Câncer de Mama e Método Pilates: sexualidade, autoestima e qualidade de vida

Câncer de Mama e Método Pilates: sexualidade, autoestima e qualidade de vida

Com o crescimento do Método Pilates, sua utilização foi além do objetivo de condicionamento físico, há estudos e evidências científicas sobre a sua aplicação e seus benefícios com mulheres que tiveram Câncer de Mama.

O câncer de mama é um dos tipos de câncer que representa maior índice de mortalidade na população feminina mundial e brasileira.

Diante do contexto que engloba o diagnóstico da doença, fases do tratamento e a sua cura, a mastectomia, que consiste na retirada total e/ou parcial do tecido mamário, traz para a mulher, grande incômodo físico e emocional, com experiências de depressão, ansiedade, distúrbios sexuais e limitações para realizar suas atividades diárias.

Portanto, todos estes episódios afetam a sexualidade, a autoestima e a qualidade de vida das mulheres submetidas ao tratamento do câncer.

Continue lendo esta matéria e veja os benefícios e influências do Método Pilates para o tratamento e reabilitação de mulheres com câncer de mama. Confira!

 O Câncer de Mama

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As mamas representam na cultura aspectos fisiológicos e psicológicos femininos. São glândulas formadas por estruturas anatômicas denominadas de lobos, lóbulos e ductos mamários com a principal função de produção e ejeção de leite.

Possuem, inclusive, uma resposta em relação a feminilidade e sexualidade feminina, representam sua condição como mulher.

Uma das diversas doenças que afetam as mamas e que representa a principal causa de mortalidade feminina no Brasil são as neoplasias malignas, ou mais conhecidas como, câncer de mama.

Segundo o Ministério da Saúde, os principais fatores de risco para o desenvolvimento do câncer de mama são: sexo feminino, menarca precoce (antes dos 11 anos), menopausa tardia (após os 55 anos), nuliparidade, gestação após os 30 anos, fatores hereditários, dieta rica em gordura e pobre em fibras, obesidade e exposição exagerada a raios ionizantes.

O sintoma mais comum de câncer de mama é o aparecimento de nódulos que na maioria dos casos são indolores, duros e irregulares. Estes possuem mais chances de serem malignos, porém há tumores que são macios e arredondados; portanto, um exame específico e detalhado torna-se essencial para o fechamento do diagnóstico clínico.

Quanto maior o tumor, menores são as chances de cura, logo, a detecção precoce é uma estratégia fundamental, com medidas de prevenção.

As formas mais eficazes para detecção precoce do câncer de mama são o exame clínico das mamas e a mamografia que, complementados pela ultrassonografia, geralmente fornecem dados suficientes para o estadiamento clínico do tumor e as opções entre os tratamentos.

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o câncer de mama é o tipo mais incidente, representando 25% do total de casos de câncer no mundo em 2012, com aproximadamente 1,7 milhão de casos novos naquele ano.

É a quinta causa de morte por câncer em geral (522.000 óbitos) e a causa mais frequente de morte por câncer em mulheres.

No Brasil, excluídos os tumores de pele não melanoma, o câncer de mama também é o mais incidente em mulheres de todas as regiões, e para o ano de 2017 foram estimados 57.960 casos novos, que representam uma taxa de incidência de 56,2 casos por 100.000 mulheres.

O tratamento inclui abordagem múltipla, que envolve cirurgia, quimioterapia, radioterapia e hormonioterapia, sendo que o método mais utilizado é a mastectomia- procedimento cirúrgico que consiste na retirada da mama total ou parcial, com ou sem a retirada dos gânglios linfáticos.

As diversas técnicas de cirurgia estão relacionadas com o tipo, localização e diâmetro do tumor que podem ser: conservadora, radical de Halted, radical modificada, radical modificada de Patey, radical modificada de Madden, Mastectomia total, ultraradical e subcutânea, portanto, a escolha da cirurgia dependerá de cada paciente.

Quanto mais precoce o diagnóstico as chances de sobrevivência são de 88% e apesar do aumento das taxas de sobrevida, o tratamento resulta em diversos efeitos como a diminuição da capacidade funcional, fadiga, disfunção do sistema imunológico, diminuição da massa óssea, força muscular e distúrbios em relação aos aspectos emocionais que inclui, depressão, diminuição do desejo sexual, vergonha, ansiedade e imagem corporal alterada.

Estudos demonstram que pacientes mastectomizadas, que realizam cirurgia conservadora ou reconstrução mamária criam alterações da imagem corporal e evitam se olhar no espelho para não se sentirem constrangidas.  

Como o Câncer de Mama afeta na sexualidade e autoestima feminina

Mulheres submetidas à cirurgia de mama tem seu estilo de vida modificado, não apenas mudanças musculoesqueléticas, mas também emocionais, na maioria das relações e interações familiares e sociais que participa.

Aspectos como distorções da autoimagem, autoestima e sexualidade ocorrem nestas mulheres que após uma mastectomia sentem que junto com aquela mama, houve a também a retirada da sua feminilidade e uma parte sua como mulher.

Além da fisioterapia, a abordagem multidisciplinar é de extrema importância no tratamento destas disfunções.

A abordagem fisioterapêutica nas disfunções sexuais e autoimagem, requer conhecimentos anatômicos, fisiológicos, psicológicos e específicos sobre a sexualidade.

Estudos mostram que, alterações emocionais importantes, permanecem por vários anos, naquelas pacientes sobreviventes após o tratamento da doença e um dos problemas que está relacionada aos aspectos emocionais é a resposta sexual.

