Por acaso você já usou o comando de “segure o xixi” para sua aluna durante a aula? Isso é um problema bastante sério que acontece quando muitos profissionais tentam trabalhar o assoalho pélvico no Pilates.

Recomendo não utilizar esse comando e deixar o assoalho pélvico livre para prevenir sobrecarga. Quer entender por quê? É só continuar lendo e entender os motivos científicos para tantas dificuldades ao trabalhar o assoalho pélvico no Pilates.

Anatomia do Assoalho Pélvico

Quero mostrar algumas das principais dificuldades que profissionais do Pilates têm ao trabalhar o assoalho pélvico. Por isso, vale a pena fazer uma rápida revisão dele, que é formado por estruturas responsáveis por encerrar a pelve anteriormente, como:

As musculaturas do assoalho pélvico (MAP) são organizadas em músculos profundos e superficiais. Na camada superficial encontramos o períneo. Ele é constituído pelos órgãos genitais externos e o ânus. No MAP masculino, o períneo começa na bolsa escrotal e termina no ânus. Já nas mulheres, eles começa na vulva e termina também no ânus.

Encontramos os seguintes músculos na camada superficial do MAP:

  • Bulboesponjoso;
  • Isquicavernoso;
  • Transverso superficial;
  • Profundo períneo;
  • Esfíncter uretral externo;
  • Esfíncter anal externo.

Função das Musculaturas do Assoalho Pélvico (MAP)

A principal função das estruturas dessa camada é manter o fluxo urinário. Eles também promovem a ereção do clitóris e do pênis, além de proporcionar a ejaculação e as contrações da vulva durante o organismo. Outra importante função é proporcionar o parto.

A camada profunda do MAP é formada pelas seguintes musculaturas:

  • Isquioscoccígeos;
  • Levantadores do ânus (puborretal, pubococcígeo);
  • Levantador da próstata e pubovaginal;
  • Iliococcígeo.

Nessa cama encontramos as estruturas que formam o diafragma pélvico. Elas sustentam os órgãos internos, permanecendo contraídos durante todo o tempo.

Em eventos que causam aumento da PIA, como a tosse ou espirro, essas musculaturas realizam uma contração rápida. É esse reflexo que mantém os órgãos na posição normal. Sua atuação também controla a defecação e a micção. Os músculos possuem esfíncteres que permanecem fechados, só abrem quando a musculatura se relaxa.

Biomecânica do Assoalho Pélvico

Pesquisas corroboram com a descrição do músculos levantador do ânus como uma forma de cúpula dupla. Estima-se que o fascículo iliococcígeo tem uma forma de cúpula de convexidade superior.

Considerando que a maioria da população apresenta a nível de musculatura do assoalho pélvico uma morfologia de duplo cúpula de concavidade inferior, é possível imaginar que essa seria a morfologia normal para um MAP saudável.

Com a presença de duas cúpulas horizontais, é possível distribuir as forças exercidas pela cavidade torácica do abdômen em quatro pilares. Eles são:

  • Arco tendíneo da aponeurose obturante;
  • Núcleo fibroso central;
  • Anococcígeo raphia;
  • Cóccix.

Manter essa morfologia normal das cúpulas pélvicas é essencial para conseguir manter também a função insubstituível do assoalho pélvico. O fascículo iliococcígeo tem uma função especialmente importante que precisamos preservar ao trabalhar o assoalho pélvico no Pilates.

O que é o Fascículo Iliococcígeo?

Ele é o detentor dos órgãos pélvicos, a mesma função exercida pela aponeurose pélvica. Além disso, ele realiza o amortecimento da pressão exercida pelas vísceras no local durante esforços que causam hiperpressão na região abdominotorácica.

Durante tais esforços, as vísceras da pelve sofrem um deslocamento para baixo e para trás. Durante esse deslocamento, eles seguem a rota de um arco de círculo com um raio correspondente aos ligamentos útero sacros. Assim, forças oblíquas para baixo e para trás são aplicadas nas estruturas do MAP.

A força acontece em direção perpendicular às cúpulas pélvicas. Portanto, temos uma boa explicação para a forma do elevador do ânus sendo côncava para baixo e para trás. Ele auxilia na divisão de forças, deixando-as iguais em seus pilares.

A função de amortecimento do elevador do ânus permite também proteção dos plexos nervosos pudendo e hipogástrico. Se existe um problema nos pilares do MAP, as cúpulas provavelmente estarão lesionadas.

Como podemos trabalhar o Assoalho Pélvico no Pilates?

As dificuldades encontradas no trabalho de assoalho pélvico no Pilates são completamente justificáveis. Para entender isso, precisamos compreender também como o MAP é formado.

Ele tem uma elevada quantidade de tecido conjuntivo em sua formação. O tônus muscular necessário para todas suas funções e para amortecer o deslocamento das vísceras acontece com o uso de fibras musculares muito pequenas.

Assim, temos um pavimento pélvico formado por 80% de tecido conjuntivo e 20% de fibras musculares estriadas. Além disso, 80% dessas fibras musculares são de tipo I e 20% são de tipo II.

O músculo elevador do ânus é um excelente exemplo do funcionamento do assoalho pélvico. Ele é formado especialmente por fibras lentas, que são 70% da sua composição.

Musculatura Perineal

A filogênese nos indica que a pelve vem evoluindo para que consigamos nos adaptar à bipedestação. Assim, ela sofreu mudanças nas suas funções fundamentais de gestação e suporte das vísceras.

