A fáscia é uma parte do tecido conjuntivo do corpo que influencia, e muito, nos resultados de nossos tratamentos e treinamentos. Apesar de ser tão importante, as pesquisas a seu respeito ainda estão em desenvolvimento e são um pouco obscuras no meio profissional. Porém, é importante acompanhá-las e saber tudo que é possível sobre o tecido fascial.

Para te ajudar a entender o que é a fáscia e sua importância no tratamento. Separei alguns conceitos básicos que devem te ajudar muito na compreensão antes de entrar em estudos mais aprofundados a respeito do tema.

Relação entre fáscia e colágeno

A fáscia é formada por proteínas, em especial o colágeno, e faz parte do tecido conjuntivo do corpo humano. Apesar do termo fáscia ainda ser discutido, como mostrei no meu artigo sobre as novidades científicas relacionadas à fáscia, podemos podemos considerá-la como: “tecidos conectivos fibrosos, moles, colágenos, soltos e densos que permeiam (ou seja, são espalhados por todo o corpo)”.

O colágeno, que forma boa parte dessa estrutura, é uma proteína produzida pelo corpo desde o nosso nascimento. Ele também é uma das proteínas mais importantes na manutenção do sistema conjuntivo, sendo responsável por manter sua estrutura matricial e força. No entanto, essa substância não é produzido pelo corpo até o fim da vida. Sua produção começa a diminuir mais ou menos aos 28 anos de idade, começando a cair cerca de 1% ao ano após os 35 anos.

Quando alguém chega aos 50 anos já deve estar produzindo cerca de 35% do colágeno que seu corpo precisaria para executar suas funções corporais. Nesse momento, o corpo começa a utilizar o estoque de colágeno que foi produzido até os 28 anos de idade, que não é o suficiente. É por isso que o processo de envelhecimento envolve a perda de elasticidade e firmeza do tecido conjuntivo.

Essa proteína é tão importante para o corpo que constitui diversas estruturas corporais que são afetadas conforme envelhecemos. Entre elas temos:

  • Ossos;
  • Unhas;
  • Músculos;
  • Cartilagens;

Cerca de 25% da proteína do corpo é colágeno, então não podemos ignorar seu papel. Sua principal função é sustentar as células, fazendo com que elas fiquem juntas e firmes. Isso também acontece no tecido da fáscia, fazendo com que essa proteína seja essencial para o funcionamento do conjunto fascial.

Funções da Fáscia

Autores relevantes já definiram a fáscia de forma bem ampla, deixando-a mais simples de compreender. O sistema fascial envolve os músculos, ossos e fibras nervosas e realiza diversas funções no corpo. Isso inclui funções:

  • Arquitetônicas/estruturais;
  • Neurológicas;
  • Transmissão de força biomecânica;
  • Morfogênese;
  • Transmissão de sinal celular.

Para conseguirmos utilizar esse artigo na nossa prática clínica, focarei na fáscia sob uma perspectiva funcional. Precisamos compreender o tecido conjuntivo e como ele realiza a ligação entre diversas estruturas do sistema musculoesquelético.

Treinamento da Fáscia

Durante nossos atendimentos precisamos considerar o conceito de treinamento da fáscia. Ele é necessário em qualquer paciente, seja ele um atleta de alto rendimento que deseja melhorar seu desempenho, um indivíduo lesionado ou uma pessoa que só quer praticar atividade física.

Quando um atleta sofre lesões por overtraining, por exemplo, a lesão acontece nos elementos da rede fascial do corpo. Os tecidos que devemos desenvolver no treinamento fascial são:

  • Envelopes musculares;
  • Aponeuroses;
  • Adaptações locais específicas (ligamentos ou tendões).

No corpo, existem estruturas que são responsáveis por adaptar os tecidos conjuntivos dos sistema fascial aos estímulos. Eles são os fibroblastos. Por isso, devemos adotar um treinamento orientado para a fáscia. Em atletas, esse treinamento precisa ser ainda mais específico para evitar sobrecarga, mas já falei a  respeito disso em outro artigo.

Nos treinamentos podemos adotar alguns recursos que ajudam a trabalhar a fáscia, mas nunca em excesso. Recomenda-se que esse tipo de treinamento aconteça entre uma e duas vezes por semana. Conseguimos melhorar o condicionamento fascial em 6 a 24 meses, dependendo do caso específico do aluno.

Muitas das lesões que encontramos na prática clínica envolvem tendões, ligamentos e outras estruturas do tecido conjuntivo. Muitas vezes, somente o tratamento do sistema musculoesquelético pode ser insuficiente. Mesmo que consigamos um resultado, o paciente pode voltar a ter o mesmo tipo de lesão.

Características da Fáscia

A fáscia é um tipo de rede de tensão que recobre todo o corpo. Ela é parte do que conecta diversas estruturas corporais, transmitindo tensões entre todo o sistema. Ela consiste de todos os tecidos conectivos, incluindo os:

  • Moles;
  • Colágenos;

A fáscia não é moldada por compressão, mas sim por tensões. Esse sistema envolve todos os músculos e órgãos. Podemos considerar alguns elementos que fazem parte da rede fascial, incluindo:

  • Envelopes musculares;
  • Cápsulas articulares;
  • Septos;
  • Tecidos conectivos intramusculares;
  • Retináculos;
  • Aponeuroses;
  • Ligamentos;
  • Tendões.

A rede fascial ao longo do corpo é formada por diversos tipos de tecidos conjuntivos, assim como algumas áreas de transição. Essas áreas ficam localizadas principalmente próximo a articulações. A rede recobre todo o corpo e é responsável por transmitir deformações tensionais multi-articulares. Por isso, cada região do corpo possui uma arquitetura local adaptada às demandas de carga de deformação impostas.

As deformações impostas sobre o sistema fascial o moldam e podem influenciar em lesões futuras. Por acaso você já conferiu um pouco do meu conteúdo sobre avaliação postural? Sempre falo a respeito de conhecer o histórico do paciente. Ele pode te dar insights importantes nas deformações que afetam o sistema fascial atualmente, mas que surgiram no passado.

Tipos de Colágeno no Mercado

No início do artigo falei um pouco da relação entre colágeno e fáscia e como nosso corpo deixa de produzir a quantidade necessária da proteína ao longo do tempo. Para suprir essa demanda, existem diversas opções de colágeno no mercado. Porém, ainda não existem estudos comprovando claramente sua eficiência no tratamento de patologias relacionadas ao tecido conjuntivo.

Os colágenos mais comuns no mercado são:

  1. Colágeno Hidrolisado – Passa por um processo de hidrólise, ou seja, é quebrado em partículas menores para ser absorvido mais facilmente e ter melhor aproveitamento pelo organismo.
  2. Colágeno Tipo 2 É o mais abundante nas cartilagens.
  3. Pepto Colágeno – É um colágeno altamente hidrolisado, que chega aos peptídeos de colágeno (conjunto de aminoácidos). Ou seja, moléculas ainda menores e de mais fácil absorção. Diversos estudos apontam que o colágeno na forma de peptídeos possui benefícios potencializados.

Conclusão

A fáscia é parte do tecido conjuntivo que nos ajuda a entender como o corpo sofre com deformações e tensões que levam ao surgimento de patologias. Através do estudo dessa estrutura, podemos desenvolver um treinamento mais completo e eficiente para nossos alunos. Por enquanto, quero dar uma dica: estude mais sobre a fáscia para conseguir utilizá-la nas suas avaliações e tratamentos. No meu blog tenho bastante conteúdo a respeito.

 

 

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