculo. Por exemplo: Fáscia epimisal do bíceps, do tríceps, do braquial, do deltóide, etc,

No tronco é a fáscia que recobre ou engloba cada músculo. Por exemplo: Fáscia epimisal dos oblíquos abdominais externo e interno, do transverso do abdômen, dos intercostais, grande dorsal, peitoral maior e menor, serrátil anterior e posterior, eretores da espinha, rombóides, etc.

Fáscia Aponeurótica

Nos membros é a fáscia que recobre todo o segmento ou membro. Por exemplo: Fáscia aponeurótica da perna, do pé, do braço, do antebraço, etc.

No tronco é a fáscia que serve de inserção de vários grupos musculares. Por exemplo: Fáscia tóracolombar e bainha do reto-abdominal.

Fáscias do crânio

fáscia do crânioEm contato com os ossos parietal e frontal do crânio temos a fáscia Epicraniana, a fáscia profunda da cabeça. Ela possui uma camada, porém bilaminar, separada por tecido conjuntivo frouxo. A parte laminar profunda está ligada ao periósteo dos ossos: frontal e parietal.

A fáscia Epicraniana vem do frontal, parietal e segue até a linha orbital superior. Quando ela atinge o olho, surge a primeira articulação fascial na parte superior da órbita, pois ela se cruza com a fáscia de Tenon.  Na verdade, ela é a mesma, só mudando seu nome. A fáscia de Tenon envolve:

  • Os seis músculos dos olhos;
  • A bolsa lacrimal;
  • O ducto lacrimal tendo continuidade na dura-máter envolvendo o nervo ótico;
  • O nervo troclear;
  • Abducente;
  • Óculo-motor (II, III, IV, VI pares cranianos).

A fáscia de Tenon envolve todas estruturas que estão dentro da órbita dos olhos.

Acima da sutura do temporal, logo acima da orelha com o parietal, temos uma linha paralela superiormente a essa sutura. Essa linha é a articulação da fáscia epicraniana com a fáscia temporal profunda que no arco do zigomático insere-se a fáscia temporal profunda. Forma mais uma articulação fascial com sua ligação a fáscia massetérica ou fáscia parotidamasseterica, porque envolve também a parótida numa envaginação se relacionando ao nono nervo, o glossofaríngeo. Ele tem a função de controlar a função de amilase, que abraça a mandíbula envolvendo o masseter, aqui temos a articulação fascial com a camada superficial da fáscia profunda do pescoço (no pescoço temos 3 camadas fasciais).

Dentro da boca a fáscia massetérica se comunica com a fáscia pterigoidea. Ela possui uma expansão chamada fáscia interpterigoidea que ajuda na formação da parte posterior da boca. A fáscia cruza de um processo pterigoideo até o pterigoideo contralateral, envolvendo os músculos pterigoideos lateral e medial.

Ainda dentro da boca temos mais uma fáscia que possui continuidade com a fáscia massetérica, anterior ao masseter e posterior ao músculo bucinador. Aí encontramos a fáscia buco-faríngea envolvendo a parte posterior do bucinador. Ela é interligada ao masseter, envolve o músculo constritor superior da faringe, e segue num trajeto descendente formando a camada adventícia do esôfago e da faringe (conecta o músculo bucinador, ao esôfago e a faringe). A fáscia passa atravessando o tórax por detrás do coração emitindo expansões para o pericárdio no nível de T4. Já na parte basilar do occipital insere a fáscia buco faríngea, e para encerrar as fáscias do crânio, a fáscia epicraniana segue até a linha occipital superior, formando mais uma articulação fascial.

As fáscias profundas que são as fáscias do movimento vêm do folheto embrionário da mesoderme.

Fáscias cervicais

No pescoço conforme, já citado temos 3 camadas profundas de fáscia com e camadas bi laminares. Logo no tronco e cervical teremos 6 capas fibrosas para formar essas 3 camadas profundas. Nas fáscias cervicais começarei falando da camada superficial da fáscia profunda (fáscias do movimento). Essa fáscia envolve os músculos esternocleidomastoideo (ECOM) e trapézio. Ela é continua com a fáscia Epicraniana.

Além disso o ECOM emite expansões fasciais para o assoalho da mandíbula, comunicando-se com a fáscia massetérica. Como o ECOM se insere no terço medial da clavícula e esterno, o trapézio insere-se nos dois terços laterais da clavícula, acrômio e na espinha da escapula. Logo a camada superficial insere-se na clavícula e na espinha escapular. Como uma parte do ECOM insere-se na parte anterior da clavícula, porém algumas fibras do ECOM seguem para ter ligação com o peitoral maior, que está na camada superficial da fáscia profunda do tronco. Já o trapézio superior se liga ao trapézio médio e inferior posteriormente.

Já na camada média bi laminar da fáscia profunda, descreverei agora a lâmina superficial da camada média da fáscia profunda que sairão do osso hioideo envolvendo os músculos infra-hioideos inserindo-se uma parte na região posterior da clavícula. Parte dela segue por baixo da clavícula ligando ao músculo subclávio. Essa fáscia também envolve o peitoral menor recebendo o nome de fáscia clavipeitoral (envolve o subclávio e o peitoral menor). Essa fáscia é um segmento da lâmina superficial da camada média da fáscia profunda.

A lâmina profunda da camada média da fáscia profunda encontra-se atrás dos músculos infra-hioideos. Envolve, portanto, tireoide, paratireoide e segue por trás da clavícula. Ela forma os ligamentos suspensores do coração e pulmão:

  • Vertebro pleurais;
  • Vertebro pericárdios;
  • Costo pleurais;
  • Transverso pleurais;
  • Ligamentos do pericárdio.

Portanto, a lâmina superficial é muscular, e a lamina profunda é visceral.

A camada profunda da fáscia profunda no pescoço envolve posteriormente todos os músculos profundos:

  • Reto da cabeça;
  • Reto do pescoço;
  • Reto anterior;
  • Reto lateral;
  • Reto posterior maior e menor;
  • Oblíquos superior e inferior;
  • Esplênios;
  • Semi espinhal da cabeça e do pescoço.

A frente do corpo vertebral cervical temos o gânglio cervical superior (simpático) se ligando posteriormente ao ligamento nucal da base do crânio até T4. Anteriormente as vértebras cervicais as 3 camadas juntam-se para envolver as estruturas corporais nobres: artéria carótida, veia jugular e nervo vago são envolvidas pela bainha carotídea.

Na altura da cervical média as bainhas carotídeas esquerda e direita se ligam através da fáscia alar. Elas se unem para comunicações sensitivas, o nervo glossofaríngeo é o responsável por levar informações do controle de oxigênio sanguíneo para o cérebro e da pressão dos vasos.

O glossofaríngeo se comunica com o vago que segue até o coração controlando-o. Além disso, temos uma comunicação da fáscia cervical profunda da camada profunda através da fáscia buco faríngea. Entre essas duas fáscias temos um espaço retro faríngeo para o alimento descer para o estomago. Além disso, a camada profunda da fáscia profunda no pescoço envolve também o escaleno. Ele se insere na primeira e segunda costela, sendo continuo com os intercostais.

A camada superficial da fáscia profunda envolve o trapézio e o ECOM, tendo continuidade com o peitoral maior que se insere na clavícula, esterno e costelas. No esterno parte de sua fáscia segue para o lado contrário envolvendo o peitoral contralateral. A outra parte costal tem continuidade com o músculo oblíquo esterno. Por detrás do tronco a camada superficial da fáscia profunda o trapézio se liga ao grande dorsal, inserindo-se na fáscia toraco-lombar, ombro e crista ilíaca.

A camada média da fáscia profunda em sua lâmina superficial sai do hioideo envolvendo os infra-hioideos passando pela clavícula, envolvendo o subclávio e o peitoral menor que se insere nas 3, 4, 5 e em alguns casos 6 costelas. Ele se comunica com o oblíquo interno e o serrátil anterior, unindo a bainha do reto abdominal. O reto abdominal está em todas camadas, que se junta para forma-lo, na linha alba.

Na região posterior do tronco o serrátil anterior envolve todos os músculos da escápula que se comunica com os romboides.  Liga esse segmento fascial ao ligamento nucal e os ligamentos inter e supra espinhais. A camada média da fáscia profunda do tronco envolve o serrátil póstero-superior e o serrátil póstero-inferior.

A camada profunda da fáscia profunda envolve as fáscias cervicais e tem continuidade com os intercostais e transverso abdominal. A folha profunda dos intercostais está em contato com a cavidade torácica, fundindo-se com a pleura parietal. Ele forma a fáscia endo-torácica para garantir nossa fonação e respiração ao mesmo tempo. Já no abdômen essa ligação não acontece a fáscia transversalis não tem ligação do peritônio parietal com a fáscia muscular mais interna.

No abdômen o oblíquo externo está localizado na camada superficial da fáscia profunda, o oblíquo interno na camada média da fáscia profunda e o transverso abdominal na camada profunda da fáscia profunda. Essas três fáscias se unem para formar a bainha do reto do abdômen.

A capa que envolve o oblíquo interno cruza-se para o lado contralateral, cruzando a bainha do reto abdominal para envolver o músculo oblíquo externo. Isto ocorre, pois, o tendão segue a linha de tensão do músculo para transmitir as tensões musculares. Como as fibras têm outra direção é chamada de aponeurose do oblíquo externo. A função das aponeuroses não é a transmissão de forças, mas sim organizar movimentos.

