Reabilitação do Assoalho Pélvico: Tudo o que você Precisa saber!

Reabilitação do Assoalho Pélvico: Tudo o que você Precisa saber!

Na Reabilitação do Assoalho Pélvico (AP), tratamos desordens ou disfunções do pavimento pélvico melhorando as suas funções, exercendo influência direta na melhora da qualidade de vida de mulheres e homens. É indicado para o tratamento das disfunções do AP como:

  • Incontinência Urinária (primeira linha de tratamento);
  • Incontinência Fecal;
  • Bexiga Hiperativa;
  • Bexiga Neurogênica.

A fisioterapia pélvica também atua no pré e pós-parto e nas diversas disfunções sexuais, ajuda os pacientes que sofrem de constipação e nos pós-operatórios de cirurgias pélvicas com redução de complicações e acelerando a recuperação. Quer entender tudo sobre a Reabilitação do Assoalho Pélvico? Continue lendo esse texto!

Anatomia da Pelve

Vamos começar falando sobre a Anatomia da Pelve que compreende: os ossos do quadril, ilíaco e sacro/cóccix, ossos do tipo plano. Conhecer a anatomia ajuda, e muito, durante a Reabilitação do Assoalho Pélvico. Os ilíacos se unem a sínfise púbica anteriormente e ao sacro posteriormente que se articula com os ilíacos, com poucos movimentos existentes entre eles.

É importante entendermos como funcionam, pois, estão intimamente ligados com os movimentos da coluna vertebral. O sacro articula-se superiormente com a 5ª vértebra lombar e inferiormente com o cóccix, influenciando na postura. Funcionam como uma unidade e o peso corporal é transmitido para os membros inferiores através da pelve.

Como grandes forças atuam em diversos sentidos, é comum o aparecimento de dores e desconfortos. Como exemplo, a dor pélvica que atinge uma grande maioria das mulheres, não é bem definida e refere-se a dor situada na região abaixo do umbigo e acima das pernas, podendo ter diversas causas, entre elas as musculares, as ósseas, as do sistema reprodutor ou as viscerais.

O quadril é formado por três ossos: ílio, ísquio e púbis. O ponto onde se unem as três peças de uma asa do ilíaco, é o acetábulo (fossa que recebe a cabeça do fêmur). Ele faz o suporte de peso acima da linha do quadril e distribui o peso para os membros inferiores, devendo estar devidamente balanceada para a manutenção da capacidade de equilíbrio e de locomoção.

O posicionamento da região lombo pélvica pode influenciar na coordenação com os músculos do tronco, na contração do AP e no controle urinário, fundamental para o esvaziamento da bexiga. Vamos entender mais sobre a Reabilitação do Assoalho Pélvico?

Subdivisões da Pelve

A anatomia da pelve é subdividida em pelve maior (protege as vísceras abdominais) e menor (ossos da cavidade pélvica e períneo). Em formato de losango, o períneo contém os órgãos genitais e o ânus, tanto nos homens como nas mulheres, localizado entre as coxas e nádegas.

O centro tendíneo é onde os músculos que fazem parte do períneo se inserem, sendo este um local de maior resistência. Ainda temos a fáscia endopélvica que envolve as estruturas e mantém as vísceras em posições normais.

O AP é formado por um complexo conjunto de músculos, ligamentos e fáscias, formando uma rede de sustentação que deve interagir entre si para o funcionamento adequado do sistema de continência de urina e fezes e ainda sustentar os nossos órgãos abdominais.

Quando em funcionamento normal, estes músculos devem ter a capacidade de se contrair e relaxar tanto reflexamente como voluntariamente. A Reabilitação do Assoalho Pélvico, a partir dos músculos, quando realizada pelo fisioterapeuta, auxilia nos casos em que esta rede esteja com problemas, seja em resistência, fortalecimento ou relaxamento da musculatura.

A perda urinária ocorre quando há uma deficiência no suporte vesical e uretral que é feito pelos músculos do AP e/ou por uma fraqueza ou lesão.

Precisamos entender também como funciona a bexiga, sendo esta comandada por um sistema de nervos que se concentram no trígono: sistema nervoso central, sistema nervoso periférico e estruturas do trato urinário. A interação equilibrada deste conjunto que institui a continência urinária. A uretra é um canal membranoso por onde passa a urina da bexiga para o meio externo.

Músculos trabalhados na Reabilitação do Assoalho Pélvico

Os músculos que compõem o AP são: esfíncter anal, perineais superficiais, diafragma urogenital (bulbocavernoso, transverso superficial do períneo, isquiocavernoso) e pélvico (músculo coccígeo e elevadores do ânus).

Os músculos elevadores do ânus se dividem em pubococcígeo, ileococcígeo e puborretal. Estes músculos resistem a elevações súbitas da pressão-intra-abdominal e são os responsáveis pelo fechamento do hiato urogenital, quando se contraem.

O AP é constituído por dois tipos de fibras: 70% de contração lenta (tipo 1) e 30% de contração rápida (tipo 2). As fibras do tipo 1 são de resistência, suportando a contração por períodos mais longos, mantendo o tônus muscular até mesmo em repouso, já as do tipo 2 respondem ao aumento súbito da pressão intra-abdominal, realizando o fechamento uretral, sendo assim, fatigáveis.

Incontinência Urinária

A incontinência urinária (IU) é uma condição que pode trazer sérias implicações na vida social, psicológica e econômica das pessoas pelo medo da perda urinária, pela higiene, pela troca mais frequente de roupas e a necessidade de utilizar protetores favorecendo com o passar do tempo o isolamento e consequentemente a depressão.

A presença de noctúria (aumento da frequência urinária durante a noite) atrapalha o sono, levando a quadros de cansaço. Como não coloca diretamente a vida das pessoas em risco, muitas permanecem com o problema por anos acreditando que é normal perder urina, o que muitas vezes acaba prejudicando também a vida sexual das mulheres.

A Sociedade Internacional de Continência (ICS) define a IU como toda perda involuntária de urina. É um problema muito comum entre as mulheres e pode ocorrer em qualquer idade.

Encontram-se diferenças na prevalência conforme as características da população e faixa etária. Uma característica em comum entre elas é que geralmente não procuram amparo profissional. Muitas atletas também apresentam incontinência urinária de esforço (IUE), devido ao desequilíbrio entre as forças do AP e do abdômen.

Fatores de risco da IU

A prevalência e os fatores de risco associados vem sendo bastante estudados. Muitos fatores podem estar correlacionados com o aparecimento de IU ao longo do tempo como:

  • Idade Avançada;
  • Parto Vaginal;
  • Obesidade;
  • Sedentarismo;
  • Fraqueza do Tecido Conectivo;
  • Trabalho Fatigante com sustentação de carga;
  • Entre Outros.

Muitas vezes os estudos encontram-se conflitantes em relação aos fatores de risco, mas é essencial que sejam compreendidos, por isso se faz necessário uma boa avaliação para que seja possível traçar um plano de tratamento apropriado para cada paciente.

Tipos de incontinência

Dentre os tipos de IU, a IUE é definida como a perda involuntária de urina que ocorre durante o esforço físico, durante a tosse ou espirro, ou seja, quando existe aumento da pressão intra-abdominal.

A Incontinência Urinária de Urgência (IUU) é caracterizada pela vontade súbita de urinar e a pessoa acaba perdendo urina antes de chegar até o banheiro. Estes são os tipos mais comuns de incontinência entre as mulheres, com maior prevalência a IUE, sendo que os sintomas podem aparecer associados, classificado como Incontinência Urinária Mista (IUM).

Diagnóstico da incontinência

O tratamento fisioterapêutico é determinante para que os sintomas da IU desapareçam o quanto antes. O diagnóstico precoce e a prevenção são cruciais na Reabilitação do Assoalho Pélvico!

