Quadril e tornozelo: como trabalhar essas articulações no Pilates?

Quadril e tornozelo: como trabalhar essas articulações no Pilates?

Você sabia que podemos utilizar o Método Pilates para trabalhar as articulações do quadril e tornozelo? As duas são importantíssimas para o nosso corpo pois são responsáveis por garantir mobilidade, flexibilidade e sustentação ao tronco. Quer saber como trabalhar essas duas articulações? Então continue lendo para entender!

Mobilidade de quadril

Temos na pelve uma importante articulação para o controle das forças durante o movimento. É nela que se anulam as forças solo e da gravidade, fazendo com que ela também tenha um importante papel de redistribuição para o restante do corpo.

É o quadril que realiza a conexão entre membro inferior e tronco. Para isso, ele possui uma articulação sinovial em formato de esfera capaz de realizar os seguintes movimentos:

  • Flexo-extensão;
  • Abdução-adução;
  • Circundação;
  • Rotação medial lateral.

Parece que o quadril é capaz de se mover muito considerando a quantidade de ações que realiza, mas esse não é exatamente o caso. A articulação possui excelentes ferramentas de estabilização estática. Isso inclui sua cápsula articular, uma das estruturas ligamentares mais fortes do corpo.

O quadril também possui diversos ligamentos que mantém seus movimentos contidos e estáveis. Entre eles temos:

  • Ligamento iliofemoral;
  • Ligamento pubofemoral;
  • Ligamento isquiofemoral;
  • Ligamento transverso do acetábulo;
  • Ligamento redondo (intra-articular).

É claro que também existem estruturas estabilizadoras dinâmicas, os músculos. São eles também responsáveis por manter a delicada mobilidade do quadril. Podemos dividir as musculaturas que atuam na região em dois grandes grupos: extensores, flexores, adutores, abdutores e rotadores.

As musculaturas extensoras do quadril são compostas principalmente pelo glúteo máximo e o isquiocondilar do adutor magno. Os isquiotibiais também são capazes de realizar a extensão de quadril, porém se o fizerem no lugar do glúteo teremos desvios posturais possivelmente lesivos no paciente.

Como flexores temos o músculo iliopsoas, pectíneo e tensor da fáscia lata. Esses músculos precisam agir em sincronia com os abdutores (glúteos médio e mínimo) para realizar movimentos com toda a amplitude possível para o quadril.

Agora que você viu toda a estabilidade do quadril, sobra uma pergunta: e a mobilidade? O quadril é móvel, mas tem uma forte tendência à rigidez, especialmente em indivíduos com desequilíbrios musculares.

Mobilidade de tornozelo

Os membros inferiores são a base do equilíbrio e do movimento no corpo humano em bipedestação. O tornozelo é composto pela tíbia e pela fíbula, dois ossos que circundam em se encaixam numa polia chamada de tálus. Esse encaixe em forma de polia é responsável pela formação dos dois maléolos dos pés. Eles são:

  • Interno: composto pelo encaixe da tíbia com o tálus.
  • Externo: composto pelo apoio da fíbula ao tálus.

É graças aos maléolos que o tornozelo consegue realizar seus dois movimentos: a flexão dorsal, que acontece anteriormente, e flexão plantar, que acontece posteriormente. Assim como o quadril, o tornozelo tem uma importante função de sustentação e precisa de excelente estabilidade. Ela diminui na flexão plantar porque diminuir substancialmente a base de equilíbrio.

Acabei de falar nos dois únicos movimentos do tornozelo, porém existem ainda movimentos laterais. Eles não são realizados pelo tornozelo em si, mas sim pelo que chamamos de subtornozelo. Ele é formado pelo encaixe do tálus e os ossos do metatarso do pé. É essa articulação que realiza os movimentos de inversão e eversão.

Também existe a região anterior do pé, formada pela articulação tarsometatartsial com os cinco metatarsos. Seus movimentos possuem mobilidade diminuta, mas ainda são essenciais para o equilíbrio do tornozelo e de todo o corpo que ele sustenta.

Relação entre quadril e tornozelo

Já falei muito a respeito do quadril e tornozelo isoladamente, mas não é assim que eles funcionam. Toda a unidade de membros inferiores (indo desde o quadril, passando pelo joelho e chegando nos pés) é influenciada pelas duas articulações. Combinando-as, temos um movimento fisiológico no pé que garante a estabilidade.

Quando os pés e o tornozelo em especial estão equilibrados, teremos uma manutenção de bom:

  • Equilíbrio estático;
  • Marcha.

Lembre-se que a tíbia leva sozinha o peso do corpo até o pé e não possui musculaturas para estabilizá-la. A fíbula, por sua parte, é responsável por conduzir boa parte das musculaturas do pé, incluindo os fibulares que passam atrás dos maléolos.

Essas musculaturas são responsáveis por direcionar trações para trás e para fora, fazendo com que elas não gerem o deslocamento gravitacional para fora. O retropé se bascula em direção ao hálux e contribui para a formação do arco anterior do pé.

Além disso, as trações da cabeça do fêmur acionam o polígono de sustentação, fazendo com que o quadril seja capaz de realizar:

  • Flexão;
  • Extensão;
  • Tração de inversão de rotação externa dada pelos glúteos.

O sartório é uma musculatura bastante importante nessa conexão entre quadril e tornozelo. Ele gira a tíbia em rotação interna, ativando os tibiais. Portanto, esse movimento faz com que o pé vá para a abdução ao mesmo tempo que o quadril gira para fora.

Temos assim essa sincronia mecânica muscular:

  • Sartório;
  • Tibiais.

Essas estruturas são consideradas condutoras de movimento e fazem com que todo o membro inferior se tensione. São eles que mantém a forma articular e organizam a flexão e extensão de joelho, quadril e tornozelo.

Porém, sua função não para por aí. Tais musculaturas também criam o arco longitudinal do pé.

Como trabalhar quadril e tornozelo no Pilates?

Acredito que todos nós cometemos o grande erro de negligenciar os pés em algumas aulas. Parece algo tão simples que sequer precisamos pensar nisso. Porém, uma boa organização corporal depende do alinhamento dos membros inferiores.

Também precisamos trabalhar mobilidade de quadril, mas essa é mais lembrada pelos profissionais. Através da boa organização dos pés e outros componentes dos membros inferiores, conseguimos corrigir lesões ascendentes e diversas outras compensações.

De acordo com Bandine, os exercícios a seguir devem ser realizados com bastante cuidado para o alinhamento e organização dos tornozelos:

  • Footwork;
  • Running;
  • Stomach massage;
  • Long stretch;
  • Up stretch;
  • Arabesque;
  • Frontsplits;
  • Semicircle;
  • Leg pull front;
  • Push up series.

Perceba que todos eles são realizados no Reformer e existe um motivo para isso. Essa cama foi criada por Pilates para proporcionar uma boa organização dos pés.

Para realizar os exercícios no Reformer precisamos começar a partir da boa organização dos pés. Nunca permita que seus alunos realizem movimentos compensatórios iniciados pela base nesses exercícios. Essas compensações se traduzem como desequilíbrios para outros movimentos, como a marcha.

Numa boa aula de Pilates, precisamos corrigir as compensações que surgem partindo do tornozelo para cima. É exatamente por isso que Joseph Pilates começava suas aulas com o aluno deitado. Ele seguia a lógica dos movimentos que realizados durante o dia e aproveitava para a correção de desequilíbrios.

Conclusão

Tradicionalmente, existem mais de 100 movimentos criados para o Reformer. O Reformer é a peça central e primeiro aparelho desenvolvido por Joseph Pilates.