Na região posterior do tronco os trapézios (superior, médio e inferior) se conectam com o músculo grande dorsal ligando-se a fáscia tóraco-lombar para se conectar ao glúteo do lado oposto.

Temos ainda uma coluna interna no corpo que forma seu pilar de sustentação chamado de tendão central que envolve o:

  • Cérebro;
  • Encéfalo;
  • Medula.

Através da dura mater o tendão central se conecta com a camada profunda da fáscia profunda e com a camada média da fáscia profunda da cervical. Juntas, elas envolvem as estruturas cervicais chegando até:

  • Pericárdio;
  • Pleura;
  • Diafragma;
  • Psoas que se encontra posteriormente;
  • Peritônio.

Chega até as fáscias do assoalho pélvico, encerrando o tendão central. Logo o tendão central é formado pela camada media da fáscia profunda e camada profunda da fáscia profunda.

Conclusão

Como vimos a fáscia e única e emite expansões para todos os planos, sentidos, direções em diferentes continuações que se engendram para as vísceras, ossos, sistema nervoso e todos os tecidos corporais, impossível pensarmos em fáscia sem antes entendermos suas conexões anatômicas.

Bibliografia

Functional Atlas of the Human Fascial System

-CARLA STECCO MD Orthopaedic Surgeon; Professor of Human Anatomy and Movement Science, University of Padua, Italy English Language Editor Warren Hammer DC MS Postgraduate Faculty, New York Chiropractic College, NY, and Northwestern Health Sciences University, Bloomington, MN, USA Forewords by Andry Vleeming PhD Professor, Department of Anatomy, Center of Excellence in Neuroscience, University of New England, Maine, USA; Professor, Department of Rehabilitation and Kinesiotherapy, University of Ghent, Belgium; Program Chairman, World Congress Lumbopelvic Pain Raffaele De Caro MD Full Professor of Human Anatomy, Director, Institute of Human Anatomy, Department of Molecular Medicine, University of Padua, Italy; President, Italian College of Anatomists

– Leonardo Sette Vieira ABF- Academia Brasileira de Fascias

As cadeias musculares aplicadas à musculação: uma visão holística

As cadeias musculares aplicadas à musculação: uma visão holística

Por muito tempo uma ideia reducionista foi propagada. Imaginava-se que o fator causal de uma disfunção musculoesquelética ou a chave para preveni-la seria um músculo específico, o “músculo chave”. Porém, novas pesquisas vêm à tona o tempo todo mostrando que não é bem dessa maneira.

E isso se aplica principalmente a cadeias musculares. Segundo Madame Meziérès as cadeias são o conjunto de músculos pluriarticulares de mesmo sentido e direção que se comportam como um único músculo. Elas se recobrem como se fossem telhas de um telhado. Se você reparar bem, esse conceito já faz cair por terra muitas visões reducionistas que temos por aí. É claro que não podemos descartá-las por completo, mas elas não podem ser determinantes.

Tudo tem início com a ação de uma musculatura. Essa força tende a se propagar por toda a cadeia muscular. Para ter essa visão mais global do comportamento biomecânico do organismo precisamos compreender primeiro a ação cinesiológica desse determinado músculo.

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Madame Godeliève Denys Struyf acreditava que o indivíduo se estrutura sobre a sua história de vida. As Cadeias Musculares irão se moldar ao indivíduo de acordo com suas necessidades de expressão corporal. Madame Godeliève acreditava que nosso corpo poderia se modelar através de questões psicofísicas, comportamentais, idiossincráticas que aquele determinado indivíduo demonstrava durante a sua vida.

Podemos dizer que GDS (Godeliève Denys Struyf) revolucionou a forma de avaliar o nosso aluno ou paciente. Ela mostrou que o nosso corpo como um todo “tem memória”. Os acontecimentos que ocorreram em um passado distante, ou não, pode ter afetado de forma a gerar desarranjos biomecânicos naquele corpo. Isso é fantástico!

Segundo Léopold Busquet, as Cadeias Musculares são circuitos anatômicos que circulam o corpo através das forças organizadoras. Tom Mayers descreve como trilhos anatômicos. Mas vocês devem estar se perguntando agora, o que isso tudo tem a ver com globalidade? O que de fato faz com que todos esses músculos, ou cadeias musculares se relacionem e trabalhem em igualdade, conjuntas, em determinados planos, eixos e movimentações? Pois aí eu lhes respondo, todo esse sistema é engendrado por um tecido conjuntivo, mais conhecido como, fáscia.

“O termo “fáscia” representa o tecido conjuntivo membranoso, um verdadeiro esqueleto fibroso que inclui o tecido muscular e funciona como peça única”. Marcel Bienfait.

Qual é o verdadeiro papel da fáscia?

papel das cadeias musculares na musculação

Por muito tempo se pensou que, a fáscia era um tecido que recobria apenas um músculo. Ou seja, cada músculo era recoberto por uma fáscia. Porém com a publicação de novas pesquisas, descobrimos que isso é uma inverdade. Hoje sabemos que a fáscia, é um tecido que recobre todo nosso sistema profundo (todas as nossas vísceras) como também nossa camada fisiológica mais superficial (músculos, ossos, ligamentos, tendões, nervos, vasos, etc.)

Agora peço a todos meus leitores que, pensemos juntos na seguinte linha de raciocínio: uma musculatura usada excessivamente está ligada a fáscia, que dá ao sistema músculo esquelético biotensegridade ao nosso corpo. Essa tensão que ocorreu nesse determinado músculo, não irá desencadear tensões bioelétricas ou cargas de piezeletricidade por toda a cadeia muscular?

Agora pensemos o que aconteceria se todo profissional de movimento tivesse os seguintes conhecimentos:

  • Tiver o conhecimento e ciência dessas cadeias;
  • Entender de fato o caminho e por onde essas “linhas de tração” percorrem.

Com esses conhecimentos os profissionais poderão reabilitar e avaliar de forma mais fidedigna para o aluno ou paciente? Se lembrarmos da biomecânica básica, entenderemos que um músculo com tensões hiperativas não é um músculo forte. Na verdade, é um músculo que não trabalha de forma adequada pensando na sua curva de comprimento-tensão biomecânica. Assim, ele desencadeia tensões distribuídas por toda a cadeia muscular. Nossa faz perfeitamente o papel de engendrar e por isso essas tensões são desencadeadas. Apagar tudo

Thomas Myers descreve isso perfeitamente em seu livro “trilhos anatômicos”: “quando o estresse passa por um material, ele acaba deformando-o, nem que seja apenas um pouco, por isso ‘estica’ as ligações entre as moléculas. Nos materiais biológicos, entre outros, isso cria um ligeiro fluxo elétrico através do material conhecido como carga piezelétrica (pressão). Essa carga, representativa da tensão através do tecido, pode ser ‘lida’ pelas células vizinhas da carga, e as células do tecido conjuntivo são capazes de responder aumentando, reduzindo ou alternando os elementos intracelulares na área”.

Isso é muito interessante pois, com esse pensamento, já podemos começar a imaginar que tensões geradas em um local podem desencadear consequências longes daquela zona que está sofrendo. Ou seja, a causa de todo o problema. A biotensegridade corporal é o termo que designa a explicar qualquer força externa que atue sobre o corpo. Este é um sistema único de tensão que pode alterar qualquer estrutura corporal como se fosse uma rede mesmo à distância como uma rede única de tensão. E a fáscia que permite a continuidade de forças existentes nas Cadeias Musculares.

Pesquisas recentes apontam para uma nova propriedade da fáscia que é a de se contrair sozinha, sem ação muscular. O terapeuta Robert Schliep, licenciado em psicologia, juntou-se ao neurofisiologista Heike Jaeger e desde 2003 na Universidade de Ulm e montaram um laboratório de estudo fascial. Lá descobriram que o estresse pode contrair a fáscia sem os músculos, através do SNC ativando uma parasimpaticonia Os pesquisadores estudam ainda a possibilidade de a fáscia possuir seus próprios receptores e já descobriram que a fáscia é portadora de mecanorreceptores.Apagar o que esta em vermelho

Por que nossos músculos tendem a entrar em hiperatividade?

cadeias musculares na musculação e hiperatividade dos músculos

O tecido conjuntivo é formado logicamente por células conjuntivas, os blastos.  Segundo Marcel Bienfait (1995), os blastos em sua fisiologia produzem a secreção de duas proteínas de constituição: o colágeno e a elastina. Porém, além dessas substâncias o tecido fascial é formado por um composto denominado de substância fundamental, que é uma espécie de gel viscoso (daí já podemos começar a imaginar que esse composto ajuda na lubrificação ou hidratação local) além de água, eletrólitos e proteínas multi adesivas.

Entendamos o seguinte contexto de que, teoricamente não existe a estática. A nossa estática está baseada em um desequilíbrio anterior, ora, todos os nossos movimentos são baseados em um movimento levando-nos à anterioridade. A maioria de nossas vísceras se localizam na região anterior, alguém já viu alguma pessoa que anda para trás? Já viram alguém estender uma roupa no varal por trás? Um simples aperto de mão? Quase 100% de nossos movimentos são baseados na anterioridade.

Então seria loucura concordar que, se todos os nossos movimentos são baseados em uma anterioridade. Vai existir sempre um conjunto de musculaturas que irá estar trabalhando de forma excêntrica? Faço a seguinte pergunta a todos vocês quantas pessoas têm tensões exacerbadas em trapézio? Eretores espinhais? Grande dorsal? Já se perguntaram por que? Fica aí esse questionamento e raciocínio a todos.

