Para trabalhar com movimento de maneira eficiente precisamos compreender o efeito que nossas atividades têm na pressão do corpo. Existe uma série de pressões internas que regulamentam o corpo e, quando alteradas, elas podem causar diversos desequilíbrios.

Essas pressões são como balões no corpo. São três balões ao todo, cada um deles sendo uma das cavidades internas. As cavidades, obviamente, interagem umas com as outras, geralmente alterações entre elas. As principais cavidades para as colunas de pressão são:

  • Abdômen
  • Tórax
  • Crânio

Quando a pressão interna de uma delas muda, as restantes também se alteram. Em um corpo que tem seu bom funcionamento fisiológico, essa interdependência leva a um bom gerenciamento das pressões intracavitárias.

Porém, muitos corpos não são assim e tem o aumento das pressões relacionado a patologias.

Como funcionam as Pressões Intracavitárias?

Quando fazemos um movimento que tira a coluna vertebral do seu equilíbrio estático ativamos um reflexo que chamamos de “ajuste postural antecipatório”. Ele acontece antes de qualquer movimento, mais ou menos 20 milisegundos antes para ser exata.

Nesse momento a pressão intra-abdominal (PIA) aumenta para dar estabilidade à coluna vertebral.

É um mecanismo simples. Os músculos estabilizadores são pré-ativados pelo córtex cerebral e trabalham em sincronia. Sua contração é responsável por criar uma alavanca flexora da coluna vertebral.

De acordo com pesquisas de Hodges e outros pesquisadores, os principais músculos nessa ação seriam:

  • Diafragma Torácico
  • Transverso Abdominal
  • Períneo

Outras pesquisas demonstram que existem outras musculaturas atuando juntamente e essa acima. Elas se ativam tanto no processo respiratório quanto na postura. Chamamos esse fenômeno de ativação da série muscular.

Nenhum músculo que existe na série é totalmente autônomo. Quando um deles se contrai o restante é ativado por sinergia.

A atividade postural antecipada responsável por uma flexão da coluna também gera uma pré-compensação por uma alavanca extensora. Isso acontece pela contração de músculos extensores do tronco e paravertebrais.

Portanto, podemos dizer que existe um reflexo pré antecipatório que dispara antes mesmo do outro. Sem a combinação das alavancas flexoras e extensoras, a coluna vertebral não consegue manter sua estabilidade.

De acordo com Hodges e outros, a PIA é essencial para a manutenção da postura. Ela é aumentada pela contração desses músculos que realizam os reflexos antes do movimento. Essa relação também pode ocorrer ao inverso: quando existe um aumento da PIA os músculos relacionados à estabilização da coluna também se contraem.

Esse é o funcionamento de uma coluna de pressão no corpo chamada de pósturo-respiratória muscular. Existem também a coluna pressórica visceral. Ela acontece pela ação do diafragma torácico que cria um pistão que produz movimentos viscerais sistemáticos e repetitivos. Isso serve para dissipar pressões, proteger as vísceras e ajudar o retorno de sangue venoso e linfático.

Funcionamento das Coluna de Pressão

As pressões intracavitárias e colunas de pressão ajudam a manter o controle postural. Elas também atuam na respiração ou qualquer outra atividade que leve a um aumento da PIA. Alguns exemplos são:

  • Fala
  • Riso
  • Choro
  • Micção
  • Defecação
  • Parto

A PIA também atua na pressão anti refluxo e na respiração diafragmática.

Nesse segundo caso, é preciso que aconteça um aumento das pressões para que o diafragma tenha uma contração correta. A PIA aumenta durante a descida do diafragma, mantendo seu centro frênico em posição alta e ajudando as fibras externas a aderirem à caixa torácica.

É esse contato com as costelas que gera o mecanismo de alavanca e o movimento de alça de balde das costelas.

Ou seja, a respiração seria impossível sem a ação da pressão intra-abdominal. A respiração só acontece sem essa ação quando é realizada pelos músculos intercostais, tornando-se uma respiração torácica, mas perde muito da sua eficiência.

As vísceras abdominais também ganham mobilidade graças ao pistão diafragmático durante a respiração. Toda vez que respiramos elas se adaptam para dissipar a pressão e proteger os elementos nobres que existem na região como vasos e estruturas nervosas.