Segundo Pilates, ao treinar com uma carga externa (molas do Reformer), o movimento humano tornar-se-ia mais eficiente e harmonioso. Preparamos assim o corpo para quando retirarmos a carga, ou seja, na sua condição habitual.

Além disso, a resistência oferecida incentiva uma adaptação mais rápida do sistema neuromuscular. Lembrando sempre que os aparelhos podem facilitar ou dificultar os exercícios.

Originalmente, Pilates chamou a máquina Universal Reformer. Reformer porque “reformava” todo o corpo e “universal” pois poderiam ser feitos movimentos em todos os planos de movimento.

A história também conta que a inspiração para o equipamento foi uma cama. Essa cama especial tinha recebido molas com o intuito de reabilitar soldados feridos na guerra.

Bibliografia
Como e porquê usar Pilates para tratamento de fibromialgia?

Como e porquê usar Pilates para tratamento de fibromialgia?

Diferentemente do que muitos pensam, a fibromialgia não causa qualquer alteração musculoesquelética, porém leva ao surgimento de dor e desconforto imenso para o paciente. Considerando esse enigma, precisamos nos perguntar: qual será a melhor maneira de fazer o tratamento de fibromialgia?

Muito se fala a respeito de fibromialgia nos veículos de comunicação. É a doença que fez a cantora Lady Gaga cancelar diversos shows em 2017 e, também, é um tipo de enigma que intriga o público. No artigo de hoje discutiremos um pouco a respeito do uso do Pilates para esse tratamento. Continue lendo para descobrir mais!

O que é fibromialgia?

A fibromialgia é uma doença musculoesquelética de acordo com a classificação da COPCORD (Community Oriented Program for Control of Rheumatic Disease). Ela é uma doença generalizada e difusa caracterizada por dores migratórias e também excesso de sensibilidade do paciente.

Alguém com fibromialgia pode sentir desconforto por causa de esforços físicos, estresse e até ruídos. Entre 2% e 4% dos adultos são afetados pela doença, sendo a maioria deles mulheres.

Esses pacientes passam por períodos de calma nos quais os sintomas da fibromialgia estão ausentes ou são leves. Eles são alternados com períodos de crise, com a presença dos sintomas. A dor e o desconforto são instáveis e podem surgir a qualquer momento.

Apesar de existir literatura falando a respeito da doença, não existe ainda uma causa definida para a fibromialgia. Estima-se que as alterações de sensibilidade à dor surgem por causa de alterações em neurotransmissores. Portanto, pacientes fibromiálgicos teriam alterações no sistema nervoso periférico e central, maior sensibilização periférica e central.

Consequências da fibromialgia

Quando o indivíduo está estressado ele tende a sofrer com uma piora dos sintomas. Estresse, preocupação e ansiedade aumentam a tensão psicológica, e o sistema límbico a transferem para músculos, causando dor, através de uma eferência do Sistema Nervoso Simpático.

Além de dor, o paciente pode sentir:

  • Queimações;
  • Sensação de parestesia;
  • Tremor;
  • Sudação;
  • Sensação de rigidez de articulações e músculos.

Existem alguns fatores que pioram as dores e sintomas da doença. Eles são:

  • Frio;
  • Alterações do sono;
  • Períodos de estresse;
  • Preocupação;
  • Angústia.

Coincidentemente, boa parte dos pacientes apresentam alterações do sono como insônia, sono fragmentado e sono não reparador. Os indivíduos fibromiálgicos têm dificuldade de atingir a fase profunda de sono (REM) por causa de momentos de atividade cerebral intensa durante o sono. Por isso, eles geralmente encontram-se cansados e têm dificuldade de aderir a um programa de treinamento físico.

A fadiga física é combinada com sintomas psicológicos, como falta de vontade para realizar tarefas diárias, menor concentração, déficit de memória e distração fácil.

Indivíduos fibromiálgicos também podem apresentar:

  • Intolerância ao frio e/ou ao calor;
  • Síndrome colón irritável;
  • Enxaqueca ou cefaleia de tensão;
  • Dores menstruais;
  • Disfunção da articulação temporomandibular;
  • Bexiga hiperativa;
  • Depressão.

Como acontece o diagnóstico da fibromialgia?

Essa patologia é difícil de identificar, por isso seu diagnóstico acontece principalmente por exclusão. Quando o paciente relata excesso de dor e sensibilidade, mas não possui alterações em exames podemos imaginar que é um caso de fibromialgia. Também é importante analisar seu histórico médico e identificar 12 a 18 pontos dolorosos.

Relacionar a dor a outros sintomas da doença ajuda a identificar o caso com mais clareza. Portanto, fique atento a evidências de alterações no sono, fadiga em excesso e instabilidade emocional.

Depois de diagnostica, começaremos o tratamento de fibromialgia, que tem como objetivo:

  • Aliviar a dor;
  • Diminuir a ansiedade;
  • Obter melhoras no sono;
  • Recuperar a qualidade de vida.

Durante o tratamento precisamos recuperar a independência do paciente e fazer com que ele retorne a suas atividades sociais, físicas e familiares. Precisamos sempre lembrar que essa é uma doença que não gera deformações ou comprometimentos articulares. Da mesma maneira, ela não compromete órgãos internos. Porém, afeta muito sua qualidade de vida.

Por que usar Pilates no tratamento de fibromialgia?

A atividade física já é considerada como uma opção para tratamento de fibromialgia importante. Uma revisão bibliográfica que realizei em outro artigo a respeito do assunto mostrou que programas de intervenção com atividades físicas conseguiram redução de dor em 10% a 44,2% dos pacientes.

Os exercícios utilizados nesses estudos variam indo desde dança até aulas de alongamento. De qualquer maneira, é possível observar o benefício que o movimento traz para pacientes com o problema. Ele consegue melhorar a qualidade de vida do indivíduo através da diminuição da dor e até algumas melhoras psicológicas, por conta da ativação parassimpática gerada pela atividade física.

Enquanto esses pacientes podem encontrar dificuldade para realizar exercícios aeróbicos mais intensos, porem necessários, o Pilates pode ser adaptado para suas necessidades. Além disso, o Método consegue melhora a respiração, e o princípio da concentração, acessa o SN desses pacientes de maneira significativa.

Pacientes com fibromialgia frequentemente apresentam problemas posturais e assimetria muscular. Isso acontece porque os desequilíbrios no sistema nervoso periférico e central podem influenciar no sistema de controle postural.

Imagino que você já sabe qual modalidade de atividade física consegue ajudar na melhora do controle postural. O Pilates, é claro

Conclusão

A fibromialgia é uma patologia extremamente complexa e que envolve diversos fatores. Por isso, o tratamento de fibromialgia deve ser feito com uma equipe multidisciplinar que proporcione auxílio para o paciente em todas as esferas de sua vida. Precisamos unir forças com profissionais da nutrição, psicologia, entre outros.

Em questão de exercícios, o Pilates é bastante eficiente e pode fazer parte de um protocolo de tratamento de fibromialgia. Para obter melhores resultados é interessante combinar o treinamento de força proporcionado pelo método a uma atividade aeróbica. Essa combinação consegue auxiliar na diminuição da dor e de pontos sensíveis no corpo do paciente.

O paciente precisa compreender sua situação e os malefícios que a imobilidade pode lhe causar. Já te adianto que será difícil e lento a princípio. Por causa das limitações causadas pela dor passamos boa parte da nossa aula aliviando tensões musculares, relaxando e alongando musculares. Pelo menos, é assim no começo.

Conforme o aluno evolui ele consegue realizar mais exercícios e sente menos desconforto durante nossa aula. Isso nos mostra que os resultados estão sendo eficientes para a melhora desse aluno.

