Quando estudamos as estruturas da cintura pélvica, encontramos uma articulação extremamente estável: a sacroilíaca. Ela é formada pelas superfícies do ilíaco e do sacro e possui diversos ligamentos mantendo sua estabilidade.

Apesar de ser tão estável, ela não é imóvel como muita gente parece imaginar. Na verdade, existe uma pequena mobilidade ilíaca.

O problema é que, mesmo pequena, essa mobilidade pode causar diversos problemas para o corpo.

Funções da Articulação Sacroilíaca

Considerando a localização da sacroilíaca conseguimos imaginar suas funções fundamentais para o movimento. A cintura pélvica é um complexo no qual se anulam duas forças importantes: a força peso normal e força solo.

Os dois ossos ilíacos e o sacro estão entre as estruturas responsáveis por anular e transferir essas forças. A partir dessa articulação as forças chegam na parte superior do corpo e na sínfise púbica.

O púbis se junta ao ísquio na parte medial do forame obturado. É nessa região que ele tem a inserção de diversos músculos mediais da coxa. Na face póstero inferior do ísquio temos fortes inserções ligamentares e musculares.

Também existe nessa região o acetábulo. Essa é a parte óssea côncava que é formada pela fusão dos ossos:

O acetábulo é aprofundado pelo lábio do acetábulo, um anel de fibrocartilagem com importante papel de estabilização.

Mobilidade Ilíaca

Mencionei na abertura desse artigo que existe sim uma mobilidade ilíaca responsável por diversos desequilíbrios no corpo. Ela é discreta, quase imperceptível, mas tem grande potencial para gerar desequilíbrios musculares, problemas posturais e até dor.

É essa mobilidade que condiciona a estática e dinâmica dos MMII (membros inferiores).

Uma parte de seu grande potencial para desequilíbrios vem das asas ilíacas. Essas estruturas possuem braços de alavanca que existem na região e atuam nas cadeias musculares do tronco e do membro inferior. As asas ilíacas possuem algumas mobilidades, que são:

  • Anterioridade e Posterioridade
  • Abertura e Fechamento

Quando estivermos avaliando um aluno lesionado, precisamos prestar atenção extrema aos ilíacos. Sua mobilidade determina o posicionamento da lesão, como explico em detalhes no meu curso de avaliação postural.

Analisando a mobilidade ilíaca conseguimos entender o posicionamento disfuncional da pelve também. O sacro também sempre acompanhará o ilíaco em disfunção.

Anterioridade do Ilíaco

A anterioridade acontece quando existe uma rotação anterior do ilíaco sobre a cabeça do fêmur. Quando a anterioridade do ilíaco acontece dos dois lados também observamos uma anteversão da pelve e aumento da lordose lombar.

Esse desequilíbrio tensiona o quadrado lombar, que leva a parte posterior da asa ilíaca para o alto. Também teremos um reto femoral tensionado, trazendo a parte anterior do ilíaco para baixo.

Observe os seguintes sinais durante sua avaliação:

  • Espinha Ilíaca Antero-Superior (EIAS) Baixa
  • Crista Ilíaca mais Baixa
  • Espinha Ilíaca Postero-Superior (EIPS) Alta
  • Descida do Púbis (Anterior)
  • Subida do Ísquio (Posterior)
  • Sacro se horizontaliza e fica mais alto

A anterioridade do ilíaco também gera tensão no quadríceps femoral, o que pode levar a alterações patelo-femorais e um recurvato do joelho. Esse processo de alteração fisiopatológica causa dores nos joelhos do aluno.

O membro inferior também fica em alongamento compensatório, fazendo com que a perna da lesão pareça aumentada.

Posterioridade do Ilíaco

Acontece quando existe uma rotação posterior do ilíaco sobre a cabeça femoral.

Se a posterioridade estiver presente nos dois ilíacos acontece a retroversão da pelve e uma consequente retificação da coluna lombar. O reto abdominal fica tensionado, o que leva a parte anterior da asa ilíaca para cima.

Os isquiotibiais em tensão tracionam a parte posterior da asa ilíaca para baixo. Os sinais importantes para a avaliação são:

  • Espinha Ilíaca Antero Superior Alta
  • Crista Ilíaca mais Alta
  • Espinha Ilíaca Postero Superior baixa
  • Subida do Púbis
  • Descida do Ísquio
  • Sacro verticaliza-se e fica mais baixo

Como o isquiotibial fica tensionado é possível existe um flexo do joelho e dor na região desse músculo. A tensão que acontece com a posterioridade do ilíaco aumenta em até 30 vezes a compressão nos discos intervertebrais.