A PIA também faz com que o mecanismo anti refluxo funcione. O diafragma crural entra em contração com o aumento da PIA. As fibras dessa musculatura que cercam o hiato esofágico ajudam no fechamento para impedir que o conteúdo gástrico retorne ao esôfago.

A PIA é responsável por regular o fluxo do sangue venoso entre o abdômen e o tórax. O diafragma realiza um movimento rítmico na cavidade abdominal que alterna entre bloqueios e liberação do fluxo do sangue. É como se realizasse o bombeamento do mesmo.

O mesmo acontece com o fluxo de sangue venoso dos membros inferiores para o abdômen.

Sem a atuação da PIA permite que todas essas funções aqui mencionadas aconteçam. Quando ela está alterada elas podem ser parcialmente comprometidas. Seu aumento deve ser transitório, se for crônico e permanente veremos distúrbios funcionais, falha nos órgãos e alguns casos podem ser fatais.

Alterações que ocorrem nas Pressões Intracavitárias

A PIA pode ser medida por via intra bexigal quando o paciente encontra-se em posição deitada com os abdominais relaxados. Nessa posição, considera-se um aumento patológico quando está igual ou acima de 12mm de hg.

Quando a pessoa apresenta valores maiores estamos lidando com um caso de hipertensão abdominal. Acima de 20mm de hg existe a Síndrome Compartimental Abdominal. Quando existe a hipertensão ou Síndrome Compartimental o paciente precisa de descompressão.

De acordo com alguns autores, o abdômen funciona da mesma maneira que um sistema hidráulico. Sua pressão interna normal varia de 5 a 7mm de hg.

De acordo com Cernea, mais de 10mm de hg já provoca danos para os órgãos intra e extra-abdominais. O sistema nervoso central também sofrem com um aumento de pressões intracavitárias.

Não existe um consenso sobre os valores normais e patológicos das pressões intracavitárias. Mesmo assim, pequenas variações são o suficiente para criar uma situação patológica no corpo.

Parece que o aumento da PIA tem efeitos no corpo não somente por seus valores, mas também pelo tempo que permanece aumentada. Ou seja, os valores da PIA podem aumentar temporariamente sem causar danos. Mas quando esse aumento deixa de ser transitório, ele compromete a homeostasia e gera um quadro patológico.

Quanto maior for o tempo em que a pressão intra-abdominal permanecer aumentada, maior será seu impacto sobre a saúde. De acordo com pesquisas, mesmo pequenos aumentos da PIA causam danos graves no corpo se permanecerem por muito tempo.

Alguns exemplos são:

  • Atraso da Cicatrização de Feridas
  • Danos e Insuficiência Renal
  • Problemas no Sistema Digestório
  • Dificuldades Respiratórias
  • Problemas Cardiovasculares
  • Danos ao Sistema Nervoso Central
  • Aumento de Endotoxinas Bacterianas no Sangue
  • Transmigração Bacteriana através das Membranas Celulares

As pressões intracavitárias deveriam ser um mecanismo para favorecer a respiração, o controle postural e a circulação venosa. Em alguns casos, elas se tornam uma bomba que pode causar uma série de problemas para o corpo de acordo com o tempo de aumento.

Conclusão

Ao iniciar esse artigo falei a respeito de músculos que controlam a PIA e outras pressões do corpo. Eles agem de maneira sinérgica de acordo com sua pré-programação no córtex cerebral.

Para que contraiam em conjunto durante as tarefas posturais existe o mecanismo de ajuste postural antecipatório que é ativado pelo aumento da PIA.

Apesar de ser essencial para funções vitais, as pressões quando aumentadas provocam situações negativas. Isso pode acontecer por uma série de variáveis, incluindo problemas dos mecanoceptores do aparelho músculo esquelético, sistema vestibular, formação reticular, áreas corticais e subcorticais, entre outras.

Para regularmos a PIA durante nossas aulas, seja de Pilates ou outras modalidades, podemos adotar o uso do método hipopressivo. Ele ajuda a regularmos a pressão intra-abdominal, evitando que nossas atividades prejudiquem o aluno ao invés de ajudá-lo.