Ativar ou não o Powerhouse durante as aulas? PARTE 2!

Ativar ou não o Powerhouse durante as aulas? PARTE 2!

Continuando o artigo da semana passada, concluímos através de vários estudos científicos, e de uma entrevista do próprio Paul Hodges, pesquisador responsável pelo desenvolvimento da estabilização do núcleo (CS), conhecido pelos profissionais do movimento como Powerhouse ou Core, de que a ativação do centro de força, acabou por se tornar obsoleta, apesar de estar fortemente enraizada, no Método Pilates e no treinamento funcional.

Se você não leu o artigo da semana passada, recomendo fortemente que o leia clicando aqui.

Continuando nossa viagem pela ciência… será que nunca deveremos ativar o powerhouse?

Apesar de não termos evidencia cientifica de que a prevenção da dor lombar seja realizada com exercícios de estabilidade e força do Core, nunca não é uma palavra bem vista pela ciência. Logo, existem sim, alguns momentos, em que o powerhouse, pode ser ativado.

Eu disse pode, e não deve. Compreendem a diferença?

Evidências Científicas e Método Pilates

Em uma revisão sistemática com meta análise de Wang X Q et al. em 2012 (para quem está pouco acostumado com termos científicos, esse tipo de pesquisa está no mais alto escalão de evidência científica) ficou claro que, a curto prazo, os exercícios com ativação do powerhouse (CS) são mais eficientes para diminuir a dor lombar, quando comparado a exercícios sem a ativação da força do núcleo.

Contudo, em um período de 6 meses, a estabilização segmentar ou ativação do powerhouse perdeu o sentido ante ao achado cientifico, não havendo diferenças entre os dois tipos de exercício.

Em 2016, Yamato TP em outra revisão sistemática com meta análise, afirma não existir estudos de alta evidência comprovando que o Método Pilates seja superior a outros métodos de tratamento.

Opa! Eu disse isso mesmo. Eu não, Yamato, que disse ainda.

Existe evidência da efetividade do Pilates na dor lombar, o que não o torna superior perante outras formas de exercício físico, logo a escolha do Pilates, como tratamento para a dor lombar, conclui Yamato, deve fazer parte da:

  • Individualidade
  • Preferência do Aluno/Paciente
  • Além do Custo

Provavelmente, pela qualidade metodológica desses achados, não é muito provável que novas pesquisas, venham mostrar o oposto. Mas, então porque nossos pacientes melhoram com o Pilates?

A sugestão científica é de que essa melhora venha acompanhada de fatores psicológicos: mais motivação, ativação neural e tolerância a dor, dentro da nova hipótese de dor lombar, e suas questões multifatoriais.

E deixo aqui claro que, o Pilates desses artigos científicos vem acompanhado da estabilização do núcleo (CS), o que a longo prazo gerará um alto custo para o indivíduo, pois gerará uma reprogramação cortical, segundo o próprio Paul Hodges, para 2 cm atrás, além de 2 cm medialmente do polígono de sustentação do indivíduo, gerando assim, mais rigidez de tronco.

Powerhouse?

Logo, e como sempre digo em meus cursos, o método Pilates foi uma filosofia de vida criada por Joseph, e não é possível galera, vou repetir, trocando as palavras dessa vez, é impossível, que um dos pilares do Pilates que sugere a força de núcleo, que Joseph se referia, fosse a mesma estabilização central (CS) de Paul Hodges.

Haja visto, que o Método Pilates foi desenvolvido na primeira guerra mundial, e que Joseph Pilates morreu em 1967, quando Paul Hodges (02 de janeiro de 1966) tinha apenas 1 aninho, tornando, pouco provável, um possível encontro dos 2 gênios para unir a Teoria da Estabilização (CS) de Paul Hodges e a casa de força de Joseph.

Gostaria de citar aqui, ainda, que, nunca li na obra original de Joseph a palavra powerhouse. Para o filósofo Joseph Pilates a casa de força era algo muito além de tentar isolar um grupo de músculos profundos.

Fui ao dicionário e encontrei que força vem do latim fortia e indica: poder, energia, impulso.

Logo, seguem as minhas conclusões individuais:

  • Fica-me muito claro, que a CS e a casa de força não são sinônimos.
  • A casa de força para Joseph poderia ser algo como o empoderamento corporal.
  • Que a parte filosófica do Método fora perdida em algum lugar do tempo.
  • Que por algum motivo, desconhecido por mim, a Teoria de Paul Hodges foi engendrada no Método Pilates.

Elucubrações à parte voltemos a realidade, com todos esses resultados científicos, tenho certeza, que Joseph jamais desenvolveria um Método de Movimento, limitando movimento, pois é isso que a CS faz. Além, de aumentar inúmeras vezes a pressão intra-abdominal (admitido pelo próprio Paul Hodges).

A pressão intra-abdominal, medida por via intra bexigal, em posição deitada com os abdominais relaxados, se considera patológica a partir de 12mm de hg.

Acima deste valor se falasse já em hipertensão abdominal e, acima de 20mm Hg, estamos em uma condição de Síndrome Compartimental Abdominal. Para os urgentistas, um caso de hipertensão abdominal e/ou síndrome compartimental, medidas urgentes de descompressão devem ser adotadas.

Todavia, segundo alguns autores, o abdômen funciona como um sistema hidráulico, cuja pressão interna normal varia de 5 a 7 mm Hg. Segundo Cernea, acima de 10 mmHg, a pressão já pode provocar danos aos órgãos intra, extra-abdominais, e também, ao sistema nervoso central.

Estes dados nos dizem, em primeiro lugar, que não existe um consenso sobre os valores normais e patológicos da pressão intra-abdominal e que, de qualquer forma, pequenas variações já podem ser suficientes para determinar uma condição patológica.

O que parece ser determinante à respeito do efeito danoso da hiper pressão intra-abdominal sobre a saúde, é principalmente o seu caráter temporal, ou seja: mais que os valores maximais, que em caso de esforço transitório podem aumentar, e muito, mesmo sem provocar danos, o que mais pode comprometer a homeostasia, é o caráter permanente, do aumento.

O tempo durante o qual a pressão intra-abdominal permanece aumentado é o que mais impacta sobre a saúde, pois, quanto maior for o tempo do aumento, piores serão os danos ao organismo.

Segundo estas pesquisas, mesmo pequenas variações da pressão abdominal, quando prolongadas no tempo, podem determinar efeitos danosos, entre eles:

  • Atraso de Cicatrização de Feridas
  • Danos e Insuficiência de:
  • Aumento de Endo Toxinas Bacterianas no Sangue
  • Transmigração Bacteriana através das Membranas Celulares – que estarão mais permeáveis ao aumento da pressão.

De fato, o que deveria ser um mecanismo favorecedor da respiração e do controle postural e que deveria permitir a normal circulação do sangue e da linfa, se torna uma bomba armada e pronta a explodir, tendo como fator determinante o tempo de duração do aumento da pressão intra-abdominal dentro do nosso corpo.

Conclusão

Nunca desejei tanto existir a máquina do tempo para bater um papo com Joseph Pilates, e só serviria ele, para esclarecer minha dúvida, visto que como disse no artigo anterior, temos pouco material escrito original deixado pelo Sr. Joseph Pilates, e pouquíssimos discípulos diretos, que já estão mortos, com exceção de Lolita de San Miguel.

Tornando o método frágil e passível à distorções. Alguém encontra a casa de força de Joseph Hubertus Pilates para mim?

 

ASSINADO: Janaína Cintas

P.S. Esse texto foi impresso e colocado dentro de uma garrafa que foi lançada no oceano, afinal é assim que os mitos começam.

 

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Ativar ou não o Power House durante as aulas? Entenda!