As alterações sexuais podem ocorrer em qualquer fase da doença e incluem: falta de desejo, dispareunia, vaginismo, anorgasmia.

O ato sexual feminino, depende de estímulos físicos e psíquicos e um dos mecanismos que estão relacionados ao desejo, excitação e orgasmo é a eficiência da musculatura do assoalho pélvico.

A vagina possui poucas fibras nervosas sensoriais e os MAP conferem sensibilidade proprioceptiva que contribui para o prazer sexual e desempenham importante papel no momento da lubrificação e ereção femininas através de estímulos sensoriais e psíquicos, além de possuírem papel fundamental no orgasmo feminino, pois são estes músculos que se contraem ritmicamente auxiliando a contração uterina e favorecendo a motilidade dos espermatozoides até o óvulo.

As disfunções sexuais podem estar relacionadas as disfunções da musculatura do assoalho pélvico (MAP) que devido a alterações nos tônus podem provocar condições que afetem o ato sexual.

De acordo com queixa, a fisioterapia entrará com vários recursos com o objetivo de normalização da mobilidade da pelve e adequação dos tônus do MAP através de vários recursos e um dos recursos que podem ser utilizados para o tratamento é o Método Pilates.

Benefícios do Método Pilates para pacientes com Câncer de Mama

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Com a prática orientada dos exercícios há um aumento da contratilidade, resistência e flexibilidade dos músculos do assoalho pélvico, principalmente exercícios que estimulam o trabalho da região pélvica e consequentemente promove o aumento da lubrificação da região genital, desejo sexual e diminuição da dor.

A prática constante do Método libera vários hormônios e neurotransmissores que são substâncias químicas específicas fabricadas pelo nosso sistema endócrino; dentre elas a endorfina que está associada ao relaxamento, alívio e contentamento.

Quando este hormônio é liberado, aumenta a disposição física e mental e seu estímulo crônico com exercícios frequentes como o Pilates ajuda na mudança da percepção da imagem corporal e qualidade de vida.

Há uma melhora da consciência corporal, da concentração e respiração contribuindo assim para a qualidade das atividades diárias.

Exercícios de Pilates para paciente com Câncer de Mama

1. Bent knee follout

Posição Inicial: Decúbito dorsal com membros superiores estendidos ao lado do corpo e membros inferiores com joelhos em flexão e pés apoiados no chão.

 Execução: Inspirar para preparar e expirar realizando uma abdução da coxa e extensão do joelho (solo). Inspirar para preparar e expirar retornando à posição inicial.

 2. Pelvic clock

Posição Inicial: Decúbito dorsal com membros superiores estendidos ao lado do corpo e membros inferiores com joelhos em flexão e pés apoiados no chão.

Execução: Realizar anteversão, retroversão e lateralização do quadril movimentando no sentido do ponteiro de um relógio (cicatriz umbilical – l12h, espinha ilíaca esquerda – 3h, púbis – 6h; espinha ilíaca direita – 9h) .

3. Dead bugs

Posição Inicial: Decúbito dorsal com os membros inferiores em 90º com joelho em flexão.

Execução: Inspirar para preparar e expirar descendo um membro em direção ao solo e retornar (não estender o joelho).

 4. Aductor squeeze

Posição Inicial: Decúbito dorsal com joelhos em flexão e pés apoiados no solo.

Execução: Colocar o magic circle entre as coxas, inspirar para preparar e expirar apertando o círculo.

5. Abductor squeeze

Posição Inicial: Decúbito dorsal com joelhos em flexão e pés apoiados no solo.

Execução: Colocar o círculo por fora da coxa (na linha da lateral dos joelhos) inspirar para preparar e expirar realizando o movimento de afastar os joelhos.

6. Shoulder bridge

Posição Inicial: Um joelho em flexão com pé apoiado no solo e o outro membro inferior em extensão para o teto.

 Execução: Inspirar para preparar e expirar levantando quadril e coluna do solo. Inspirar e expirar voltando a posição inicial.

 7. Leg circle

Posição Inicial: Um joelho em flexão com pé apoiado no solo e o outro membro inferior em extensão para o teto.

Execução: Inspirar para preparar e expirar realizando um círculo com o membro inferior no sentido horário e anti-horário.

8. Roll up

Posição Inicial: Decúbito dorsal com joelhos em extensão e membros superiores estendidos com os dedos apontando para o teto.

Execução: Inspire para preparar e expire levando membros superiores para frente e realizando a flexão da coluna. Inspire para preparar e expire retornando a posição inicial articulando a coluna.

9. Side kick

Posição Inicial: Decúbito lateral com membro inferior embaixo em flexão e o membro de cima em extensão (pé em dorsiflexão).

 Execução: Realizar a abdução de quadril e a flexão de quadril (com joelho estendido).

10. Legwork

Posição Inicial: Em pé

Execução: Colocar o círculo entre os tornozelos e sempre quando expirar apertar o círculo. Realizar com o magig circle entre as coxas e com o mesmo comando.

Conclusão

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Conforme foi visto, mulheres que foram submetidas à cirurgia de mastectomia tem seu estilo de vida modificado tanto por mudanças musculoesqueléticas, quanto por mudanças emocionais.

E fisioterapeutas, quando possui conhecimentos anatômicos, fisiológicos, psicológicos e específicos sobre a sexualidade feminina, pode exercer grande colaboração para a restauração da autoimagem e autoestima.

Isso sem contar que, os exercícios do Método Pilates podem ser aliados para a melhora da qualidade das atividades diárias exercidas por estas mulheres através da consciência corporal, da concentração e respiração.

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