Algumas mulheres desenvolvem um certo medo de praticar atividades físicas por causa da incontinência urinária. Esse é um problema extremamente comum em mulheres relativamente jovens, especialmente atletas.

É de se esperar que uma praticante de atividades físicas teria musculaturas do assoalho pélvico fortes, mas esse nem sempre é o caso.

Considerando a alta incidência do problema em nossas pacientes, precisamos entender como funciona a continência urinária. Também devemos encontrar maneiras de trabalhar o assoalho pélvico sem fadigá-lo de maneira a melhorar a continência urinária.

Por que usar Exercícios de Sucção Abdominal?

Existem diversos exercícios e tratamentos propostos para a incontinência urinária, incluindo métodos cirúrgicos. Trago aqui a proposta de usar movimentos de sucção abdominal, tal como usamos no método hipopressivo.

Durante a sucção abdominal a zona abdominal deve ser recolhida para trás e para cima. Isso é bem diferente de contrair para trás e para cima como alguns alunos e até instrutores fazem.

Dou ênfase a essa característica porque na sucção abdominal não existe contração de músculos abdominais. Na verdade, durante o movimento essas musculaturas permanecem passivas.

O método começou a ser usado no ocidente por alguns fisiculturistas que o chamavam de vacum abdominal. Ele ganhou popularidade entre esse meio porque notaram que os músculos abdominais se tornavam mais salientes depois de realizá-los. O motivo está na física.

De acordo com a fórmula que aprendemos desde o colégio até a faculdade, pressão é igual a força dividida pela área (P=F/A).

Ou seja, quando diminuímos a PIA (pressão intra-abdominal) temos um aumento na área do saco visceral. Isso também leva a uma diminuição da área externa e o efeito de diminuição da cintura que as mulheres buscam e a saliência de músculos abdominais que fisiculturistas querem.

Os estudos sobre efeitos das pressões intracavitárias começaram na Europa mais ou menos na década de 1990. Inicialmente, o método era usado para reabilitar disfunções pós-parto do assoalho pélvico e sua eficiência tem sido comprovada desde então.

O que é Sinergia Abdomino-Pélvica?

Em pesquisas, alguns autores perceberam que existe um aumento de atividade dos músculos abdominais durante a contração do assoalho pélvico. Apesar dessa atividade, não era observada contração da musculatura abdominal.

Portanto, percebe-se que existe uma sinergia entre os músculos abdominais e do assoalho pélvico. É isso que chamamos de sinergia abdomino-pélvica. Isso significa que a contração durante músculos abdominais faz com que o músculo pubococcígeo também se contraia.

Assim, o colo vesical se estabiliza e mantém-se na posição retropúbica. Como resultado, as pressões transmitidas da cavidade abdominal ao colo vesical e uretra proximal se igualam e mantém a continência urinária.

Esse mesmo processo acontece sempre que ocorre uma contração abdominal, como no espirro e na tosse.

Para manter a continência urinária e fecal precisamos de uma pressão de fechamento adequada. Isso só acontece através da atividade sinérgica entre músculos abdominais e do assoalho pélvico. A sinergia acontece de maneira coordenada elevando a pressão no abdômen e fornecendo suporte aos órgãos pélvicos.

Alguns estudos mostram que quando existe uma contração voluntária de músculos do assoalho pélvico, acontece uma ativação simultânea de músculos:

  • Transversos Abdominal
  • Oblíquo Interno
  • Oblíquo Externo
  • Reto Abdominal

Como acontece a Sinergia Abdomino-Pélvica

É através dessa ativação que ocorre o aumento da pressão esfincteriana. Quando acontecem aumentos repentinos da pressão intra-abdominal acontece uma atividade reflexa dos músculos do assoalho pélvico. Isso é o que chamamos de reflexo guardião.

A tosse e o espirro devem ser gerados através de um padrão do tronco cerebral. Portanto, a ativação de músculos do assoalho pélvico é uma ativação prévia. Não seria propriamente um reflexo ao aumento da pressão intra-abdominal, mas sim simultânea ou até com poucos segundos de antecedência.

