Conversando com uma pessoa da terceira idade, provavelmente acima dos 70 anos, é possível que ele mencione possuir alguma hérnia de disco. A patologia é muito comum e inúmeros pacientes acabam perdendo sua mobilidade por causa do problema.

Será que podemos ajudá-los? Tudo depende do nosso conhecimento a respeito da patologia. Por isso, proponho estudarmos nesse artigo, um pouco dos seus mecanismos de formação, para conseguir aprimorar nossa técnica de tratamento. Vamos começar? Então continue sua leitura!

Princípio de Pascal na formação da Hérnia de Disco

Sabemos que a coluna vertebral possui os discos intervertebrais entre suas estruturas. Eles são um corpo macio que diminui o atrito entre os corpos vertebrais. É esse disco que desloca-se nos casos de hérnias discais causando dor e compressão nervosa.

A Lei de Pascal nos ajuda a entender bastante as causas da hérnia de disco. De acordo com o físico e matemático francês Blaise Pascal, a alteração de pressão em um fluido que está em equilíbrio transmite-se integralmente à todos os pontos do líquido e às paredes do recipiente.

Esse princípio pode ser aplicado ao corpo humano, contanto que algumas propriedades estejam sadias. Ele é extremamente útil quando aplicado à coluna vertebral.

Portanto, de acordo com o princípio de Pascal teremos:

  • Diferença de pressão: é a força aplicada sobre uma área. Caso a pressão seja muito acima da suportada pelo corpo, os sistemas de contenção do anel fibroso podem se romper;
  • Densidade do fluido: a densidade do fluido interfere na lei. Portanto, um núcleo pulposo que esteja desidratado ou rompido estará mais sensível à lei;
  • Gravidade: quanto maior a altitude maiores os riscos que sofremos;
  • Diferença em metros: a diferença entre as duas colunas do recipiente, ou seja, vértebra suprajacente e vértebra subjacente não podem estar com espaço intervertebral diminuído.

Quando os quatro princípios estão funcionando em plenitude, temos uma coluna mais sadia e com menor probabilidade de lesão. Também diminuem as chances do surgimento de uma hérnia causada pelo movimento.

Como mostra o princípio de Pascal o movimento entre as vértebras gera um aumento de força e pressão, mas ela fica distribuída de forma coesa.

Apesar do núcleo pulposo ser deslocado para um lado, a pressão não fica aumentada naquele lado. O próprio núcleo pulposo sofre mudança de pressão durante os movimentos, mas ela também é distribuída por todo o conjunto.

O que é Hérnia de Disco?

A hérnia de disco é uma patologia que surge com a projeção da parte central do disco intervertebral (o núcleo pulposo) para além dos seus limites normais. Ou seja, ele deixa o anel fibroso. É muito comum que a hérnia surja após traumatismos que lesam a cartilagem, como:

  • Quedas;
  • Acidentes automobilísticos;
  • Esforços ao levantar;
  • Encurtamentos musculares;
  • Outros.  

Esse tipo de lesão também pode comprimir raízes nervosas. Assim, o paciente sofre perda de sensibilidade com parestesia ou anestesia na altura correspondente ao dermátomo. Quem possui herniação também apresenta perda ou falta total de força muscular com alteração de trofismo muscular.

Tipos de hérnia de disco

Dividimos a hérnia de disco em alguns tipos para compreendê-las melhor. Elas são:

  • Hérnia de disco protrusa: é o tipo mais comum, quando o núcleo do disco permanece intacto, mas já há perda da forma oval;
  • Hérnia de disco extrusa: quando o núcleo do disco se encontra deformado, formando uma “gota”;
  • Hérnia de disco sequestrada: quando o núcleo está muito danificado e pode até mesmo se dividir em duas partes.

Falsas hérnias de disco

Nem toda hérnia de disco apresenta os sintomas que mencionei acima. Isso porque, nem sempre o que pensamos serem hérnias realmente são: também existem as falsas hérnias de disco. De acordo com Leopold Busquet, 85% das hérnias que diagnosticamos diariamente são do tipo falso. Podemos afirmar isso porque não apresentam esse quadro completo.

Só as 5% mais graves possuem os sintomas adequados para considerarmos verdadeiras. Quando falamos em hérnias verdadeiras o tratamento é sempre cirúrgico e só estaremos presentes na reabilitação do aluno durante o pós-operatório.

Sintomas de falsas Hérnias de Disco

A hérnia de disco é caracterizada pela dor intensa na altura da herniação. Ela também pode gerar outros sintomas de acordo com seu tipo:

  • Falsa hérnia cervical: dor na região da nuca e do pescoço, gerando dificuldade para fazer movimentos cervicais e de membros superiores. Também pode existir parestesia nos membros superiores;
  • Falsa hérnia lombar: causa dor lombar combinada com dificuldade de movimentos e parestesia no caminho do nervo ciático.

Hérnia também pode ter seus sintomas agravados por movimentos, como tosse, riso e evacuação. Elas são mais raras em curvas cifóticas da coluna, já que possuem menor mobilidade. Colunas muito retificadas, no entanto, podem sofrer com uma hérnia de disco torácica.

Causas da Hérnia de Disco

Apesar de muitas pessoas que possuem uma hérnia de disco estarem plenamente convencidas que a desenvolveram depois de algum movimento, afirmo o contrário. Quanto mais estudo o quadro, mais entendo que é a falta de movimento uma das principais causas da hérnia de disco.

É a falta de movimento que gera limitações articulares e fraquezas musculares. Assim, o sistema musculoesquelético é sobrecarregado por pressões para as quais não foi projetado.

Tudo começa com um episódio de dor lombar: primeiro sinal do problema que está afligindo o corpo. Isso acontece cerca de 10 anos antes do surgimento de uma hérnia lombar.

Esse sinal é um pedido de socorro, indicando que a pessoa precisa de movimento para prevenir uma hérnia. Se soubermos escutá-lo e corrigirmos os problemas atuais do corpo conseguimos prevenção. Mas nós sabemos que a maioria dos pacientes não busca ajuda para dor lombar.

A não ser que o problema seja crônico, o paciente simplesmente toma um relaxante muscular ou analgésico. Depois de algum tempo sofrendo com a dor ela passa e ele simplesmente esquece que ela esteve lá.

Surgimento da hérnia

Apesar dos medicamentos, a alteração mecânica permanece e pressiona ainda mais os discos. Assim, vemos que uma das causas da hérnia de disco começou há muito tempo, bem antes do paciente fazer aquele movimento que ele imaginar ser o culpado da dor.

Cerca de 10 anos depois do primeiro episódio de dor lombar o disco sucumbe às pressão, rompe-se e forma a hérnia. Tudo isso causado por uma coluna rígida e sem mobilidade que sofreu durante anos.

Conclusão

Sabendo das causas da hérnia de disco e como a falta de movimento é uma das principais, podemos começar a trabalhar com nossos alunos. É claro que eles terão medo de se movimentar, o próprio médico solicitou repouso e imobilidade.

No entanto devemos quebrar esse paradigma e mostrar para o paciente que só o movimento pode recuperá-lo. Devemos sim trabalhar a estabilidade do núcleo corporal, porém sem confundi-la com o conceito rigidez, lembrando sempre de um corpo viscerado e das consequências do aumento da PIA.

Porém devemos nos lembrar que um corpo saudável, deve ser também móvel e não somente estável, o que geraria desequilíbrios importantes e colocaria nosso processo de reabilitação muito suscetível ao fracasso.

 

 

Bibliografia