A informação a respeito do uso adequado da musculatura do AP e da função miccional, fazem parte da educação acerca do AP. A fisioterapia realiza um tratamento conservador, muitas vezes solucionando o problema sem precisar realizar um procedimento cirúrgico.

A avaliação da fisioterapia pélvica é primordial para saber o que realmente está acontecendo com cada paciente, isto envolve a habilidade de elevar os músculos do AP, a manutenção da força e a coordenação desta contração.

Não é possível fazer um tratamento somente com indicações de exercícios pré-definidos e são necessárias sucessivas reavaliações para acompanhar a evolução do quadro clínico e determinar se precisará de mudanças na conduta durante o tratamento.

O fisioterapeuta deve estar preparado para investigar detalhadamente a história clínica do paciente. Questionar o motivo da procura para começar a entender qual o problema e por quanto tempo está instalado a disfunção.

Se há hábitos que pioram, traumas pélvicos, dor e cirurgias. Utilização de medicamentos, hábitos de vida diária e atividade sexual também são importantes. Após a compreensão dos diversos fatores que podem interferir no tratamento, passamos para a avaliação física.

Inspeção da região pélvica

Primeiramente é realizada a inspeção da região pélvica de forma objetiva e deve ser explicado ao paciente os procedimentos da avaliação. Somente após o consentimento, dá-se seguimento a avaliação. Existem várias maneiras de avaliar a função do AP e as técnicas tem sido cada vez mais aperfeiçoadas.

Atualmente é muito utilizado na avaliação do AP a escala Perfect, proposta por Bo e Larsen em 1990, que consiste na palpação bidigital no canal vaginal, permitindo uma avaliação funcional do AP onde conseguimos quantificar o número de contrações rápidas e lentas, intensidade e o tempo de contração.

A importância do biofeedback

Arnold Kegel, ginecologista, foi o pioneiro no uso do treinamento da musculatura do AP para tratamento da IU, por volta dos anos 50. No seu estudo, 84% das mulheres com IU obtiveram melhora do quadro.

No seu protocolo de Reabilitação do Assoalho Pélvico incluía observação da contração voluntária dos músculos do AP, palpação vaginal e o uso do biofeedback para mensurar a pressão durante a realização dos exercícios vaginais.

O tratamento realizado em consultório é auxiliado pelo uso de equipamentos que ajudam na demonstração da contração do AP. O biofeedback é um aparelho que demonstra através da eletromiografia na tela de um computador o que está acontecendo com a musculatura perineal.

É utilizado na prática clínica para o treinamento do tônus da musculatura pélvica, fazendo com que aja mais precisão, conscientização e controle nos movimentos com intensidade e duração desejados favorecendo também o relaxamento.

Tratamento da Incontinência Urinária
hipopressiva no tratamento de diástase abdominal

Mudanças comportamentais, eletroestimulação neuromuscular e cinesioterapia (exercícios para a normalização do tônus muscular) são utilizados no tratamento clínico.

Outros instrumentos podem ser utilizados para o treinamento, como os cones vaginais (pequenas cápsulas de peso diferente) que se introduz na vagina para fortalecimento muscular proporcionando um feedback tátil e cinestésico e até mesmo o uso da bola suíça com exercícios funcionais.

Diversas técnicas melhoram a eficiência, controle e qualidade dos componentes anatômicos, devolvendo a autoestima e a autoconfiança a estas pacientes que tem o convívio social comprometido na maioria das vezes.

O treinamento baseado nas contrações voluntárias repetidas, favorece o mecanismo de continência, resultando do fechamento uretral ocasionado a elevação e aproximação dos músculos do AP. Este processo também é influenciado pelo fechamento esfincteriano, dependente dos músculos estriado e liso uretral.

Ainda dentre tantas particularidades do tratamento, a maioria das mulheres se mostram incapazes de realizar uma contração dos músculos do AP somente com um comando verbal, por isso o tratamento deve ser acompanhado por um fisioterapeuta especializado. Também é interessante a discussão do caso com os demais profissionais que atendem este paciente.

Exercícios para a Reabilitação do Assoalho Pélvico

Alguns estudos também demonstram que um abdominal hipotônico altera as pressões no AP, ocorrendo o aumento da pressão anterior favorecendo a descida dos órgãos pélvicos e a IU.

Exercícios, posturas e manobras com enfoque no abdominal hipopressivo são benéficos na tonificação da musculatura do AP, normalizando as tensões das estruturas músculo-aponeuróticas antagonistas, realizando a proteção dos órgãos pélvicos.

A Reabilitação do Assoalho Pélvico consiste principalmente na conscientização das partes anatômicas do AP tão pouco conhecido e a forma de controlar os movimentos de maneira consciente, como se trabalha estes músculos e que muitas vezes não depende somente do fortalecimento.

Deve-se entender também que a utilização de musculaturas acessórias como glúteos, abdominais e adutores não trabalham o AP, que são musculaturas distintas.

A fisioterapia pélvica apresenta vantagens pelo baixo custo, ser minimamente invasiva, sem efeitos colaterais e morbidades, melhorando significativamente os sintomas com uma elevada taxa de cura, sendo reconhecida e valorizada cada vez mais. A paciente precisa ter um bom relacionamento com o profissional, respeitável, para que se sinta segura e confiante para obter resultados clínicos positivos.

Conclusão

Condescender ao tratamento significa aceitar e seguir as orientações do fisioterapeuta, incorporando e comprometendo-se a realizar os exercícios junto ao seu cotidiano.

Fatores como baixa aderência, desmotivação, indisciplina, gravidade do quadro clínico e falta de compreensão da importância do seguimento da terapia podem ser limitantes ao tratamento conservador. Além de que se faz necessário um acompanhamento nutricional e psicológico muitas vezes, pois o comportamento do paciente interfere diretamente nos resultados.

Em resumo, a Reabilitação do Assoalho Pélvico engloba além da IU e seus diferentes tipos, uma variedade de disfunções, sintomas e ocorrências, que devem ser investigados e esclarecidos para que o tratamento combinado com exercícios e eletroterapia, possa ser adequado à rotina do paciente.

 


Esse texto foi co-escrito pela Dra. Larissa Ribeiro

Larissa é Fisioterapeuta com Pós Graduação em Fisioterapia Pélvica e Mestranda em Ginecologia e Obstetrícia. Assim como possui formação em:

  • Pilates
  • Water Pilates
  • Hidroterapia
  • MIT – Movimento Inteligente
  • Treinamento Funcional
  • Método Abdominal Hipopressivo (MAH)
  • Treinadora do Grupo VOLL
  • Ministra cursos no Espaço Vida Pilates e Pilates avançado

 

Referências
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Como realizar tratamento do ombro com Pilates?

Como realizar tratamento do ombro com Pilates?

Quer saber como realizar um tratamento de ombro, utilizando o Método Pilates? Preparei esse texto especial para você entender como funciona!

Biomecânica e anatomia do ombro

O ombro é, na verdade, um conjunto de articulações que cria uma estrutura com mobilidade e liberdade de movimento extrema. Suas estruturas estão intimamente ligadas ao funcionamento da caixa torácica e, portanto, da coluna torácica.

O membro superior é formado principalmente pelas seguintes articulações:

  • Glenoumeral: consiste na ligação da “cabeça” do úmero a cavidade glenoide.
  • Acromioclavicular: une a clavícula ao acrômio escapular, a esternoclavicular, ligando a clavícula ao esterno.
  • Escapulo costais: ligações da escápula com as costelas.
  • Articulação úmero ulnar.
  • Articulação úmero radia.
  • Articulação rádio ulnar proximal.
  • Rádio ulnar distal.
  • Articulação rádio cárpica;
  • Articulações cárpicas;
  • Articulações carpometacárpicas;
  • Articulações metacarpofalângicas;
  • Articulações interfalângicas.

Aqui estamos separando não somente as articulações do ombro, mas também do cotovelo, mãos e punhos. Podemos considerar toda essa estrutura como parte da unidade funcional membro superior.

