Sabemos que os hábitos modernos causam diversas alterações em nosso padrão de vida. Desde a postura até o movimento, tudo sofre por causa dos hábitos sedentários, inclusive a respiração. Os padrões respiratórios de nossos pacientes estão alterados com frequência.

No momento da avaliação postural também precisamos analisar o padrão respiratório do indivíduo. Neste momento, é primordial a realização da Avaliação Respiratória.

Assim, conseguimos saber se o diafragma está livre de suas tensões, se a respiração é torácica ou abdominal e se o diafragma trabalha em inspiração ou expiração.

Considerando que o diafragma tem suas inserções fixas na lombar, sempre precisamos desse músculos inspiratórios com boa mecânica de funcionamento.

Como acontece a respiração?

O ato respiratório acontece com a ação de diversas estruturas. Elas proporcionam a entrada e saída de ar das vias áereas no conjunto que chamamos de sistema respiratório. Ele é dividido em duas partes:

  • Parede torácica: funciona como uma bomba, cuja função é movimentar gás para dentro e para fora dos pulmões;
  • Pulmões: tem por função trocar oxigênio (O2) e gás carbônico (CO2) entre o organismo e o meio ambiente.

Assim como ocorre em qualquer outro músculo do corpo, os respiratórios possuem dois tipos de fibra.

Podem ser de tipo I, fibras vermelhas para trabalho tônico e de baixa intensidade. Ou podem ser de tipo II, brancas ou fásicas, que são fibras de contração rápida.

A caixa torácica também é parte essencial desse sistema e está diretamente ligada aos pulmões. Portanto, precisamos de sincronismo entre pulmão e musculatura respiratória para garantir um bom ciclo.

Padrão respiratório

No início desse artigo mencionei como o padrão respiratório de nossos alunos pode estar alterado. Basicamente, um indivíduo com padrão normal tem os movimentos torácico e/ou abdominal com presença ou ausência de musculatura acessória. Também existem algumas variáveis, como:

  • Volume Corrente (Vt);
  • Frequência Respiratória( Fr);
  • Volume Minuto (Ve);
  • Relação Inspiração/ Expiração (I:E).

Durante um ciclo respiratório satisfatório, o centro respiratório dorsal do bulbo envia estímulos inspiratórios através da via parassimpática. Assim, os músculos inspiratórios se contraem da seguinte maneira:

  • 60% a 70% da inspiração: diafragma. Ele abaixa sua cúpula e dá início ao movimento de “alça de balde” das costelas inferiores, que aumenta o diâmetro látero-lateral da caixa torácica;
  • Músculos intercostais externos: são responsáveis por atuar sobre as costelas superiores e realizar o movimento de “alça de bomba”. Com isso, o diâmetro ântero-posterior da caixa torácica aumenta. O movimento inspiratório desse músculo diminui a pressão pleural (Ppl) e altera o gradiente transpulmonar;
  • Alvéolos: se expandem e diminuem a pressão alveolar (Palv – lei de Boyle), o que altera o gradiente transrespiratório. O ar é deslocado da atmosfera, onde existe maior pressão, para os alvéolos, com menor pressão. Para isso, ele precisa primeiro passar pelas vias aéreas superiores, onde é umidificado, aquecido e filtrado.

No fim do ciclo de inspiração a energia elástica armazenada é usada para que a expiração ocorra. Ele é um evento passivo.

Ao final da expiração a retração elástica dos pulmões atua desinsuflando-os no volume pulmonar (capacidade residual funcional – CRF). Ela é compensada pela retração elástica do tórax, que age para fora.

Esse é o ponto de equilíbrio do sistema respiratório. Para conseguir vencer a retração elástica dos pulmões e a resistência ao atrito ao fluxo de ar, é preciso a contração muscular inspiratória.

Assim, inicia-se um novo ciclo respiratório. A respiração torna-se ativa quando realizamos algum esforço, como no exercício físico, ou se a saída de ar dos pulmões estiver dificultada.

Passo a Passo da Avaliação Respiratória

Para conseguir realizar a avaliação respiratória, começamos pela posição inicial adequada. O paciente deve estar em decúbito dorsal com os joelhos fletidos e com a cabeça em leve flexão.

Então posicionamos nossos polegares abaixo do apêndice xifóide e pedimos para o paciente realizar uma inspiração e expiração profunda.

Quando o teste é normal e o diafragma está livre de tensões nossos polegares sobem no momento da inspiração e desce na expiração. Isso acontece em sincronia na mesma excursão, tanto na inspiração quanto na expiração.

Podemos encontrar as seguintes alterações durante esse teste:

  • No momento da inspiração os polegares são muito elevados e não abaixam durante a expiração. Isso nos mostra um diafragma que trabalha em baixa, gerando uma respiração torácica. Estaremos diante de um diafragma hipertônico. Ele pode inclusive alterar a conformação óssea do manúbrio, observamos então um peito escavatum.
  • No momento da inspiração os polegares não sobem, porém quando na expiração os polegares descem muito. Assim percebemos que esse diafragma trabalha em alta, funcionando em expiração. Estamos de um diafragma hipotônico e possivelmente diante de de um peito de pombo.

Em alguns casos as alterações são muito discretas para perceber com o teste mencionado acima. Nesse caso, podemos ainda realizar um teste de cinesiologia aplicada.

Durante a avaliação respiratória o indivíduo permanece em decúbito dorsal e com os membros inferiores e a cabeça relaxados e apoiados na maca.

Escolhemos qualquer músculo no corpo para testar sua força. Vou usar o bíceps como um exemplo para poder explicar o teste para a avaliação respiratória.

Mantenha um dos membros superiores em flexão de cotovelo e solicite ao avaliado que não deixe que seu cotovelo estique. Assim, ele mantém uma contração isométrica.

Depois, pedimos ao avaliado sua respiração. Se ele for capaz de manter a força isométrica do bíceps na inspiração e na expiração o teste está normal.

Em alguns casos, o avaliado perde sua força na inspiração, portanto estamos diante de um diafragma hipotônico que trabalha em alta.

Em outros, ele perde sua força na expiração e estamos diante de um diafragma hipertônico que trabalha em baixa.

Conclusão

Assim como outros tipos de avaliação sobre os quais falei aqui no blog, os dados da avaliação respiratória devem coincidir com o histórico clínico do nosso aluno.

Quando percebemos um diafragma hipertônico que trabalha em baixa podemos perguntar sobre possíveis doenças pulmonares.

Elas geram uma força centrípeta nos pulmões e solicitam maior entrada de ar. Alguns exemplos são atelectasias e quadros asmáticos.

Ao contrário, quando estamos diante de um diafragma hipotônico é possível que o corpo tenha passado por um quadro patológico.

Isso pode ter acontecido há algum tempo e, mesmo durante um curto período, pode gerar compensações importantes.

Uma pericardite, um quadro infeccioso pulmonar ou até um quadro bacteriano hepático podem prejudicar o sistema respiratório.

A patologia pode exigir que o diafragma se contraia menos durante a inspiração. Assim, o músculo diafragmático diminui sua contração inspiratória para que o corpo não sofra ainda mais.

Até estresse, angústia, ansiedade e depressão e outras alterações somáticas podem causar um ato respiratório mais superficial ou ainda mais profundo.

Nunca devemos ignorar a avaliação de patologias psiquiátricas ou alterações somáticas. Elas alteram completamente nosso diagnóstico.