Ativar ou não o Power House durante as aulas? Entenda!

Estabilidade Lombo Pélvica: Pilates é eficiente para trabalhar a habilidade?

Neste texto vamos falar de um tema que eu particularmente gosto e estudo bastante: a estabilização segmentar. Mas antes de mais nada, precisamos compreender exatamente como funciona o conceito de estabilidade para a física.

A estabilidade é definida como:

MOBILIDADE X RIGIDEZ

Estabilização Segmentar

Profissionais de áreas como fisioterapia, educação física, medicina, e outras profissões do movimento, tratam a estabilização segmentar como um princípio útil para a prevenção, reabilitação e treinamento. A estabilidade do núcleo é considerada como processo resolutivo para disfunções na metade inferior do tronco.

Contudo, espantosamente, poucos a questionam cientificamente.

O núcleo, power house ou core, é formado pelo músculo transverso do abdômen, responsável pelo reflexo antecipatório postural do tronco. Paul Hodges, em uma de suas pesquisas observou que o Transverso do Abdômen (TrA) se contrai 5 milissegundos antes de tirarmos os membros superiores da inércia, pesquisa depois repetida com os membros inferiores.

O importante é que por ser o músculo mais profundo do tronco, e por ser responsável pelo Reflexo Antecipatório Postural, ele forma a parte mais profunda do núcleo de estabilização (CS), os músculos profundos posteriores do tronco – mais especificamente o multifideo – o assoalho pélvico fechando o sistema inferiormente, além do diafragma torácico como teto deste sistema.

Este sistema funciona por diferença pressórica, ou seja, quando o diafragma se contrai, abaixando-se, ocorre um aumento de pressão intra-abdominal (PIA), gerando assim, uma alavanca de flexão pré-compensada por uma alavanca de extensão. As duas alavancas no tronco geram uma estabilização do mesmo por compressão.

Simplificadamente está aí a teoria da estabilização proposta por Hodgesm trazida tão fortemente para dentro do Pilates, como do Treinamento Funcional.

Eyal Ledeman foi a primeira a reexaminar o princípio da estabilidade de núcleo em um artigo extremamente importante de 2009. Ledeman utilizou-se de diversas pesquisas de variados autores sobre a proposta objetivando plausíveis explicações para tal questão. Ela reexaminou os princípios da:

  • Estabilidade Segmentar Central
  • Estabilização da Coluna Vertebral

O primeiro cientista a investigar sobre a estabilidade da coluna lombar foi Bergmark, um engenheiro mecânico, em 1989, através de um modelo elasto-estático da coluna. O elasto seriam os músculos do tronco que gerariam rigidez – o que gerariam rigidez, o que estabilizaria a coluna – e o estático indica que o modelo estudado por Bergmark seria a coluna dentro: a estática.

Subsistemas de Estabilização

Panjabi em 1992 incluiu 3 subsistemas:

  1. Subsistema Passivo de Estabilização: ligamentos, tendões, discos intervertebrais e as próprias vértebras. Por ainda precisar garantir movimento, esse subsistema deixa uma área de frouxidão ao redor da vértebra onde ocorrem boa parte das lesões.
  2. Subsistema Ativo da Coluna: para diminuir essa área de frouxidão é preciso utilizar as musculaturas.
  3. Subsistema Neural: é preciso utilizá-lo para o sistema nervoso controlar os movimentos e realizá-los com precisão.

Esses 3 subsistemas para Panjabi deveriam atuar em sinergia. A ativação muscular é especialmente importante para controlar a mecânica articular e impedir uma lesão. Notem que falei em ativação muscular, não força. Falaremos mais a respeito disso à frente.

Esses pacientes têm dificuldades para recrutar os músculos estabilizadores da coluna, que muitas vezes é combinada com fraqueza de musculatura profunda. É claro que o subsistema neural não deixa o corpo parar de se mover por causa disso. Assim, ocorre um processo de substituição compensatória.

O movimento passa então a ser realizado por musculaturas que não tinham essa função a princípio, porém no corpo humano a conta não é tão matemática assim.

Lederman também avaliou como esses princípios se encaixam em um conhecimento mais amplo do controle motor. O princípio da estabilidade de núcleo (CS) foi derivado de estudos de Hodges e Richardson, 1996, 1998 conforme já citado anteriormente, porém mais adiante demonstraram uma mudança no tempo inicial da contração dos músculos do tronco em indivíduos portadores de dor lombar crônica (CLBP), ou seja, os portadores de dor lombar crônica teriam um atraso nessa ativação do núcleo (CS).

Esses achados e crenças gerais sobre a importância dos músculos abdominais, sobretudo o músculo Transverso do Abdômen (TsA), trouxeram fortes influências para o Pilates e o Treinamento Funcional. O TrA tem várias funções na postura vertical e a estabilidade é somente uma. Mas a função está em sinergia com todos os outros músculos que compõem a parede abdominal e além (Hodges et al., 1997, 2003, Sapford et al., 2001).

A musculatura atua no controle da pressão na cavidade abdominal aumentando a rigidez para a estabilidade das vértebras, além do tensionamento da fáscia toraco-lombar. O TrA também atua na vocalização, respiração, defecação, vômitos, etc. (Misuri et al., 1997).

LOGO, SURGE ASSIM A INSTABILIDADE LOMBO PÉLVICA COMO A GRANDE VILÃ CAUSADORA DA DOR LOMBAR!

Instabilidade Lombo Pélvica

Como vimos acima, nem todos os indivíduos possuem a habilidade de ativar musculaturas profundas da coluna para sua estabilização. Isso acontece especialmente no segmento lombar da articulação, gerando instabilidade, lesão e dor.

Precisamos ficar atentos a um detalhe da estabilidade lombar: ela é realizada por musculaturas profundas da coluna. Portanto, dificilmente conseguimos falar para um aluno “ative os multífidos” e ter algum resultado desse comando.

Em primeiro lugar, imagino que seu aluno sequer sabe que musculatura é essa, onde está localizada e sua função. Em segundo lugar, o corpo não trabalha com a ativação muscular isolada.

Além disso, boa parte dos indivíduos que já têm dor lombar possuem uma dificuldade de ativação que não está relacionada à fraqueza diretamente. Sua ativação muscular acontece atrasada, depois do movimento já ter iniciado. É um problema de feedforward que vai além de ter músculos fortes ou fracos.

Pensemos em um movimento importante da coluna lombar, como se inclinar para frente. Nesse movimento de flexão, precisamos de uma combinação de estabilidade e mobilidade que envolve flexão lombar e inclinação da pelve. As duas articulações precisam trabalhar em conjunto para não surgir dor.

Vamos pensar um pouco mais profundamente: Será que não superestimamos a ativação do core ou do power house durante todo esse período?

  1. Será que existe ativação funcional específica para músculos locais e outra para músculos globais?
  2. Será que conseguimos ativar o core isoladamente?
  3. Será que o TrA é o músculo mais importante para a estabilização do tronco?

A dor lombar será tratada com a melhora do tempo de ativação do TrA, ou ainda, se o mantivermos ativados o tempo inteiro.

Mas, quão essencial é o TrA para a Estabilização da Coluna Vertebral?

Uma maneira de avaliarmos a ineficácia da ativação do core, ainda que possível, basta observarmos as condições onde o músculo está danificado ou submetido a um estresse mecânico anormal. Isso fragilizaria o sistema de estabilização submetendo o indivíduo ao desenvolvimento da dor lombar.