“Ajuntá-las” dessa forma ajuda a compreender como todo desequilíbrio em uma das partes pode gerar dor e desequilíbrio em outra, mesmo que ela esteja aparentemente distante.

Articulação esternoclavicular

Quanto às articulações do ombro propriamente ditas, comecemos analisando a esternoclavicular. Ela é uma articulação o tipo sinovial selar. Para que o movimento ocorra nessa região, é preciso que aconteça o deslizamento de superfícies ósseas. Portanto, existe o líquido sinovial para facilitar o processo.

Todas as articulações sinoviais possuem três características básicas, que são:

  • Cartilagem articular;
  • Cápsula articular;
  • Cavidade articular.

Essa articulação é responsável por ligar a face medial da clavícula à face lateral do esterno. Ela é o único ponto de união entre o membro superior e o tronco e é responsável pela elevação e depressão do tronco.

Cartilagem articular

Ao estudar o complexo do ombro percebemos a prevalência de articulações sinoviais. Nada mais natural, portanto, que estudar suas características. A cápsula articular encontrada na maioria das articulações do ombro é do tipo hialina. Ela é responsável por recobrir as superfícies articulares em contato e facilitar seu deslizamento. Por não ser vascularizada ela é de difícil regeneração quando ocorrem lesões.

Cápsula articular

A cápsula articular possui uma membrana conjuntiva que envolve a articulação sinovial de maneira similar a um manguito. Ela possui duas camadas:

  • Membrana fibrosa;
  • Membrana sinovial.

Cavidade articular

É o espaço que existe entre as superfícies articulares. Quando o ombro está em seu estado fisiológico, todas as cavidades articulares são banhadas por líquido sinovial.

Articulação acromioclavicular

Essa é uma articulação sinovial plana. Sua principal característica é ser uma articulação uniaxial que permite deslizamentos entre a face articular acromial da clavícula e a borda medial do acrômio. Seus movimentos são bastante limitados, sendo somente o deslizamento da clavícula na escápula.

Articulação escapulo umeral

A escapulo umeral é uma articulação sinovial esferoide. Ela é multiaxial e possui uma cabeça globosa rasa. A cavidade é em forma de cálice e realiza a união entre a cabeça do úmero e a cavidade glenoide da escápulas.

A cavidade é rasa exatamente para permitir a ampla movimentação pela qual essa articulação é caracterizada. A escapulo umeral é responsável pelos seguintes movimentos:

  • Rotação;
  • Flexão;
  • Extensão;
  • Adução;
  • Abdução;
  • Circundução.

Estabilização articular

Como acabamos de ver, a escapulo umeral é extremamente móvel. Quando não existe estabilização adequada, ela sofre lesões, patologias e dor. Para realizar o tratamento de dor no ombro, é essencial limitar a amplitude desses movimentos através da estabilização.

Os ligamentos no ombro têm importante função estabilizadora e limitam a amplitude de movimento das suas articulações. O lábio glenoidal realiza um reforço, sendo formado por um rebordo de fibrocartilagem ao redor da cavidade glenoidal. Assim, o ombro consegue maior estabilidade em seus movimentos.

Também temos a bursa, um saco contínuo à cápsula articular preenchido por líquido sinovial. Ela tem a importante função de diminuir o impacto entre os ossos da glenoide, úmero e cavidade glenoidal da escápula.

Por último, temos as estruturas estabilizadoras dinâmicas do ombro: os músculos. Eles geram o movimento e também são responsável pela estabilização das articulações, em especial da escapuloumeral.

Por que entender todo o funcionamento do ombro?

Os exercícios de Pilates são, inegavelmente, uma excelente maneira de realizar o tratamento do ombro. Além disso, conforme avançamos com o método encontramos movimentos que trabalham mais e mais essas articulações de maneira completa.

Portanto, quem não compreende o funcionamento do complexo do ombro é incapaz de tratá-lo ou de proporcionar um tratamento do ombro adequado.

O Pilates nos ajuda a trabalhar os movimentos do ombro e recuperar seu funcionamento fisiológico. Para isso, utilizamos principalmente exercícios em cadeia cinética fechada, sendo alguns deles unilaterais.

Os exercícios escolhidos proporcionam melhor mobilidade e estabilidade do complexo do ombro. Também conseguimos trabalhar a coluna e caixa torácica que, quando rígidas, impedem os movimentos adequados desse complexo.

Exercícios de Pilates mais recomendados

Durante o tratamento do ombro conseguimos utilizar diversos exercícios de Pilates. Eles podem ser realizados na Chair, Reformer, Cadillac e até no Mat. Lembrando que não existem receitas prontas, os exercícios devem ser aplicados de acordo com a patologia e necessidades específicas do paciente.

Alguns dos exercícios que podem ser aplicados incluem:

  • Reformer: footwork, arms supine series, hundred e variações, single arm coordination, hip work series, remadas, chest expansion;
  • Cadillac: pelvic curl, standing arm-work series, agachamentos assistidos;
  • Chair: pelvic curl, triceps press sit, swan;
  • Mat: pelvic curl, hundred, single leg stretch, pontes.

O que fiz acima foi um rápido resumo de exercícios que podemos usar em casos para tratamento do ombro. Eles não são uma regra, em alguns pacientes você precisará de exercícios completamente diferentes. Precisamos entender que existem diversas patologias de variadas complexidades que atingem esse complexo.

Conclusão

Perceba que o Pilates é um método bastante completo que oferece exercícios para tratamento do ombro em todos seus equipamentos. Pacientes com patologias que atingem suas articulações conseguem melhora significativa para dor e funcionalidade, conseguindo recuperar também sua amplitude de movimento.

Quem deseja fornecer um melhor tratamento de ombro usando o método precisa de um excelente conhecimento do próprio Pilates. É através dele que conseguimos saber quais exercícios são melhores aplicados, podendo melhorar ainda mais os resultados.

Por isso, recomendo meu curso de biomecânica do Pilates. Nele você aprende cada detalhe desse maravilhoso método e maneiras de utilizá-lo para reabilitação e preparo físico.

 

Bibliografia
3 dicas para trabalhar a fáscia na reabilitação

3 dicas para trabalhar a fáscia na reabilitação

Sabemos que a fáscia é uma parte do tecido conjuntivo que realiza a conexão entre diversas partes do corpo. É ela a responsável por transferir tensões musculares e desequilíbrios através das cadeias musculares e, portanto, está bastante relacionada com nossos pacientes em reabilitação. Trabalhar a fáscia na reabilitação nem sempre é tão intuitivo quanto parece. Por isso, selecionei 3 dicas essenciais que te ajudarão nesse trabalho. Continue lendo para conferir todas.

Alongamento lento e dinâmico

Como você alonga seu aluno? A maioria dos alunos só conhece um tipo de alongamento: o estático. Ele é realizado mantendo uma posição que leva ao estiramento do músculo por certo período de tempo. Minha sugestão para trabalhar a fáscia de maneira mais eficiente é adotar o alongamento dinâmico, que é mais fluido.

Um alongamento eficiente para trabalhar a fáscia na reabilitação é rápido, mas com movimentos fluidos. Porém, devemos lembrar que os tecidos miofasciais podem ser danificados quando passam por movimentos bruscos ou repentinos. Por isso, o aquecimento é essencial nas suas aulas.

Os alongamentos dinâmicos lentos devem ser utilizados para as cadeias miofasciais longas. Nada de alongar grupos isolados. Nós queremos é envolver as cadeias miofasciais mais longas sempre que possível nos movimentos.

Não conseguimos esse tipo de alongamento através dos métodos passivos, como acontece em um alongamento clássico, a Hatha Yoga Pose ou mesmo em um alongamento convencional. Para utilizar a fáscia na reabilitação ou treinamento esportivo é preciso utilizar movimentos multidirecionais com mudanças de ângulo pequenas.

