Sabemos que as aulas de Pilates fazem parte de um método completo e capaz de ajudar nossos alunos e pacientes de diversas maneiras. O que quero apontar nesse artigo é um aliado do método que poucos conhecem: a ergonomia.

As leis ergonômicas têm muito mais a ver com nossas aulas de Pilates do que imaginamos. É importante conhecê-las para conseguir proporcionar um atendimento diferenciado e os melhores resultados possíveis para o paciente.

Vamos saber mais?

O que é Ergonomia?

O termo ergonomia é de origem grega misturando dois termos:

  • Ergon
  • Nomos

Podemos dizer que ao pé da letra a palavra significaria as normas do trabalho.

Alguns autores consideram que essa ciência existe desde os tempos do homem primitivo. Ele começou a aplicar princípios ergonômicos para criar as primeiras ferramentas que o ajudariam a fazer atividades com menos esforço.

Mas é Leonardo da Vinci (1452 – 1513) que realmente é considerado o precursor da ergonomia e antropometria. Em seus estudos esse grande pintor, arquiteto, engenheiro, cientista e escultor observou a relação do homem com seu entorno.

Para ele os fatores humanos eram uma preocupação central. Seus projetos eram máquinas com funções ajustadas ao homem que deveriam facilitar a execução de diversas atividades.

“O Homem Vitruviano”, de da Vinci, é uma importante referência nos estudos da antropometria e da ergonomia. Inclusive dá para perceber a importância de que projetos levem essas relações em consideração. As ideias de da Vinci só foram se expandir mais tarde, na revolução industrial. A ideia de ergonomia foi fundamental no desenvolvimento de armas e equipamentos bélicos.

A ideia era adaptar os equipamentos para soldados de vários países que possuíssem medidas antropométricas diferentes. Como veremos, os equipamentos do Pilates também tiveram importante influência da ideia de ergonomia.

Como Joseph Pilates aplicou a Ergonomia em seus Equipamentos

Conhecendo os princípios da ergonomia que mencionei acima, podemos perceber que eles são aplicados nos equipamentos de Joseph Pilates.

Seu Reformer Universal – o primeiro equipamento – foi criado para reformar todo o corpo. Joseph o chamou de universal porque todos os movimentos em todos os planos eram possíveis nele. Sua intenção era ajudar quem praticasse os exercícios a trabalhar todo o corpo e melhorar a postura.

De acordo com Joseph Pilates, ao trabalhar com uma carga externa o movimento seria mais eficiente e harmonioso mais tarde. Assim, as molas do Reformer deveriam preparar a pessoa para realizar um movimento correto durante a vida diária.

Todos sabem que Joseph Pilates foi um pioneiro.

O que devemos perceber agora é que também podemos usar os princípios ergonômicos em nossas aulas de Pilates. Indicarei como pesquisas mais recentes mostram a aplicação da ergonomia atualmente. Você perceberá que ela é um complemento importante no Pilates.

Ergonomia Atual – e o que tem a ver com Pilates!

Mesmo com estudos anteriores relacionados à adaptação de equipamentos ao homem, essa ciência só surgiu realmente em 1949. A primeira sociedade de ergonomia do mundo foi oficializada nesta data por um engenheiro inglês. Tal sociedade era uma reunião de fisiologistas, psicólogos e engenheiros interessadas pelo trabalho do homem e sua adaptação.

A partir daí a ergonomia começou a se desenvolver em outros países, tanto industrializados quanto em industrialização.

Existem fatos importantes para a ergonomia antes disso, começando com um livro de Frederick Winslow Taylor do século XIX. O autor descreveu seus experimentos para encontrar peso e tamanho ideais para uma pá de carvão.

Por que algo aparentemente tão insignificante importava para os estudos da ergonomia? Esses experimentos mostram a importância de estudar a área até hoje.

Taylor mostrou que existiam maneiras de triplicar a quantidade de carvão que os trabalhadores eram capazes de carregar fazendo simples mudanças em seu equipamento. Taylor contribuiu muito com a ergonomia como a conhecemos hoje.

Podemos considerar que a ergonomia é uma disciplina que aborda de forma sistêmica aspectos da atividade humana. Podemos aplicar os estudos ergonômicos em diversas áreas como:

  • Lar
  • Transporte
  • Lazer
  • Escola
  • Trabalho
  • Outros

A ergonomia é uma ciência interdisciplinar e usa conhecimentos das áreas de:

  • Anatomia
  • Fisiologia
  • Biomecânica
  • Antropometria
  • Psicologia
  • Engenharia
  • Desenho Industrial
  • Informática
  • Administração
  • Outras

Através desse conhecimento interdisciplinar conseguimos alcançar maior eficiência, conforto e segurança na atividade. Essa é a tríade básica de ergonomia e algo que usaremos em nossas aulas de Pilates.

Tríade Básica da Ergonomia

Considerando a tríade básica percebemos uma das primeiras semelhanças com o que trabalhamos nas aulas de Pilates. Existem três leis corporais que seguimos ao praticar a modalidade, que são:

  • Lei do Conforto: o corpo possui um funcionamento fisiológico e sempre confortável. Quando um corpo está com seu funcionamento fisiológico alterado ele realizará alterações para buscar o equilíbrio, priorizando a ausência de dor.
  • Lei da Economia: o corpo faz de tudo para não sofrer, mesmo que comprometa a própria mobilidade no sistema de adaptações. Pode levar a um desgaste excessivo de energia e até deformações mais tarde.
  • Lei do Equilíbrio: o equilíbrio corporal em todas suas dimensões (parietal, visceral, hemodinâmica e neurológica) é sempre prioridade. As soluções encontradas para manter o equilíbrio devem sempre ser econômicas.

