O que é princípio da estabilidade do núcleo?

Paul Hodges e Richardson foram os pioneiros no desenvolvimento do princípio da estabilidade do núcleo. Foram suas pesquisas que conseguiram demonstrar uma mudança no tempo inicial de contração de músculos do tronco em pacientes com dor lombar crônica.

A partir desse momento, as pesquisas a respeito do controle do tronco tomaram novo rumo. Pesquisadores queriam entender mais sobre a dor lombar crônica e, aos poucos, surgiu a ideia de que mudanças no controle motor de musculaturas do tronco estariam envolvidas. Em 1965, Freeman et al demonstrou tal fato em seus estudos.

Os achados e crenças gerais apontavam para a necessidade de músculos abdominais fortalecidos para garantir uma coluna saudável. Tais conhecimentos influenciaram muito o Pilates e o Treinamento Funcional. No Pilates, utilizou-se a ideia de treinamento do Power House, no Funcional, o treinamento de músculos do Core.

Como consequência desses estudos, inúmeros estúdios, ginásios, centros de treinamento e clínicas pelo mundo passaram a adotar exercícios para estabilidade de tronco. Eles deveriam ajudar a conseguir atletas prevenidos contra lesões de coluna e tratar dor lombar com maior eficiência.

Transverso abdominal, um dos estabilizadores

Considerando a estrutura da coluna vertebral e sua amplitude de movimentos, é fácil de considerá-la uma estrutura instável. Suas estruturas esqueléticas e estabilizadoras dinâmicas são incapazes de fornecer estabilização adequada, já sabemos disso.

Assim, os músculos tornam-se alguns dos principais mecanismos estabilizadores do tronco. No princípio de estabilidade do núcleo, os músculos geralmente são chamados de “Core”, assim como no funcional.

O transverso do abdômen ganhou destaque entre os músculos do Core. Acredita-se que ele é o principal componente da estabilização do tronco que mencionei acima. Ele possui diversas funções na postura vertical, sendo estabilidade apenas uma delas. Na verdade, sua função estabilizadora está em sinergia com os outros músculos que compõem a parede abdominal.

Essa musculatura também é responsável por controlar a pressão intracavitária para realizar:

  • Vocalização;
  • Respiração;
  • Defecação;
  • Vômito;

Para conseguir exercer todas suas funções, o TRA possui uma posição estratégica. Ele forma a parede posterior do canal inguinal, ali ele tem mais um papel: impedir a herniação das vísceras.

Papel de estabilização do transverso

Como já mencionei, no princípio da estabilidade do núcleo o transverso é essencial para estabilizar a coluna. Para conseguir confirmar se isso é verdadeiro, precisamos avaliar condições nas quais o músculo está danificado ou incapaz de realizar a estabilização.

Se ele realmente for um dos principais estabilizadores de coluna, sua falta de atividade fragilizaria a estrutura e levaria ao desenvolvimento de dor lombar.

A gravidez é um quadro interessante de analisar exatamente por esses motivos. Durante esse importante período, o Tra e outros músculos abdominais sofrem algumas alterações por causa do aumento do útero e outras alterações no corpo feminino.

Pesquisas com mulheres grávidas

O transverso sofre um alongamento que vai muito além de sua curva de comprimento x tensão. Por isso, ele perde força e deixa de estabilizar a pelve contra resistência. Para tentar comprovar a relação do Tra com a dor lombar, um estudo comparou mulheres grávidas.

De todas as 869 pessoas submetidas a estudo, mais da metade foi excluída. Boa parte delas deixou de fazer parte por conseguir recuperação espontânea da dor lombar sem intervenções após o parto.

Parece simples, elas estariam melhorando por recuperarem as funções estabilizadoras do transverso, certo? Na verdade não. Sua recuperação acontece num período no qual os músculos abdominais ainda não voltaram ao normal.

O estudo conclui que as evidências de mecânica musculoesquelética estejam relacionados ao desenvolvimento da dor lombar na gravidez.

Tempo de contração vs. força do núcleo

Se a força do músculo transverso abdominal e de outros músculos estabilizadores parece não ser tão essencial, surgiu outra hipótese: o tempo de contração. Nos estudos, indivíduos com dor lombar apresentaram um tempo de contração do Core cerca de 20ms mais lento. É uma diferença aparentemente pequena, mas que importa para os movimentos da coluna.

Perceba, a diferença em força não foi notada, mas sim no tempo de contração da musculatura. Ao contrário da força, o tempo está fora do controle consciente do paciente. Nós, terapeutas, também temos extrema dificuldade em alterá-lo através de comandos.