É possível usar variações de movimento lateral, diagonal e até variações como rotações em espiral. Através desse tipo de alongamento é possível envolver grandes áreas da rede fascial simultaneamente.

O estímulo de tecidos tendinosos e aponeuróticos pode acontecer através de uma mistura de movimentos de estiramento e dinâmicos. Eles são semelhantes aos movimentos extensivos que ginastas rítmicos utilizam.

O alongamento dinâmico e rápido pode ser combinado com um contra-movimento preparatório, conforme descrito anteriormente. Por exemplo, ao esticar os flexores do quadril, um breve movimento para trás pode ser introduzido antes de alongar e alongar dinamicamente para a frente.

Refinamento proprioceptivo

No treinamento da fáscia na reabilitação é importante destacar a importância da propriocepção fascial. O próprio aluno deve compreendê-la e, para explicá-la, precisamos utilizar explicações racionais e componentes afetivos límbicos.

Um exemplo é o caso de Ian Waterman, que é bastante mencionado na literatura científica. Aos 19 anos eles contraiu uma infecção viral, fazendo com que desenvolvesse uma “neuropatia sensorial” abaixo da região do pescoço.

Essa é uma patologia rara na qual os nervos periféricos sensoriais são destruídos, mantendo os nervos motores completamente intactos. Os nervos periféricos sensoriais são responsáveis por fornecer o córtex somatomotor com informações sobre os movimentos do corpo.

Por causa de sua condição, o sr. Waterman conseguia se mover, mas era incapaz de sentir seus movimentos. Depois de algum tempo ele ficou virtualmente sem vida. Somente com uma vontade de ferro e anos de prática, ele finalmente conseguiu compensar essas sensações físicas normais, uma capacidade comumente aceita.

Refinamento e sua relação com Alongamentos

Ele o fez com um controle consciente que depende principalmente do feedback visual. Ele é atualmente a única pessoa conhecida com essa aflição, que é capaz de ficar de pé sem ajuda, além de poder caminhar (Cole, 1995).

Mas a forma como o sr. Waterman se move não é completamente inusitada. Encontramos mecanismos compensatórios similares em pacientes com dor crônica nas costas. Se estiver fazendo um programa de alongamento “clássico” com alongamentos estáticos ou ativos, ele pareceria normal.

Quanto ao alongamento dinâmico que faz parte do nosso treinamento fascial, ele claramente não é capaz, pois ele não tem a propriocepção necessária para uma boa coordenação.

Congruentemente, no treinamento de fascia proposto, um refinamento perceptivo dos movimentos de cisalhamento, deslizamento e tensão em membranas fasciais superficiais é encorajado. Para evitar um amortecimento tão sensorial, a idéia de experiências variadas e criativas torna-se importante.

Além dos alongamentos dinâmicos lentos e rápidos observados acima, além de utilizar propriedades de retrocesso elásticas, recomenda-se a inclusão de elementos de “refinamento fascial”. Neles são experimentadas diferentes qualidades de movimento, por exemplo, moção de demora extrema e micro-movimentos que podem até não ser visíveis para um observador, bem como grandes macromovimentos envolvendo todo o corpo.

Para este fim, pode não ser incomum colocar o corpo em posições desconhecidas enquanto trabalha com a consciência da gravidade, ou possivelmente através da exploração do peso de um parceiro de treinamento.

Trabalho com foam roller para fáscia na reabilitação

Já conhece os rolos de espuma especiais, como o foam roller, ou materiais similares para usar nas suas aulas? Tais materiais são úteis para induzir desidratação temporária do tecido esponjoso localizado. Como resultado, você consegue estimular hidratação renovada.

Não posso indicar uma receita padrão para aplicar com todos seus alunos. É necessário monitorar individualmente a firmeza do rolo e a aplicação do peso corporal.

Se aplicado corretamente e incluindo mudanças direcionais muito lentas e finamente sintonizadas, as forças do tecido e os benefícios potenciais podem ser semelhantes aos dos tratamentos de liberação miofascial manual (Chaudhry et al., 2008).

É possível que exista tecido fascial inibido ou dessensibilizado em locais mais escondidos do corpo. Esse tipo de estimulação para fáscia na reabilitação é ótima para estimular e os proprioceptores fasciais dessas regiões.

Outro fator importante que deve ser considerado no treinamento é a duração das fases de carregamento e liberação individuais. Atualmente, recomenda-se incluir no treinamento de corrida uma redução do ritmo através de intervalos curtos de caminhada.

Treinamento seguro

Existem motivos simples para essa recomendação. Sob tensão, o fluido é pressionado para fora dos tecidos fasciais. Assim, estes começam a funcionar de forma menor otimizada e perdem sua resistência elástica aos poucos.

Para manter o treinamento seguro é possível utilizar pequenas pausas de caminhada com uma duração aproximada de 3 minutos. Dessa maneira o tecido consegue reidratar-se parcialmente. Dependendo do nível de experiência do corredor, as quebras de reidratação podem ser mais espaçadas.

Os mais iniciantes podem realizá-las a cada 10 minutos, já os mais avançados com melhor consciência corporal conseguem ajustar os intervalos.

Para saber quando é o momento ideal de fazer a pausa, o corredor deve ficar atento ao movimento. Quando ele percebe um movimento mais amortecido e menos elástico é provável que está na hora de descansar.

Após o período de caminhada é possível perceber uma recuperação do movimento, indicando que o período de descanso foi adequado.

Conclusão

Trabalhar com a fáscia na reabilitação te dá diversas vantagens. A primeira é uma melhora nos resultados obtidos com o aluno ou paciente. Muitas vezes a liberação de tensões fasciais e o uso de alongamentos apropriados também auxilia a melhorar os movimentos e aliviar parcialmente a dor. Também conseguimos livrar alguns dos esquemas adaptativos adotados pelo corpo por causa do problema musculoesquelético.

Dor Crônica: entenda tudo sobre o assunto e saiba como tratar!

Dor Crônica: entenda tudo sobre o assunto e saiba como tratar!

A dor crônica é uma das principais causas de incapacidade e afastamento do trabalho, perda de funcionalidade e da qualidade de vida. Neste texto, vamos conferir os tipos de dores, quais suas características e qual a melhor forma de tratá-las.

Apesar dos avanços nas diversas áreas de conhecimentos relacionadas à dor, como epidemiologia, fisiopatologia e terapêuticas, os resultados dos tratamentos como prevenção das recorrências ainda não são satisfatórios. Continue lendo para entender!

O que é a Dor Crônica?

Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), a dor é definida como “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada ou relacionada à lesão real ou potencial dos tecidos e cada indivíduo aprende a utilizar esse termo através das suas experiências anteriores”.

Estima-se que a dor crônica atinja cerca de 100 milhões de indivíduos em todo o mundo (Cunha e Mayrink, 2011). Em muitos quadros clínicos, a dor é a principal queixa e estudos apontam a alta prevalência de dor crônica nos indivíduos acima de 60 anos, variando entre 51% e 67%, sendo as dores musculoesqueléticas as mais comuns (Dellaroza et al., 2013).

Tipos de dores e suas características

Existem diversas maneiras de se classificar a dor. Se considerarmos a duração da sua manifestação, didaticamente ela pode ser de três tipos:

Dor Aguda

É aquela que se manifesta transitoriamente durante um período relativamente curto, de minutos a algumas semanas. Geralmente está associada a lesões em tecidos ou órgãos, ocasionadas por inflamação, infecção, traumatismo ou outras causas.

Quando a causa é diagnosticada corretamente e o tratamento recomendado pelo especialista é seguido pelo paciente, normalmente desaparece.

Constitui um sintoma importante que alerta o indivíduo para a necessidade de assistência. Por exemplo: a dor pós-operatória, a dor que ocorre após um traumatismo, durante o trabalho de parto, dor de dente, as cólicas em geral… E, também, nas situações normais fisiológicas do organismo que podem provocar dores agudas, como o processo da ovulação e da menstruação na mulher.