Voltando à nossa substância fundamental, esse componente serve para promover uma hidratação adequada em nosso tecido fascial e consequentemente em todo nosso tecido musculoesquelético. Inclui o colágeno quanto a substância fundamental, em um corpo livre de tensões. A tendência é que esses componentes estejam distribuídos de forma igualitária.

Porém, como já falamos, nossa estática é baseada em um desequilíbrio anterior. Na maioria das vezes infelizmente ou felizmente, poderemos encontrar essa musculatura extremamente tensa, trabalhando de forma exacerbada para nos equilibrarmos em nosso polígono de sustentação. Por um lado, isso é bom, porém a partir daí começam a ocorrer alguns problemas. Principalmente quando vamos analisar a distribuição desses compostos (colágeno x substância fundamental).

Em um corpo cheio de tensões, poderemos muitas vezes encontrar uma musculatura rígida. Vamos raciocinar novamente, hoje muito se fala em “stiffness” de uma musculatura. Isso desencadeia uma inibição recíproca na musculatura antagônica, isso ocorre muitas vezes na comparação de uma musculatura fásica (produtora de força, fibras brancas) e uma musculatura tônica (músculos anti-gravitacionais, prioritariamente fibras oxidativas). Porém temos que analisar que, estamos tratando recentemente a reabilitação de forma global, e não em uma visão tão mecanicista ou reducionista.

Sendo assim, será mesmo se um músculo entra em hiperatividade e inibe reciprocamente uma musculatura. Seriam as cadeias que contraem em excentricidade para “segurar” nosso corpo diante de um movimento? Seria mais coerente pensarmos dessa forma, não acham?

O que deveria ocorrer de fato era esse conjunto de músculos (cadeia) a partir de um movimento, se alongar segurando a movimentação em excentricidade e logo depois relaxar. Porém em um corpo que não é livre de tensões, isso não ocorre. A consequência é aquela determinada cadeia “adoecer”, começar um processo de hiperatividade. Como consequência a perda local de substância fundamental e o depósito (uma espécie de retroalimentação) de colágeno, tende a deixar aquela cadeia mais rígida e daí começar a criar os incômodos pontos gatilhos ou pontos de tensões musculares.

É isso que mais vemos em nossa cadeia posterior. Repito novamente, praticamente todos os nossos movimentos são provindos de uma anterioridade. Podemos afirmar que os músculos tônicos, deveriam trabalhar em rajadas, contrair-se para reequilibra-nos e logo depois se relaxar. Caso isso não aconteça o tecido se tornará mais denso e rígido, adoecendo.

As cadeias musculares

como funcionam as cadeias musculares na musculação

Podemos dizer que as cadeias musculares são uma espécie de circuito de forças que circundam todo o nosso corpo. Assim, transmite tensões através da fáscia.

Tudo começou com Madame Meziérès que nasceu em 1909 em Hanoy. Em 1937 ela formou-se em fisioterapia pela Escolei Francoise d Ortopedie. Ensinou seu método a mais de 1500 fisioterapeutas (onde alguns deles citaremos aqui nesse artigo. Alguns têm métodos que são mais utilizados e outros nem tanto. O Método das Cadeias Musculares foi lançado em um postulado em 1947. Madame Meziérès era pura prática e tinha dons de observação fora da curva habitual, por isso encontramos pouca literatura e escritos autorais da mesma.

Seu método nasceu durante um atendimento, onde ela estava tratando de uma paciente hipercifótica. Ao retirar o colete de estabilização dessa paciente e tentou mobilizar sua cifose em decúbito dorsal. Ela notou que ao posicionar melhor sua torácica na maca sua lombar realizou uma anteversão. Por isso, solicitou então uma retroversão ativa pela paciente. Ao realizá-la, a paciente gerou uma hiperextensão cervical, solicitou então um crescimento axial ativo de sua paciente. Assim ela a levou a um bloqueio respiratório, nesse momento um universo se abriu na mente de Madame Meziérès. Isso possibilitou que ela chegasse às seguintes conclusões.

Meziérès concluiu então que a sua paciente possuía tal rigidez muscular. Seus segmentos haviam perdido a autonomia individual a ponto de que quando fosse solicitado uma correção local de cada segmento individualmente, para essa paciente era impossível sem o comprometimento de todo o sistema.

Depois disso Mezièrès definiu algumas leis que hoje já caíram por terra. Algumas delas são que só existiam lordoses. Hoje sabemos que são existem apenas essas curvaturas e em outra lei ela dizia que: Essa musculatura da Cadeia Muscular Posterior (cadeia de músculos que realiza a extensão do tronco) é sempre forte demais, potente demais e curta demais, pois está sempre em contração contra a gravidade.

A Cadeia Muscular Posterior funcionalmente é estática (tônica) e de controle neural inconsciente, feita para a sustentação gravitacional. Porém, sabemos que se uma cadeia é curta demais, ela consequentemente não deverá ser forte demais. Lembremos novamente da biomecânica de comprimento-tensão da nossa musculatura. Se um músculo está curto demais, ele provavelmente está em insuficiência ativa perdendo assim a capacidade de produzir força para vencer uma determinada resistência.

Porém Madame Françoise Mezièrès contribuiu demais para essa nova visão de avaliação e reabilitação de uma forma global. É assim que na verdade tem que ser, e se hoje as pesquisas sobre fáscia estão avançadas, com certeza ela contribuiu generosamente para isto.

Como foi falado anteriormente, Madame Françoise Mezièrès formou cerca de 1.500 fisioterapeutas, sendo os principais:

  • Marcel Bienfait;
  • Madame Thérèse Bertherat;
  • Phiipe Souchard com seu método de Reeducação Postural Global (RPG);
  • Outros.

Aplicabilidade das cadeias musculares na musculação

aplicabilidade das cadeias musculares na musculação

Fora esses fisioterapeutas citados acima, como sabemos Madame Françoise Mezièrès formou muitos outros. Porém, três eu quero citar aqui, pois vemos que são os cadeístas mais utilizados para uma fidedigna avaliação postural e prescrição de exercícios na musculação.

Porém jamais devemos negligenciar os outros cadeístas. Digo que, muitas pessoas os utilizam para terem um norte em sua avaliação e tem sucesso. Porém nesse texto irei relatar à vocês as cadeias de Leopold Busquet, Madame Goledieve Denys Struyf e por último mas não menos importante, Thomas Myers.

Antes de mais nada é importante salientar que o sucesso de um começo de tratamento para reabilitação proporcionado pelas cadeias musculares (o qual não é o único método) depende de uma avaliação. Costuma-se falar que o difícil não é tratar, mas sim avaliar. Se ocorrer um erro na sua avaliação, você com certeza está fadado ao fracasso em seu programa de reabilitação postural.

Outro fator que temos que ter em mente é que o tratamento com as cadeias serve até certo ponto. Depois dele, devemos com o nosso tratamento devolver o indivíduo para continuar realizando suas AVDs normalmente e alinhados biomecanicamente para realizar o seu treinamento.

Madame Godelieve Denys Struyf

Essa fisioterapeuta e osteopata revolucionou a forma de avaliar através das cadeias musculares. A partir daí, desenvolveu um conjunto de posturas designativas de estados psicofísicos, personalísticos específicos e idiossincráticos.

Cadeia AM (Ântero mediana): é composta pelo:

  • Períneo;
  • Reto abdominal;
  • Peitoral maior;
  • Triangular do esterno;
  • Esternocleidomastoideo;
  • Hioideos e músculos da estrutura bucal.

São os músculos responsáveis pelo enrolamento do tronco. O indivíduo apresentará o corpo inclinado para trás, cabeça em protrusão com apoio nos calcanhares.

As cadeias musculares de AM são responsáveis pelo bom posicionamento feito na ancoragem de T8. A Cadeia Muscular AM está ligada a:

  • Afetividade;
  • Necessidade de ser amado;
  • Necessidade de toque essencial para a construção do Ego e da consciência corporal.

Comportar-se em AM é viver em espera, constrói suas decisões do futuro com base nas suas aquisições do passado e a busca pela mãe.

Agora vocês devem estar se perguntando: mas e aí!? Qual a aplicabilidade dessas cadeias musculares enquanto o meu desenvolvimento de performance na musculação? Imaginem que um indivíduo apresente essa cadeia AM em tensão. Essa cadeia não realiza o enrolamento do tronco? Quais consequências negativas esse desarranjo biomecânico poderia ocasionar durante a prática da musculação? Inúmeros!

Se um indivíduo apresentar a tensão dessa a cadeia, provavelmente o mesmo apresentará uma discinese escapular. O peitoral maior faz parte dessa cadeia, e sabemos que esse músculo em tensão ocasionará um tilte anterior da escápula. Assim, aumentam as chances assim de uma síndrome do impacto. Isso ocasionaria com toda a certeza uma síndrome cruzada de ombros, onde temos a hiperatividade de peitoral menor e trapézio descendente com inibição de:

  • Trapézio inferior;
  • Romboides;
  • Serrátil;
  • Músculos profundos cervicais.