A gravidez é uma situação fisiológica que nos levarias a fragilidade da estabilização, já que o músculo TrA, além de todos os músculos da faixa abdominal estarão:

  • Com seu alongamento muito além da curva de comprimento x tensão
  • Com perdas de força e incapacidade de estabilizar a pelve contra resistência (Fast et al., 1990; Gilleard e Brown, 1996).

Em estudo de 2006 os efeitos de uma abordagem cognitivo-comportamental foram comparados com fisioterapia clássica na dor pélvica e lombar, imediatamente após o parto por Bastiaenen et al., onde 869 mulheres grávidas participariam da pesquisa. No entanto, 635 mulheres foram excluídas, pois mais da metade de amostrar obteve sua recuperação espontânea e sem qualquer tipo de intervenção após o parto para a dor lombar.

A recuperação dessas mulheres aconteceu em um período em que os músculos abdominais estavam fora da sua curva de comprimento X tensão, ou seja, com pouca capacidade de contração e, portanto, sem estabilização (Gilleard e Brown, 1996). No entanto, esse foi um período em que a dor lombar foi absurdamente reduzida, sem nenhuma intervenção.

Como pode a dor lombar e pélvica ter melhorado durante um período de profunda ineficiência muscular abdominal? Por quê a coluna vertebral não colapsa? A relação entre os músculos abdominais e a estabilidade da coluna foi superestimada?

Este estudo concluiu que há poucas evidências de que os problemas localizados da mecânica musculoesquelética, incluindo a estabilidade da coluna, que desempenha um papel no desenvolvimento da dor lombar durante a gravidez.

Outro período interessante para nós, sobre o papel dos músculos abdominais e estabilização, é imediatamente após o parto. No pós-parto, o músculo abdominal demora cerca de 4 a 6 semanas para retornar das mudanças de comprimento e para o controle motor se reorganizar.

O reto abdominal, por exemplo, leva cerca de 4 semanas após o parto para retomar seu comprimento. A estabilidade pélvica só se normaliza após cerca de 8 semana (Gilleard e Brown, 1996). Espera-se que, durante esse período, não haveria estabilização do núcleo. Talvez, esse fator aumentaria a probabilidade de aparecimento da dor lombar?

Não foi demonstrado no estudo.

Nos estudos originais, diferenças de tempo de início de CS entre indivíduos assintomáticos e pacientes com CLBP (dor lombar crônica) foram cerca de 20ms. Ou seja, uma quinquagésima diferença (Hodges e Richardson, 1996, 1998; Radebold et al., 2000).

Deve-se notar que as questões não se referem a força, mas atrasos no tempo de contração. Tais atrasos estão muito além do controle consciente do paciente e as capacidades clínicas do terapeuta para testar ou alterá-los.

Controle Motor de Movimento

O controle motor do movimento é composto de vários fatores subjacentes que incluem:

  1. Força
  2. Velocidade
  3. Alcance
  4. Resistência – Grupo Paramétrico de Habilidades
  5. Co Contração
  6. Ativação Recíproca

Esses fatores representam o nível de controle sinérgico. E para as habilidades motoras mais complexas, incluem ainda:

  1. Coordenação
  2. Equilíbrio
  3. Tempo de Transição entre Diferentes Atividades
  4. Relaxamento Motor

Todos esses componentes motores atuam durante o movimento. E ao alterar um, todos os outros fatores de controle também mudarão. (Lederman E, Reabilitação neuromuscular em terapia manual e física, 2010. London, Elsevier).

Além disso, nenhum estudo até o momento demonstrou que o exercício de estabilidade de núcleo irá redefinir o tempo de início da contração do núcleo em pacientes com CLBP.

Há mais confusão sobre a questão da força do tronco e sua relação com a dor lombar e prevenção de lesões. O que sabemos é que o controle muscular do tronco deficitário, incluirá perdas de força, consequências na CLBP e não vice-versa.

Os níveis de Co contração no tronco são mantidos em níveis baixos, suficientes para as atividades de vida diária. Um aumento nesta atividade elétrica não parece ser uma boa estratégias pois aumentará a força de compressão no disco, a rigidez do tronco, além de consumir mais energia.

Tanto a produção motora quanto o recrutamento de músculos são extensivos (Hodges et al., 2000; Cholewicki et al., 2002, interferindo em todo o corpo. O treinamento focado em um único músculo é muito difícil. A ativação específica do músculo não existe e a ativação central se dá para a função. Se você traz a mão para a boa, o sistema nervoso “pensa” na mão e não em flexionar o bíceps, depois os peitorais, etc.

Porém, se a mão estiver no bolso, provavelmente outro esquema de ativação central será ativado especificamente para essa função. Os músculos realizam sua ativação de forma dependente da função para qual ele está designada no momento, afim de promover economia energética para todo sistema.

O controle muscular único é relegado na hierarquia dos processos motores para os centros do motor espinhal. É um processo que está distante do controle consciente. Na verdade, demonstrou-se que ao tocar os tendões do reto abdominal, oblíquo externo e oblíquo interno, as respostas reflexas de estiramento evocadas podem ser observadas no músculo, mas também se espalham extensivamente aos músculos da faixa abdominal.

Isso sugere que o feedback sensorial e o controle reflexo dos músculos abdominais estão funcionalmente relacionados. Portanto, seria impossível separá-lo pelo esforço consciente. Isso torna impossível contrair um único músculo ou grupo específico, mesmo com treinamento extensivo (Beith et al., 2001).

De fato, não há apoio da pesquisa de que o TrA pode ser ativado singularmente (Cholewicki et al., 2002).

Sendo assim, em 2007 Garcia, Elvira, Brown, Grenier, além de McGill chegaram a conclusão de que o abdominal ”hollowing” – o abdominal clássico – não ativa, tão pouco estabiliza a coluna. E que para a estabilização da coluna possa acontecer outros fatores, são de extrema importância.

Dessa forma, Lederman em 2010 e Hibbs et al em 2008 concluem que a classificação em músculos profundos (estabilizadores) e superficiais, não possuem critério funcional, e que ainda que fosse possível executar essa contração isoladamente, não estaríamos prevenindo ou tratando a dor lombar, evitando movimentos de compensação na mesma.

Isso é mais uma crença dentre os profissionais do movimento, pois não existe evidência científica para essa afirmação.

A ativação dos músculos do tronco depende da tarefa à qual estão sendo designados no momento. A estabilização do tronco é garantida por atividade sinérgica muscular de direção específica que incluem outros músculos que se encontram fora do power house. Mc Guill 2010, 2013, Tarnanen SP et al 2012, Franca FR et al 2010.

Sobre a ativação dos músculos do tronco, percebam que aqui deixei de falar em estabilização do núcleo (CS) pois já sabemos que o sistema nervoso central ativará os músculos que serão necessários para realizarmos uma tarefa. Portanto, nossos treinos deveriam ser focados nos exercícios que buscam a funcionalidade para o dia-a-dia de cada aluno.

Um exercício de Sit Up (sentar e levantar) em uma simples cadeira, pode ser um ótimo exercício de controle de tronco para uma senhora de 86 anos com histórico de sedentarismo. Por outro lado, esse exercício é completamente ineficaz para uma jovem atleta.

Percebam que a estabilização segmentar é um tema mais profundo que o proposto por Paul Hodges, sendo que o próprio já assumiu que seu conceito do core acaba por gerar troncos rígidos. Quanto maior a rigidez de um tronco, menor a funcionalidade que o corpo terá.

Confira abaixo uma entrevista de Paul Hodges sobre a falta de entendimento do power house:

Mas, e o Power House no Pilates?

Ah, o Método Pilates foi desenvolvido pelo genial Joseph Pilates durante a primeira guerra mundial, e a proposta de estabilização segmentar foi trazida por Hodges.

Será que Joseph chegou a conhecer Hodges? Estudar seus artigos científicos?