Dor Crônica

Tem duração prolongada, que pode se estender de vários meses a vários anos e que está quase sempre associada a um processo de doença crônica.

A dor crônica pode também ser por consequência de uma lesão já previamente tratada, ocasionada, por exemplo, devido às doenças autoimunes como artrite reumatoide, pacientes com câncer, dor relacionada a esforços repetitivos durante o trabalho, dor na coluna vertebral entre outras.

Dor Recorrente

Apresenta períodos de curta duração que, no entanto, se repetem com frequência, podendo ocorrer durante toda a vida do indivíduo, mesmo sem estar associada a um processo específico. Um exemplo clássico deste tipo de dor é a enxaqueca.

Sintomas clínicos das dores

A dor é um dos sintomas clínicos mais difíceis de serem tratados tanto pelos médicos como por nós profissionais especializados em movimento, podendo causar quadros devastadores para esses pacientes.

Vários fatores estão relacionados e contribuem acentuadamente para essa dor, incluindo mecanismos centrais, remodelação de circuitos neurais e processamento afetivo.

Fisiopatologia da Dor

Pacientes com históricos de doenças articulares inflamatórias ou degenerativas, por exemplo, são quatro vezes mais propensos a desenvolver dor crônica.

Síndromes como enxaquecas, disfunções temporomandibulares, fibromialgia, síndrome do intestino irritável, dor pélvica, entre outras, são exemplos de patologias que colaboram para tal efeito.

Não é incomum, por exemplo, um paciente que apresente uma síndrome de dor visceral, mesmo após uma melhora do quadro, retroceder com outros sintomas de dor.

Diferenças entre a Dor Aguda e a Dor Crônica

A dor aguda ativa o córtex sensitivo-motor bilateralmente, influenciando o comportamento cognitivo motor mais que experiência emocional propriamente dita.

A dor crônica é relacionada à ativação do córtex cerebral e do cíngulo direito, predominantemente, independentemente do local de sua origem. Fatores psicossociais podem interagir com os mecanismos noceptivos agravando a condição álgica.

Nos tecidos, há uma cascata de eventos, denominados de inflamação neurogênica, que consiste na atração e ativação de leucócitos, e na ativação de fibroblastos e de células de Schwann que, por sua vez, liberam nos tecidos substâncias algiogênicas que acentuam a sensibilização dos nociceptores.

Normalmente a dor é adaptativa e sinaliza o corpo na tentativa da recuperação e promoção da cura, pois o nosso corpo busca sempre trabalhar de forma econômica, procurando o conforto e o equilíbrio.

Entretanto, na dor crônica, o sistema nociceptivo se torna persistentemente ativado, e mesmo após o período usual de cura, a dor permanece e o córtex continua programado dessa maneira.

Além disso, a experiência subjetiva de cada paciente associada à somatização reflete uma sinalização nociceptiva alterando a percepção da dor.

Pontos Chaves para Avaliação

Durante a avaliação do indivíduo com dor crônica é necessário estar atento para algumas questões, tais como:

  1. Estímulos nociceptivos, sensibilização do sistema nervoso e fatores psicológicos podem contribuir para dor crônica;
  2. A distinção entre as causas e os efeitos psicológicos da dor crônica pode ser difícil;
  3. Buscar uma causa física mesmo que fatores psicológicos sejam proeminentes e sempre avaliar o efeito da dor na vida do paciente;
  4. Tratar a dor mal controlada com terapia multimodal através de tratamentos físicos, psicológicos, comportamentais e de intervenção apropriados através da medicação quando necessária.

Corpo e Cérebro: uma visão de experiência da dor

Nas últimas décadas, inúmeros artigos científicos e estudos clínicos revelaram uma notável plasticidade no sistema nociceptivo, demonstrando que independentemente do tipo da dor, essa atividade nociceptiva contínua, pode aumentar a sinalização ascendente para o cérebro, reduzindo os sinais inibitórios descendentes e precipitando espontaneamente a dor generalizada.

Isso significa que mesmo após uma lesão ter cicatrizado, há uma hipersensibilidade tanto periférica quanto central. Os limiares de dor são reduzidos e pode existir a presença de alodinia.

A alodinia é uma dor em resposta a estímulos inócuos que normalmente não seriam nocivos em indivíduos saudáveis. Quando uma pessoa tem um estímulo e os impulsos que chegam ao cérebro são interpretados como uma sensação desagradável, produz-se dor.

Há uma amplificação dos sinais de dor no cérebro. Isto pode acontecer porque o impulso é realmente doloroso ou porque a mensagem das fibras nervosas está alterada.

Ainda não está claro o que causa tudo isso, mas pesquisas analisam os efeitos dos mediadores inflamatórios nas células nervosas dentro do cérebro, bem como o papel das células gliais de suporte que formam a matéria branca do cérebro.

Consequência das dores

Pacientes com distúrbios somáticos podem ter alterações em suas respostas psicológicas ou comportamentais à dor, contribuindo significativamente para a apresentação clínica.

O resultado é uma doença complexa que requer avaliação multidimensional e, na maioria dos pacientes, tratamento multidisciplinar. Há evidências de que a dor crônica leva a consequências que vão muito além da dor em si.

Pacientes com dor crônica apresentam sintomas como ansiedade, depressão e déficits no funcionamento cognitivo. A dor crônica também se depara com outros sintomas incluindo fadiga, sono não reparador, e distúrbios do humor.

Estudos de imagem cerebral em modelos de dor em roedores e em humanos demonstram alterações no volume de massa cinzenta, na integridade da substância branca e até mesmo em alterações epigenéticas no cérebro.

As alterações relacionadas à dor crônica apresentam características generalizadas, porém existem evidências sugerindo que esses efeitos possam ser prevenidos ou revertidos por fatores ambientais.

Comorbidade

A dor crônica possui comorbidades variadas e muitos pacientes com dor crônica a longo prazo apresentam além da dor, aumento da ansiedade, depressão ou alterações na memória e outras funções cognitivas.

Estima-se que até 50% dos pacientes com dor crônica sofram distúrbios de humor co-mórbidos, incluindo ansiedade e depressão. Estudos de ressonância magnética demonstram que o cérebro de indivíduos com dor crônica difere dos pacientes saudáveis.

A anormalidade mais pronunciada observada em todos os estudos é uma redução da massa cinzenta nos pacientes, mais especificamente no córtex pré-frontal, ínsula e parte anterior e média do córtex cingulado, tais regiões implicadas no processamento e regulação da dor, humor e cognição.

Repouso X Exercício

Por muitos anos, a escolha do tratamento para dor crônica incluiu recomendações para repouso e inatividade.

No entanto, exercícios físicos específicos e direcionados apresentam benefícios na redução da gravidade da dor crônica, bem como inúmeras vantagens associadas à melhoria da saúde mental e ao funcionamento global do organismo.

Os programas de atividade física e exercícios estão sendo cada vez mais promovidos e oferecidos em vários sistemas de saúde e para uma variedade de condições de dor crônica.

Portanto, é importante, nesse estágio, estabelecer a eficácia e a segurança desses programas e, além disso, abordar os fatores críticos que determinam seu sucesso ou fracasso.

A importância de se informar corretamente

A informação para os pacientes sobre seu quadro e, em especial, sobre a dor, é uma conduta importante na prática clínica, e as expectativas de melhora “placebo” ou piora “nocebo” podem e influenciam o quadro do paciente durante o tratamento.

O efeito placebo está relacionado a uma mudança no estado clínico do paciente atribuída a um evento, objeto ou comportamento no ambiente.

O efeito nocebo é definido como um conjunto de eventos produzidos por expectativas negativas durante o processo terapêutico inerte dentro de um contexto positivo, com a criação de expectativas negativas e piora do estado de saúde. O termo nocebo foi criado para definir respostas negativas observadas nos grupos tratados com placebo.