Nessas condições pode ocorrer um pinçamento constante nos tecidos moles que passam pelo espaço sub-acromial, ocasionando dores e consequentemente limitando o indivíduo até mesmo para suas AVDs. Por isso o conhecimento de cadeias é tão importante quando vamos avaliar o indivíduo. Elas ajudam a consequentemente entender o que se passa em seu corpo, suas tensões para poder montar o seu treino da forma mais eficaz possível.

Lembrem-se que, a avaliação por cadeias é apenas um método para identificar disfunções no corpo daquele indivíduo. Também pode ser um preditivo para poder entender o que devemos relaxar (tenso) e o que temos que fortalecer (inibido).

Podendo então melhorar a postura do aluno para que ele consiga através do treino dele desempenhar o melhor movimento possível. Ele deve realizá-lo sem ou quase sem apresentar inúmeras compensações. Óbvio que, uma melhora estética, simétrica, deve ser notada quando o trabalho com cadeias musculares é proposto com qualidade.

Quando pensamos na cadeia PM (póstero mediana) também pensamos da mesma forma. Porém agora sabemos que teoricamente teremos à nossa frente um indivíduo mais retificado principalmente à nível de tronco. Daí já temos que raciocinar que existe uma cadeia teoricamente sob tensão.

Leopold Busquet

 Em minha opinião esse é um dos cadeístas que conseguimos colocar mais em prática todo o seu conhecimento relacionado às cadeias. Para Busquet as fáscias ligam as vísceras ao sistema musculoesquelético. Elas não permitem serem alongadas, mas sim relaxadas.

Sendo assim uma disfunção musculoesquelética compromete alguma das funções viscerais, ou vice-versa. Ele denomina isso da relação contentor (músculos, articulações e ossos) conteúdo (vísceras e tensões cranianas) trabalham a serviço da fáscia.

Para Busquet as fáscias ligam as vísceras ao sistema musculoesquelético. Elas não permitem serem alongadas, mas sim relaxadas. Sendo assim uma disfunção musculoesquelética compromete alguma das funções viscerais, ou vice-versa, o que ele denomina da relação contentor (músculos, articulações e ossos) conteúdo (vísceras e tensões cranianas) trabalham a serviço da fáscia. Agora vocês devem estar se perguntando: poxa, mas são tantos cadeístas, quais eu sigo? Calma que você vai clarear sua mente um pouco mais agora.

Como aplicar os cadeístas na prática

como aplicar os cadeístas na prática

Algumas cadeias de alguns estudiosos cadeístas, acabam que sendo a mesma. Isso mesmo, o mesmo trajeto, como é por exemplo a cadeia AM de Godelieve e a cadeia de fechamento do tronco de Busquet. Entendam que, apenas o nome muda, mas o trajeto e os músculos são os mesmos. Os movimentos em nosso corpo também são os mesmos.

Porém não para por aí, essa cadeia AM de Godelieve e a cadeia de fechamento do tronco de Busquet não terminam na pelve. Elas fazem tanto o enrolamento ou flexão da coluna cervical, e vão descendo e realizando flexão em todas as articulações.

Flexão de quadril, joelho, flexão de tornozelo e dedos. Ou seja, dependendo da situação, podemos tratar o enrolamento do tronco que teoricamente limitaria uma abdução glenoumeral começando a relaxar a cadeia pelo membro inferior e vice-versa.

Busquet tem mais cadeias além da cadeia de fechamento do tronco, as demais são:

  • Cadeia de extensão;
  • Cadeia cruzada anterior à direita;
  • Cadeia cruzada anterior à esquerda;
  • Cadeia cruzada posterior à esquerda;
  • Cadeia cruzada posterior à direita;
  • Cadeia estática;
  • Cadeia visceral;
  • Cadeia neuromeníngea.

Apesar dessas muitas cadeias, iremos falar apenas de mais uma, que é a cadeia de extensão, dita assim por Busquet, ou cadeia PM (póstero-mediana) colocada assim por Godelieve. Novamente, apesar de nomes diferentes são o mesmo segmento de linha muscular que percorre nosso corpo nesse sentido longitudinal. Ela passa pela região posterior do tronco, cruzando anteriormente pelo quadríceps, posteriormente pelo sóleo, arco plantar e se inserindo logo acima dos dedos, para extendê-los.

Uma das alterações que essa cadeia em tensão pode desencadear é a hiperlordose lombar. Nesse caso, teremos quadrados lombares tensos levando a pelve à anterioridade. Assim, aumentamos a nossa curvatura lombar, e consequentemente aumentando o cisalhamento principalmente em L4-L5 e L5-S1.

Na pelve essa alteração desencadeará o que chamamos de síndrome cruzada da pelve. Teremos a inibição glúteo máximo e abdômen e hiperatividade de quadrados lombares e iliopsoas, segundo Vladimir Janda.

Uma das alterações que essa cadeia em tensão pode estar ligada é a amnésia glútea (pois teremos um glúteo fortemente inibido fazendo com que essa pelve incline-se anteriormente). Novamente vocês devem estar se perguntando: mas o glúteo máximo não faz parte da cadeia de extensão? Então… exatamente por isso que ocorre a inibição do mesmo. Lembremos que, músculo tenso é músculo fraco, que não trabalha adequadamente em sua curva de comprimento tensão.

Thomas W. Myers

Thomas é na opinião de muitos, um dos estudiosos que mais cai em contradição em suas linhas. O mesmo as chama de trilhos anatômicos em seu livro. Porém existe uma aplicabilidade dessas linhas de Thomas quando pensamos em correção postural e simetria de hemicorpos. Uma dessas linhas de Thomas são as linha do braço, chamadas por ele de:

  • Linha superficial anterior do braço (LSAB);
  • Linha profunda anterior do braço (LPAB);
  • Linha profunda posterior do braço (LPPB);
  • Linha superficial posterior do braço (LSPB).

Pois para (Thomas, 2014), os padrões comuns de compensação postural associados às Linhas do Braço provocam todos os tipos de problemas no ombro, bem como problemas no braço e na mão. Geralmente eles envolvem ombros que estão sendo protraídos, retraídos, levantados ou “curvados” (rotação medial e inclinação anterior da escápula).

A Linha Superficial Anterior do Braço (LSAB) encontra-se então na parte anterior do seu braço:

  • Músculos palmares;
  • Flexores inferiores do braço;
  • Septo intermuscular do peitoral maior.

A Linha Superficial Posterior do Braço (LSPB) encontra-se ao longo da parte posterior do braço:

  • Trapézio;
  • Deltóide;
  • Septo intermuscular lateral;
  • Extensores.

A Linha Profunda Anterior do Braço (LPAB) encontra-se ao longo da parte anterior:

  • Músculos de eminência tenar;
  • Rádio;
  • Bíceps;
  • Peitoral menor (sob o maior).

A Linha Profunda Posterior do Braço (LPPB braço):

  • Músculos de eminência hipotênar;
  • Ulna;
  • Tríceps;
  • Manguito rotador;
  • Romboides (sob o trapézio);
  • Levantador da escápula.

A LPAB é principalmente uma linha de estabilização. Em termos de músculos, começa nas faces anteriores costais com o músculo peitoral menor, músculos qual, cursa sob o peitoral maior. Dois músculos que continuam a partir daí são, a cabeça curta do bíceps braquial e o coracobraquial.

Há claramente uma continuidade miofascial entre o peitoral menor e esses dois músculos mais distais. Segundo (Thomas, 2014) um excessivo encurtamento nessa unidade miofascial pode afetar negativamente:

  • Respiração;
  • Postura do pescoço e da cabeça;
  • Funcionamento adequado do ombro.

Imaginem que durante um movimento de supino para peitorais, onde realizaremos o movimento de adução no plano transverso, geralmente o que se observa é que o braço que está com a LPAB tensa. Tende a ir mais acima em relação ao outro braço. Agora imaginem esse aluno realizando tal exercício com a barra, nitidamente vocês poderão perceber a barra de um lado mais alto em relação ao outro. A mesma coisa será percebida quando o aluno realizar o mesmo exercício com halter.

Lembre-se que, um dos músculos chave dessa linha fascial é o peitoral menor. Esse músculo tem sua inserção distal no processo coracóide da escápula e inserção proximal em 3ª, 4ª e 5ª costela.

Quando essa musculatura se encontra tensa ela tende a tracionar inferiormente a cintura escapular a partir do acrômio. Isso ocasiona um tilte anterior de escápula e consequentemente uma síndrome do impacto (chances altas, além também da rotação interna do úmero (glenoumeral), retirando nitidamente a estética do músculo peitoral maior (que é um músculo estético).

Conclusão

Entendamos que, o olhar deve ser global-local-global. Ou seja, temos que avaliar nosso aluno sempre de forma global. Levemos em consideração a fáscia que é responsável por toda coligação entre nossos sistemas. Encontrar a causa chave ou zona alvo daquela disfunção, liberando-a de tensões para só então, tornar nosso cliente globalmente funcional para realizar suas AVDs. Treinamentos (quaisquer que sejam), sendo que não podemos esquecer que, o trabalho de cadeias ou qualquer que seja para alívio da dor e realinhamento postural é de certa forma “limitado”. Essa é a primeira parte de todo o trabalho que deve ser feito em seu aluno. Posteriormente os alunos têm que ser treinados para performance, independente se não relativamente ativos ou atletas. Todos têm que ser treinados da mesma maneira, óbvio que com suas adequadas progressões de carga e periodização específica. Bons estudos!