Como Joseph Pilates não se encontra mais vivo, cada discípulo de 1ª geração falou sua língua e transmitiu seu conhecimento, e só temos Lolita San Miguel viva. Essa questão do power house tornou-se uma questão de telefone sem fio, sem nenhuma evidência científica. Tão pouco uma citação de Joseph em seus livros…

Estamos falando de ciência, e quero deixar claro aqui que reverencio todos os mestres do maravilhoso Método Pilates, que tanto amamos.

Em um próximo artigo continuaremos a nossa deliciosa viagem pela busca científica, pela busca da verdade, e pela resposta para essa questão.

 

Referências Bibliográficas
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Qual a Importância do Sistema Nervoso Autônomo (SNA)?

Qual a Importância do Sistema Nervoso Autônomo (SNA)?

O Sistema Nervoso Autônomo age em conjunto com o sistema endócrino, no controle, coordenação e sincronização da atividade visceral. Portanto, é um dos principais mecanismos do equilíbrio corporal (homeostase).

Este sistema age independente da vontade do indivíduo, é portanto, autônomo: “funciona sozinho”. Seus impulsos nervosos motores terminam em músculo estriado cardíaco, músculo liso ou glândula. Entretanto, as fibras eferentes viscerais (motoras viscerais) são acompanhadas por fibras aferentes viscerais (sensoriais viscerais).

Estas fibras possuem importante papel no controle da função visceral, pois fornecem informações importantes sobre o ambiente interno do corpo. Os reflexos viscerais controlam a pressão arterial e a bioquímica corporal diante de alterações na respiração, função cardíaca e resistência da parede dos vasos.

Devido a isso, alguns autores consideram como parte do Sistema Nervoso Autônomo, tanto as fibras motoras quanto as sensoriais.

Sistema Nervoso Autônomo: Simpático e Parassimpático

As fibras pré ganglionares, tanto simpáticas como parassimpáticas, e as fibras pós ganglionares parassimpáticas liberam o neurotransmissor acetilcolina. Já a maioria das fibras pós ganglionares do sistema simpático liberam o neurotransmissor noradrenalina.

Outras Divisões

De acordo com Houssay e Cingolani, o Sistema Nervoso Autônomo pode ser dividido em:

  1. Sistema Simpático
  2. Sistema Parassimpático 
  3. Sistema Nervoso Entérico

Sistema Nervoso Entérico

O Sistema Nervoso Autônomo Entérico está presente ao longo da parede do tubo gastrointestinal, desde o esôfago até o ânus. Ele é o responsável pela contração da parede do esôfago, estômago e intestinos, no sentido de impulsionar o bolo fecal para fora do corpo, ou seja: “fazer o intestino funcionar”.

Pessoas que têm prisão de ventre, podem ter disfunção deste segmento do SNA, onde a distensão gerada pelo bolo fecal deveria estimular a contração da parede do intestino para “fazê-lo funcionar”, mas isso não ocorre, e o material permanece acumulado.

Esta condição pode gerar uma flacidez da parede intestinal, que terá cada vez menos estímulo para contrair. É importante ressaltar que pessoas que utilizam laxantes por longos períodos, podem desenvolver esta condição. Através de técnicas de terapia manual e da mobilidade visceral recrutada durante os movimentos e respiração do Pilates, alem do método abdominal hipopressivo, podemos estimular o sistema nervoso entérico e a normalização do funcionamento intestinal.

Sistema Simpático

Os gânglios do Sistema Nervoso Autônomo Simpático saem da coluna entre a última vértebra cervical e a segunda lombar. Este sistema inerva todas as vísceras do corpo. Ele prepara o organismo para “lutar ou fugir”:

  • Dilata a Pupila para Aumentar o Campo Visual
  • Aumenta o Batimento Cardíaco e a Pressão Arterial
  • Manda Sangue para os Músculos Esqueléticos
  • Mobiliza e Disponibiliza Energia Extra para os Músculos Efetores
  • Aumenta Frequência Respiratória
  • Faz Broncodilatação
  • Vasoconstrição das Glândulas Lacrimais e Salivares
  • Estimula a Secreção das Glândulas Sudoríparas
  • Ereção dos Pelos
  • Dilata as Artérias Coronárias
  • Diminui o Peristaltismo do Tubo Digestivo
  • Contrai os Esfíncteres
  • Estimula a Secreção de Noradrenalina pelas Glândulas Suprarrenais
  • Faz Vasoconstrição Global dos Vasos do Tronco e das Extremidades

De acordo com Moore e Dalley (2007), a função primária do SNA simpático é controlar os vasos sanguíneos. Esta ação é realizada de diferentes formas: ora estimulando a vasodilatação, ora estimulando a vasoconstrição.

Ele é o responsável por inervar tonicamente todos os vasos do corpo humano, mantendo-os em um estado de repouso de vasoconstrição moderada. De forma geral, quando a estimulação simpática aumenta sobre os vasos gera-se vasoconstrição, e a diminuição dos sinais simpáticos permite a vasodilatação.

Apenas no caso dos vasos coronários e dos vasos dos músculos esqueléticos, é que o simpático resulta em vasodilatação.

A ativação simpática estimula a liberação de adrenalina e noradrenalina pelas glândulas adrenais, através da região medular. Portanto, segundo Guyton (2006), os órgãos são, na verdade, estimulados duas vezes: uma estimulação direta através dos nervos simpáticos e uma estimulação indireta através dos hormônios adrenais.

Em consequência, caso haja lesão da medula adrenal não haverá prejuízo do funcionamento simpático. Outro papel importante da dupla estimulação é que algumas estruturas não são inervadas por fibras simpáticas diretas.

Um exemplo citado por Guyton, é a taxa metabólica de todas as células do corpo: esta taxa aumenta através da ação dos hormônios medulares adrenais, principalmente da adrenalina, pois apenas uma pequena proporção destas células são inervadas por fibras simpáticas.

É possível estimular o funcionamento deste sistema através de terapia manual, utilizando-se mobilizações locais da coluna, ou por exercícios de Pilates, com a movimentação principalmente da coluna torácica em múltiplos planos.

Sistema Parassimpático

O Sistema Nervoso Autônomo Parassimpático emerge ao nível do crânio e do sacro. A porção craniana origina-se a partir de quatro pares de nervos:

1) Nervo Oculomotor III: Emerge do mesencéfalo, perfura a dura máter lateralmente ao diafragma da sela túrcica, passando superiormente à hipófise para atravessar o teto e a parede lateral do seio cavernoso. Penetra na órbita pela fissura orbital superior, onde se divide para suprir os músculos extrínsecos do olho. Parassimpaticamente inerva a musculatura lisa do olho, mais especificamente o músculo ciliar, que regula a convergência do cristalino, e o músculo esfíncter da pupila.

2) Nervo Facial VII: Este nervo emerge do sulco bulbo pontino através de uma raiz motora e uma raiz autonômica (denominada nervo intermédio). Estes dois componentes penetram no meato acústico interno. Emerge do crânio pelo forame estilomastoideo, atravessa a glândula parótida. As fibras aferentes viscerais que participam do SNA suprem a glândula lacrimal, as glândulas salivares sublingual e submandibular e a mucosa das cavidades nasal, oral e faríngea.

3) Nervo Glossofaríngeo IX: É um nervo misto que sai do crânio pelo forame jugular, na sutura occipitomastoidea. Ele inerva a glândula parótida e glândulas mucosas orais. As fibras pré ganglionares fazem sinapse no gânglio óptico.

4) Nervo Vago X: De maneira geral supre as vísceras torácicas e abdominais. Vamos aprofundar o estudo sobre este nervo de maneira separada, neste texto, mais adiante.