Fatores como:

  • Ambiente como consultório, clínica, hospital;
  • Relação terapeuta-paciente;
  • Sugestões verbais;
  • O próprio contexto do paciente como expectativas, memórias explícitas, crenças, emoções entre outros, podem influenciar os resultados clínicos e por isso não podem ser ignorados.

O efeito nocebo pode provocar inúmeros problemas:

  • Aumento da intensidade da dor (hiperalgesia ou alodínea induzida);
  • Estresse;
  • Ansiedade;
  • Catastrofização da dor, além do aumento da procura dos serviços de saúde, busca por novas abordagens terapêuticas, maior consumo de medicamentos e maior realização de cirurgias para tratar os efeitos adversos produzidos pelo próprio efeito nocebo.

Exames de imagem excessivos para informações sobre o diagnóstico e prognóstico desses pacientes em condições musculoesqueléticas crônicas não específicas como:

  • Dor lombar, dor cervical ou osteoartroses;
  • Divulgação dos resultados clínicos fornecida com jargões médicos;
  • Termos técnicos e específicos;

Todos podem contribuir de forma negativa produzindo atitudes e crenças desnecessárias para nossos pacientes.

A adoção dessas condutas favorece o efeito nocebo e pode ser considerada como iatrogenia, favorecendo o aumento da dor, limitação das atividades, desenvolvimento de expectativas negativas, ansiedade, catastrofização, evitação e medo relacionado a dor.

O próprio processo de educação em saúde também pode contribuir para o desenvolvimento do efeito nocebo em pessoas com dor persistente.

Por que isso acontece?

Essas respostas podem acontecer por sugestão verbal negativa do profissional, por aprendizagem social ou por observação.

As crenças mal adaptativas desenvolvidas pelo paciente podem ser potencializadas pela má interação terapeuta-paciente, baixa qualidade dos serviços de saúde, pela mídia ou mesmo pela experiência individual de cada um.

A amplificação da dor, assim como de outros componentes emocionais presentes no efeito nocebo, parece estar relacionada com a ativação de vias afetivo-cognitivas do cérebro.

Os profissionais de saúde devem estar atentos e prontos para aperfeiçoar a relação terapeuta-paciente, maximizar o conforto e o ambiente em que o tratamento é realizado.

Desta maneira, devemos estar munidos com informações clínicas alinhadas, baseadas em evidências científicas atuais e de alta qualidade.

Cuidados a tomar

É importante que se reveja a necessidade e o momento de solicitar novos exames diagnósticos para evitar ansiedades e preocupações desnecessárias.

Durante o processo terapêutico deve ser dado destaque não aos prejuízos provocados pela dor, mas aos aspectos positivos, progressões e conquistas graduais do tratamento, ou seja, dando enfoque a aspectos funcionais e conquistas desse paciente.

Para isso, se faz necessário uma avaliação correta e padronizada, para que na reavaliação esse paciente perceba suas progressões com clareza.

Como tratar a Dor Lombar Crônica?

Existem muitos tratamentos para o alívio da dor lombar, porém os exercícios que visam o controle motor são usados constantemente e com algum sucesso.

O controle motor pode ser definido como a maneira pela qual o Sistema Nervoso Central controla a postura e os movimentos para executar uma dada tarefa. Isso inclui os processos motores, sensoriais e integrativos.

Portanto, exercícios que visam mudar a maneira pela qual uma pessoa controla seu corpo, incluindo a postura, o movimento e a ativação muscular para modificar a percepção desse corpo em relação ao espaço são de extrema importância.

Controle motor do corpo

A eficácia do “exercício de controle motor” (ECM) tem sido objeto de várias revisões sistemáticas que conduziram a diferentes comparações. Um resultado consistente é que além do ECM ser mais eficaz que 70 intervenções mínimas na redução da dor a curto, médio e longo prazo, reduzem a incapacidade no acompanhamento em longo prazo para esses pacientes.

O controle motor do tronco compreende a modulação da rigidez intrínseca através de atividades musculares tônicas, controle antecipatório e controle de retroalimentação. Para caracterizar o controle do tronco em dor lombar, pode ser necessário avaliar esses diferentes aspectos através de testes específicos.

Para ser abrangente, além do mecanismo da dor, o sistema de diagnóstico para indivíduos com dor crônica requer avaliação em múltiplas dimensões, tais como: biológicas, psicológicas e sociais.

Algumas características relevantes para esse controle motor são:

  • Padrões de provocação e alívio da dor;
  • Atrofia muscular e fraqueza;
  • Comprometimento proprioceptivo;
  • Dor, crenças e medo da dor ou re-lesão;
  • Depressão;
  • Catastrofização;
  • Auto-eficácia;
  • Questões sociais.

Uma consideração importante é que os domínios não são independentes. Por exemplo, medidas de controle motor podem refletir nos fatores psicológicos, como o medo da dor.

Método Pilates

Existem vários tipos não invasivos de tratamentos para dor lombar crônica, e, dentre eles está o Método Pilates.

A técnica ganhou importância nos últimos anos, já que pode ser utilizada como uma ferramenta para a reabilitação de vários distúrbios musculoesqueléticos, incluindo dor lombar crônica não específica.

O método trabalha com ênfase no fortalecimento e estabilidade dos músculos centrais, como também na mobilidade da coluna vertebral.

No entanto, durante anos, a dor lombar foi tratada com uma abordagem de uma estabilização segmentada. Porém, inúmeros estudos discutem se a estabilidade ou a mobilidade da coluna lombar geram melhores resultados, tanto no desempenho como na reabilitação.

Conclusão

Embora muitos estudos ainda devam ser realizados, o que sabemos é que os exercícios realizados por profissionais especializados. Com embasamento científico são ferramentas valiosas para trabalharmos com indivíduos de dor crônica.


Esse texto foi co-escrito pela Dra. Érica Petroni

Érica é Fisioterapeuta com Pós-Especialização em Traumatologia e Ortopedia com
Ênfase em Atendimento Clínico, Oesteopatia e Acupuntura. Érica tem experiência em diversas áreas como:

  • Método Pilates solo e equipamento, Suspensus;
  • Osteopatia, Cadeias Musculares;
  • Hidroterapia e Ortopedia;
  • Proprietária e Instrutora do Estúdio de Pilates da CLÍNICA VITALLE em Araraquara (SP)
  • Instrutora dos cursos Espaço Vida Pilates (EVP) e Método Abdominal Hipopressivo (MAH) pelo Grupo VOLL Pilates;
Bibliografia
  • Teixeira, M.J. et. al. Fisiopatologia da dor músculo-esquelética. Rev. Med. (São Paulo), 80(ed. esp. pt.1):63-77, 2001.
  • Michael F. Knox , Lucy S. Chipchase , Siobhan M. Schabrun , Rick J. Romero , Paul W.M. Marshall , Anticipatory and compensatory postural adjustments in people with low back pain: a systematic review and meta-analysis, The Spine Journal (2018).
  • Best Practices in the assessment and management of chronic pain, June 2013.
  • Miranda et al. / Complementary Therapies in Clinical Practice (2018).
  • Effect of environment on the long-term consequences of chronic pain MC Bushnell, LK Case, M Ceko, VA Cotton, JL Gracely, LA Low, MH Pitcher, and C Villemure. 2015 April; 156(0 1): S42–S49. doi:10.1097/01.j.pain.0000460347.77341.bd.
  • Lotze M, Moseley GL. Theoretical considerations for chronic pain rehabilitation. Phys Ther. 2015;95:1316–1320. 2015 American
  • Leslie J. Crofford, MD. Transactions of the american clinical and climatological association, vol. 126, 2015. Chronic pain: where the body meets the brain
  • Lilian Magalhães, Departamento de Terapia Ocupacional, Universidade Federal de São Carlos, Received on Sept. 1, 2017; Accepted on Oct. 25, 2017. Successful return to work of individuals with chronic pain according to health care providers: a meta-synthesis
  • Jaap H. van Dieën, Peter Reeves, Greg Kawchuk, Linda van Dillen, Paul W. Hodges, Centre for Clinical Research Excellence in Spinal Pain, Injury and Health, School of Health & Rehabilitation Sciences. Analysis of motor control in low-back pain patients, a key to personalized care?
Reabsorção de hérnia de disco é possível? Entenda como aplicar!