Autores: Janaína Cintas e Rafael Danilo

Faculdade: Instituto de Ensino Superior Múltiplo (IESM)

Período: 5/6

Experiência: Academia Ricardo Paraguassu (unidade Sintufpi)

Estagiário Janaína Cintas Cursos

Cadeias musculares de Madame Mézières e Philippe Souchard

Cadeias musculares de Madame Mézières e Philippe Souchard

A osteopatia já estudava a unicidade do corpo antes do século XX pelos médicos. Mas, para nós fisioterapeutas Mademoiselle Francoise Mézières foi a grande precursora das cadeias musculares. Nasceu em 1909 em Hanói no Vietnã, e em 1937 se diplomou fisioterapeuta pela escola francesa Escolei Francoise d’ Orthopedie. Desenvolveu e ensinou seu método exclusivamente para fisioterapeutas, por volta de 1947,  quando lançou um postulado de Revolução Da Ginástica Ortopédica. Ela faleceu em 1991.

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Therése Bertherat, sua principal discípula, dizia que madame Mézières era uma mulher com dons de observação fora da curva habitual. Madame Mézières influenciou vários alunos, que mais tarde acabaram desenvolvendo seus próprios métodos, dentre eles:

Método das cadeias musculares

métodos das cadeias musculares de madame mézièresEm 1947, nascia na Franca a técnica proposta por Mademoiselle Francoise Mezières, através de suas observações clinicas, o método das Cadeias Musculares.

Como a maioria das teorias, a de madame Mézières também nasceu de um insight durante um atendimento. Com sua percepção aguçada começou  a atender uma paciente para tratamento de uma cifose dorsal, paciente esta que fazia uso frequente de um colete estabilizador. A partir daí observou que ao tentar mobilizar a região dorsal gerou como resultado uma compensação nos ombros (enrolamento) que não estavam sendo manipulados.

A terapeuta então solicitou uma retroversão ativa da paciente para diminuição de sua lordose lombar. Isso gerou o aumento da lordose cervical, então solicitou que a paciente corrigisse o posicionamento cervical através de um auto crescimento ativo, o que gerou um bloqueio inspiratório em sua paciente.

Mézières conclui então que a paciente possuía tal rigidez muscular que seus segmentos perderam sua autonomia individual, e que quando lhe foi solicitado a correção local de cada segmento, esse tornou-se impossível de realizar sem o comprometimento de todo o sistema, aumentando as lordoses por encurtamento.

Dessa constatação surgem suas primeiras leis:

Primeira Lei de Mézières

Existem somente lordoses. Sendo assim, o crédito de comprimento ganhado nesta cadeia pode ser enganoso, pois é sempre recuperado em alguma extremidade.

Segunda Lei de Mézières

A cadeia posterior comporta-se como um único músculo. O que ordena os demais músculos a trabalharem de forma a seguir os seus mandatos. Já existem outros cadeistas que discordam de uma cadeia posterior única.

Terceira Lei de Mézières

Esta musculatura é sempre forte demais, curta demais, potente demais. Para ela, a cadeia muscular posterior seria:

  • Dominante;
  • Estruturalmente profunda e multiarticular;
  • Funcionalmente estática (tônica);
  • De controle neurológico central inconsciente;
  • Estruturada para um trabalho de sustentação antigravitacional.

Hoje sabemos, que aí temos uma contradição mecânica. Um músculo curto, jamais terá potência e força, pela curva de comprimento X tensão.

Quarta Lei de Mézières

Um tratamento global dessa cadeia só poderá ser feito se contermos todas as compensações. Particularmente, acredito que se trabalharmos na liberação das tensões corporais o resultado motor será melhor, do que contermos as compensações.

Quinta Lei de Mézières

Cada cadeia deve aceitar a postura excêntrica. Para além da cadeia posterior, existe também um conjunto de cadeias sinérgicas a posterior. Porque ela acreditava que a cadeia posterior não se cruzava no corpo.

Sexta Lei Mézières

Um esforço muscular pode gerar um bloqueio na respiração.

A partir dessas observações, madame Mézières afirmava que a questão não estava na fraqueza dos músculos posteriores, mas sim em sua força excessiva. Logo, o tratamento estava baseado em soltar os músculos posteriores para libertar as vértebras de seu arco côncavo. Lembrem-se que madame Mézières só aceitava as lordoses.

Nova proposta

proposta de mézièresA nova proposta de madame Mezières se pautava em sua primeira observação de que cada vez que tentava diminuir uma curvatura do eixo vertebral, a curva ou compensação se deslocava para outro seguimento. Surgindo então o conceito da globalidade. O tratamento se baseava em posturas excêntricas mantidas durante longo tempo, corrigidas de maneira ativa. Enquanto o paciente estava em postura lhe era solicitado uma sucessão de inspirações e expirações forçadas, com expirações lentas e prolongadas, sem apneia e com a insuflação do ventre.

Na tentativa de alongar os pilares diafragmáticos, acreditava que assim devolveria a fluência dos músculos por dilaceração do tecido conjuntivo e estimularia o efeito de memória pelo prolongamento da postura. Sempre seria importante evitar a rotação interna dos membros. Dois anos mais tarde publicou a “Revolução na Ginástica Ortopédica”, na França. A publicação afirmava que as lordoses participam da origem de todas as deformações, pois estas estão presentes devido a compensações musculares causadas pelas lordoses.

Cadeia muscular posterior

Madame Mezières criou um método de reeducação postural, que parte do princípio de que temos músculos posteriores mais potentes do que os anteriores, e que esses músculos trabalham de uma forma contínua. A esse cadeia deu o nome de Cadeia Muscular posterior.

Ela afirmava que só existem lordoses e que todos os desvios de postura seriam causados por essa cadeia. Sendo assim o alongamento dessa cadeia seria um tratamento eficaz, desde que se evite todas as compensações. Além disso, propôs que o desequilíbrio de tensão dos músculos agonistas e antagonistas, nos membros inferiores, geraria um benefício para a rotação interna, mais acima cito a ação do músculo Psoas. Nesse caso ele se torna um importante rotador interno. Hoje este conceito está comprovado por várias pesquisas, sendo o valgismo dinâmico um grande problema para nós, profissionais do movimento.

Tratamento

A base de seu tratamento estava no alongamento dos músculos posteriores, através posturas, principalmente naqueles que causam as lordoses e nos músculos rotadores internos dos membros inferiores, com o objetivo de obter a fluidez das massas musculares e corporais.

Seu trabalho, por vezes gerava violentas reações, que a indicava e a estimulava por estar indo no caminho certo. Mezières explicou que a base de seu tratamento agia, principalmente sobre o sistema simpático e parassimpático, sobre os sistemas de auto defesa do corpo. Confusos pelas informações aferentes transmitidas a eles através dos músculos, sentia-se obrigado a abandonar velhos hábitos. Por não mais se reconhecer, assusta-se, por mais desagradável que seja sua imagem habitual. Hoje os estudos sobre o Sistema Nervoso Central evoluíram muito e sabemos que uma reação simpática é tudo que não queremos gerar para um paciente com dor.

Baseava-se muito no senso inato de beleza, e dizia que qualquer movimento que enfeie a pessoa não pode estar correto, muito menos ser benéfico.

As cadeias musculares de Mezières, não possuem uma definição específica sendo assim, um conjunto de observações clínicas propostas pela mesma. Deixou poucos escritos, pois era puramente clínica, mas se calcula que formou mais de 1.500 profissionais só na França e influenciou mais tantos outros.

Descrição da cadeias de Madame Mézières

Madame Mézières baseada em seus conceitos desenvolveu quatro cadeias musculares:

  • A cadeia posterior: composta por todos os músculos posteriores.
  • A cadeia braquial: formada músculos anteriores do braço, antebraço e mão.
  • A cadeia ântero-interna: onde constam os rotadores internos dos membros inferiores, músculos diafragma e iliopsoas.
  • A cadeia anterior cervical: compreende os músculos escalenos, peitoral menor, intercostais e diafragma.

Não posso deixar de exprimir aqui minha reverência pela genialidade de Mezières, pois foi a primeira fisioterapeuta a observar a inter-relação dos músculos, fáscias e ligamentos.

Ainda que hoje sua técnica tenha sido melhor explicitada, aprimorada, ou até mesmo possua algumas contradições biomecânicas, foi Madame Mézières a grande responsável, através de seu olhar clínico, a primeira capaz de ir contra uma corrente fisioterápica que na época era ensinada nas escolas de formação, a primeira fisioterapeuta com coragem para ir contra grandes instituições e divulgar suas próprias ideias, a observar e desenvolver o conceito das cadeias musculares.

Phillipe Souchard

Princípios da Reeducação Postural Global (RPG)

Músculos Fásicos e Tônicos

Phillipe Souchard classifica e diferencia os músculos entre os músculos fásicos como sendo cadeias musculares dinâmicas e os músculos tônicos como cadeias musculares estáticas. Ele acredita nos músculos produtores do movimento fásicos e nos mantenedores da postura ante a lei gravitacional como musculatura tônica.

Françoise Mezières não valorizava tanto a questão do “fortalecimento dos músculos fásicos” – tanto ela quanto Bertherat argumentavam que a força da musculatura fásica/ anterior fluiria após ter sido inibido o tônus da musculatura tônica/posterior.

