Assim como tudo ligado ao sistema fascial, a Síndrome Compartimental Crônica ainda é pouco compreendida. Ela é um problema que afeta principalmente atletas, mas que pode surgir em praticamente qualquer um de nossos alunos.

Como profissionais do movimento devemos aprender como trabalhar com a síndrome e melhorar os padrões de movimento dos alunos.

Aprenda nesse artigo como ela surge e qual é o principal tratamento da Síndrome Compartimental.

Síndrome Compartimental Crônica (de esforço)

Existem casos nos quais a Síndrome Compartimental é causada por exercícios. Geralmente, atletas que praticam atividades com movimentos repetitivos estão em um risco maior.

Apesar de poder atingir pessoas de qualquer faixa etária, a Síndrome Compartimental Crônica costuma atingir pessoas com menos de 40 anos. Os esportes com maior risco de desenvolvê-la são:

  • Natação
  • Tênis
  • Corrida
  • Outros com Movimentos Repetitivos

Qualquer esporte que seja muito intenso ou frequente aumenta o risco de desenvolver a síndrome. Até o Crossfit pode levar ao aparecimento do problema.

Ainda não é possível determinar exatamente o motivo dessas atividades causarem a Síndrome do Compartimento. É possível que as causas envolvam:

  • Mecânica individual do corpo que prejudica a prática esportiva;
  • Sistema fascial mais espesso que o normal;
  • Hipertrofia muscular;
  • Hipertensão arterial.

Sabemos que a atividade física gera quebra de fibras musculares para remodelagem muscular. Esse processo é semelhante a um processo inflamatório, liberando um excesso de líquido dentro dos compartimentos musculares.

Alguns músculos são acometidos com mais frequência que outros, como bíceps, quadríceps e tríceps sural. Esse líquido característico da Síndrome Compartimental pode acontecer devido a uma hemorragia local e/ou excesso de edema.

Com a presença do líquido nos músculos a área do compartimento anatômico fica diminuída. Considerando a pouca extensibilidade da fáscia que envolve o sistema muscular, é impossível que ela se adapte para comportar a nova área. Assim, a pressão local aumenta e surge a Síndrome do Compartimento.

Imaginemos isso na prática em um aluno com uma tensão na cadeia muscular de extensão dos membros inferiores. Ele estará com um quadríceps tenso e mais toxemiado. Ao exercitar demais o quadríceps, ele pode quebrar muitas fibras musculares no local. Isso aconteceria numa aula só de agachamento, por exemplo.

Nesse momento o aluno estaria correndo o risco de desenvolver uma Síndrome do Compartimento.

Como a Biomecânica explica a Síndrome Compartimental Crônica

Ao observarmos essa patologia através da biomecânica percebemos que ela pode ser consequência de desequilíbrios entre:

  • Massa
  • Volume
  • Pressão

Ou seja, um aumento de massa dentro de um volume fixo, elevando assim, a pressão interna.

Sintomas da Síndrome Compartimental

A Síndrome Compartimental Crônica é mais comum em pessoas que praticam esportes de impacto repetido.

Geralmente ela começa a se manifestar na forma de dor após a prática do exercício. O desconforto cessa assim que o indivíduo está em repouso e as pressões são normalizadas.

Quando o indivíduo voltar a praticar a atividade física terá a pressão aumentada, o que diminui o fluxo sanguíneo para os nervos e músculos. Como resultado, ele sentirá sintomas como:

  • Dor
  • Queimação
  • Ardência
  • Parestesia do Compartimento Afetado
  • Sensação de Aperto
  • Parestesia
  • Fraqueza
  • Edema
  • Herniação Muscular

Como Funciona a Síndrome Compartimental Crônica

Ao sofrer um aumento da pressão em um dos compartimentos musculares, teremos perda de função vascular e neural. Assim, a região gera isquemia e cria um ciclo de retroalimentação que aumenta o acúmulo de líquidos e restringe o fluxo sanguíneo.