Reabsorção de hérnia de disco é possível? Entenda como aplicar!

A hérnia de disco é uma doença que causa cinesiofobia nos pacientes. Por isso, seu diagnóstico gera medo e insegurança que são completamente justificáveis, mas que prejudicam o prognóstico do indivíduo. Quer dar boas notícias para seu paciente? A reabsorção de hérnia de disco não só é possível, como também é provável. Entenda mais continuando a leitura.

O que é hérnia de disco?

Uma das melhores maneiras de compreender a hérnia discal e seu mecanismo de formação é pela lei de Pascal. Essa lei foi comprovada pelo físico e matemático francês Blaise Pascal. De acordo com ela, a alteração de pressão produzida em um fluido que está em equilíbrio é transmitida para todos os pontos desse líquido e as paredes do recipiente.

Porém, essa lei só pode ser aplicada ao corpo humano quando observamos certos fatores, em especial se algumas propriedade estão sadias. Para exemplificar, confira como a lei atua na coluna vertebral:

  1. A diferença de pressão: força aplicada sobre uma área, logo sabemos, que se a pressão for muito acima do suportado pelo corpo, os sistemas de contenção do anel fibroso poderão se romper.
  2. A densidade do fluido: logo um núcleo pulposo, desidratado ou rompido, estará, no mínimo mais sensível a Lei de Pascal.
  3. A gravidade: quanto mais alto, em altitude estivermos maiores riscos sofremos.
  4. A diferença em metros: entre as duas colunas do recipiente, vértebra suprajacente e vértebra subjacente, não podem estar com seu espaço intervertebral diminuído.

Com esses quatro princípios funcionando corretamente, teremos uma coluna sadia. Como consequência, as chances do surgimento de uma hérnia causada por movimentos cai muito.

Através dos estudos de Pascal sabemos que o movimento produzido entre as vértebras geram um aumento de força e pressão que é distribuído de forma coesa. Isso garante a segurança da vértebra. Assim, mesmo quando o núcleo pulposo é deslocado para um determinado lado dependendo do movimento, a pressão não fica aumentada naquele lado. Mesmo que a pressão do núcleo pulposo sofra alterações de pressão, ela é distribuída por todo o conjunto.

Como acontece a hérnia de disco?

A hérnia de disco ocorre quando parte do disco intervertebral (o núcleo pulposo) se projeta para além dos seus limites normais. Geralmente, a cartilagem é lesada após traumatismos como:

  • Quedas;
  • Acidentes automobilísticos;
  • Esforços ao levantar;
  • Encurtamentos musculares;
  • Envelhecimento;
  • Outros.

A lesão causa compressão de raízes nervosas e perda de sensibilidade na altura correspondente ao dermátomo. Também acontece perda ou falta total de força muscular e alterações do trofismo muscular correspondente à altura da herniação.(dermatomo correspondente)

Tipos de hérnia de disco

  • Hérnia de disco protrusa: é o tipo mais comum, quando o núcleo do disco permanece intacto, mas já há perda da forma oval;
  • Hérnia de disco extrusa: quando o núcleo do disco se encontra deformado, formando uma ‘gota’;
  • Hérnia de disco sequestrada: quando o núcleo está muito danificado e pode até mesmo se dividir em duas partes.

Tratamentos para a hérnia de disco

As hérnias de disco podem ter tratamentos conservadores ou cirúrgicos, e é isso que nosso paciente teme. Felizmente, tenho boas notícias para apresentar: estudos mostram que 60% a 90% dos casos de hérnia discal podem ser tratados somente com tratamento conservador. Esses métodos trazem resultados positivos mesmo em indivíduos com hérnia de disco extrusa ou déficit neurológico.

No tratamento conservador, muitos falam a respeito da importância do fortalecimento do Core. Realmente, o treinamento de estabilidade é essencial para esses pacientes e leva a um melhor equilíbrio e controle neuromuscular.

Porém, devemos tomar cuidado com esse trabalho de estabilidade. Se feito em excesso, podemos deixar nossos alunos com colunas vertebrais extremamente rígidas. As colunas do tipo funcional estáticas são menos móveis e com um equilíbrios mais precário, devemos prioritariamente trabalhar a mobilidade, pois esse tipo de coluna, acabam por gerar hérnias por compressão.

Durante o tratamento o paciente talvez, não precise de um trabalho de núcleo corporal. Lembre-se sempre que estamos trabalhando com um corpo viscerado e que o fortalecimento do Core pode aumentar a PIA e piorar o quadro de hérnia de disco. Portanto, o corpo deve ser móvel e estável, evitando desequilíbrios que prejudicam a reabilitação do aluno.

Será que a reabsorção de hérnia de disco é possível?

Quando eu falo em tratamento da hérnia de disco, poucos pensam que essa hérnia pode ser reabsorvida. Porém, estudos indicam que existe uma grande possibilidade de reabsorção de hérnia de disco parcial ou completamente.

Os primeiros casos de reabsorção foram reportados em 1984 por Geino et. al. após o tratamento conservador. Um ano depois, Teplik e Haskin reportaram 11 casos de hérnia discal com regressão espontânea. E desde então pesquisadores vêm encontrando reabsorção com taxas variadas.

Estudos recentes mostram entre cerca de 35% a 100% dos casos podem passar por reabsorção de hérnia de disco num período de 3 a 40 meses. Uma análise feita com 11 artigos envolvendo 587 pacientes com hérnia lombar nos dá uma perspectiva muito positiva para esses casos.

Em todos os artigos analisados os pacientes passaram por tratamento conservador. Dos 587 indivíduos, 380 tiveram reabsorção de hérnia de disco espontânea. A probabilidade de reabsorção da hérnia de 64%.

Nos estudos, os pacientes foram tratados através de:

  • Medicamentos;
  • Anti-inflamatórios;
  • Fisioterapia;
  • Terapia manual;

As taxas de reabsorção foram de:

  • 96% para disco sequestrado;
  • 70% para disco com extrusão;
  • 41% para protrusão;
  • 13% para abaulamento.

A maioria das regressões espontâneas aconteceu dentro de 1 ano de tratamento. Ou seja, é uma excelente notícia para nossos pacientes herniados!

Como acontece a reabsorção da hérnia discal?

Existem algumas hipóteses a respeito da reabsorção da hérnia de disco. Na primeira delas, a herniação retrai para dentro do disco correspondente, especialmente em casos de abaulamento e protrusão discal. Essa hipótese é apoiada por estudo in vitro de Scanell e McGill.

A segunda hipótese imagina que o processo de desidratação esteja mais relacionado à reabsorção. De acordo com ela, quanto menos desidratado o disco, maiores as chances de regressão do quadro clínico.

Por último, temos a hipótese de que a herniação causa reação inflamatória e neovascularização na área. Como resultado, o disco seria reabsorvido por processos de fagocitose e degradação enzimática.

Conclusão

Assim que um paciente é diagnosticado com hérnia de disco ele entra em desespero. Além do medo da cirurgia, essa pessoa teme ficar a vida inteira dependente e com seus movimentos prejudicados pela dor. Para nós, esse temor e insegurança são extremamente prejudiciais no tratamento.

Por isso, precisamos nos aproveitar de informações com embasamento científico, como as que apresentei nesse artigo, para mostrar ao nosso paciente que nem tudo está perdido. Nós podemos garantir a reabsorção de hérnia de disco. Conseguimos utilizar nosso conhecimento para melhorar o prognóstico e obter melhoras significativas com o tratamento.