Objetivos e princípios da Reeducação Postural (Global):

  • Só as posturas ativas de alongamento podem devolver aos músculos hipertônicos, rígidos e dolorosos, a sua força, o seu comprimento e a sua flexibilidade.
  • Faz-se necessário alongar os músculos da estática e os músculos suspensores, encurtando-se os músculos da dinâmica.
  • Só as posturas de estiramento progressivo e cada vez mais globais, permitem alongar todos os músculos rígidos, assim como reencontrar a retração de origem.

Souchard não acredita em alongamentos de grupos musculares isolados. Como sabemos, os músculos estão dispostos em cadeias musculares, interligados pelo sistema fascial. Logo, não faz sentido alongarmos os mesmos isoladamente. Esse alongamento tiraria comprimento de alguma outra musculatura da cadeia gerando compensações. Ele defende que o alongamento deva ser feito de forma global seguindo a natureza das cadeias que ele acredita.

Cada músculo possui diversas funções e realiza várias funções musculares. Por isso é necessário alongar o mesmo músculo em todas as suas funções simultaneamente.

Philippe Souchard o alongamento dos músculos aos materiais viscosos e elásticos, e a essa comparação, utiliza-se da mesma forma física para tal. O princípio da fluagem muscular, estabelece que a capacidade de alongamento permanente do músculo é o produto da força do alongamento pelo tempo do alongamento, divididos pelo coeficiente de elasticidade. Portanto o alongamento de Souchard depende de um tempo mínimo, que é superior aos alongamentos clássicos. Além disso, o aquecimento gerado pelo tempo de manutenção do alongamento aumenta o coeficiente de elasticidade.

Propõe também que os alongamentos da RPG sejam sempre ativos e em excentricidade da musculatura em questão. E, por fim, garante que a respiração é fundamental, por motivos já vistos anteriormente. O diafragma e o conjunto dos músculos acessórios da inspiração, constituem uma cadeia muscular lordosante, sinérgica de todas as outras cadeias musculares.

Além disso, o diafragma, segundo Souchard, trabalha como um músculo esquelético apresentando as mesmas características estruturais, elétricas e funcionais. Assim sendo, também se encurtam causando desequilíbrios estruturais na mecânica respiratória.

Esse alongamento deve ser em relaxamento do diafragma e suas progressões devem ser realizadas em expiração máxima, como o famoso “estufando a barriga”. Só dessa maneira será global. Diferentemente de Madame Mézières, suas posturas, que originalmente foram propostas com retroversão da pelve, na RPG são executadas com a pelve neutra, adaptação feita devido ao avanço dos estudos biomecânicos da pelve.

Ao contrário de outros profissionais do movimento, sobretudo os educadores físicos, esse alongamento deve ser realizado sem aquecimento anterior, pois só assim este será verdadeiramente eficaz e global.

Portanto podemos afirmar que a RPG propõe um alongamento que deve ser feito:

  • A frio;
  • De forma excêntrica e global;
  • Mantido por períodos longo de tempo;
  • Conduzido progressivamente ao avanço da amplitude articular;
  • Sem negligenciar a respiração.

Pilares da RPG

pilares da rpg e madame mézièresA RPG baseia-se em três pilares como princípios fundamentais:

  • Individualidade:
    Acredita que cada indivíduo é único, portanto demonstra reações diferentes ao tratamento.
  • Causalidade:
    A verdadeira causa do problema pode estar distante do sintoma apresentado (causa/consequência).
  • Globalidade:
    Deve-se tratar o corpo como um todo, afim de, reconhecermos a responsabilidade das retrações musculares nas patologias musculoesqueléticas.

A RPG acredita que a função estática dos músculos, que se contraem permanentemente, podem se encurtarem por quase nunca utilizar de sua potencialidade, contração-relaxamento. Perdendo assim sua elasticidade, interferindo na flexibilidade corporal, bloqueando os movimentos, que a longo prazo provocarão a deformação corporal e dor.

A RPG utiliza-se do alongamento muscular ativo, procurando alongar em conjunto os músculos estáticos antigravitários, os rotadores internos e os inspiratórios. Trata-se ainda de uma técnica de energia muscular que busca a inibição recíproca, com os seguintes objetivos:

  • Estimular a descarga dos Órgãos Tendinosos de Golgi, objetivando um relaxamento por inibição recíproca, pós isometria do músculo tratado.
  • Minimizar o tremor muscular.
  • Permitir que o paciente permaneça mais tempo na postura.

A RPG busca o alinhamento corporal ideal proposto por Souchard. Em uma vista anterior, essa linha de alinhamento deve passar pelo centro do osso frontal, osso nasal, centro do osso hioideo, centro da fúrcula esternal, no processo xifoide, na linha alba, na cicatriz umbilical, na sínfise púbica, entre os côndilos mediais e também nos maléolos medias.

Em uma vista posterior, a linha de referência deve passar na protuberância occipital externa, em todos processos espinhos da coluna vertebral, na prega interglútea, entre os côndilos mediais e também entre os côndilos mediais.

O alinhamento ideal de perfil, passa ligeiramente posterior ao ápice da sutura coronal, no lóbulo da orelha, através da maioria dos corpos vertebrais cervicais, da articulação gleno umeral e dos corpos das vértebras lombares. Ligeiramente posterior ao centro da articulação do quadril, sobre o trocanter maior do fêmur, ligeiramente anterior ao centro da articulação do joelho, sobre a articulação calcâneo cuboide e ligeiramente anterior ao maléolo lateral.

Biomecânica das cadeias da RPG

É descrito em duas possibilidades:

  • Linha gravitária posterior: sacro horizontalizado, rotação externa de quadril, pelve antevertida e larga, joelhos valgos, hiperlordose diafragmática e curvas sagitais aumentadas.
  • Linha gravitaria anterior: sacro verticalizado, rotação interna de quadril, pelve retrovertida e estreita, joelhos varos, lordose em L4-L5.

Os tratamentos são individuais e duram cerca de 1 hora, podendo ser praticados para prevenção e manutenção através das Auto Posturas. Hoje em dia existem diversos artigos científicos comprovando a eficácia do método.

As cadeias da RPG:

  • Cadeia Posterior
  • Cadeia Anterior do Braço
  • Cadeia Antero Interna do Quadril
  • Cadeia Inspiratória.

Os músculos da cadeia inspiratória são os escalenos, peitoral menor, intercostais externos e diafragma, onde se considera todos seus pilares de inserção.

Hoje em dia sabemos que em função de vários artigos e algumas mudanças biomecânicas, com a comprovação de outros métodos eficazes, suas cadeias evoluíram e hoje são compostas por oito cadeias.

No Brasil a popularização do método muito prejudicou o fundamento inicial da técnica proposta por Souchard, pois muitos fisioterapeutas que fizeram suas formações com ele, depois de um contratempo existido entre o Souchard e o Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia ocupacional (Creffito), passaram a ensinar sua técnica livremente.

Algumas linhas de RPG, por exemplo, citam ainda manobras de correção articular, pompages, massagens profundas e traços miofasciais posteriores de tronco. Todas essas manobras citadas acima, encontram-se facilmente em literaturas de Marcel Bienfait, Thérèse Bertherat Piret, Maitland, Mulligan, massagem reflexa, entre outros.

Fluagem

Os materiais elastoplásticos são representados por ensaios de tração para identificar um modelo matemático de comportamento elástico material, que é a capacidade de alongamento produzido pelo tempo, dividido pelo coeficiente de elasticidade.

Gráfico

Neste estudo realizado em uma liga de alumínio, em vários testes com carga axial monotamente crescente e com a velocidade de deformação controlada (E-cte). O resultado que se observa na inclinação da segunda curva é sempre positiva, com velocidade controlada (lenta). Mas poderia ser negativa quando se impõem em uma velocidade constante e intermitente.

Logo a RPG se refere a velocidade de progressão das posturas serem feitas de forma lenta. Segundo o estudo se a tensão é mantida constante por um tempo prolongado, a deformação do músculo é maior. Conhecido como fenômeno de Creep, se a deformação for mantida de forma constante se observa-se o relaxamento ou redução das tensões com o tempo.

Por isso, Souchard defende que suas posturas devam ser prolongadas, porque além do que se diz na Lei da Fluagem, as posturas prolongadas levam a fadiga dos músculos e a diminuição da descarga fusal sobre o mesmo, acreditando que assim, seu resultado quanto ao alongamento será mais efetivo.

Obviamente não temos certeza se o músculo vivo se comportaria da mesma maneira.

Confesso que não fiz minha formação de RPG com Souchard, pois a minha turma foi a primeira que se formou logo após seu contratempo com o Crefito, minha frustação foi tamanha, pois estava na fila de espera para a formação há dois anos, sim essa era a lista de espera nos anos 90 para a formação em RPG, e sem uma segunda opção o realizei com outros professores. Durante dez anos da minha carreira trabalhei muito com o método, e me decepcionei por diversas vezes, talvez por ter feito a formação paralela, quem sabe?