As mudanças de pressão também tiveram um efeito importante na pelve e no assoalho pélvico. Atualmente, um sistema complexo de fáscias e ligamentos são responsáveis pelo suporte dos órgãos da pelve menor. Com a nova distribuição de forças, a região passou a ser submetida a cargas diferentes.

A musculatura perineal sofre em especial com os frequentes aumentos da PIA. As alterações pressóricas podem gerar alterações na composição muscular na região, podendo até diminuir o número de fibras tipo II no elevador do ânus.

Caso o assoalho pélvico passe por essa alteração de composição muscular ele perde boa parte da sua função. Assim, os pacientes sofrem com o surgimento de diversas patologias, como:

Capacidade de controle da parede abdominal

Outro problema que encontramos ao tentar trabalhar o assoalho pélvico no Pilates é o controle da parede abdominal. Durante a força, ela deve mobilizar-se para dentro. Assim, as vísceras deslocam-se para baixo e para trás em direção ao pavimento, que realiza seu suporte.

Só existe um probleminha: ao longo da maturação dos músculos abdominais nós perdemos boa parte da nossa capacidade de controlar a parede abdominal. Ao redor dos 8 anos de idade já começamos a perder a eficiência dessa musculatura

Como resultado, a parede abdominal sofre um deslocamento anterior e a parede anterior da vagina se desloca para baixo e para a frente durante a contração do transverso do abdômen. Isso pode ou não estar relacionado à hipotonia do assoalho pélvico que existe em boa parte dos indivíduos.

A cavidade abdomino-pélvica está cercada pelo:

  • Diafragma (acima);
  • Coluna vertebral (atrás);
  • Costelas (na porção superior);
  • Pelve (abaixo).
  • Diafragma pélvico (encerramento inferior).

A PIA aumenta para realizar algumas ações fisiológicas, como espirrar, tossir, defecar, vomitar e fazer outros tipos de esforços. Para diminuir a PIA, a área do abdômen diminui através da ação sinérgica de estabilizadores da coluna e músculos profundos do abdômen.

Esse mecanismo é o responsável por distribuir a pressão aumentada pelas paredes do assoalho pélvico. Com a contração do diafragma e dos músculos do abdômen a PIA também aumenta. Em situações normais e com o MAP em seu funcionamento fisiológico, a PIA sofre elevação para conter as vísceras no seu posicionamento.

Porém nem todos têm músculos abdominais com força e controle o suficiente para gerar o movimento para baixo das vísceras e uma contração sinérgica do assoalho pélvico. Alguns fatores de risco alteram esse mecanismo, incluindo:

  • Gravidez;
  • Parto;
  • Disfunções do pavimento pélvico;
  • Disfunções do diafragma torácico;
  • Dor lombar.

Desafios para o Pilates

Quem trabalha com movimento tem um grande desafio pela frente. A vida moderna proporciona a hiperpressão no corpo por causa da bipedestação e diversos outros fatores. Além disso, o conforto trazido pela tecnologia aplicada à vida diária criou uma vida que é gerida pelo sistema nervoso parassimpático. Portanto, existem diversas alterações no sistema corporal.

O sedentarismo fez com que as musculaturas do assoalho pélvico se tornassem mais relachadas. Para resolver esse problema, muitos usam o comando de “segure o xixi” durante as aulas de Pilates. Mas isso é um erro que pode causar ainda mais dificuldades no futuro.

Comecemos entendendo que Joseph ou Clara Pilates nunca utilizaram esse comando no seu método original. Foi Paul Hodges que trouxe esse conceito para nossas aulas e, atualmente, ele mesmo admite que errou e que muitos também erraram na sua interpretação.

A pesquisa de Paul Hodges sobre o reflexo antecipatório postural ficou conhecida e recebeu poucas críticas. Ele mostrou que o transverso abdominal se contra cerca de 20 milissegundos antes de outras atividades musculares. Portanto, imaginava que seria necessário fortalecer todas as musculaturas que realizam suporte da coluna para protegê-la.

Como parte das musculaturas de suporte da coluna, o assoalho pélvico precisaria de um trabalho de fortalecimento nas aulas de Pilates. Mas lembra da composição muscular do MAP que mencionei anteriormente? Essas musculaturas só conseguem ficar contraídas por cerca de 6 segundos, talvez até menos na maioria dos indivíduos.

Passado esse tempo, elas ficam fadigadas e relaxam, deixando que as vísceras e o aumento da PIA desabem sobre o assoalho pélvico. Assim, sua contração por tempo elevado só causa mais carga, o que pode levar a incontinência urinária de esforço.

Para conseguir uma boa estimulação do MAP, precisamos ativar e tonificar as fibras do tipo I. Não é tão simples conseguir essa estabilização segmentar e, se ela for feita da forma errada, pode trazer problemas sérios.

Conclusão

O fortalecimento de assoalho pélvico no Pilates que alguns profissionais buscam é bastante problemático. Caso seja mal compreendido ou aplicado, nossa aluna será prejudicada e pode até desenvolver incontinência urinária. Além disso, boa parte das mulheres não consegue contrair o assoalho pélvico somente com comando verbal. Cerca de 80% delas empurram as vísceras para baixo quando recebem o comando, o que aumenta a sobrecarga do MAP.

Algumas vezes, pedir para a aluna “segurar o xixi” só vai prejudicar ainda mais seu assoalho pélvico e aumentar a sobrecarga. Na dúvida, é melhor abolir esse comando das nossas aulas e deixar o trabalho de MAP para profissionais da fisioterapia especializados em uro-gineco. Nesse método, é possível controlar a estimulação do períneo com o biofeedback.

 

 

Bibliografia
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