A função mecânica da fáscia pode piorar ainda mais essa situação. Ela consegue aumentar sua espessura e rigidez para responder ao aumento de pressão causado pela síndrome do compartimento.

O aumento da pressão compartimental gera uma diminuição dos vasos sanguíneos. O colapso venoso aumenta a congestão capilar e ainda reduz a perfusão tecidual. Ou seja, desenvolve mais toxemia local.

Para entender por que os sintomas costumam aparecer durante ou logo após a atividade física precisamos analisar as pressões. Em repouso, elas variam de 0 a 20mmHg de acordo com Dayton e Bouche. Ao realizar esforço físico elas podem ultrapassar 70mmHg.

Em pessoas saudáveis essas pressões se normalizam assim que a pessoa para de fazer o esforço. Porém quem possui a Síndrome Compartimental não consegue essa normalização, a pressão pode passar o 100 mmHg. Eles demoram a retornar a níveis de pressão normal fazendo com que seus tecidos sofram com todos os efeitos que já mencionei aqui.

Tratamento da Síndrome Compartimental Crônica

O principal tratamento da Síndrome Compartimental é a cirurgia, e também costuma se mostrar mais eficaz. O processo cirúrgico consiste em abrir a fáscia que encerra o compartimento muscular. Tal processo é chamado de fasciotomia e ajuda a aliviar a pressão que atrapalha os músculos.

Alguns casos são mais graves, neles a inervação do membro afetado também é comprimida o que gera perda de movimento. Em casos assim nem sempre a fasciotomia é indicada.

Quando o tratamento para o paciente demora a acontecer ela se torna uma emergência médica. O aumento de pressão no compartimento muscular lesiona os músculos e nervos afetados de maneira irreversível. Alguns pacientes precisam recorrer até a amputação por não buscar tratamento cedo.

Inicialmente o paciente sente um desconforto logo que começa a atividade física e que piora conforme ele treina.

Nesse momento a maioria dos pacientes ignora o desconforto e continua treinando ou diminui a intensidade do treino até que a dor diminua. Porém, o desconforto continua piorando até que se torna mais persistente. É possível que dura até 2 ou 3 dias.

Pesquisas indicam que os gestos esportivos são especialmente importantes para desenvolver a síndrome. Se a pessoa corre ou se exercita de maneira errada acontece sobrecarga em grupos musculares. Isso aumenta consideravelmente a chance de desenvolver a síndrome do compartimento.

Também é preciso tomar cuidado com o overtraining. Um aumento súbito do volume e intensidade do treino pode facilmente lesionar o atleta ou levar ao desenvolvimento da patologia.

Além do tratamento da Síndrome Compartimental com cirurgia, é possível optar pelo tratamento conservador. Nessa opção devemos realizar o alongamento e fortalecimento específico de músculos inibidos. O aluno deve dar uma pausa nos exercícios de impacto.

O principal ponto do tratamento da Síndrome Compartimental para os profissionais do movimento é corrigir os gestos esportivos. Precisaremos avaliar o aluno e determinar quais compensações estão piorando o quadro. Lembrando que o corpo realizará ainda mais compensações para evitar a dor.

Conclusão

Nunca devemos deixar de nos movimentar e se exercitar. Esse é o melhor remédio para prevenir um número imenso de dores e patologias, mas depende bastante da maneira que o fazemos.

Quando alguém realiza atividades físicas sem as devidas orientações pode desenvolver desequilíbrios e compensações. Esses erros de movimento levarão a problemas no corpo.

Lembre-se que a atividade física deve agregar à qualidade de vida e não aumentar seus riscos.

Bibliografia
  • PREVALÊNCIA DE LESÕES E TIPO DE TREINAMENTO DE ATLETAS AMADORES DE CORRIDA DE RUA
  • Diogo Gonçalves de Oliveira, Giannina do Espírito-Santo, Ivanildo Silva Souza, Monique Floret
  • Biomecanica Funcional
  • William Whiting
  • Ronald Zernicke