A RPG funciona muito bem em casos de tensão que estão instalados na cadeia posterior e/ou nos rotadores internos, quando a disfunção é gerada nessa cadeia que Souchard classifica como a principal. O tratamento segue a lógica da formação da patologia, e portanto, os resultados são bem eficazes. Mesmo sendo um método que gere mais tensão para colher os frutos do relaxamento, como resultado, porém quando a origem do problema não está localizado na lógica da sua principal cadeia, os resultados obtidos não são os mesmos. Além disso, o método não é bem tolerado por idosos, pacientes com fibromialgia, labirintite e crianças.

tabela cadeias musculares de madame mézièresFigura 43 – Gráfico Fluagem 1

cadeias musculares de madame mézières tabela 2Figura 44 – Gráfico Fluagem 2

Conclusão

Não posso deixar de exprimir minha admiração por esse grande nome da fisioterapia, foi o primeiro cadeistas com a coragem de desembarcar no Brasil, com uma proposta totalmente inovadora. Hoje a RPG evoluiu muito, novas cadeias foram desenvolvidas por Souchard, incluindo a cadeia visceral, e módulos avançados foram acrescentados ao método, porem Souchard não acredita, no cruzamento das linhas de forcas que transitam pelo corpo, há algum tempo abandonei minha abordagem clinica com a RPG por acreditar existirem cadeias mais completas e atuais, porem a genialidade e coragem de Souchard são inegáveis.

Referencias Bibliográficas

Janaina Cintas, Livro Cadeias Musculares do Tronco.

Conheça as cadeias musculares de Madame Godelieve Denys-Struyf

Conheça as cadeias musculares de Madame Godelieve Denys-Struyf

As primeiras cadeistas musculares que trouxeram para seus métodos as questões psico-comportamentais foram:

  • Madame Godelieve Denys-Struyf criadora do método que leva as iniciais de seu nome G.D.S.;
  • Madame Thérèse Bertherat discipula de Madame Mezieres que trouxe para as cadeias musculares de Mezieres as primeiras ligações comportamentais e corporais.

Neste artigo apresentarei a vocês um pouco do trabalho e da história desses dois grandes nomes da fisioterapia mundial.

Madame Godelieve Denys-Struyf G.D.S. (1960/1970)

Madame Godelieve Denys-Struyf é fisioterapeuta e osteopata. Nasceu no antigo Congo e lá viveu até seus 16 anos em uma fazenda de cacau. Sendo de família Belga, retornou à Bélgica e matriculou-se na Escola de Belas Artes de Bruxelas. Lá ela deveria refinar seu dom de retratista nata.

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Como desenhista sempre tentava passar aos seus alunos mais tarde que já como terapeuta aprender a ver.

Suas Cadeias são musculares e articulares. Denys-Struyf, fisioterapeuta e retratista, concebeu um conjunto de posturas designativas de estados:

  • Psicofísicos;
  • Personalísticos específicos;
  • Idiossincráticos.

Eles surgiram baseados em pressupostos teóricos de alguns métodos, como por exemplo:

  • A Facilitação Neuro Muscular Proprioceptiva;
  • A linha Mézièrista;
  • A percepção da coordenação motora.

Todos possuem como ponto em comum acreditar que o tecido muscular é um conjunto indissociável: o tecido fibroso.

Método de facilitação neuromuscular proprioceptiva

O Método de Facilitação Neuromuscular Proprioceptiva, foi desenvolvida por Kabat em meados de 1950. Foi o primeiro a considerar a solidariedade dos músculos como reestruturação do movimento. Criou vários exercícios combinados e com bases em espirais baseados em padrões primitivos.

Seu objetivo era através do reflexo de estiramento realizar a estimulação de mecanismos neuromusculares através da estimulação de seus proprioceptores. Assim, era possível reestruturar o movimento. O método trabalhava os grupos musculares de forma isolada, mas já no conceito de globalidade.

Cadeias musculares e articulares GDS

As Cadeias Musculares e Articulares GDS acreditam no conceito de que nossa atitude postural é a forma de nosso corpo derivada de uma multiplicidade de fatores: desde a genética até o psiquismo e o comportamento.

Há seis famílias de músculos que dão ao corpo a possibilidade de se expressar. A cada uma dessas famílias corresponde uma tipologia psico comportamental.

Entretanto, elas podem, em consequência de uma constância de tensão, aprisionar o corpo em uma determinada tipologia. Isso dificulta sua adaptabilidade mecânica e comportamental. Então, torna-se fonte de sofrimento. Neste momento, configuram-se no corpo cadeias de tensão musculares.

Em seu método considera que os problemas posturais podem não ser iniciados em músculos isolados. Agregou outros fatores negligenciados por muitos fisioterapeutas, como fatores ligados a totalidade psicomotora e vivência que é individual.

As causas de lesões no aparelho locomotor estão associadas a impulsão global do corpo na eretabilidade. Cada impulsão é o que determinam nossos gestos. Por sua vez, a repetição desses fixam nossa tipologia, que é única para cada indivíduo.

Cada um possui sua tipologia morfocomportamental, porém em quantidade e qualidade variáveis para cada um. Alguns músculos podem expressar um autêntico impulso interior para expressar um comportamento exigido pelas circunstâncias.

Godelieve, enxergava seu paciente como uma amálgama da tipologia basal com a tipologia adquirida, nesse amálgama estão:

  • O hereditário;
  • O genético;
  • O racial;
  • O cultural;
  • O familiar;
  • O profissional;
  • O social.

No centro desse quadro, o projeto pessoal da forma e do comportamento desenvolvidos ao longo da vida.

O método das cadeias osteoarticulares e músculos aponeuróticas e suas técnicas de correção foram desenvolvidos entre os anos de 1960 e 1970.

Abordagens de Godelieve

  • Método de leitura corporal, gestual e das formas para delimitar o psico fisiológico do indivíduo que proporciona a nós fisioterapeutas identificar seus pontos fortes e fracos.
  • É um método de conscientização visando a utilização harmoniosa do corpo para preservação de sua mecânica.
  • Godelieve falava em esculpir um corpo vivo.

Segundo Godelieve, o psiquismo deixa seu sinal num simples gesto. Nasce daí a forma corporal, e, por conseguinte, marcas no corpo.  Outro fator de influência seriam as vivências do indivíduo: trabalho, esporte, cirurgias, sedentarismo etc.

A biotipologia seria então o resultado entre as características genéticas e a vivência do indivíduo.

A falta de elasticidade encontrada em determinados músculos pode ser gerado por excesso de atividade em uma cadeia muscular. Caso apareçam daí movimentos descoordenados, a cadeia dominante fixa essas deformidades corporais.

As cinco estruturas psicocorporais

  • Cadeias Anteromedianas- AM

A atividade preferencial das cadeias anteriores e medianas AM está associadas à afetividade, ao sensorial, à necessidade de ser amado. As cadeias AM são responsáveis pelo bom posicionamento de D8 e da ancoragem do corpo. Estas, com a sua necessidade de toque, têm um papel fundamental na construção do ego e da consciência corporal.

A cadeia AM é constituída pelos seguintes músculos:

  • Períneo;
  • Reto abdominal;
  • Peitoral maior em suas porções inferior e média;
  • Triangular do estern;
  • Intercostais médios;
  • Subclavicular;
  • Escaleno anterior;
  • Porção esternal do esternocleidomastóideo;
  • Hióideos anteriores do pescoço;
  • Músculos da estrutura bucal.

Percebam que os músculos citados estão envolvidos com o enrolamento corporal. Eles são essenciais para poder manter o equilíbrio de um tronco que se encontra inclinado para trás e a cabeça em protrusão, além do apoio nos calcanhares.

Comportar-se em AM é viver em espera, limitando o imprevisível, se apoiando na experiência e no bom senso. Constrói seu futuro com base nas suas aquisições do passado.

AM é afetiva, sentimental e de natureza sensorial. Na postura AM de um indivíduo pode estar o resultado de sua escolha comportamental. Também pode estar em defesa, em situação de carência, sem, no entanto, favorecer seu bem-estar. A postura AM está ligada a busca pela mãe.

  • postura am de madame godelieve denys-struyf Cadeias Posteromedianas- PM

A atividade preferencial das cadeias posteriores e medianas PM está associadas à necessidade de ação, de realização e desempenho. Levam a uma atitude em propulsão. As cadeias PM têm um papel primordial na manutenção da verticalidade, freando a queda do corpo para frente.

A cadeia muscular PM tem como seus principais músculos:

  • Paravertebrais do segmento lombar e dorsal;
  • Grande dorsal;
  • Iliocostal.

A cadeia PM termina nas estruturas aponeuróticas, que se estendem do occípto até a região orbicular. Ao contrário da cadeia AM, o equilíbrio encontrado empurra o corpo para frente. Os apoios são no ante pé, a coluna lombar se posicionará em hiperlordose, ou pelo menos uma anteversão da pelve que flexionará o quadril em busca do centro gravitacional. Já a coluna cervical estará em extensão, o que pode leva-la ao longo prazo em grande sofrimento.

Comportar-se em PM é uma expressão de uma motivação e de uma escolha. Sentir-se realizada nessa expressão psicocorporal, sendo então projetado para o futuro, e com escolhas de agir nesse futuro. São pessoas orientadas para o progresso, o êxito de um projeto, a superação e a competição.

Essa personalidade gera, por outro lado, se o sucesso não for atingido, uma tendência a dispersar-se e se desconcentrar, desestabiliza-se, torna-se ansiosa, fisicamente frágil e se dilui psiquicamente.

O passo seguinte será de um corpo basculado para frente, quando a estrutura oposta AM está em carência. Ele coloca forças antagônicas em ação que não se coordenam mais.