Também é possível que exista uma resposta reflexa adicional dos músculos do assoalho pélvico por causa da distensão de fusos musculares na musculatura abdominal.

Alguns autores estimam que a pressão para fechamento da uretra e ânus aumenta antes do aumento da PIA. Assim, músculos abdominais, assoalho pélvico e diafragma seriam ativados de maneira pré-programada por atividade do sistema nervoso central.

Ou seja, o mecanismo de ativação de músculos do períneo para manter a continência urinária não seria uma resposta ao aumento da PIA. Na verdade, seriam mecanismos nervosos centrais que podem ser regulados pela vontade em algumas situações.

Músculos do Assoalho Pélvico para manter a Continência Urinária

Mulheres continentes têm a contração automática dos músculos do assoalho pélvico precedente ao aumento da PIA.

Como a contração é prévia, acontece antes do aumento da PIA, percebemos que a resposta é pré-programada. Essa não pode ser uma resposta reflexa resultante de um aumento da pressão intra-abdominal.

Existem artigos que mostram o comportamento dos músculos do assoalho pélvico em esforços como a tosse. Resultados mostram que mulheres incontinentes têm um padrão de recrutamento sinérgico alterado em relação à ativação do assoalho pélvico.

Os músculos do períneo precisam ser ativados corretamente com o objetivo de manter a continência. Isso precisa acontecer de acordo com o aumento da contração dos músculos abdominais que geram aumento da PIA.

Musculaturas do períneo estão entre as principais responsáveis por manter a continência urinária. Isso acontece através da melhora na pressão de fechamento da uretra e por manter a posição do colo vesical.

Mesmo sem movimentos da coluna lombar, pelve ou caixa torácica, é possível observar recrutamento dos músculos ao contrair o assoalho pélvico.

Conclusão

No Brasil, um estudo epidemiológico encontrou prevalência de 35% de perda urinária em esforço em mulheres de 45 a mais de 60 anos. A queixa em mulheres atletas é maior, entre 22% e 47%, variando de acordo com a atividade.

As causas ainda não são completamente conhecidas e também são pouco discutidas. A incontinência urinária é um problema comum em mulheres entre 25 e 49 anos de idade. Atividades físicas de alto impacto são fatores de risco para seu desenvolvimento.

Também existem outros fatores de risco, como:

  • Constipação
  • Tosse Crônica de Fumantes
  • Doença Pulmonar
  • Obesidade
  • Ocupações que exigem Levantamento Excessivo de Peso

De maneira geral, profissionais atribuem a incontinência urinária a processos que levam à fraqueza dos músculos do assoalho pélvico. Porém, considerando o que observamos nesse artigo, talvez esse não seja o caso.

É possível que a verdadeira causa seja falta de treinamento específico para musculaturas do assoalho pélvico para condicionar a atividade reflexa desses músculos. Treinamento que pode ser obtido através do uso de exercícios de sucção abdominal como a hipopressiva.

 

Bibliografia
  • CONTRIBUIÇÃO À ANATOMIA – ESTUDO MORFOLÓGICO DO ASSOALHO PÉLVICO
  • EM MULHERES ASSINTOMÁTICAS: USO DA IMAGEM POR RMN.
  • CONTRIBUCIÓN AL ESTUDIO ANATOMO-MORFOLÓGICO DEL SUELO PÉLVICO EN LA MUJER ASINTOMÁTICA: UTILIZACIÓN DE LA IMAGEN POR RMN.
  • Marcel Caufriez1, 2, 3, 4, Juan Carlos Fernández Domínguez5, Benjamin Bouchant4, Marc Lemort6 y Thyl Snoeck1, 4, 7.
  • Université Libre de Bruxelles1. Bruxelles. Belgique. Universidad Castilla-la-Mancha2. Toledo. España. Universitat Gimbernat3. Barcelona. España. Laboratoire de Physiologie environnementale et occupationnelle4. Bruxelles. Belgique. Universitat Illes Balears5. Palma de Mallorca. España. Institut Jules Bordet6. Bruxelles. Belgique. Vrije Universiteit Brussel7. Bruxelles. Belgique.