Ela também gera um encurtamento compensatório do membro inferior e deixa a perna da lesão encurtada.

Abertura do Ilíaco

Na abertura do ilíaco encontramos glúteos tensionados, levando a parte superior da asa ilíaca para fora. O períneo também fica em tensão e traciona a parte inferior da asa ilíaca para dentro. Como resultado, os ísquios se aproximam.

Os músculos envolvidos são:

Encontraremos, portanto 3 (três) pontos anatômicos altos no exame clínico

  • Espinha Ilíaca Antero Superior Alta
  • Crista Ilíaca mais Alta
  • Espinha Ilíaca Postero Superior Alta
  • Aumento da Distância entre o Umbigo e a Espinha Ilíaca Antero Superior
  • Sacro se inclinara numa Verticalização

Quando existe a abertura do ilíaco o membro inferior afetado fica em varo do joelho com um aumento de projeção do membro (alongamento compensatório).

Fechamento do Ilíaco

O transverso do abdômen fica tensionado durante o fechamento do ilíaco e é responsável por tracionar sua asa superior em direção à linha média. Os adutores do quadril tracionam a asa ilíaca inferior inferolateralmente.

Encontraremos portanto 3 (três) pontos anatômicos baixos no exame clínico. Os principais sinais de fechamento ilíaco são:

  • Espinha Ilíaca Antero Superior Baixa
  • Crista Ilíaca Baixa
  • Espinha Ilíaca Postero Superior Baixa
  • Diminuição da Distância entre o Umbigo e a Espinha Ilíaca Antero Superior
  • Sacro se inclinara numa horizontalização

O fechamento do ilíaco é responsável por desenvolver um valgo de joelho no membro afetado. Também existe um encurtamento compensatório da perna.

Como o Ilíaco leva a Alterações da Pelve

As adaptações da pelve, como uma metade superior em abertura ilíaca e a metade inferior em fechamento ilíaco, acontece porque existe plasticidade nos ossos.

As cadeias musculares incentivam as alterações em relação ao plano visceral, que sempre são as prioridade do corpo.

É possível relaxarmos corretamente as cadeias musculares e ainda sim continuar com alterações de alongamento e encurtamento compensatório. Nesse caso teremos compensações no corpo a nível visceral.

Quando existem tensões viscerais teremos uma força centrípeta no corpo. Já as congestões viscerais geram uma força centrífuga. Confira abaixo as alterações viscerais que podem estar atingindo seu aluno de acordo com a região do desequilíbrio:

  • Cavidade abdominal/pelve maior compreende o mesocólon transverso, o fígado, os rins, o pâncreas, a vesícula, estômago e o baço.
  • Cavidade pelviana/pelve menor compreende o começo e o final dos intestinos, a bexiga,o útero e ovário para as mulheres e a próstata para os homens.

Portanto ao pensarmos nessas questões viscerais podemos dizer que:

  1. Quando a cavidade abdominal possui tensões (centrípetas) instala-se o fechamento ilíaco (estreitamento superior da pelve – ilíaco/pelve maior) =  FECHAMENTO ILÍACO
  2. Quando a cavidade pelviana possui tensões centrípetas, instala-se o fechamento pelviano
  3. Quando a cavidade abdominal possui congestão (centrifuga), entala-se a abertura ilíaca (pontos fixos trocanterianos) = ABERTURA ILÍACO
  4. Quando a cavidade pelviana possui congestão, instala-se a abertura pelviana (pontos fixos nos fêmur).

Conclusão

Através dessa análise da mobilidade ilíaca percebemos que existem diversas forças atuando na pelve. Temos as forças musculares unidas a essas outras forças causando desequilíbrios na mecânica corporal.

Sem resolvê-las corretamente o quadro de dor ou patologia do aluno dificilmente desaparecerá.

Portanto, dou ênfase em uma boa avaliação da posição e mobilidade ilíaca no corpo do aluno. Também precisamos considerar questões emocionais e viscerais que podem estar por trás da dor.

Só depois de analisar o corpo na globalidade estaremos prontos para solucionar as alterações mecânicas do paciente.

 

Referências
  • Busquet L. As cadeias musculares- membros inferiores. Vol 4. Ed. 2. Belo Horizonte; 2001
  • Cintas, Janaina. Cadeias Musculares do Tronco: Evolução biomecânica das principais cadeias. Sarvier. São Paulo, 2016.
  • Zambenedetti, H. W.; Oliveira, G.A.; Tamelini, B.H.M.; Junior, F.S.M. Escanometria dos Membros Inferiores: revisitando Dr. Juan Farill. Colégio Brasileiro de Radiologia e diagnostico por Imagem. Vol 40 n 2. Mar- Abr, 2007.