A porção sacral emerge de S2 a S4 e inerva útero, ovários, bexiga, uretra, testículos, porção final do intestino grosso e genitais externos.

Este sistema tem o efeito inverso do sistema simpático, ele age no sentido do relaxamento corporal:

  • Contrai a Pupila
  • Diminui os Batimentos Cardíacos e Pressão Arterial
  • Economiza Energia
  • Diminui a Frequência Respiratória
  • Aumenta a Secreção Lacrimal
  • Faz Vasodilatação das Glândulas Salivares
  • Faz Constrição das Artérias Coronárias
  • Bronquioconstrição
  • Aumenta o Peristaltismo do Tubo Digestivo
  • Relaxa os Esfíncteres
  • Promove o Esvaziamento da Bexiga Através da Contração de sua Parede

É possível estimular o funcionamento deste Sistema Nervoso Autônomo através de técnicas de terapia manual específicas para a estrutura do crânio e do sacro. Os exercícios de Pilates que enfatizam a mobilidade pélvica tem efeito benéfico sobre este sistema, na sua porção sacral.

Exercícios oculares e o estímulo para posicionamento visual durante as sessões de Pilates (o olhar deve acompanhar o sentido do movimento) são estímulos para o SNA parassimpático de origem craniana.

O equilíbrio de funcionamento entre os dois sistemas autônomos faz com que o corpo se encontre em condição ideal de saúde.

Caso haja um desequilíbrio entres eles, e um esteja agindo em detrimento do outro, o funcionamento do corpo como um todo estará prejudicado, resultando em maior esforço para alcançar a homeostase. Com isso, podem surgir dores, lesões e alterações de funcionamento visceral.

O papel do fisioterapeuta está em entender bem a anatomia e fisiologia dos sistemas corporais, para então eleger as técnicas adequadas, que auxiliarão o corpo a reencontrar o seu equilíbrio dinâmico saudável.

Importância do Nervo Vago

                Sistema Nervoso Autônomo S e PS                          Nervo Vago: Trajeto

Agora gostaria de me aprofundar um pouco mais em um elemento específico do sistema parassimpático: o nervo vago.

Antigamente era denominado “nervo pneumogástrico”, devido à ação sobre os pulmões e todo tubo digestivo. É o maior dos nervos cranianos e também o que possui o trajeto mais longo e a distribuição mais extensa de todos os nervos cranianos. É um nervo misto e essencialmente visceral.

Emerge do sulco lateral posterior do bulbo sob a forma de filamentos radiculares que se reúnem para formá-lo. Sai do crânio pelo forame jugular, situado na sutura occipito-mastoidea, segue seu trajeto descendente medialmente ao músculo esternocleidomastoideo, onde os nervos vagos direito e esquerdo entram nas bainhas carótidas e se continuam até a raiz do pescoço.

Inerva laringe e faringe, adentra na cavidade torácica através da abertura superior do tórax, onde o nervo vago esquerdo contribui para o plexo esofágico anterior e o nervo vago direito para o plexo esofágico posterior, formando os troncos anterior e posterior, inervam coração, pulmões e esôfago; então segue seu trajeto posteriormente ao osso esterno e lateralmente ao esôfago.

Ao nível do hiato esofágico, passa por entre as fibras musculares do diafragma, juntamente com o esôfago, e penetra na cavidade abdominal, fazendo conexões com plexos nervosos (como o plexo celíaco) e inervando todas as vísceras e glândulas abdominais:

  1. Estômago
  2. Duodeno
  3. Fígado
  4. Pâncreas
  5. Baço
  6. Adrenais
  7. Rins
  8. Intestino Delgado
  9. Intestino Grosso

Este nervo possui componentes aferentes (componente sensorial) viscerais gerais, que conduzem impulsos originados na faringe, laringe, traqueia, esôfago, vísceras do tórax e abdômen. Assim como fibras eferentes viscerais gerais, que são responsáveis pela inervação parassimpática das vísceras abdominais e torácicas e fibras eferentes viscerais especiais, que inervam os músculos da faringe e da laringe.

Surpreendente, 90% do nervo vago é sensorial, ou seja, leva informações sensitivas das vísceras para serem interpretadas no cérebro (interocepcoes). Ele capta informações viscerais e transmite para o tronco cerebral médio e depois para o tálamo, onde serão organizadas e distribuídas para o córtex cerebral.

É importante lembrar que o tálamo é um centro de integração de impulsos nervosos, sendo responsável também por sono e vigília, sensações dolorosas, regulação do SNA, regulação da consciência e cognição. Portanto, estas funções podem interferir e influenciar umas às outras.

A importância do nervo vago é tão grande que, pesquisadores como Kevin Tracey, tem desenvolvido elementos bioeletrônicos para estimulá-lo.

Em um de seus artigos científicos publicados na revista nature, Tracey mostra que a ativação das fibras aferentes do nervo vago geram respostas anti-inflamatórias, através do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Este tipo de estimulação tem sido pesquisada e utilizada para o tratamento de dor crônica e de patologias, como a artrite reumatóide.

Tracey sugere acrescentar “inibição da resposta inflamatória” e melhora da resposta imunológica à lista de efeitos parassimpáticos do nervo vago.

Conclusão

A fisioterapia pode ser um excelente recurso para realizar a estimulação vagal e melhorar suas aferências no Sistema Nervoso Autônomo.

Exemplos destas possibilidades terapêuticas são as técnicas de liberação miofascial do músculo esternocleidomastoideo, da fáscia e musculatura da garganta, mobilização e liberação miofascial da região do esterno e técnicas para melhorar a mobilidade visceral.

Todas estas ações terapêuticas podem ser realizadas através de terapia manual, exercícios de alongamento e mobilização (Pilates) e também através da estimulação visceral do Método Abdominal Hipopressivo (MAH).


Esse texto foi co-escrito pela Dra. Thaysa Greve

Thaysa é Fisioterapeuta com Pós Graduação em Fisiologia Humana, assim como cursos nas áreas:

  • Certificação em Osteopatia Estrutural e Funcional- EBOM
  • Formação em Osteopatia Estrutural – EOM
  • Formação em Osteopatia Postural e Visceral- Instituto Docusse de Osteopatia e Terapia Manual (Idot)
  • Formação em Manipulação Visceral – Barral Institute (USA)
  • Formação em Cadeias Musculares -Método Busquet
  • Formação em Manipulação das Fáscias – Método Stecco
  • Formação em Terapia Crânio Sacral-TCSI- Upledger Institute.
  • Certificação em Pilates para Reabilitação
  • Curso de Pilates nas Patologias de Joelho, Tornozelo e Pé – I Congresso Brasileiro de Pilates

 

Referências
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Como trabalhar Extensão do Tronco no Pilates?

Como trabalhar Extensão do Tronco no Pilates?

Nos casos de lombalgia, é comum encontrar indivíduos com músculos profundos, e portanto, estabilizadores, que realizam a extensão da coluna hiperativos, seja por excesso de rigidez do tronco, PIA aumentada ou disfunção sacro-ilíaca, o que gerará nesse grupamento muscular um efeito paradoxal de relaxamento nessa camada muscular profunda.

Por isso, o primeiro instinto do profissional do movimento é investir em fortalecimento para diminuir a dor e melhorar a funcionalidade desse indivíduo.

Não está errado, mas talvez seja um raciocínio incompleto, considerando que estamos trabalhando com Pilates, e que precisamos primeiro retirar o campo de interferência causador da inatividade desses músculos. Logo, precisamos considerar as melhores maneiras de realizar esse programa de reativação desse grupo muscular, fundamental para nossa biomecânica.