Assim perante PM há AM, o indivíduo entrará em sofrimento. A proposta de Godelieve é muito honesta e é chamada de igualização das tensões e uma desescalada das forças que se opõem. Essa cadeia está ligada a busca pelo pai.

postura pm de madame godelieve denys-struyf3-Cadeias Posteroanteriores e Anteroposteriores- PA e AP

As três atitudes são subtensionadas muscularmente por uma mesma motivação: a necessidade de ser, da construção da individualidade e da busca do ideal em todos os níveis. Dois encadeamentos musculoaponeuróticos se subtensionam gerando essas três atitudes. No seu funcionamento fisiológico elas devem alternar suas respectivas atividades para manter:

  • Ritmo respiratório;
  • Equilíbrio das massas;
  • Eixo vertical;
  • Centro de gravidade.

As cadeias posteroanteriores PA entram em atividade na fase inspiratória e as cadeias anteroposteriores AP, na expiratória. Quando essas duas cadeias perdem a sua alternância fisiológica, é gerada a atitude PA-AP. Essa cadeia é responsável pela manutenção da postura estática dentro do polígono de sustentação.

  • Cadeia Principal

  1. O grupo das sentinelas do eixo vertical são PA (músculos profundos da coluna vertebral posteriores):
    1. Transversários profundos;
    2. Intertransversários;
    3. Interespinhosos;
    4. Pequenos músculos occipito-atlas e axiais.

Anteriores:

  • Pré-vertebrais;
  • Longo do pescoço;
  • Reto abdominal;
  • Pequeno reto abdominal.

Eles são responsáveis pela extensão axial.

  1. O grupo dos músculos respiradores pressores, são PA-AP.

São os músculos que participam diretamente da dinâmica respiratória, músculos que agem diretamente sob as diferenças de pressões entre as cavidades torácicas e abdominais:

  • Supracostais;
  • Intercostais externos;
  • Diafragma;
  • Transverso do abdômen;
  • Intercostais internos (PA AP-AL);
  • Intercostais médios (PA AP-AL-AM).
  1. São os músculos reguladores do centro gravitacional, são essencialmente AP:
    1. Esplênios;
    2. Quadrado lombar (no plano frontal).
    3. Escalenos médios e posteriores;
    4. Psoas (nos três planos).
  1. posturas de madame godelieve denys-struyfGrupo dos músculos de transição: pertencem a AP-PL-AL.
    São os músculos que ligam PA AP as cadeias musculares horizontais que se prolongam ao longo do tronco, formando um sistema de socorro respiratório.

PL:

Inspiração forcada

Estabilizam a escápula:

  • Angular;
  • Romboide;
  • Trapézio médio.

Inspiradores:

  • Serrátil anterior;
  • Pequeno serrátil posterior-superior

AL:

Expiração forçada:
  • Serrátil menor póstero-inferior;
  • Intercostais internos juntando-se a cadeia AM através dos intercostais médios.

Músculos que ligam a cadeia principal do tronco às cadeias secundárias do plano horizontal:

  • Ilíaco aos membros inferiores;
  • Peitoral menor aos membros superiores.

PA-AP: ereta na inspiração e relaxada na expiração.

Essa dupla de estrutura corporal oferece ritmo a estática humana com a respiração.

Em harmonia AP-PA ou PA-AP, conforme uma expressão corporal está unida. Quando separadas, sem oferecer esse ciclo oscilatório, estarão frágeis.

Por um lado, a aparência de fragilidade em PA-AP, e por outro, a energia da vida em AP-PA.

Essas cadeias obedecem a lei do mínimo esforço.

Comportar-se em PA isolada, se manifesta por rigidez psico comportamental.  Já uma AP isolada, é manifestada pela falta de energia, alguém à deriva.

  • Cadeias Anterolaterais

A atividade preferencial das cadeias anteriores e laterais AL está associada a um modo relacional preferencialmente introvertido. É caracterizado por uma seleção diante das trocas com o meio.

Essas cadeias favorecem a adução, a flexão e a rotação interna da raiz dos membros, gerando uma atitude de recolhimento e podendo, no excesso, chegar a achatar o corpo no próprio eixo.

postura al de madame godelieve denys-struyf5-Cadeias Posterolaterais

A atividade preferencial das cadeias posteriores e laterais PL estão associadas a um modo relacional preferencialmente extrovertido. É caracterizado pela necessidade de entrar em comunicação. Essas cadeias favorecem a abdução e a rotação externa das raízes dos membros, gerando uma atitude desdobrada.

postura pl de madame godelieve denys-struyfTratamento

Livrar o corpo dessas cadeias de tensão e padrões psicológicos, além de proporcionar ao paciente a consciência do seu eu corporal.

Madame Godelieve foi mais longe que Bertherat, também dirigiu seus estudos e toda sua vida clínica para as questões psicossomáticas, porém inovou completamente as cadeias de Mezières. Foi a primeira a propor que as cadeias se comportam como espirais e explicou suas ideias com toda interligação psicológica e psico comportamental. Também incluiu em seu método manipulações sutis de ossos e articulações.

Se você leitor gosta dessa abordagem, é a essa especialização que deve se entregar. É o que temos de mais coerente até hoje. Todos os métodos citam as questões psicológicas, mas nenhum consegue interferir ou mesmo interligar essas questões ao corpo, com exceção da Osteopatia, que segue por outra proposta, pois fala de sistemas (órgãos).

Madame Thérèse Bertherat

A grande sensibilidade pela fisioterapia é de uma sutileza aguçada. Os livros de Madame Thérèse Bertherat nos trazem deliciosos deleites, pois mais nos remete a leituras sobre contos do que propriamente um livro didático sobre fisioterapia.

Em suas valiosas observações, nos ensina, antes de mais nada, a sermos terapeutas no mais profundo sentimento de curar. Ela transmite em suas palavras, ensinamentos poéticos de nossa nobre profissão.

Bertherat se mudou para Paris e logo após a morte trágica de seu marido entrou em contato com a Sra. Ehrenfried, uma médica que refugiada do nazismo. Ela se instalou em Paris e trabalhava com uma certa ginástica, assim denominada por falta de um nome mais específico.

Sra. Ehrenfied sempre trabalhava um lado do corpo por vez. Ela defendia que quando um lado do corpo vive plenamente, o outro (lado patológico) não aguenta mais viver em inferioridade e sucumbe. Assim, ele buscando a simetria e torna-se disponível ao ensino que parte da metade mais perfeita.

Sua ginástica constava de movimentos suaves e precisos que ajudavam a soltar os músculos, liberando uma energia até então desconhecida. Não tocava em seus alunos, pois não queria que eles simplesmente a imitassem e nem que seus corpos seguissem à pressão de suas mãos. Acreditava que seus alunos teriam que chegar por si mesmos à descoberta sensorial do próprio corpo.

Defendia também que um esforço novo para o corpo, exigia o emprego de impulsos nervosos nunca empregados antes. Ela jamais permitia que sua ginástica fizesse seus alunos suarem. Caso isso acontecesse, ela acreditava que haviam deixado de ouvir o corpo, portanto seu trabalho era delicado e preciso.

Madame Bertherat completamente fascinada com os resultados obtidos em seu próprio corpo resolveu então se formar em fisioterapia. Ao fim do curso ficou completamente decepcionada com os métodos aplicados na época, como:

  • Mesas de tração;
  • Polias;
  • Coletes;
  • Outros.

Para ela eles mais soavam como uma tortura. Foi então apresentada ao trabalho de Madame Mézières.

A partir de então, começa a clinicar com o método de Mezières, sem perder de vista seus ensinamentos iniciais. Mais tarde criou seu próprio método que ficou conhecido como antiginástica, mas que foi concebido como Preliminares.

Método em que antes submetia seus pacientes a descobrir suas tensões conscientizando-os de que seu corpo é sua morada. Assim, por conseguinte, já com consciência e com seus músculos relaxados os submetia ao Método de Madame Mézières.

Não posso encerrar esse artigo sem citar algumas das palavras de Bertherat (2010) com sua sensibilidade sem igual:

“Nesse instante, esteja onde estiver, há uma casa com seu nome. Você é o único proprietário, mas faz tempo que perdeu as chaves. Por isso, fica de fora, só vendo a fachada. Não chega a morar nela. Essa casa, teto que abriga suas mais recônditas e reprimidas lembranças, é o seu corpo.

Se as paredes ouvissem: na casa que é o seu corpo, elas ouvem. As paredes que tudo ouviram e nada esqueceram são os músculos. Na rigidez, crispação, fraqueza, dores dos músculos e das costas, pescoço, diafragma, coração e também do rosto e do sexo está escrita toda a sua história desde o nascimento até hoje.”

Como diria Madame Thérese Bertherat (2010), sem perceber, desde os primeiros meses de vida, você reagiu a pressões familiares, sociais, morais. Ande assim. Não se mexa. Tire a mão daí. Fique quieto. Faça alguma coisa. Vá depressa. Aonde você vai com tanta pressa?

Atrapalhado, você se dobrou como pode. Para se conformar, você se deformou. Seu corpo de verdade-harmonioso, dinâmico e feliz por natureza foi sendo substituído por um corpo estranho que você aceita com dificuldade, mas que no fundo você rejeita. Nunca é tarde demais para se liberar da programação do seu passado, para assumir seu próprio corpo, para descobrir possibilidades até então inéditas.

Bertherat agregou aos ensinamentos de Mezières, a percepção corporal como base de início para qualquer trabalho postural. Ao longo de sua experiência clínica, foi se apoderando de algo que até então ninguém havia se atentado: que os fatores psicossomáticos também eram capazes de interferir drasticamente nos movimentos.

Conclusão

Sugiro a você leitor que gosta dessa abordagem psico somática que busque por essas formações que existem no Brasil.