Bibliografia

ZONG, Mhing et. al. Incidence of Instantaneous Resorption of Lumbar Disc Herniation: a Meta-Analysis. Pain Physician, 2017.

Cefaleia: como aplicar a fisioterapia no tratamento com eficiência

Cefaleia: como aplicar a fisioterapia no tratamento com eficiência

A cefaleia é uma desordem neurológica que pode trazer inúmeros desconfortos para o paciente. Ela é facilmente confundida com outras dores, menos agressivas, na região da cabeça e pescoço. Quer saber mais sobre o assunto? Então continue lendo para entender!

O que é cefaleia?

A cefaleia, em especial a cefaleia de tipo tensional, é considerada como uma desordem neurológica com ligação com a coluna cervical que pode ser causada por:

  • Elementos ósseos;
  • Elementos do disco intervertebral ou tecidos moles.

Apesar disso, pacientes com cefaleia raramente sentem dor no pescoço. Muitos deles sequer sabem que tem cefaleia, confundindo-a com uma enxaqueca e utilizando diversos medicamentos que não geram resultados. Estima-se que entre 0,4% a 20% da população sofrem com o problema.

Interessantemente, esse número aumenta muito quando falamos da porcentagem de pacientes que sofreram lesão do tipo whiplash. Observamos cerca de 53% desses indivíduos com cefaleia tensional. Portanto, a lesão na coluna cervical está relacionada a esses casos e precisa de um tratamento fisioterápico adequado.

Para conseguir identificar a cefaleia de tipo tensional e diferenciá-la de outros tipos comuns de dor de cabeça é importante conhecer suas características. Quem tem o problema costuma apresentar sintomas como:

  • Dor unilateral;
  • Limitação de movimento;
  • Gatilho de dor após movimento sustentado;
  • Gatilho de dor após pressão e/ou palpação na região superior cervical.

Assim como acontece com quase todas as outras patologias da coluna, podemos aplicar a fisioterapia e suas técnicas no tratamento da cefaleia. Porém, isso deve ser feito com cuidado considerando a região sensível do corpo com a qual estamos trabalhando.

Qual é a relação da cefaleia com a coluna cervical?

A cefaleia é considerada um distúrbio de ordem neurológica, porém também possui uma relação íntima com a coluna cervical. Primeiro, quero esclarecer que existe um motivo para chamarmos um dos tipos da cefaleia de tensional.

Ela acontece principalmente por causa da tensão muscular gerada na região cervical. Como já mencionei, essa tensão afeta elementos ósseos ou do disco, assim como tecidos. Também sabemos que a região cervical é ricamente inervada, assim, temos nela o local perfeito para a origem das dores de cabeça que são tão incômodas.

Boa parte da população sofre ou sofrerá em algum momento com a cefaleia tensional. Apesar de não ser tão intensa quanto as enxaquecas, ela ainda causa afastamento do trabalho e das atividades sociais. Por isso, é nosso papel como fisioterapeutas buscar uma forma eficiente de tratamento.

Tratamentos mais comuns para cefaleia

Os estudos mais relevantes são a respeito dos tratamentos para a faixa etária que vai de 25 anos a 60 anos. Essa é a população economicamente ativa que sofre bastante com a vida profissional e familiar. Através da fisioterapia, esses indivíduos conseguem diminuir a frequência da dor e diminuir, também, duração dos períodos de crise.

Tal fato é comprovado através da análise biográfica. O tratamento fisioterápico mostrou-se bastante eficiente, ajudando a diminuir a intensidade e frequência das dores, assim como o uso de medicamentos analgésicos.

Entre as técnicas utilizadas encontram-se:

  • Terapia manual;
  • Terapia de liberação de pontos gatilho miofasciais;
  • Manobras cervicais e no crânio;
  • Mobilização articular e tração cervical.

É claro que você deve estar se perguntando qual é a terapia mais indicada para seu paciente. Sempre buscamos a melhor eficiência, portanto não podemos gastar tempo sujeitando nossos pacientes a terapias variadas sem resultado algum.

Nos estudos, destacam-se dois tipos de tratamento para a cefaleia tensional: manipulação cervical e mobilização cervical com exercícios. Só falta agora saber qual dos dois é mais indicado para quem tem o problema.

Riscos da manipulação cervical

“Como assim você está falando em manipulação cervical, Jana? Não é uma manobra arriscada?” Realmente, a manipulação cervical é conhecida por apresentar diversos riscos ao paciente. Seus movimentos podem ser aplicados lentamente e de maneira rítmica, com pouca amplitude de movimento. Esse último tipo é conhecido como thrust techniques.

Alguns imaginam que a técnica seja arriscada exatamente por manipular a coluna cervical. Por ser ricamente inervada, o medo é que a manipulação cause algum tipo de dano ou pinçamento em estruturas nervosas causando sintomas diversos. Entre eles podemos incluir perda de sensibilidade, dor referida e até acidentes vasculares.

Portanto, fica o questionamento: por que usar uma manobra aparentemente tão arriscada no tratamento da cefaleia? Porque ele é extremamente eficiente e não tão arriscado quanto imaginamos, mas veremos mais sobre isso a seguir.

Manipulação cervical vs. mobilização e exercícios

De nada adianta eu falar que devemos usar a manipulação cervical e que ela te trará resultados. Sempre dou ênfase no pensamento crítico e é exatamente isso que quero fazer nesse artigo. Para entender se a manipulação cervical ou a mobilização com exercícios é melhor, nada mais correto que analisar estudos a respeito.

Um estudo em especial chama a atenção. Realizado com uma amostra de 110 pacientes com dor de cabeça, ele examinou os efeitos desses dois tipos de tratamento profundamente. Além disso, o estudo incluiu 12 fisioterapeutas em 8 clínicas privadas de diferentes regiões geográficas para fortalecer a generalização dos resultados.

Os pacientes no grupo de manipulação receberam tratamento com manipulação a nível de C1-C2 e T1-T2 pelo menos 1 vez por semana, além de sessões adicionais. Isso foi mantido por um período de 6 a 8 semanas. Os profissionais tinham liberdade de utilizar manipulações a outros níveis cervicais e torácicos de acordo com sua avaliação para obter melhores resultados no restante das sessões.

O grupo de mobilização e exercícios também recebeu interferências a nível de C1-C2 e T1-T2 pelo menos 1 vez por semana no período de 6 a 8 semanas. Os profissionais que realizaram a mobilização tinham a mesma liberdade de trabalhar com o paciente conforme sua avaliação no restante das sessões.

Após o período do estudo percebeu que os grupos de manipulação conseguiram resultados mais significativos no geral. O percentual de pacientes nesses grupos com melhora na intensidade da dor e diminuição da incapacidade funcional foi maior. Todos esses pacientes passaram por 6 a 8 sessões de manipulação em 4 semanas e, o melhor de tudo, sem efeitos adversos.

Conclusão

Percebe-se que podemos e devemos usar a fisioterapia como método para tratar pacientes com cefaleia. Entre as diversas técnicas existentes nesse campo, a manipulação cervical e torácica se destaca como forma de diminuir a intensidade da dor e frequência dos episódios de crise.

Apesar do medo de complicações que ainda existe entre a comunidade fisioterápica, estudos mostram que a manipulação cervical não apresenta riscos significativos para pacientes com cefaleia. Os estudos analisados não mostraram a incidência de lesões ou acontecimento de acidentes vasculares nesses pacientes.

Portanto, podemos trabalhar com nossos pacientes que têm dor de cabeça sem medo. Basta ter o conhecimento adequado e aplicar as técnicas corretamente para cada aluno para conseguir os melhores resultados.

 

Bibliografia
  • MAGALHÃES, Maurício. Efetividade de duas técnicas de fisioterapia na cefaleia tensional. Boletim Científico Semanal Fisio em Evidência. Edição 02 – 2018.
  • Joana Hasenack Stallbaum, Ana Gabrieli Ferreira Antunes, Bianca Ineu Kelling, Cristieli Froemming,
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