Durante as aulas focadas no princípio de estabilidade do núcleo, existe uma forte ênfase no fortalecimento de transverso abdominal. Utiliza-se exercícios em baixa velocidade feitos nas posições deitado, de joelhos ou de quatro apoios. A ideia seria normalizar o controle motor da musculatura, corrigindo, entre outros fatores, o problema de tempo.

Princípios das atividades físicas

Porém, não é provável que esse tipo de treinamento seja o suficiente para corrigir o problema de tempo de contração. Ele perde sua eficiência quando consideramos que esse tipo de treinamento de núcleo contradiz os princípios de aprendizado motor e de treinamento. Ou seja, eles não trabalham com similaridade, transferência ou especificidade.

De acordo com esses princípios utilizados nas atividades físicas, o corpo e seu sistema neuromuscular e esquelético seriam capazes de se adaptar a eventos motores específicos. Portanto, o que aprende-se numa situação específica pode não ser transferido para outro evento.

Com a intenção de melhorar o tempo de ativação, os proponentes do CS apresentaram uma solução: ensinar seus atletas, alunos ou pacientes a contrair continuamente o transverso do abdômen.

Com o músculo contraído a todos os momentos, seria possível deixar de se preocupar com o tempo de início da ativação. A proposta impõe um padrão de controle anormal e não funcional a esses pacientes. Seria possível utilizá-la para superar uma reorganização funcional do sistema muscular, como as lesões que encontramos com frequência.

O que é o controle motor?

O controle motor é o que precisamos desenvolver no aluno para conseguir boa ativação do transverso e outros músculos estabilizadores. Ele é composto de diversos fatores, que incluem:

  • Força;
  • Velocidade;
  • Alcance;
  • Resistência (grupo paramétrico de habilidades);
  • Co-contração;
  • Ativação recíproca.

Esses fatores representam o nível de controle sinérgico e para as habilidades motoras mais complexas, incluem ainda:

  • Coordenação;
  • Equilíbrio;
  • Tempo de transição entre diferentes atividades;
  • Relaxamento motor.

Todos esses fatores estão presentes durante um movimento. Caso um deles esteja alterado, todos os restantes terão alterações. Além disso, nenhum estudo até o momento demonstrou que o exercício de estabilidade de núcleo irá redefinir o tempo de início da contração do núcleo em pacientes com CLBP.

O núcleo precisa ser forte?

Quando falamos no princípio de estabilidade do núcleo, muitos pensam imediatamente em força. Realmente, existe muita confusão a respeito da força do tronco e como ela está relacionada a lesões e dores lombares. O controle muscular do tronco ao todo está prejudicado no caso de lombalgia, incluindo a força.

A co-contração muscular possui diversos papéis nos movimentos do tronco. Ela ajuda sim a estabilidade das articulações e a melhorar o movimento, mas não precisa ser exagerada. Os níveis de co-contração do tronco em pessoas saudáveis são mantidos em níveis baixos. Ou seja, eles precisam ser o suficiente para realizar atividades diárias.

Será que aumentar a força e, portanto a força de compressão no disco, seria ideal para nossas aulas? Não parece uma boa estratégia. Isso levaria o corpo a consumir mais energia e deixaria o tronco mais rígido. É uma maneira incompleta de tratar um corpo que também precisa de melhor amplitude de movimento e flexibilidade.

Isolando o transverso dos outros músculos abdominais

Um dos princípios dos treinamentos de estabilidade do núcleo é pedir para os alunos isolarem o transverso do restante dos músculos abdominais. O transverso seria um músculo central no tronco entre o restante de músculos globais. Isso é possível? Dificilmente, é duvidoso que existe um grupo de músculos capaz de operar de maneira independente do restante do tronco.

Para conseguir essa ativação o indivíduo precisaria substituir seu padrão natural de ativação muscular. Além de ser impraticável, seria perigoso para o paciente. Focar o treinamento em um único músculo é extremamente difícil porque a ativação por músculo simplesmente não existe.

Conclusão

O processo de controle muscular está distante do controle consciente. Ele é realizado na hierarquia dos processos motores dos centros espinhais. Mesmo os neurônios relacionados a músculos particulares estão misturados. Portanto, percebemos que a divisão muscular é puramente anatômica e não pode ser aplicada em pacientes na prática.

Ao contrário do que o princípio da estabilidade de núcleo propõe, não conseguimos contrair um músculo ou grupo específico. Nossos alunos conseguem isso ainda menos. Quando tentamos incentivar essa contração em aula, o paciente provavelmente acaba contraindo grandes grupos de músculos abdominais.

 

 

Bibliografia
Bouche, K., Stevens, V., Cambier, D., et al., 2006. Comparison of postural control in unilateral stance between healthy controls
and lumbar discectomy patients with and without pain. Eur. Spine J. 15 (4), 423e432.