É possível comparar essas três leis biomecânicas que regem todos os aspectos do corpo aos princípios da ergonomia:

  • Equilíbrio = Segurança: um corpo em equilíbrio é seguro para realizar uma atividade, já uma atividade pode ser considerada segura ao manter o equilíbrio corporal.
  • Conforto = Conforto: a presença de dor demonstra um desequilíbrio no corpo ou na atividade. Ela deve ser investigada e tratada para que o corpo volte a trabalhar no equilíbrio e no conforto.
  • Economia = Eficiência: um trabalho eficiente usa toda a energia cinética potencial do corpo para gerar energia cinética. Ele evita sobrecargas em uma região ou área específica.

Conclui-se na prática que, para que um trabalho seja seguro, confortável e eficiente deve levar em consideração o equilíbrio corporal.

Devemos sempre investigar e tratar causas de dor que podem estar relacionadas ao desequilíbrio do paciente. Assim conseguimos promover um movimento eficiente sem sobrecarga em certas regiões corporais.

Para alcançar isso é preciso usar um trabalho global e consciente que existe no método proposto por Joseph Pilates. Ou seja, o Método é uma grande ferramenta para conseguirmos manter as tríades ergonômicas e do corpo.

Divisões da Ergonomia

Existem três domínios principais da ergonomia de acordo com a Associação Internacional de Ergonomia (IEA). Eles são:

  1. Ergonomia Física: estuda relações do corpo humano com cargas físicas. Trabalha com manipulação de materiais, arranjo de estações de trabalho, força e postura estática e outros.
  2. Ergonomia Cognitiva: preocupada com processos mentais como percepção, controle motor, cognição, carga mental do trabalho e o erro humano.
  3. Ergonomia Organizacional: focada na estrutura organizacional, políticas e processos de trabalho. Incluem-se trabalho em turnos, hierarquia da organização, teoria motivação e trabalho em equipe.

As áreas da ergonomia são igualmente importantes e complementares.

Usando cada uma delas é possível aumentar a produtividade da equipe e a qualidade do produto. Ela também ajuda a melhorar a qualidade de vida do trabalhador, ou pelo menos evitar sua deterioração.

Para uma empresa e para a sociedade em geral a prevenção é mais barata e eficiente que afastar o trabalhador por motivos de saúde. O desrespeito às leis ergonômicas causa acidentes, lesões e até o desenvolvimento de patologias. Tenho certeza que profissionais do movimento já perceberam isso.

Como a Ergonomia completa Aulas de Pilates?

Ao trabalhar com Pilates ganhamos em qualidade no planejamento das aulas levando em consideração a individualidade do aluno e as esferas que citei acima. A ergonomia pode influenciar na maneira que designamos os exercícios, posicionamento das molas e cargas para cada um, sequência durante a aula, entre outros.

Podemos utilizar conceitos de todas as três áreas da ergonomia numa das aulas de Pilates.

Aplicando esses princípios conseguimos melhorar a força, consciência corporal, resistência e flexibilidade do corpo. Assim, essa pessoa será capaz de suportar sua carga física de trabalho de acordo com suas necessidades corporais.

Ergonomia de Conscientização

Intervenções ergonômicas podem ser classificadas em três tipos:

  • Ergonomia de Correção
  • Ergonomia de Concepção
  • Ergonomia de Conscientização

Apesar de todos esses tipos serem essenciais para a área quero focar aqui na ergonomia da conscientização.

Esse seria o treinamento educacional em ergonomia. Ele tem o objetivo de capacitar o trabalhador para que consiga melhorar a situação do trabalhador no seu espaço de trabalho. Incluímos nessa área orientações a respeito de equipamentos ou mobiliário, movimentos e correções posturais.

Será que isso te lembra de alguma coisa?

O que fazemos em boa parte das nossas aulas de Pilates está completamente relacionado a ergonomia de conscientização. Através dela o trabalhador aprende a melhorar sua saúde através de um processo de melhoria contínua. Isso quer dizer que seu bem-estar aumenta juntamente à produtividade no trabalho.

O profissional do movimento tem um papel importantíssimo na ergonomia da conscientização. Se nosso aluno for bem orientado conseguirá diminuir o desconforto da atividade laboral e evitar uma lesão. Ele gera benefícios para si mesmo e para a empresa. Seu corpo saudável e móvel refletirá na sua produtividade diretamente.

Conclusão

As três leis que regem a ergonomia são bastante similares às leis de adaptação biomecânica do corpo.

Aplicando-as nas aulas de Pilates conseguimos trabalhar com o aluno de forma segura e também para resolver suas compensações e desequilíbrios. Também devemos lembrar do nosso importante papel na ergonomia de conscientização.

É o profissional do movimento, seja ele fisioterapeuta ou da educação física, que deve ensinar o aluno a se mover e manter uma postura adequada. Assim conseguimos ajudá-lo a tornar-se mais produtivo em suas atividades laborais e também a evitar dores e lesões.

 

Referências

Fonte: COUTO, Hudson de Araújo. Ergonomia aplicada ao trabalho. Belo Horizonte: Ergo, 1995.

Fonte: DUL, J., WEEDMEESTER, B. Ergonomia prática. São Paulo : Edgard Blücher, 1995.

Fonte: GRANDJEAN, Etienne. Manual de ergonomia: adaptando o trabalho ao homem. 2. ed. Porto Alegre : Bookman, 1998.

Fonte: International Ergonomics Association (IEA) – What is Ergonomics? Consultado em 19 de janeiro de 2014

Fonte: www.guiatrabalhista.com.br/legislacao/nr/nr17.htm

Fonte: A Obra Completa de Joseph Pilates. Sua Saúde e Retorno à Vida Através da Contrologia.