Aprenda nesse artigo mais informações a respeito dos movimentos de flexão e extensão do tronco e sua relação com a dor lombar. Depois, darei algumas indicações para trabalhar esses movimentos em aula, sem esquecer da mobilização, ganho de flexibilidade da coluna, além de trabalho de controle motor.

Papel da Flexão e Extensão do Tronco na Lombalgia

Vamos voltar a falar de um tema que eu particularmente adoro: dor lombar. É fato que muitos de nossos pacientes sofrem com o problema, por isso é nossa responsabilidade entender o problema e dar o melhor tratamento possível.

Acontece que as musculaturas relacionadas a flexão e extensão do tronco muitas vezes estão desequilibradas em pacientes com lombalgia. Quando as musculaturas extensoras e flexoras estão fracas, tensas por compressão das cadeias de dois pontos de extensão e de flexão ou em desequilíbrio, a estabilidade da coluna lombar torna-se precária.

Mesmo que o paciente ainda não tenha apresentado dor, esse é um indício que ele está próximo de desenvolver o problema. Lembrando sempre, que a dor lombar está ligada a questões mecânicas, mas também a fatores bio-psico-sociais.

Por isso a atividade física continua sendo um dos principais métodos preventivos da dor lombar. Conseguimos combatê-la e preveni-la através do fortalecimento e ativação correta de diversas estruturas do corpo. Isso inclui os músculos relacionados à flexão e extensão do tronco.

Sabendo disso, posso introduzir o Pilates como o método ideal para esse trabalho. O próprio Joseph Pilates já prezava por movimentos perfeitos e controlados.

É exatamente isso que queremos na flexão e extensão do tronco de nossos pacientes com lombalgia. Ouso dizer que sobretudo os exercícios em extensão são fundamentais, porém esquecidos dentro do método pela cinesiofobia de nossos alunos, e acabamos por sucumbir evitando assim, as extensões de tronco, tão fundamentais para os músculos, como o Psoas, por exemplo.

Os exercícios do Pilates envolvem movimentos importantes do tronco e ajudam a adquirir consciência corporal. Conseguimos utilizá-lo para trabalhar simultaneamente fortalecimento de músculos abdominais, flexores e extensores e também mobilização da coluna.

Como acontece a Flexão e Extensão do Tronco?

Os movimentos realizados pelo tronco – mais especificamente pela coluna lombar – envolvem a ativação sinérgica de diversos músculos. Para o bem do estudo, dividiremos as musculaturas nessa seção em flexores e extensores de tronco.

Os flexores incluem:

  • Reto Abdominal
  • Oblíquo Interno
  • Oblíquo Externo
  • Psoas

Já os extensores são:

  • Iterespinais
  • Multífideo
  • Rotadores do Tronco
  • Intertransversários do Tronco

O grupo de músculos extensores da coluna geralmente encontra-se em desequilíbrio funcional perante os flexores. Ao aplicar exercícios na sua aula de Pilates você perceberá que muitos pacientes apresentam dificuldades para realizar exercício com extensão e hiperextensão do tronco.

Além dos músculos envolvidos em movimentos do tronco, a flexão e extensão também envolvem movimentos de outras articulações.

Quando o movimento parte da posição de pé, por exemplo, a flexão também recruta flexores do quadril. Na extensão, partindo da mesma posição encontramos um envolvimento de glúteos e isquiotibiais. Sempre buscando um C profundo e perfeito, descrito por Bezieres em seu livro Coordenação Motora, como movimentos fundamentais do tronco.

Em alguns casos encontramos glúteos também inativos. Nesses pacientes o glúteo máximo encontra-se inibido e incapaz de realizar os movimentos de quadril.

Como resultado temos um exagero dos movimentos de isquiotibiais, o que também gera um aumento da lordose lombar. Essa também pode ser uma dos fatores que somados a tantos outros, poderá desenvolver a lombalgia em seu paciente.

Trabalhando Flexão e Extensão de Tronco na Aula de Pilates

Os movimentos de flexão do tronco geralmente estão facilitados pela hipoativacão dos músculos antagonistas desse movimento, ou ainda pela contração excêntrica desses mesmos músculos para manter nosso equilíbrio.

Portanto, o foco costuma ser na recuperação de movimento de extensão do tronco, porém se os extensores estiverem em excentricidade, o problema estará no excesso de tensão dos flexores do tronco. Percebam, não há uma receita pronta, e cada caso deve ser avaliado, precisamente com muita atenção e competência, a fim de que a melhor estratégia de melhora da mobilidade seja adotada.

Precisamos utilizar os exercícios de Pilates para fortalecer musculaturas profundas do tronco, que muitas vezes ficam esquecidas. Só quero lembrar de um detalhe aqui: estamos em busca do equilíbrio.

De nada adianta trabalhar o fortalecimento de um grupo muscular em excesso. Tudo no Pilates preza pelo movimento global e devemos manter isso. O fortalecimento excessivo é, na verdade, um vilão para a coluna. Ele gera rigidez e a rouba do seu movimento fisiológico, que é exatamente o que tentamos recuperar durante o tratamento.

Dessa maneira, os exercícios utilizados numa aula de Pilates precisam equilibrar o fortalecimento de extensores e flexores da coluna.

Outro Detalhe: observe cuidadosamente a mobilidade de toda a coluna vertebral para realizar o exercício. Mesmo que você queira tratar a dor lombar especificamente, não é possível ignorar o restante da estrutura. A coluna atua com movimentos integrados de todas as suas articulações.

Quando existe falta de movimento em qualquer parte da coluna, isso será compensado com excesso de mobilidade em outras partes. Lembra-se que a instabilidade lombar é considerada como uma das causas de dor na região?

Isso pode ser causado porque outra parte da coluna está rígida.

Durante sua avaliação dê atenção a todos os segmentos corporais. Mesmo desvios em quadris e joelhos podem estar envolvidos nas causas da dor e na fraqueza de extensores do tronco. Não queremos sempre perfeição de movimento? É isso que devemos adquirir ao trabalhar com nossos alunos de Pilates.

Conclusão

Sabemos que os movimentos de flexão e extensão do tronco são fisiológicos e essenciais para que um indivíduo tenha bem estar e evite dores na vida cotidiana. Infelizmente, nem sempre esses movimentos estão com seu funcionamento correto.

A falta de movimento é bastante problemática e gera tensões e fraquezas por todo o corpo.

Quando começamos a trabalhar com um aluno sedentário que também apresenta lombalgia, devemos lembrar do movimento de extensão do tronco. Esse movimento está prejudicado por fraquezas musculares que atingem os músculos diretamente relacionados à coluna, e por conseguinte, pelo corpo todo.

O glúteo máximo deve receber atenção especial por estar inibido em muitos casos, mas existem indivíduos que precisam fortalecer adutores, relaxar Psoas, e assim, por diante, o que torna a dor lombar, ainda um tema desconhecido para o mundo cientifico.

O que devemos buscar acima de tudo no tratamento com Pilates é o equilíbrio. Além de fortalecer a coluna e musculaturas extensoras, precisamos de flexibilidade e mobilidade. Isso se aplica a todos seus segmentos, não só à coluna lombar.

Bibliografia
http://www.scielo.br/pdf/%0D/rbme/v10n6/a05v10n6.pdf
https://www.researchgate.net/publication/15481807_Human_Trunk_Strength_Profile_in_Flexion_and_Extension
https://www.researchgate.net/publication/5638440_Functional_anatomy_of_trunk_flexion extension_in_isokinetic_exercise_Muscle_activity_in_standing_and_seated_positions
https://bdtd.ucb.br/index.php/RBCM/article/viewFile/660/671